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sábado, 2 de julho de 2011

Lembre-se: Nunca Olhe para trás


NÃO OLHE PARA TRÁS!

Não temas, segue adiante e não olhes  para trás...

Nos cursos de Administração, bem como nos treinamentos das áreas de Recursos Humanos, junto com a figura do gerente ineficaz, é criticada também a figura do “saudosista”, aquele que sempre recorda coisas do passado, sem prestar atenção nas riquezas que estão colocadas a frente, no futuro.

Na vida, as pessoas sofrem porque ficam presas ao passado, criam traumas, mágoas e ressentimentos, formando um conjunto negativo de percepções que as tornam infelizes, frustradas e incapazes de desenvolver tipos salutares de relacionamento. Uma pessoa presa aos problemas (ou mesmo à felicidade) do passado, nunca terá capacidade de desfrutar das coisas boas do presente e, muito menos, de organizar seu futuro em termos de realizações e construções de uma vida sólida.

Dá pena enxergar pessoas que só lembram coisas do passado, como se os maiores valores da vida se tivessem esgotado por lá. Presas às lembranças pretéritas, tais pessoas deixam de perceber a riqueza do dia de hoje que, por dádiva, se chama presente. O presente nos traz a certeza de que haverá um amanhã. O que ficou para trás não volta. É preciso construir o amanhã em cima das riquezas do hoje. É hoje que estamos vivos, com capacidade de viver, de desejar, de ambicionar e de construir alguma coisa.

No entanto, há uma sabedoria no olhar para trás, em busca de algumas lições, pois a experiência de vida começa a partir daquilo que a gente ou outras pessoas construíram no passado. O filósofo Kierkegaard disse com muita propriedade que “a vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente”. Que não se diga que o simples olhar para trás é um mal. Não! O erro está em viver preso ao passado, de forma doentia e covarde, sem coragem de viver o hoje nem tampouco encarar o amanhã.

Tem gente que vive a lamentar a vida que passou. Ou foi o marido que morreu, a mulher que fugiu, o emprego que perdeu, o carro que roubaram, a antiga casa onde morou, amigos que foram embora, etc. As coisas que passaram não voltam mais, e criar uma ideia fixa pensando nelas só faz mal, estressa, envelhece, tira o sono, faz perder o apetite e até pode dar gastrite, úlcera ou câncer. Olhar para trás com pesar não resolve nada; só prejudica, uma vez que o que passou não volta. Esta é uma lei, natural e inexorável.

Há uma música popular que afirma “mas tudo passa, tudo passará, e nada fica, nada ficará...”. Depois veio Lulu Santos, mais eclético e com um toque refinado de filosofia estóica que encantou a minha geração com o “nada do que for será, de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará...”.

Toda essa filosofia da mudança se baseia na frase grega Panta Réi, onde panta é tudo, e réi, corre, passa, se esvai. Os filósofos estóicos, a partir de Heráclito de Éfeso (séc. V a.C.), foram os primeiros a afirmar que tudo passa. A expressão Panta Rei surge da noção de que no contexto da natureza e da vida humana tudo é transitório, passageiro. Para ilustrar essa afirmação, Heráclito usava a metáfora do rio: Não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. Afinal, as águas que correm no rio nunca são as mesmas, afinal, tudo passa; nada permanece (oudén méne). No dia seguinte, embora seja o mesmo local geográfico, pela passagem das águas, o rio já é outro. Trata-se de um “vir-a-ser”. Assim é a vida humana.

Não temas, segue adiante e não olhes  para trás...
Quanto às mudanças e transformações físicas, o vir-a-ser, que a todo instante vemos ocorrer no mundo, a filosofia explicava como sendo uma mistura participativa do ser e do não-ser. Ao vir-a-ser é necessário tanto o ser quanto o não-ser. Se eles agem conjuntamente, então resulta um vir-a-ser, onde este se torna uma ilusão sensível. Isto quer dizer que todas as percepções de nossos sentidos apenas criam ilusões, nas quais temos a tendência de pensar que o não-ser é, e que o ser é um vir-a-ser. Esta é a razão pela qual não se deve ter um apego exagerado às coisas do passado, pois a vida (quem vem em ondas) anda para frente, me tudo que ficou para trás sofre a defasagem do tempo.


São Paulo, refletindo de forma escatológica sobre o futuro dos cristãos usa uma figura bem sugestiva, alertando aobre a fugacidade do presente, em oposição ao vir-a-ser, que é definitivo:

 Não temos aqui morada permanente, mas andamos em busca da futura

(Hb 13,14).


