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terça-feira, 19 de julho de 2011

Monges Camaldulenses



Contribuição Camaldulense Para A Paz

Moscou, Maio de 1995. Uma pequena e estranha delegação de leigos e religiosos está desenvolvendo na capital russa uma missão secreta. Está tentando a mediação entre a Rússia de Yeltsin e a República autônoma da Chechênia. O pedido de mediação foi dirigido aos “inexperientes mediadores” por expoentes da cultura Tchetchênia e por alguns pacifistas russos, através de uma associação de leigos católicos que possui o expressivo nome de “Andorinha Cidadela da Paz”. Foi aceita pelas autoridades russas.
“Andorinha Cidadela da Paz” nasceu por obra de um grupo de jovens leigos católicos da diocese de Arezzo, que há anos tem como ponto de referência espiritual o Sacro Eremo e Mosteiro de Camáldoli e o convento franciscano de La Verna, S. Francisco, o santo da paz, por excelência, ali recebeu os estigmas como sinal da sua total conformação ao amor de Cristo crucificado. Por causa desta ligação espiritual dos membros da associação aos dois lugares sagrados da diocese de Arezzo, naqueles dias fizeram parte da delegação da paz também o Prior Geral da Congregação Camaldulense, Dom Emanuele, o guardião do sacro convento, Pe. Fiorenzo, juntamente com o Vigário Geral da diocese de Arezzo, Pe. Franco.

Uma delegação desarmada sob todos os aspectos, mas respeitada e digna de crédito pela sua experiência religiosa e pela acolhida humana aberta, aos vários protagonistas. Este patrimônio de credibilidade era o fruto, não procurado, mas verdadeiro, de um percurso de mútuo conhecimento e amizade construído a partir de uma iniciativa de paz “em nome do Senhor Jesus”, desenvolvida entre o Natal e a Epifania de 1988-1989. Do Santuário de La Verna, no dia dos Estigmas de S. Francisco, 13 de setembro de 1988, partiu uma mensagem de paz por parte dos jovens “Andorinha Cidadela da Paz” dirigida à Sra. Raíssa, esposa do Presidente Gorbachev, para os jovens russos. Uma mensagem em nome de S. Francisco e do profeta da paz dos nossos tempos que foi o Prof. Giorgio La Pira (+1977), por sua vez profundamente ligado a Camáldoli e “La Verna”, cujo nome para os russos significava paz e amizade, desde os anos da mais áspera guerra fria (anos 1950).

A mensagem lançada de “La Verna” foi acolhida pela Sra. Raíssa, que tinha tornado possível uma viagem-testemunho dos jovens de Arezzo e dos seus assistentes espirituais (franciscanos e camaldulenses) a vários centros culturais, religiosos e universidades da então União Soviética e ao Patriarcado de Moscou. Nasceu uma autêntica amizade que lhes permitiu crescerem juntos no conhecimento recíproco, estima e confiança.

Este caminho, desenvolvido a nível de amizade e comunicação espiritual, foi a razão pela qual pôde nascer a excepcional iniciativa de paz em maio de 1995, em Moscou. Excepcional, não pelos resultados conseguidos a nível diplomático e militar, pois a trégua concedida foi rompida em 12 de junho pelo boicote por parte dos “duros” do Kremlin, mas válida pelo reconhecimento do valor atribuído, pelas partes em conflito, às duas comunidades religiosas, pobres de meios humanos, mas ricas da irradiação espiritual evangélica dos seus pais fundadores, Romualdo e Francisco.

Por que quis recordar este acontecimento no qual uma comunidade monástica foi chamada a desenvolver um papel direto de promoção da paz entre povos em guerra, papel que normalmente cabe a outras instâncias sociais e políticas? Não para reivindicar à comunidade monástica uma função política imprópria, mas para sublinhar a força intrínseca de paz que os valores espirituais, animadores das comunidades religiosas e monásticas, podem exprimir, quando estes são colocados em jogo, com simplicidade e amizade, nas relações humanas que a vida oferece, nas circunstâncias concretas, para além de todo programa institucional.

