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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Espiritualidade Cristã


Fonte de Verdadeira Espiritualidade Cristã
Textos selecionados da Encíclica «Orientale Lumen»

Sumário

5.Um Pai no Espirito


Existem no Oriente (cristão) as riquezas daquelas tradições espirituais que encontraram sua expressão principalmente no monaquismo. Pois ali, desde os tempos gloriosos dos santos Padres, floresceu aquela espiritualidade monástica, que se estendeu depois até o Ocidente e da qual procede, como de sua fonte, a instituição religiosa dos latinos; e que, mais tarde, recebeu também do Oriente um novo vigor. Pelo que se recomenda a todos os católicos que se aproximem dessas riquezas espirituais dos Padres Orientais que elevam o homem à contemplação do divino.
1. Entre memória e espera

Freqüentemente nos sentimos hoje prisioneiros do tempo presente: é como se o homem tivesse perdido a consciência de tomar parte em uma história que o precede e o segue. A essa dificuldade para situar-se entre o passado e o futuro, com espírito de gratidão pelos benefícios recebidos e por aqueles que se esperam, de modo especial as Igrejas do Oriente manifestam um acentuado sentido da continuidade que se pode chamar Tradição e espera escatológica.
A Tradição é patrimônio da Igreja de Cristo, memória viva do Ressuscitado encontrado e testemunhado pelos Apóstolos, que depois transmitiram sua recordação viva e seus sucessores, em uma linha ininterrupta que é garantida pela sucessão apostólica, mediante a imposição das mãos, até os Bispo de hoje.
Essa Tradição se desenvolve no patrimônio histórico e cultural de cada Igreja, modelado nela pelo testemunho do mártires, dos padres e santos, assim como pela fé viva de todos os cristãos no decurso dos séculos, até os novos dias. Não se trata de uma repetição inalterada de fórmulas, mas de um patrimônio que conserva vivo o núcleo kerigmático originário. Essa tradição é a que preserva a Igreja do perigo de recolher somente opiniões mutáveis e garanta a sua certeza e continuidade.
Se a tradição nos situa em continuidade com o passado, a espera escatológica nos abre ao futuro de Deus. Cada Igreja deve lutar contra a tentação de absolutizar o que realiza e, por isso, de auto-celebrar-se ou de abandonar-se ao pessimismo. O tempo é de Deus e tudo o que se realiza não se identifica com a plenitude do Reino, que é sempre dom gratuito.
O Oriente expressa de modo vivo as realidades da tradição e da espera. Toda sua liturgia, em particular, é memorial da salvação e invocação da volta do Senhor. E se a Tradição ensina às Igrejas a fidelidade ao que as gerou, a espera escatológica as impulsiona a ser o que ainda não são em plenitude e que o Senhor quer que cheguem a ser, e, portanto, a buscar sempre caminhos novos de fidelidade, vencendo o pessimismo por estar projetadas para a esperança de Deus que não nos decepciona.
2. O Monaquismo como exemplaridade da vida batismal