Pois o vir-a-ser tem o nome de devir (ou porvir), que é o conceito filosófico que se traduz de forma mais literal na eterna mudança do ontem ser diferente do hoje, nas palavras de Heráclito “O mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo do hoje”.

Fazer filosofia é aprender a pensar. O filósofo, mais do que alguém que ama (philo) a sabedoria (sophia) é alguém que pensa e transmite idéias. Nossas vidas estão impregnadas de Panta Rei. Nossos corpos mudam, nossas ideias mudam, nossos empregos mudam. Enfim, nunca atravessamos o mesmo rio da existência duas vezes: “a vida vem em ondas, como o mar, num indo-e-vindo infinito...”. Esta é a razão de não se olhar para trás, pois o sentido de nossa vida está no presente e no futuro. Viver é andar para frente. Quem anda para trás, como o caranguejo, se dá mal.

Por vezes nos sentimos tentados a “congelar” o rio, para que suas águas sejam sempre as mesmas. Entretanto, um belo dia o rio, que tem vontade própria, descongela e a força de suas águas traz toda a força das mudanças reprimidas… e ai surtamos! Ou não? Cabe a cada um lidar com o seu rio. “tudo o que se vê não é, igual ao que a gente viu a um segundo, tudo muda o tempo todo, no mundo...”.

Na natureza, rios, mares e florestas... tudo passa. A devastação causada pelo homem, o plantio inadequado, o desmatamento, os crimes contra a natureza, tudo acelera a “passagem” das coisas da vida. Além disto, vale lembrar que Deus perdoa. a natureza não! Tudo passa? Eu acho que sim! Aliás, segundo São Paulo, só tem uma coisa que não passa? O amor.

Para a eficácia do bem-viver impõe-se a dinâmica do olhar pragmático em todas as direções. Basta um olhar. Quando estiver em dificuldade e pensar em desistir olhe para trás e lembre-se dos obstáculos que já superou. No passado tem coisas boas: a casa de nossos pais, a tradição de nossa família, o ensinamento de nossos mestres, etc. Estas coisas são boas e salutares para serem lembradas com carinho e saudade. Mas não devem se transformar num estado patológico de exaustão psíquica, onde alguns acham que a vida se resume no que passou. Isto impede o crescimento e – não-raro – provoca quedas, traumas, remorsos e complexos. Se tropeçar e cair, levante-se... Não fique prostrado, olhe para frente e esqueça o passado.

Ao sentir-se orgulhoso por alguma realização pessoal, olhe para dentro e sonde suas motivações. Antes que o egoísmo o domine, enquanto seu coração é sensível olhe para os lados e socorra aos que o cercam. Na escalada rumo às altas posições no afã de concretizar seus sonhos, olhe para baixo e observe se não está pisando em alguém. Em todos os momentos da vida, seja qual for sua atividade, olhe para cima e busque a aprovação de Deus.

Não temas, segue adiante e não olhes  para trás... segura na mão de Deus e vai.


Olhar para trás, dependendo do modo como se olha, faz sofrer. E ninguém está aí para sofrer. Você está chateado com alguma coisa? Essa situação parece insolúvel, como uma “doença incurável”? Ou então, algo que você não consegue aceitar e o incomoda? Esses são desafios constantes que vivemos a todo instante no decorrer de nosso dia-a-dia. Algumas vezes, temos a sensação de que estamos sendo empurrados contra a parede sem muita opção de escolha. Não acontece assim com a gente?

O pior é quando nosso olhar para trás retira esqueletos do armário, abre as covas do remorso, desenterra velhos ressentimentos ou nos assombra com lembranças desagradáveis de coisas que gostaríamos de esquecer. Existem memórias do passado que atuam como se o mundo estivesse se fechando diante de nós, tirando-nos as perspectivas de viver bem hoje e dificultando a construção do futuro. Isto ocorre porque não sabemos (ou não podemos) nos libertar do passado, das mágoas e decepções que ficaram lá atrás, e que nosso pensamento teima em atrelar à nossa vida presente.

Conta uma historieta que escutei por aí, que um jovem dirigiu-se a um sábio e perguntou: “Mestre, quantos anos o senhor tem?  Não repare a grosseria, mas eu gostaria muito de saber...”. O velho homem respirou fundo, olhou para seu interlocutor, respondendo: “Uns dez anos!”. O rapaz riu meio sem jeito, imaginando que o sábio não tivesse gostado da pergunta, respondendo evasivamente, uma vez que ele demonstrava ter, no mínimo, uns sessenta anos. Observando o constrangimento do moço, o mestre continuou: “Eu devo ter uns dez anos, sim, dez anos de vida, daqui para a frente, pois o tempo que passou está perdido, não volta mais e eu não posso viver de novo o tempo passado”.