“Obedecer à vida” com simplicidade de coração, não é, talvez, a primeira forma de obediência ao amor por parte de todo discípulo de Jesus? O Senhor nos admoesta contra a cegueira da qual permanecem prisioneiros o sacerdote e o levita, mais preocupados com a própria pureza legal que com a vida do homem deixado semimorto pelos ladrões no caminho entre Jerusalém e Jericó. O samaritano de coração generoso assume os riscos. “Vai e faze o mesmo”, é a resposta incisiva de Jesus ao escriba que o interrogava sobre quem fosse o próximo a ser amado. (cfr. Lc 10,29-37).
A pronta e não calculada obediência, que S. Bento requer do monge como primeiro grau da humildade (cf RB 5,1), pode ficar circunscrita aos muros do mosteiro? A história monástica nos ensina que a vida do monge abraça toda a vida, numa entrega confiante de si ao Senhor. É uma entrega que pode levar até à doação da própria vida no martírio. Foi o que aconteceu na Polônia em 1003 a um grupo de discípulos de S. Romualdo, conhecidos como “os cinco irmãos”, e o que aconteceu nos nossos dias aos “sete irmãos” trapistas de Atlas (1996).
O episódio da mediação de paz, tentativa em Moscou, permaneceu circunscrito àquele evento sob o perfil estritamente político. Entretanto, continuou e continua a desenvolver uma frutuosa ação de paz, da qual a comunidade monástica é ao mesmo tempo protagonista e destinatária. Filhos da Rússia e da Chechênia, de Israel e da Palestina, da Abkazia e da Armênia, como de outras nações em guerra entre si, ortodoxos e muçulmanos, hebreus e cristãos, são acolhidos na comunidade da “Andorinha Cidadela da Paz”. Descobrem o valor da paz através da convivência diária entre “Povos diversos” que trazem na própria carne as feridas do ódio e da guerra de seus países de origem e muitas vezes de suas famílias destruídas. Durante três, quatro anos, estudam nas escolas italianas, até conseguirem títulos de estudos e profissão, de modo que se torne proveitoso para suas vidas e para a paz quando retornam às suas respectivas nações. É possível e enriquecedor, entre diversos viver em paz e com respeito. Esta é a mensagem que os jovens, filhos de povos inimigos e de religiões hoje em conflito entre si interiorizam e que se torna o mais precioso patrimônio para suas vidas e para seu empenho social e político.
Durante estes anos tornou-se sistemático o relacionamento periódico de jovens estudantes estrangeiros com a comunidade monástica e com o convento de “La Verna”. É uma educação recíproca entre monges e jovens. Um processo de aprendizagem muito positivo também para a comunidade monástica. Sobretudo nestes anos em que no seu interior vão se acentuando as diferenças de formação cultural e de sensibilidade humana entre gerações e entre nacionalidades diversas que compõem sempre mais também as comunidades monásticas na Europa e Itália. Somos servidores autênticos da paz quando procuramos ser discípulos antes que mestres.
Por estas razões, somente então intuídas, não nos pareceu estranho à nossa identidade de monges responder, naquele momento histórico, ao apelo a um envolvimento direto, ainda que excepcional, numa obra de pacificação multifacetada.

