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sábado, 2 de julho de 2011

A espiritualidade Inaciana I


O que é a espiritualidade inaciana

Uma espiritualidade é uma forma concreta de viver a fé, normalmente surgida a partir
da experiência de alguém que se deixou “tocar” pelo Espírito de uma forma nova. Cada espiritualidade dá relevo a algum aspecto específico do modo de viver de Jesus. Talvez o exemplo mais conhecido seja a espiritualidade franciscana, centrada na vivência da pobreza e simplicidade de meios, com origem em São Francisco de Assis. O importante é perceber que não há espiritualidades melhores e outras piores, mas que cada pessoa é chamada a encontrar aquela com a qual mais se identifica, que mais a ajuda no seu caminho para Deus e de serviço aos outros.

A espiritualidade inaciana

A espiritualidade inaciana nasce a partir da vida de Santo Inácio de Loyola, basco nobre do séc.XVI que com mais 9 companheiros fundou a Companhia de Jesus. Ao longo de uma vida atribulada e crescentemente atenta à presença de Deus no seu interior, Inácio foi escrevendo o pequenino mas profundo manual dos Exercícios Espirituais, proposta de retiro capaz de proporcionar essa mesma experiência a outros. Esta espiritualidade é hoje seguida por um grande conjunto de pessoas, congregações religiosas e movimentos de leigos.

As 5 chaves da espiritualidade inaciana

i) Como ponto de partida, um Deus visto como o Absoluto da vida da pessoa, desejando a sua felicidade e o seu bem. Foi o próprio Inácio a descrever a sua experiência de Deus como a de “uma criança levada cuidadosamente pela mão”.
ii) Um Deus presente em todas as coisas, e por isso imprimindo nelas a sua bondade: tudo é bom! Ao contemplar o céu estrelado de Roma, Inácio sentia uma alegria e consolação profundas, pois as estrelas falavam-lhe poderosamente do seu Criador e Senhor.
iii) Um desafio, o de crescer em liberdade interior, disponibilidade constante para o uso certo de todos os bens. Inácio era também muito consciente dos “enganos do coração”, e conhecia por experiência própria como o egoísmo no uso de qualquer realidade (bens materiais, relações pessoais, situações, etc.) pode “desviar” o serviço do Bem no mundo. Daí a necessidade da liberdade interior que vem de estarmos centrados em Deus e voltados para o serviço dos homens. O pecado nasce precisamente da falta dessa liberdade, e mais do que não cumprir regras, é “errar o alvo” (origem etimológica da palavra) no caminho do que nos faz plenamente humanos.
iv) Uma arte, a de viver bem e com paz cada momento da vida, seja ele alegre ou mais difícil. Para Inácio, a vida “correr bem” ou “correr mal” não depende dos eventos exteriores, do maior ou menos sucesso, da saúde ou da doença. A promessa de Deus não é uma vida facilitada, mas a Sua presença e proximidade para ajudar a viver mesmo as circunstâncias mais duras. Por isso um aparente sucesso na vida, seja fama ou poder, pode afastar dos outros e do seu serviço; e um fracasso, pelo contrário, pode ter como resultado a consciência da não auto-suficiência e da necessidade dos outros e de Deus.
v) Um método, a forma de encontrar os desafios de Deus no coração do homem, partindo da consciência das consolações (alegria e paz interior) e desolações (inquietação e “falta de sintonia”). As primeiras indicam o caminho a seguir, as segundas revelam as opções a evitar.   

O magis inaciano

Característico da espiritualidade inaciana é a sua capacidade de fazer sair o melhor de cada um, (“magis” em latim) através do aprofundamento do mundo interior da pessoa onde o próprio Deus habita e se revela. O magis não é a perfeição segundo uma qualquer regra ou medida, mas o mais que é único em cada pessoa, onde as três dimensões da vida se encontram: o amor a Deus, o serviço ao próximo, e a felicidade de sabermos que estamos no caminho certo. Passa menos pela pessoa decidir que esforço quer oferecer a Deus, mas por em primeiro lugar se pôr à escuta: “Senhor, aqui estou! Onde queres que Te sirva?”
Quem “se mete” com Deus desta forma arrisca muito, pois Ele é pródigo em “ficar com o braço de quem lhe oferece a mão”. Porque Deus não pode nem quer melhorar o mundo sozinho, e precisa de cada um de nós para o fazer! Nas palavras de Teresa de Lisieux, “poucas pessoas sabem o que Deus faria com elas, se tivessem a coragem de se entregar a Ele completamente”. No fundo nada há a temer, pois Deus é o primeiro a desejar para nós a “vida em abundância”! Ainda hoje a espiritualidade inaciana desafia muitos a “não desistir dos seus grandes sonhos”.

Eterno Senhor de todas as coisas
Sinto que o teu olhar repousa sobre mim, sei que a tua Mãe está aqui ao lado e que à tua volta há uma multidão de homens e mulheres, de mártires e de santos. Com a tua ajuda queria oferecer-me a Ti. É a minha mais firme determinação e desejo, se Tu me aceitas, proceder neste mundo como Tu procedeste. Sei que viveste numa pequena aldeia, sem comodidades, sem educação especial, sei que recusaste o poder político, sei o muito que sofreste. As autoridades recusaram-Te, os amigos abandonaram-Te. Mas para mim é algo maravilhoso que me convides a seguir-Te de perto.

Oração retirada dos Exercícios Espirituais [EE 98]
(e atualização por Joseph Tetlow sj)

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