É curioso como se vê pessoas idosas atreladas ao passando, contando “causos” de quarenta ou cinqüenta anos atrás, como se só aqueles eventos fossem importantes, e o resto da existência, presente e futura não tivesse o menor interesse. É claro que o passado é rico. Nele está o nascimento, as primeiras descobertas, a alfabetização, o despertar do amor, o casamento, nascimento dos filhos, colação de grau, etc. Mas, nem por isto, a gente precisa ficar debruçada nele, como se a parte mais importante da nossa vida estivesse lá. O dia de hoje, uma vez que acordamos com vida, capazes de enxergar o amanhecer, ver o sol ou a chuva, escutar o barulhos dos pássaros ou o alarido das crianças, encontrar-se com algum parente ou amigo, tem um valor incalculável. Por isto ele se chama “presente”, porque é dádiva.


Não temas, segue adiante e não olhes  para trás...


O amanhã, para quem sabe cultivar as esperanças e as expectativas, embora incerto, também é apaixonante. É o passado que nos ajuda a viver o hoje, e nos projeta para o futuro. Esses três momentos tem a capacidade de nos ensinar, fazer-nos ver, por exemplo,  a diferença entre a paixão (que prende), o amor (que nos dá asas, e por isso liberta) e a amizade (que forma o chão que nos dá firmeza). A história do sábio e de seu jovem interlocutor nos dá muitas pistas, especialmente para pautarmos nossa vida nesse novo ano.

O tempo de nossa vida que passou, mesmo profícuo e cheio de realizações, está perdido, não volta mais. Lá atrás ficaram acertos e erros, alegrias e tristezas, conquistas e decepções. Agora, o que fazer? Chorar o “leite derramado”? E se a nossa vida não foi assim tão cheia de realizações? Se não fizemos todo o bem que deveríamos ter feito? Se não gozamos as alegrias e os encontros, se não desfrutamos a beleza da natureza e os prazeres que estiveram disponíveis e nós deixamos e usufruir? A vida que se tem é uma só; não tem retorno. Quantos anos temos de vida? Qual a nossa expectativa? O que você faria se soubesse ter duas horas de vida? Ou dez dias? Ou um ano?

Por isto, os anos que nos restam precisam ser bem aproveitados para viver ou reviver coisas que deixamos de fazer, fortalecer a amizade com Deus, estreitar os laços com a família, ajudar a quem precisa de nosso apoio, pedir o perdão que deixamos de pedir, descer um pouco do pedestal e olhar as pessoas cara-a-cara. A cada dia que passa, nossa vida fica mais curta. É como um jogo que se aproxima dos “minutos finais”. Por que não tentar revisar a caminhada, ajeitando o que precisa ser ajeitado, no tempo que ainda nos resta?

A vida, como dizem os filósofos, vai e vem em ondas... Só que o que vai não volta, e o que volta nem sempre é a repetição daquilo que foi. Por isso os traumas e as decepções. O grande Fernando Pessoa é enfático ao afirmar que “tudo o que chega, chega sempre por alguma razão”. Nessa perspectiva, é preciso saber quando uma fase de nossa vida termina e começa a seguinte. É preciso encerrar ciclos, fechar portas, terminar capítulos. Não importa o nome que damos à mudança.

O que importa é enviar ao passado às instâncias superadas da vida atual, que chegaram, por uma razão ou outra, a seu fim. Perdeu o emprego? Seu amor foi embora? Saiu da casa dos pais? A amizade acabou? Você não deve perder tempo questionando porque tudo mudou. As mudanças podem acarretar um estresse, um desgaste imenso, e ficamos atados ao passado, mergulhados em uma angústia capaz de respingar nos outros, que nos vêem parados, chorosos, estáticos. A ninguém é permitido ficar no presente e no passado ao mesmo tempo. Há toda uma estrutura psico-social que precisa ser organizada, que se chama futuro. Porque caminhamos para a frente, o futuro é importante, e precisa ser construído a partir de um sólido hoje.

Não temas, segue adiante e não olhes  para trás...