Entre memória e atualidade

Camáldoli é uma comunidade monástica que possui como referencial aquele homem carismático, S. Romualdo, que, apesar de radicado na dimensão solitária da vida monástica, não se poupou na defesa dos pobres contra os poderosos, na pacificação de cidades em guerra, no empenho para a renovação da vida monástica e pela reforma da Igreja. Dele, pode-se repetir com razão, o q ue D. Jean Leclercq escreveu sobre S. Pedro Damião, biógrafo de S. Romualdo: ele foi verdadeiramente “ermite et homme d’église”, eremita e homem da Igreja partícipe das vicissitudes mais animadas do seu tempo.
A fidelidade à memória estimula o repensar do patrimônio da tradição, no confronto com a realidade mutável da historia de ontem e de hoje que exige uma hermenêutica dinâmica. Ela não nos oferece respostas certas, prontas, para enfrentar os desafios de hoje. Expõe-nos ao risco do discernimento e das escolhas. Pode criar também tensões nas consciências e nas comunidades, como, em parte, aconteceu também na comunidade de Camáldoli naquela ocasião. De qualquer forma, nos tira da suposta paz de quem pensa poder viver, no mosteiro ou no eremitério, aquela segurança, garantida pelo passado.
Ser operadores de paz hoje, por parte dos monges e monjas exige, antes de tudo, que as comunidades promovam, no seu próprio interior, o crescimento de pessoas pacificadas em si mesmas, na fidelidade a Deus e à própria humanidade e mantenham relações fraternas nas quais a dinâmica da comunhão das diferenças substitua a igualdade formal, garantida pela uniformidade da observância regular ou pela autoridade do abade. Desafios de grande relevo que monges e monjas encontram no próprio íntimo e dentro da comunidade.
É esta experiência de uma paz sempre em construção que torna monges e monjas companheiros de viagem dignos de crédito e confiáveis para os que procuram em si mesmos uma paz não fictícia e aspiram criar e viver relações não de competição, mas de respeito e valorização das subjetividades, capazes de compartilhar os sofrimentos e as alegrias do outro. Homens e mulheres de coração compassivo, como o do mestre e amigo Jesus.

Na escola dos pais

Camáldoli encontrou nos mestres espirituais da própria tradição este sentido de uma procura da paz humilde e aberta, frágil e forte. Estes mestres nos ensinam que a paz é fruto maduro da experiência de um caminho interior que conhece o não menor combate da intimidade na relação com Deus e que exige a reelaboração total de si mesmo em sintonia com o Espírito do Senhor. Escreve o autor da Consuetudo Camaldolensis, o Prior Rodolfo II (1180): “Existe meditação silenciosa quando se unem indissoluvelmente a regra do calar e a vigilante ocupação do meditar; uma sem a outra não basta à salvação. De fato o silêncio sem a meditação é morte, sepulcro de um homem ainda vivo; a meditação sem silêncio é ineficaz, inútil agitar-se de um homem fechado no sepulcro. Silêncio e meditação unidos, em sentido espiritual, são tranqüilidade para a alma e perfeita contemplação... Para que serve ser silenciosos com a língua, se a vida ou a consciência estão em tempestade?”
Somente uma experiência de luta e pacificação consigo mesmo e de solidariedade cordial e humilde com todo combatente no Espírito pode legitimar o que está escrito de modo relevante na porta de entrada de tantos mosteiros: Pax-Paz! Recordou-nos com a sua aguda sensibilidade Thomas Merton fazendo sua a expressão do poeta inglês Dunn: “Homem algum é uma ilha!” O mosteiro não é uma ilha e paz garantida. Nem pode fazer de si mesmo uma ilha, fechando-se a quem procura caminhos de paz. É, antes, chamado a tornar-se um porto de descanso para reabastecer o barco e retomar às águas.

