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sexta-feira, 8 de julho de 2011

O mal é privação do bem em Santo Agostinho


Princípio fundamental: todo ser é bom. O mal é uma privação

Toda natureza (natura) que pode tornar-se menos boa, todavia, é boa. De fato, ou bem a corrupção não lhe é nociva, e nesse caso ela é incorruptível; ou bem, a corrupção atinge-a e então ela é corruptível. Vem a perder a sua perfeição e torna-se menos boa. Caso a corrupção a privar totalmente de todo bem, o que dela restará não poderá mais se corromper, não tendo mais bem algum cuja corrupção a possa atingir e, assim, prejudicá-la. Por outro lado, aquilo que a corrupção não pode prejudicar também não pode se corromper, e assim esse ser será incorruptível. Pois eis algo totalmente absurdo: uma natureza tornar-se incorruptível por sua própria corrupção.
Por isso se diz, com absoluta verdade, que toda natureza enquanto tal é boa. Mas se ela for incorruptível será melhor do que a corruptível. E se ela for corruptível – já que a corrupção não pode atingi-la senão tornando-a menos boa, ela é indubitavelmente boa. Ora, toda natureza ou é corruptível ou incorruptível. Portanto, toda natureza é boa.
Denomino “natureza” o que habitualmente se designa pela palavra “substância”. Conseqüentemente, posso dizer que toda substância é Deus ou procede de Deus, e assim tudo o que é bom é Deus ou procede de Deus.
A reprovação devida aos defeitos vem a ser louvor ao Deus supremo
37. Uma vez essas verdades tendo sido firmemente estabelecidas, como ponto de partida de nosso raciocínio, atende, ó Evódio, ao que vou dizer: toda natureza racional, tendo sido criada com o livre-arbítrio da vontade, é, sem dúvida alguma, digna de louvor, caso se mantenha fixa no gozo do Bem supremo e imutável. A mesma coisa quanto à natureza que se esforça por se fixar nele permanentemente deve ela igualmente ser louvada. Pelo contrário, toda natureza que não esteja fixa naquele Bem supremo e recusar-se a trabalhar para aí se manter, é digna de ser censurada (vituperanda est), na medida em que aí não estiver e não fizer o necessário para isso.
Logo, se é digna de louvor uma natureza racional, que não é senão criatura, não há dúvida que também deve ser louvado Aquele que a criou. E caso ela seja censurada, ninguém duvida que seu Criador vem a ser igualmente louvado por essa censura. Com efeito, se o que reprovamos nessa criatura é precisamente o fato de não querer gozar do Bem supremo e imutável, isto é, de seu Criador – é bem este a quem louvamos, sem dúvida alguma.
Ó quão grande é, pois a bondade divina, e de quantos inefáveis louvores todas as línguas e todos os pensamentos devem celebrar e honrar o Deus, criador de todas as coisas. Visto que não podemos, sem o louvar a ele mesmo, ver dirigidos a nós louvores ou censuras! Com efeito, não podemos ser reprovados por não permanecermos unidos a ele, a não ser porque essa união constitui o nosso grande, supremos e primeiro bem. E donde procede tudo isso, se não porque Deus é o inefável?
Como, pois, poder-se-ia encontrar em nossos pecados algo de censura, em referência a Ele, quando não podemos condenar tais pecados, sem proclamarmos os seus louvores?
Não se pode reprovar o vício sem louvar a natureza
38. Pois bem! Nas mesmas coisas que reprovamos, não é unicamente o defeito ou vício (vitium) que reprovamos? Ora, não se pode reprovar o vício de natureza alguma sem louvar implicitamente a essa natureza. Com efeito, ou bem aquele que censuras é conforme à natureza do seu ser, e então não é um defeito, e é a ti que convém corrigir o julgamento errôneo, para que saibas censurar a propósito, e assim o teor de tua reprovação não seja indevido. Ou então, caso se trate de um vício, para ser justamente reprovado, tem forçosamente de ser contrário à mesma natureza. Porque todo vício, pelo fato mesmo de ser vício, é contrário à natureza. Efetivamente, se não prejudicar a natureza não será tampouco vício. Inversamente, se for vício por afetar a natureza de modo nocivo, é claro ser também vício pelo fato de ser contrário à natureza.
Agora, se uma natureza for corrompida não por seus próprios vícios, mas pelos de outra natureza, então ela será censurada injustamente. Devemos antes procurar se a outra natureza da qual o vício a pôde corromper não está ela mesma corrompida por seus próprios vícios.
Mas o que é ser viciado a não ser estar corrompido pelo vício? Ora, uma natureza que não está viciada não possui vício algum. Ao passo que a natureza cujo vício pôde corromper outra natureza certamente esta viciada. Logo, a primeira está corrompida por seu próprio vício. Ela, cujo vício pôde corromper as outras naturezas. Donde se segue esta conclusão: todo vício é contrário à natureza, exatamente daquela mesma natureza da qual vem tal vício.
É porque se conclui que em todas as coisas não se reprova a não ser o vício e este não vem a ser constituído vício, senão por sua oposição à natureza do ser onde se encontra. E não se pode reprovar com justeza o vício de coisa alguma, a não ser que se louve a natureza dessa mesma coisa.
Com efeito, nada pode com razão te desagradar no vício, a não ser o fato de que ele vicia o que te agrada na natureza.

Santo Agostinho

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