É bom sentir saudades, sim, mas é preciso encarar a vida que caminha para frente. O que passou, a despeito de nossos protestos, não voltará. Não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, ou jovens culpados e rancorosos, que insistem em travar o tempo. As coisas passam, e o melhor que podemos fazer é deixar que elas realmente possam ir embora. É imperioso que nossos projetos sejam transferidos para o futuro. Saudade, sim; prisão às recordações, não! É salutar dar as coisas, limpar prateleiras, desfazer-se de roupas, doar livros velhos, expurgar cacarecos da casa e do espírito.

Tudo o que é visível atua como um símbolo do invisível que acolhemos em nosso coração. Desfazer-se de certas lembranças (especialmente das coisas ruins) é dar espaço para que as coisas novas possam acontecer em nosso interior. Tem gente que reconhece e enaltece nossos méritos; outros ignoram ou até desprezam esses valores. De nada adianta a gente ligar nossa “tevê emocional” na tentativa de ver filmes “retrô”. É bom recordar alguma coisa do passado, sem tornar-se refém dele. Não há nada mais perigoso que rupturas passadas que não foram superadas, sejam elas do tipo que forem.

O futuro é incerto; passado é memória. Só o presente é dádiva, e como tal deve ser encarado. Nossa vida é igual a um livro: antes de começar um capítulo é preciso, como um autor, terminar o anterior. Hábitos não são necessidades. Estão mais na linha dos vícios que das virtudes. Podemos viver sem eles. Encerram-se ciclos, não por medo, orgulho ou despreparo, mas porque simplesmente aquilo não se encaixa mais em nossas vidas.

A roupinha da “primeira comunhão” ou o terno da formatura não cabem mais em nós. São necessárias novas atitudes e providências para o futuro. Por isso, feche a porta, mude o penteado, limpe a casa, troque a roupa, mude a cor do quarto, abra as janelas. Agindo assim, você vai deixar de ser o que era, e se transformar em quem você é.

Vocês já notaram que, em alguns casos, depois de muito ralar, de repente a situação muda sem que tenhamos uma noção exata do por quê? Na realidade, as circunstâncias ao nosso redor mudam com freqüência, mas absortos no que ficou para trás, não nos damos conta dessas mudanças. As coisas da vida mudam quando nós mudamos interiormente. Quando insistimos em ver a situação apenas de forma pessimista, reduzida, sob apenas um ângulo, é difícil acharmos a saída. Nesse particular, as respostas geralmente não nos satisfazem.

Quem tem a fixação no passado, adquire para si um estado doentio de pessimismo e enfermidade. São aquelas pessoas que não tem nada grave, mas estão sempre com achaques, amoladas, e assim vão passando de uma “doença” para outra sem solucionar nenhuma delas. Na verdade não é doença, mas tédio de viver, ou falta de perspectiva (ou de coragem) para viver o presente e encarar o futuro. São pessoas “velhas”, mesmo tendo 20, 30 ou 40 anos, para as quais a vida está situada no passado que se foi, e não nos anos atuais ou no tempo que vem pela frente. Trata-se de covardes incapazes de programar e armar seu futuro.

O futuro se constrói hoje, sem o peso das dores do passado. É salutar visualizar a frente, sem olhar para trás. Quando se olha a vida por outro ponto de vista, vemos um leque de possibilidades de mudança e de felicidade. Esse é um poder que todos nós temos para mudar a realidade em que vivemos. Então, usem e abusem desse poder!

Em termos de olhar para trás, de estar comprometido com as coisas do passado, vale lembrar que muitas vezes os acontecimentos passados servem como pedra de tropeço para a vivência do hoje e, consequentemente, para a armação do futuro. Existem fatos que ocorreram há muitos anos em nossa vida, e que podem ser hoje relembrados, até por inspiração do Maligno, para nos fazer vacilar, duvidar da misericórdia de Deus ou enfraquecer nossa fé.

Não temas, segue adiante e não olhes  para trás...

Certa vez li um texto de um autor medieval, onde ele dizia que “Nada está fora do alcance da oração, exceto o que está fora da vontade de Deus”. A partir dessa afirmação é preciso que se saiba qual a vontade de Deus. O projeto de Deus pode ser diferente da nossa vontade. Oramos para que seja feita “a vossa vontade” (a vontade dele), mas no fundo queremos que Deus realize a nossa vontade, mesmo que isto esteja em desacordo com o projeto divino.

Ás vezes nosso desejo é que ocorra um milagre e um parente ou conhecido nosso fique imediatamente curado ou imune às dores da enfermidade. Será esse o projeto de Deus para o doente? O erro está em nós enxergarmos a vida humana dentro de um lapso de quarenta, sessenta ou oitenta anos. Deus enxerga aqui, agora e depois. Aqui e agora se resume em anos vividos e em sensações desfrutadas. O depois, a eternidade projetada por Deus é a “vida abundante” que Jesus veio trazer.