Uma dura lição de vida

Durante a metade do século XX Camáldoli viveu na própria pele a fadiga de construir em seu próprio interior a “comunhão na diversidade”, sintetizada nas relações entre vida cenobítica e vida eremítica, eremitério e mosteiro. Vividas pacificamente por S. Romualdo e seus discípulos por quase cinco séculos, com liberdade e criatividade, próprias dos grandes homens do Espírito, estas duas dimensões inseparáveis da vida monástica camaldulense tinham perdido a sua unidade no século XVI. As duas pombas que bebem no único cálice de Cristo, símbolo do eremitério e do mosteiro, no brasão de Camáldoli, tinham alçado vôo para horizontes separados, ideologizados e muitas vezes conflitantes. Ao longo do milênio, conservara-se apenas um “pequeno resto” da unidade originária na mesma comunidade de Camáldoli, formada pelo Sacro Eremitério e pelo Mosteiro.
Os eventos históricos que conduziram à unidade política da Itália na segunda metade do século XIX trouxeram consigo a supressão de tantas comunidades monásticas entre as quais também Camáldoli. Aquela dispersão de monges não representou somente a perda da vida regular da comunidade e a desapropriação dos seus bens. Incidiu também profundamente na perda da relação com as próprias origens e com sua múltipla tradição. Os sobreviventes, quando foram autorizados a retornar ao S. Eremitério e Mosteiro, concentraram-se no esforço de sobreviver fazendo de seu eixo aquilo que aquela geração tinha conhecido por experiência de vida cotidiana, mas tendo perdido toda relação com as próprias raízes originárias.
Um longo caminho, que durou cerca de 60 anos, deveria levar a redescobir progressivamente as fontes romualdinas e camaldulenses. Deste modo, a secular tradição de Camáldoli, que tinha encontrado a sua característica, exatamente na riqueza e no pluralismo de suas expressões constituía agora, para estes monges, a pergunta mais inquietante. Por que os padres ao longo dos séculos tinham traduzido o carisma de Romualdo em modalidades tão diferentes, de modo a parecer, às vezes, em contradição com aquilo que eles tinham encontrado no S. Eremitério do século XIX e início do século XX? Como enfrentar os desafios da formação das novas gerações de jovens candidatos que, em comparação com eles, pareciam assim tão diferentes? Como enfrentar o risco de uma nova supressão,ainda que só imaginada, mas sempre possível, a não ser procurando reforçar a fidelidade à regra da vida eremítica? Espera-se, deste modo, evitar aquela mesma punição infligida por Deus ao povo de Israel, que, por sua infidelidade, tinha merecido o exílio da Babilônia.

