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terça-feira, 19 de julho de 2011

Na Contemplação

Práticas contemplativas

Não há vida contemplativa sem práticas contemplativas. As práticas contemplativas têm em vista favorecer a vida contemplativa e a oração contemplativa. As ordens religiosas ditas contemplativas recomendam a seus integrantes determinadas práticas que sua experiência secular reconhece como válidas para conduzir o orante ao estado de silêncio interior indispensável à contemplação. O músico litúrgico francês Joseph Samson (1930 - 1957), dirigente da capela da Catedral de Dijon, reconhecia a importância desse percurso interior do orante ao declarar, referindo-se ao canto gregoriano: "É inútil todo canto que não conduza ao silêncio (...) Se o canto não possui o valor do silêncio que interrompe, que me devolvam o silêncio!".

Em seu livro Oração Centrante (1) o Pe. Basil Pennington transcreve uma bela passagem do livro Beginning to Pray (Começando a Rezar), escrito pelo Arcebispo (Metropolita) da Igreja Ortodoxa Russa Anthony Bloom (1914 - 2003), um grande mestre espiritual de nossos tempos:

"Na vida do Cura D'Ars (Jean Marie Vianney) há uma história sobre um velho camponês que passava horas e horas sentado na capela, imóvel, nada fazendo. O padre perguntou-lhe: 'O que você faz esse tempo todo?' O velho camponês respondeu: 'Olho para Ele, Ele olha para mim, e somos felizes'. Isto só pode ser alcançado se conseguirmos um certo silêncio. Comece com o silêncio dos lábios, o silêncio das emoções, o silêncio da mente, o silêncio do corpo. Seria um erro imaginar que poderíamos começar pelo fim, com o silêncio do coração e da mente. Devemos começar silenciando os lábios, silenciando o corpo, para aprendermos a ficar imóveis, a soltar a tensão, sem cair em sonhos e preguiça. Para sermos, conforme a fórmula de um dos nossos santos russos, como a corda de um violino, esticada de forma a dar a nota certa; nem tão esticada que possa se partir, nem tão pouco, que possa apenas zumbir. Daí em diante, devemos aprender a ouvir o silêncio, a ficar absolutamente quietos, e assim poderemos, com mais freqüência do que imaginamos, descobrir que as palavras do Livro da Revelação se tornam verdadeiras: 'Eis que estou à porta e bato' (Ap 3, 20)".

Embora possa haver práticas mais "eficazes" que outras para nos conduzir ao silêncio interior, nenhuma forma de oração é inapropriada. Este ponto é claramente exposto pelo Pe. William Johnston (2):

"Eu sugeri muitos modos de orar, e talvez você tenha notado que cedo ou tarde todos eles levam àquele silêncio em que você descansa na presença de Deus. Os velhos teólogos expressavam isto dizendo que todas as formas de oração convergem, finalmente, para a oração contemplativa. Onde quer que você começe, sempre termina na contemplação. (...) Na oração contemplativa há uma mútua influência das palavras e do silêncio. Com o passar do tempo você descobrirá que as palavras emergem do silêncio, assim como o silêncio emerge das palavras."

Para evitar mal-entendidos, o mesmo autor nos apresenta palavras de advertência (2):

"O silêncio é valioso. Mas não faça do silêncio um fetiche. O que importa não é nem o silêncio nem as palavras, mas a fé e o amor. (...) A oração é um processo ou uma jornada. À medida que você avança, tende a superar modos anteriores de rezar; e métodos que antes o ajudaram podem tornam-se um estorvo. Na verdade, você tende a superar todos os métodos e a entrar em ressonância com a afirmação de São João da Cruz, de que o caminho é nenhum caminho. Quero dizer, com isto, que não podemos nos agarrar a nenhuma trilha, método ou caminho. Não podemos nos aferrar a planos e mapas. Deus está no comando, e nós o seguimos. Como se costuma dizer, a vida é cheia de surpresas. E nenhuma vida tem mais supresas do que a vida de oração."

Evidentemente, ao falar de práticas contemplativas nenhum dos autores citados tem a intenção de sugerir que o praticante possa prescindir da assiduidade à liturgia, aos sacramentos e ao contato com a palavra de Deus nas Escrituras, nem da participação na comunidade eclesial. Valiosas sob vários aspectos, todas essas atividades também possuem valor do ponto de vista contemplativo. A contemplação não pode nos afastar da Igreja, bem ao contrário. Como escrevem Jacques e Raïssa Maritain:

"Jamais o homem é mais e tão perfeitamente membro da Igreja que quando (...) sozinho com Aquele que ama, ele está unido a Deus numa união inefável de pessoas, e entra nas profundezas de Deus." (3)

Devido a limitações de tempo e espaço, apenas duas práticas contemplativas, profundamente enraizadas na tradição cristã, são explicitamente apresentadas e promovidas pelo Círculo Gregório de Nissa: A Lectio Divina e a Oração Centrante. Informações valiosas sobre estas duas práticas podem ser encontradas no sítio
http://www.oracaocentrante.org.
(1) M. Basil Pennington, OCSO: Oração Centrante – Editora Palas Athena, 2002
(2) William Johnston, SJ: Being in Love – The Practice of Christian Prayer – Fount Paperbacks, 1988
(3) Jacques e Raïssa Maritain: Liturgie et Contemplation – Desclée de Brouwer, 1959

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