Num debate teológico imaginário com um místico, o diabo afirmou: “De que adianta vocês rezarem, rezarem sem serem atendidos? O líder de vocês (Jesus) disse que quem pedisse seria atendido, e quantos pedidos de vocês ficaram sem resposta?”. E foi adiante o Maligno: “vocês pedem pela saúde das pessoas e elas morrem... pedem para que sejam preservadas das dores e elas passam por sofrimentos terríveis.. de que adianta, então pedir? Acho que o líder de vocês mentiu!”. Vejam como o Malvado vai desenterrar coisas e fatos do passado para confundir o nosso coração, no intuito de nos levar à apostasia da fé. É esse o perigo de olhar para trás!

Uma afirmação dessa envergadura é capaz de comprometer as estruturas da fé das pessoas, de quem não está bem firme das suas convicções. De fato, são inúmeros os casos em que se reza pelas dores e sofrimentos de alguém e nossas orações caem no vazio, parecendo que não serviram para nada.

Nesse contexto, duas vertentes devem ser analisadas. A primeira é a biológica e a segunda se refere ao objeto de nossa oração. Ora, cada doença tem suas características. A gripe, por exemplo, é acompanhada do resfriado, febre, coriza, tosse e dores no corpo. É quase impossível imaginar um processo gripal sem esses transtornos. Aprofundando, qual é a doença que mais aflige a humanidade hoje? É o câncer, não é? Tem tanta gente que teme essa enfermidade que nem diz o nome, apenas resume em um lacônico “C.A.”. Pois bem, quais são as consequências do câncer? A dor, a diminuição da auto-estima, a perda do cabelo (fruto da quimioterapia) e a morte.

Ainda dentro da vertente biológica, cabe perguntar: por que adocemos? por que morremos?  Na verdade, se de um lado o homem traz a eternidade em si, de outro também há, em seu corpo a maturação da morte. Quando o homem começa a viver – afirma Martin Heidegger, ele já é suficientemente velho para morrer.

Ora, para quem traz consigo o germe da eternidade, para quem foi planejado para ser eterno, a morte é um drama e mais que isso: uma contradição. O drama da morte se amplia à medida em que se torna um duro golpe para o orgulho humano. Pensado imortal, o homem, em sua soberba, que a tudo pode comprar, dominar, não admite a impotência diante da inevitabilidade da morte. Sobre essa propensão para a morte, podemos recorrer a uma frase de Santo Agostinho: “A vida humana é essencialmente mortal”

Não temas, segue adiante e não olhes  para trás...

E o sofrimento? Por que existe?  Por que sofremos tanto? Será destino? Carma? Ou castigo divino? Embora criada com vistas à eternidade a matéria humana, por causa do pecado, é fraca, vulnerável, suscetível a lesões, dores, e degeneração. Deus não criou o mal, a dor e muito menos a morte e o sofrimento. Então, por que sofremos? Sofremos por nossa condição débil de constituição em uma matéria frágil. Assim mesmo, Deus nos dá a cura, o consolo, a esperança, a resignação, o discernimento, a fortaleza, conforme a circunstância. Jesus, em sua condição humana, morreu em meio a dores e sofrimentos. Isto faz parte da história do ser humano.

O fato é que nem Deus nem Jesus Cristo são aqueles sádicos que os ateus acusam, que geram e gozam com o sofrimento humano. Precisamos ver no sofrimento as mesmas raízes da morte: a fraqueza, a vulnerabilidade, a decomposição em potencial. A providência e o carinho de Deus nos protegem, mas certas coisas, determinadas circunstâncias, como doenças ou casos fortuitos são inevitáveis. Se as orações de todos, no sentido da cura e do livramento dos sofrimentos fossem atendidas, ninguém morria mais, e a população da terra cresceria de forma desordenada. Faz parte de um processo natural: enquanto uns nascem outros morrem.

É um erro, se não uma blasfêmia, afirmar que “foi Deus que mandou esse sofrimento!”, ou “Deus poderia ter evitado...”. O sofrimento é conseqüência da fraqueza de nossa matéria. Do mesmo modo, não podemos esperar que Deus interfira diretamente em nossas atividades particulares. É preciso confiar em Deus, sabendo que ele tem um projeto amoroso para a nossa vida. Vejam que texto interessante, que me passaram pela Internet.