Rumo a novos horizontes

Muitas eram as questões que agitavam o ânimo da pequena comunidade eremítica de Camáldoli. Em julho de 1899, o bispo de todo o RS – D.Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão – foi a Roma participar do “Primeiro Concílio Latino-Americano” e visitou a Comunidade do Eremitério de Camáldoli. Ele pediu a essa Comunidade enviar alguns monges a fim de animarem espiritualmente as numerosas colônias de imigrantes italianos no Rio Grande do Sul. No dia 12 de outubro daquele ano partiram com ele três monges.
Deram início a uma aventura de grande intensidade humana e espiritual, sustentada por uma forte tensão espiritual e grande solidariedade para com os pioneiros italianos dos quais se fizeram irmãos e pais em tudo e por tudo. Como o bom samaritano! Uma memória viva que surpreendentemente perdura até hoje, como pude experimentar pessoalmente numa recente visita a Caxias do Sul , em 2004. Contudo, os co-irmãos de Camáldoli, que estavam sobretudo preocupados em permanecerem fiéis às suas práticas cotidianas tradicionais, inalteradas por séculos e tidas como imutáveis, tiveram muita dificuldade para compreenderem isso. Assim a grande aventura brasileira foi também um caminho assinalado por incompreensões recíprocas e muito sofrimento, determinados por um zelo sincero, mas pouco iluminado. A guerra ideológica estava em casa. E acompanhou o caminho de toda uma geração.
A penosa via crucis terminou com uma intervenção da autoridade pontifícia, solicitada pelos monges residentes na Itália, que determinou o fechamento da fundação brasileira em 1925. Entretanto, a semente lançada nas consciências da comunidade, ainda que tenha de ter passado pela morte, não deixou de dar frutos inesperados, a longo prazo. As perguntas que acompanharam a redescoberta dos textos e o sentido das tradições recebidas dos mais velhos, cruzavam com a exigência de responder, de modo crível, aos novos desafios que eram colocados pelas novas condições de vida, não somente no Brasil, mas também na Itália. Conservadas vivas, aquelas perguntas impulsionaram a aprofundar cultural e espiritualmente os problemas que tinham gerado.
Foi iniciado um trabalho paciente e fatigante de aprofundamento e de interpretação das fontes camaldulenses. A formação dos novos membros teve a contribuição de pessoas externas, amigas da comunidade, sensíveis à espiritualidade monástica e às novas exigências da Igreja e da sociedade na Itália. Entre estas pessoas ocupou um lugar de grande relevo D. Giovanni Battista Montini, o futuro Papa Paulo VI. Ele se esforçou, a partir dos anos ’30, para promover uma boa formação acadêmica e espiritual aos jovens monges, e ajudou a comunidade a abrir-se à acolhida dos jovens graduados e estudantes universitários católicos. Ele julgava ser importante que estas jovens energias intelectuais da Igreja católica freqüentassem a comunidade monástica para radicar a própria formação espiritual no terreno da grande tradição dos Padres e na oração da Igreja que os monges propunham com o próprio exemplo.
Camáldoli, retomando a tradição de hospitalidade, também cultural, que a tinha caracterizado durante séculos, encontrou-se assim, contribuindo para uma outra etapa importante da Igreja e da sociedade italiana. Em 1943, em plena guerra, um grupo destes estudiosos católicos, reunidos na hospedaria do mosteiro, elaborou o assim chamado “Código de Camáldoli”, texto que contém algumas diretrizes da futura Constituição italiana.
A presença dos intelectuais católicos, prolongada por vários decênios, colocou os jovens monges em contato com as novas sensibilidades sociais e com as correntes inovadoras da teologia católica, especialmente francesa. Aquele novo modo de relacionar-se, de maneira dinâmica, com a própria tradição e com o presente, que a comunidade preparou, gradual e positivamente, contribuiu para o grande evento inovador da Igreja, que foi o Concílio Vaticano II.
A comunidade não chegou aí sem laboriosa preparação. O longo debate interno e os momentos dolorosos que o acompanharam, durante toda a década de 1950, haviam colocado as premissas para que os horizontes inovadores, abertos pelo Concílio, determinassem a pacificação final na comunidade de Camáldoli e orientassem para uma nova etapa do seu caminho. Os líderes que animaram e guiaram esta longa marcha no deserto foram, sobretudo, D. Anselmo Giabbani e D. Benedetto Calati - ambos estudiosos da espiritualidade monástica - e os Priores Gerais entre 1951 e 1987.
A paz na comunidade, expressão não da vitória de um grupo sobre outro, mas de um amplíssimo consenso construído através da busca comum, com paciência e tenacidade, foi por inteiras gerações de monges um forte desafio antes de conseguir ser um dom de Deus que deve ser aproveitado e guardado cuidadosamente. A preciosidade do dom ensinou-lhes a partilhá-lo e a fazerem-se companheiros de viagem com quem o procura.

