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terça-feira, 12 de julho de 2011

O Silêncio


No silêncio do deserto…
a Palavra é mais forte

O ser humano é essencialmente comunicação. Em todos os tempos, a comunicação foi ponte entre os povos no saber, na intimidade, nos sentimentos, na vida...  O mundo em que  vivemos move-se nas palavras, agita-se pelos meios de comunicação
e aponta um futuro aberto à escala planetária.


A comunicação acontece alternadamente entre a palavra e o silêncio. As palavras geram o silêncio e no silêncio germinam atitudes.

O silêncio tem em si um potencial de palavra, gerando-a, conduzindo-a à sua meta, o que a torna possível e lhe dá sentido. Isto faz com que haja palavras de valor e o valor das palavras. Muitas vezes as palavras só tiveram valor, porque se calaram e deram lugar ao silêncio.          

O deserto. Lugar de escuta, de confronto… de renascimento. Aí, pasmados diante do silêncio, deixamos que a Palavra fale mais alto e nos convide à contemplação.

Silêncio… não para estar simplesmente calado, mas para escutar Deus que fala.

O olhar e a escuta do homem
é que fazem ecoar o silêncio da criação

Eugénio de Andrade escreveu:
O silêncio é
de todos os rumores
o mais próximo da nascente.

Também na secura do deserto se pode matar a sede de absoluto. Não temos tempo tão fecundo como o tempo de silêncio. Trazer o silêncio para a agenda da nossa vida, particularmente neste tempo quaresmal, é urgente.

Só assim, poderemos:

● ouvir outros sons muito importantes, que nos escapam no ruído barulhento do nosso dia a dia;       
● descobrir um pouco mais de humanidade em nós mesmos;
● aprender que, fazer silêncio, nem sempre é sinal de que algo está mal;
● gerar uma “cultura do silêncio” em alternativa à “cultura do ruído” das nossas cidades e aldeias, famílias e vidas;
● escutar a voz dos sem voz, dos marginalizados, dos gritos calados à força pelo medo dos que não sabem ouvir a voz do silêncio;   
● acreditar que a juventude, que tanto se manifesta nesta fase da vida por palavras e mais palavras, será capaz de realizar projectos válidos com o ponto de encontro entre a sua vontade e a vontade de Deus; 
● perceber que a vida é um mero ruído entre dois insondáveis silêncios: o silêncio antes de nascer e o silêncio depois da morte, como diz Isabel Allende;     
● concluir que falar é algo de sábio, mas fazer silêncio é algo de divino;
● acolher verdadeiramente o silêncio (dádiva divina) como verdadeira oficina de humanização para construir um mundo mais fraterno;
● considerar o silêncio como algo que podemos oferecer;
● sentir o silêncio como espaço e lugar onde Deus habita e se comunica.
● silenciar para ouvir, contemplar, sentir, partilhar, viver…, pensar em silêncio e ver o silêncio como um espaço de ternura e não tanto um meio de eficácia e competitividade;
● calar-nos para que, quando o Pão e o Vinho da Eucaristia forem elevados sobre o altar, nos sintamos sem palavras ao ser convidados para o banquete da comunhão apocalíptica;
● saber que há tempo para falar e tempo para calar…

Nos caminhos do silêncio
escutar a Palavra e partilhar a vida

Sabendo que o silêncio tem algo de mais profundo para nos oferecer, caminhemos com ele de mãos dadas pela estrada da vida, e no silêncio do deserto escutemos a Palavra que fala mais alto, neste tempo que é de estar calado, que é de silêncio criador.

«Tudo tem o seu tempo.
Para tudo há um momento
e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu:

tempo para nascer
e tempo para morrer,
tempo para plantar
e tempo para arrancar
o que se plantou,
tempo para matar
e tempo para curar,
tempo para destruir
e tempo para edificar,
tempo para chorar
e tempo para rir,
tempo para se lamentar
e tempo para dançar,
tempo para atirar pedras
e tempo para as ajuntar,
tempo para abraçar
e tempo para evitar o abraço,
tempo para procurar
e tempo para perder,
tempo para guardar
e tempo para atirar fora,
tempo para rasgar
e tempo para coser,
tempo para calar
e tempo para falar,
tempo para amar
e tempo para odiar,
tempo para guerra
e tempo para paz.»

(Ecl 3,1-8)

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