“Havia uma criança que gostava de brincar aos pés da mãe, enquanto esta bordava. Ele sempre lhe perguntava o que estava fazendo. Ela respondia que estava bordando. Todo dia era a mesma pergunta e a mesma resposta. O garoto observava o trabalho de uma posição abaixo de onde ele se encontrava sentada e enxergava um amontoado de nós, e fios de cores diferentes, compridos, curtos, uns grossos e outros finos. E não entendia nada.

A mãe sorria, olhava para baixo e gentilmente explicava: Quando terminar meu trabalho você vai ver como ficou. Mesmo assim o menino continuava a se perguntar lá de baixo: Por que ela usava alguns fios de cores escuras e outros claros, parecendo tudo tão desordenado? Um dia, quando a criança estava brincando despreocupado, a mãe o chamou: Filho, venha aqui e sente em meu colo. O menino sentou no colo da mãe e se surpreendeu ao ver o bordado. Não podia crer!

Lá de baixo parecia tão confuso! E de cima viu uma paisagem maravilhosa! Então a mãe disse: Filho, de baixo parecia confuso e desordenado porque você não via que na parte de cima havia um belo desenho. Mas, agora, olhando o bordado da minha posição, você sabe o que eu estava fazendo”.

Quantas vezes, ao longo dos anos, temos olhado para o céu e perguntado a Deus: o que estás fazendo? Ele parece responder: Estou bordando a sua vida, filho. E continuamos perguntando: Mas está tudo tão confuso.... Pai, tudo em desordem. Há muitos nós, fatos ruins que não terminam e coisas boas que passam rápido. O Pai parece dizer: Meu filho, ocupe-se com seu trabalho, descontraia-se, confie em mim e... eu farei o meu trabalho. Um dia, colocarei você em meu colo e então vai ver o plano da sua vida da minha posição.

Muitas vezes não entendemos o que está acontecendo em nossas vidas. As coisas são confusas, não se encaixam e parece que nada dá certo. É que estamos vendo o avesso da vida. Do outro lado, Deus está bordando... É assim que ocorre com o projeto divino.

Como aceitar que um jovem estudante peça a Deus que lhe dê aprovação num exame vestibular e, tendo feito o pedido com as palavras certas, como se fosse um passe de mágica, obtenha a aprovação? Como ficariam outras dezenas ou centenas de jovens que, apesar de se terem esforçado, estudado convenientemente, não tendo falado as palavras certas para o pedido a Deus, percam a vaga em favor daquele que, mesmo não tendo se esforçado tanto, rezou melhor? A oração deve ter um componente coletivo e ético, para que o equilíbrio de um grupo social não seja alterado pelo egoísmo de um só.

A dor, o sofrimento e a corrupção física são fatores a que o corpo humano não está imune. É difícil entender o sofrimento. Mais difícil ainda é buscar, de males físicos, explicações espirituais, tais como “vontade de Deus”, “trabalho de bruxaria”, “olho grande”, “carma”  ou destino. Em uma revista cristã li a carta de uma jovem alemã, Doris Lussier, de dezoito anos, paciente terminal que fornece uma importante pista para que está em crise:

O que acho lindo na existência humana, apesar de sua aparente crueldade, é que para mim morrer não é terminar, mas continuar diferente. Um ser humano que se apaga, não é um mortal que termina; é um imortal que começa. O caixão é um berço. E a última noite de nossa vida temporal é a primeira manhã de nossa eternidade. “Ó morte tão nova! Ó única manhã!” dizia Bernanos. Pois a morte não é uma queda na escuridão, mas um salto na luz. Quando se tem a vida, só pode ser para sempre. A morte não pode matar o que não morre. Ora, nossa alma é imortal. Há somente uma coisa que pode justificar a morte e a dor: a imortalidade.

A dor, indiscutivelmente, é um mistério que, agregado à fragilidade de nossa carne, nos enche de temores. Ela pode ter três características:


· purifica (se aceita com espírito cristão de fé e esperança);

· leva o homem a refletir sobre sua fraqueza e finitude;
· pode levar ao desespero e à perdição, se recebida com revolta ou como castigo;  a não-assimilação do mistério da dor pode prejudicar a vida espiritual de familiares e amigos do enfermo.


Na segunda vertente, lá atrás aludida, está a forma equivocada como muitos de nós conduzimos as nossas orações, mais rezas (superficiais e repetitivas) do que propriamente orações (fruto de uma espiritualidade discernida). Como o próprio Jesus assinala, muitas vezes não recebemos porque não sabemos o que pedir.