Hospitalidade recíproca

Estas vicissitudes internas e as experiências de encontro com hóspedes qualificados ensinaram a Camáldoli uma atitude interior muito importante. O duplo confronto com a tradição e o presente, com a vida interna da comunidade e com a vida da sociedade, levanta muitas perguntas, até mesmo inquietantes. Este fato requer que se tenham olhos para ver, ouvidos para ouvir e coração para apreciar. A hospitalidade monástica, antes de ser uma atividade de serviço, constitui um modo de ser e relacionar-se com o outro. Nasce da consciência de que a comunidade é chamada, não somente a dar, mas também a receber, pois os dons de Deus são por Ele distribuídos com generosidade e sem discriminação de pessoas. A verdadeira hospitalidade é reciprocidade. Cada um é sempre portador, não somente de necessidades a serem satisfeitas, mas também de dons que podem ser condivididos num recíproco enriquecimento. A mesma fadiga do procurar, que o monge ou a monja experimenta em primeira pessoa, quando é partilhada com humildade, desesperoo (a) de toda presunção e o(a) torna companheiro(a) de viagem de toda pessoa que se confronta com o mistério da própria vida.
Nas sociedades secularizadas do norte, marcadas pela desconfiança, em toda forma institucional de Igreja, esta atitude de atenção para com o outro e de partilha é fundamental para construir pontes de comunicação com a busca religiosa e relações de paz. São Bento nos recorda que no peregrino e no hóspede, qualquer que seja a sua proveniência e a hora na qual se apresenta, é Cristo mesmo que pede acolhida. (RB 53).
Talvez seja por isso que tantas pessoas hoje procuram, quase instintivamente, nos mosteiros, um espaço de acolhida e de partilha para o seu caminho de aprofundamento na fé ou de retomada espiritual.