Ora, se eu peço que meu amigo seja curado (de uma doença terminal, incurável) ou fique isento de dores (em um processo biologicamente doloroso) eu estou pedindo algo quase impossível. É certo que o nosso Deus ri das impossibilidades, já que ele tudo pode, mas em muitos casos ficamos como que tentando e testando a Deus, para vê-lo fazer um milagre. Pedimos que ele faça a nossa vontade. Será que seu projeto é este?

Não é melhor que no sofrimento (inerente à condição humana) e na proximidade da morte a pessoa reconheça suas fraquezas, peça perdão de seus pecados, e se reconcilie com Deus e com os irmãos? O sofrimento tem esse ingrediente pedagógico, é uma lição, um aprendizado. A “vida abundante” (cf. Jo 10,10) começa aqui, mas se realiza plenamente na eternidade. De que resolve uma pessoa saudável, sarada, longeva, mas ambiciosa, egoísta, cheia de pecados e de superficialidades, que no fim irá perder a sua alma?

É um erro – se não for uma blasfêmia – a gente pedir que seja feita a vontade de Deus (quem sabe a purificação que conduz à salvação) e no fundo desejar a realização na “nossa vontade” que pode gerar mais sofrimento e até a perdição eterna. A nossa oração deve estar focada na felicidade total da pessoa, onde a conquista do Reino é o ponto máximo.

Vocês não recebem porque não pedem; e vocês pedem e não recebem porque pedem mal (Tg 4,      2).


Sabem como eu oro pelos doentes? Primeiro eu listo o nome deles; depois eu os entrego à proteção de Deus, certo que ele fará o que é melhor para cada um deles. Não peço saúde, cura, ou que sejam levados. Simplesmente os coloco nas mãos do Pai, que conhece, melhor que eu, as necessidades de cada um.

Como não sabemos o que pedir, Deus não nos dá tudo o que pedimos, mas nos cumula de tudo o que é necessário, para nós e para os outros. Sempre há um componente escatológico nos dons de Deus. O bem maior não é a prosperidade material, a sabedoria, a saúde, a cura. A felicidade maior é a conquista da vida eterna, a ocupação da casa do Pai, no Reino dos céus. Tudo o que Deus faz emboca nesse sentido. É ali que se situa a felicidade e a perfeição do ser humano.

Um homem, devoto de Santo Antônio fez um pedido de intercessão para que, realizado um concurso, seu filho fosse chamado para assumir o emprego. Chamaram três ou quatro pessoas e o jovem ficou de fora. A pessoa se revoltou e “cobrou” do intercessor, confessando-se decepcionado com o fato. Mais tarde, depois de orar muito, iluminado pelo Espírito ele chegou à conclusão que estava errado. Ele pediu para “furar a fila”. Os candidatos chamados tiveram notas melhores. Não seria ético preteri-los. Depois, quem sabe não sendo chamado o filho foi preservado de algum acidente no trabalho? Em muitas oportunidades nossa oração é egoísta. Queremos soluções que passem por cima dos outros, das leis da natureza e mesmo do projeto de Deus. Às vezes oramos pela cura, quando o plano de Deus aponta outras soluções. A cura do espírito dura para a eternidade; a do corpo até a próxima doença.

Jesus alertou seus ouvintes, e a nós por extensão que “até agora muito pouco recebemos porque não soubemos pedir o que é necessário...”.  Se cremos que o Espírito Santo ensinará o que devemos dizer (cf. Lc 12,12), igualmente deverá nos ensinar a orar. Antes de começar nossas orações diárias, cabe uma epiclese, do tipo “Vinde Espírito Santo e enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor...”.

O fato que muitas vezes nos escapa é que “um com Deus é maioria”. Sozinhos não somos ninguém; com ele nos tornamos maioria. Se ele está ao nosso lado, quem se atreverá a ser contra nós? São Paulo nos aconselhou a “orar sem cessar” (cf. 1Ts 5,17), mas para orar precisamos pedir as luzes do Espírito. Não adianta sair pedindo coisas a torto-e-a-direito, sem o mínimo discernimento. Devemos orar sempre, não até Deus nos ouvir, mas até que possamos ouvir a Deus. No caso do sofrimento, da morte e das tragédias, não confunda a vontade de Deus, com a permissão de Deus.

Mas afinal, o que é olhar para trás? Como esse ato se afigura tão negativo para nossa vida material, psicológica e espiritual? Vamos buscar alguns subsídios nas Escrituras?