Operadores de paz em diálogo

Diálogo ecumênico, diálogo inter-religioso, diálogo com os não-crentes. Entraram com pleno direito entre os elementos primários que devem caracterizar a formação e a espiritualidade do monge camaldulense e o estilo de vida da comunidade. As novas Constituições indicam o diálogo entre as modalidades primárias, através das quais a comunidade monástica participa eficazmente na missão apostólica da Igreja, com a sua própria existência centrada em Cristo e iluminada pelo Seu Espírito.
O próprio Pontífice João Paulo II, na ocasião da sua visita pastoral à comunidade de Camáldoli, feita no dia 13 de setembro de 1993, retomou esta linha recomendando-a como um dos elementos que devem caracterizar o monge camaldulense no seu caminho com a Igreja, hoje.
Com efeito, a sensibilidade ecumênica e o diálogo com outras confissões cristãs foi iniciado em Camáldoli em 1968, graças à contribuição de uma associação de leigos chamada Segretariato attività ecumeniche, nascida em Veneza nos anos ’50, durante o ministério do Patriarca Giuseppe Roncalli, o futuro João XXIII. Particularmente interessante foi o desenvolvimento que tal orientação teve nas duas comunidades dos Estados Unidos que estreitaram relações de intensa colaboração com uma congregação monástica anglicana – Congregation of Holy Cross – e abriram o eremitério californiano para uma acolhida fraterna a muitos não católicos.
Um ministério ecumênico muito delicado está desenvolvendo o co-irmão chinês, D. Joseph Wong, monge na comunidade de New Camáldoli (EUA). Durante os seus períodos de permanência na República Popular da China, ensinou teologia e espiritualidade monástica em vários seminários da Igreja oficial, contribuindo para sua reaproximação com a Santa Sé. Faz parte da “China Commission” da Confederação Beneditina. Recentemente foi enviado pelo abade de Sta Ottilia (Alemanha), Pe. Jeremias Schroeder, para colaborar numa iniciativa muito especial que tende a promover a formação monástica de membros potenciais de uma futura comunidade beneditina na China. Juntamente com os co-irmãos de New Camáldoli e de Camáldoli, fundou na Califórnia “The Camaldolese Institute of East-West dialog – Instituto camaldulense para o diálogo oriente-ocidente”.
O diálogo inter-religioso teve desenvolvimentos significativos. Em Camáldoli mesmo a experiência mais significativa é conhecida pelo diálogo entre hebreus e cristãos. Iniciado no mosteiro, em 1979, hoje possui o reconhecimento e o sustento por parte da S. Sé e da Conferência Episcopal Italiana e suscitou grupos de “Amicizia ebraico-cristiana” em várias cidades italianas. A trágica história das relações entre cristãos e hebreus, ao longo dos séculos, tornada ainda mais dramática com o holocausto organizado pelos nazistas durante a última guerra mundial, sugeriu que este diálogo fosse direcionado, acima de tudo, no sentido de estabelecer uma sincera amizade entre os participantes. Foram necessários anos. Isso permitiu passar à redescoberta do imenso patrimônio que une a Igreja e Israel e tantos elementos que a tradição espiritual dos padres e a monástica herdaram da espiritualidade de Israel.
Graças a este método e a este percurso, pode-se passar sucessivamente ao exame apaixonado, mas sereno, dos aspectos que diferenciaram a experiência e a mensagem de Jesus e da Igreja a respeito do judaísmo da diáspora. Enfim, chegaram à mesa também as problemáticas conexas com o hebraísmo moderno e o Estado de Israel. D. Innocenzo Gargano juntamente com a professora Lea Sestieri, hebréia, residente em Roma, foram os principais artífices deste perseverante e frutuoso caminho. Um fruto muito precioso deste caminho por etapas, foi a recente abertura do diálogo hebraico-cristão com o terceiro interlocutor da família de Abraão, o Islam. Assim, nos últimos cinco anos, o diálogo tornou-se hebraico-cristão-muçulmano. É possível facilmente imaginar quanto isso, na sua pequenez, possa contribuir para formar homens e mulheres apaixonados pela paz e, portanto, determinados a fazerem-se operadores de paz no contexto fortemente conflitante deste nosso tempo.
O Ashram de Shantivanam (Índia), fundado nos anos ’50 e animado sucessivamente por três grandes pioneiros do diálogo inter-religioso e da inculturação do monaquismo beneditino na Índia, Pe. Jules Monchanin (+1957), Pe. Henry Le Saux (+1968), Pe. Bede Griffths (+1994), desenvolveu por mais de 50 anos um papel de significativa relevância, ao menos a nível simbólico, para uma fecunda relação de experiência entre o monaquismo beneditino e a espiritualidade das grandes tradições religiosas da Índia. Pe. Bede Griffiths, em 1981, pediu a agregação do Ashram à comunidade de Camáldoli. Acreditava ser importante que uma experiência tão inovadora estivesse coligada a uma tradição antiga e ao mesmo tempo aberta à vida comunitária, à solidão e ao testemunho de acolhida.
Na Itália adquiriu uma forma regular, há mais de 10 anos, no pequeno eremitério de Monte Giove, um inédito diálogo com os não-crentes e com pessoas que, há tempo, haviam deixado a prática da vida eclesial. A carismática personalidade de D. Benedetto Calati foi o elemento catalisador que suscitou este especial diálogo. Expressão típica da sociedade secularizada, estas pessoas encontram no ambiente monástico e nos seus valores essenciais e simples, ao mesmo tempo, uma nova oportunidade para reabrir uma busca espiritual sincera e às vezes dramática.
A relação com estas pessoas é surpreendente e estimulante. É surpreendente como sentem o chamado dos grandes temas da espiritualidade monástica, do seu relativo distanciamento das pesadas estruturas jurídicas da Igreja, da sua dinâmica de fraternidade que se faz acolhida e participação na fadiga do viver de cada homem e de cada mulher. Ao mesmo tempo essas pessoas mostram grande capacidade de atualizar aqueles mesmos valores para as suas vidas e para a sociedade de hoje. Este diálogo impele a comunidade monástica a não viver voltada para o passado ou fechada em si mesma, mas a radicar-se no hoje de Deus com as suas incógnitas e a sua promessa de presença indefectível até o seu retorno glorioso.
Caminhar junto com rostos conhecidos e desconhecidos, escutando o calor que a voz secreta do Espírito acende no coração de cada um, pode conduzir-nos à revelação surpreendente do rosto de Cristo no cair da tarde de Emaús:“Fica conosco, Senhor, pois já é tarde!” (Lc 24,29)

D. Emanuele Bargellini, OSB Cam
Mosteiro da Transfiguração
Mogi das Cruzes – São Paulo, Brasil
Um episódio significativo

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