Ao raiar da aurora, os anjos insistiram com Ló, dizendo: “Levante-se, tome sua mulher e suas duas filhas que aqui se encontram, para que não pereçam no castigo da cidade” (Gn 19,15). Quando estavam fora, um deles disse: “Procure salvar-se, e não olhe para trás. Não pare em lugar nenhum da planície; fuja para a montanha, para não morrer” (v. 17). A mulher de Ló olhou para trás e se transformou numa estátua de sal (v. 26).

Biblicamente, o que significa “olhar para trás”? Sodoma era uma cidade onde imperava a corrupção, o pecado e a imoralidade. Olhar para trás é sentir saudades do passado. O povo no deserto, liberto do cativeiro do Egito, rumo à terra prometida, manifestou saudades da escravidão, ao se manifestar com saudade das cebolas do Egito. Sobre o erro de olhar para trás, o profeta adverte:

Assim fala o Senhor: “Não relembrem coisas passadas, não olhem fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas que já estão acontecendo” (Is 43, 18s).

Quem olha para trás, mesmo diante da oferta de um futuro luminoso, não se libertou da escravidão do passado. A mulher de Ló olhou para trás com saudade, quem sabe, dos círculos de amigos, das festas, da situação de pecado que grassava na cidade. O “homem novo”, liberto da maldade e do pecado, não pode olhar para trás, com saudade do tempo que era servo do Maligno. São Paulo nos adverte a esse respeito:

Se alguém está em Cristo, é nova criatura. As coisas antigas passaram; eis que uma realidade nova apareceu (2Cor 5,17).

Conheci uma senhora que passou muitos anos “de mal” com Deus, julgando que ele, quando ela tinha sete anos, “levou” o seu pai.

Libertar-se é andar para a frente, na direção da Terra Prometida, é seguir para um abrigo contra a destruição do pecado. É, sobretudo, ansiar pela acolhida e pelo conforto da casa do Pai. A esse respeito, São Paulo é bem claro:

Irmãos, não acho que eu já tenha alcançado o prêmio, mas uma coisa eu faço: esqueço-me do que fica para trás e avanço para o que está na frente. Lanço-me em direção à meta, em vista do prêmio do alto, que Deus nos chama a receber em Jesus Cristo (Fl 3, 13s).

Libertar-se é acreditar na obra de Jesus Cristo:

Por isso, se o Filho os libertar, vocês realmente ficarão livres (Jo 8,36)

Pelo batismo fomos sepultados com ele na morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim também nós possamos caminhar numa vida nova (Rm 6,4).

É no futuro que posso ir além dos meus limites. Isto, com relação ao passado é impossível. Não posso voltar e consertar as coisas erradas que fiz (ou fizeram para mim). O discípulo ou discípula de Jesus só anda para frente. É ele mesmo que nos adverte:

Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus (Lc 9,62)


O evangelho nos revela que Jesus disse, “aquele que coloca a mão no arado e olha para trás, não é digno do Reino do Pai”. O que significa aqui esse olhar para trás? Olhar para trás é lembrar o tempo obscuro na casa da servidão. Olhar para trás é revelar-se saudoso da época em que caminhávamos pelo deserto, sem a ajuda de Deus. Olhar para trás é desprezar a benção e os dons que Deus reservou para nós, lá adiante, num amanhã que começa hoje.

Imagine um homem trabalhando num arado. Visualizaram a cena? De repente, sei lá porque, ele olha para trás. O que acontece? Ou o serviço para, ou se continua, o traçado do arado é entortado, fazendo que ele passe por cima de áreas já plantadas, vá contra os animais domésticos, ponha em risco a casa e até a vida das pessoas. Ou, quem sabe, imaginem um motorista que, trafegando numa via movimentada, de repente resolvesse virar o rosto para trás. O desastre seria inevitável” Isto é o que acontece com quem vive “ligado” apenas no passado. O cristão, que desprezando sua missão, olha para trás só traz problemas para si e para os outros. Como dissemos, há algumas coisas boas no passado que merecem ser contempladas. Mas, olhar apenas para trás, como muitos o fazem, denuncia uma falta de confiança em si e ausência de fé no projeto de Deus para a nossa vida.

Para quem ainda está comprometido com os fantasmas do passado, para quem tem medo de viver o presente e – acima de tudo – quem se acha despreparado para encarar o futuro, Jesus tem uma frase que resume toda a sua ação desenvolvida em nosso favor:


Levantem suas cabeças! A libertação de vocês está próxima! (Lc 21,27)


Antônio Mesquita Galvão.
Pregador leigo, teólogo com doutorado <蔄ȏ>em Teologia Moral.


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