Desejo agora contemplar o vasto panorama do cristianismo do Oriente situando-me em uma altura particular; de lá podemos descobrir muitas de suas características:
– O monaquismo
No Oriente, o monaquismo conservou uma grande unidade, não conhecendo, como no Ocidente, a formação dos diferentes tipos de vida apostólica. As várias expressões da vida monástica, desde o rígido cenobitismo, como o concebiam os santos Pacômio e Basílio, até ao eremitismo mais rigoroso de Santo Antão ou de S. Macário o Egípcio, correspondem mais a fases diferentes do caminho espiritual do que à escolha entre diferentes estados de vida. De fato, todos fazem apelo ao monaquismo em si, qualquer que se já a forma com a qual se exprima.
Além disso, o monaquismo não foi visto no Oriente apenas como uma condição à parte, própria de uma categoria de cristãos, mas particularmente como ponto de referência para todos os batizados, na medida dos dons oferecidos a cada um pelo Senhor, propondo-se como uma síntese emblemática do cristianismo.
Quando Deus chama de uma forma total como na via monástica, então a pessoa pode atingir o ponto mais elevado de tudo aquilo que a sensibilidade, cultura e espiritualidade são capazes de exprimir. Isso é válido com maior razão para as Igrejas Orientais, nas quais o monaquismo constituiu uma experiência essencial que ainda hoje floresce nelas, logo que termina a perseguição e os corações podem elevar-se livremente para os céus. O mosteiro é o lugar profético no qual a criação se torna louvor de Deus e o preceito da caridade, vivida concretamente, se torna ideal de convivência humana, e onde o ser humano procura Deus sem barreiras nem impedimentos, tornando-se referência para todos, levando-os no coração e ajudando-os a procurar Deus.
Considerarei o monaquismo para nele individuar aqueles valores que hoje sinto muito importantes para exprimir o contributo do Oriente cristão para o caminho da Igreja de Cristo em direção ao Reino. Estes aspectos, embora às vezes não sejam exclusivos quer da experiência monástica, quer do patrimônio do Oriente, todavia, freqüentemente adquiriram nele uma conotação particular. De resto, nós estamos a procurar valorizar não a exclusividade, mas o enriquecimento recíproco naquilo que o único Espírito suscita na única Igreja de Cristo.
O monaquismo foi desde sempre a própria alma das Igrejas Orientais, os primeiros monges cristãos nasceram no Oriente e a vida monástica foi parte integrante da Lumen oriental transmitida ao Ocidente pelos Padres da Igreja indivisa.
Os fortes traços que unem a experiência monástica do Oriente e do Ocidente tornam-na uma ponte admirável de fraternidade, onde a unidade vivida resplandece até mais do que se pode manifestar no diálogo entre as Igrejas.
3. Entre a Palavra e a Eucaristia

O Monaquismo revela de maneira particular que a vida está suspensa entre dois vértices: a Palavra e a Eucaristia. Isso significa que ele é sempre, inclusive nas suas formas eremíticas, resposta pessoal e uma chamada individual e simultaneamente acontecimento eclesial e comunitário.
A Palavra de Deus é o ponto de partida do monge: uma Palavra que chama, que convida, que pessoalmente interpela, como aconteceu com os apóstolos. Quando uma pessoa é atingida pela Palavra, nasce a obediência, isto é, a escuta que muda a vida. Diariamente o monge alimenta-se com o pão da Palavra. Privado dele, é como se estivesse morto, e não tem mais nada para comunicar aos irmãos, porque a Palavra é Cristo, com quem é chamado a conformar-se.
Mesmo quando canta com os seus irmãos a oração que santifica o tempo, ele continua a sua assimilação da Palavra. A riquíssima hinografia litúrgica, da qual justamente se sentem orgulhosas todas as Igrejas do Oriente cristão, não é senão a continuação da Palavra lida, compreendida, assimilada e finalmente cantada: aqueles hinos são em grande parte paráfrases sublimes do texto bíblico, filtradas e personalizadas através da experiência do indivíduo e da comunidade.
Perante o abismo da misericórdia divina, ao monge não resta senão proclamar a consciência da própria pobreza radical, que imediatamente se torna invocação e grito de júbilo por uma salvação ainda mais generosa porque inesperada no abismo da própria miséria. Eis porque a invocação de perdão e a glorificação de Deus constituem a substância de grande parte da oração litúrgica. O cristão vive imerso no assombro deste paradoxo, o último de uma série infinita, toda ela enobrecida de reconhecimento na linguagem da liturgia: o Imenso torna-se limite, uma Virgem dá a luz; através da morte, Aquele que é a vida vence a morte para sempre; no alto dos céus, um corpo humano está sentado à direita do Pai.
No apogeu desta experiência orante, está a Eucaristia, o outro vértice ligado indissoluvelmente à Palavra, enquanto lugar no qual a Palavra se faz Carne e Sangue, experiência celeste onde ela volta a ser acontecimento.
Na Eucaristia, manifesta-se a natureza profunda da Igreja, comunidade dos convocados à sinopse para celebrar o dom daquele que é oferente e oferta: eles, participando nos Santos Mistérios, tornam-se "consangüíneos" de Cristo, antecipando a experiência da divinização no laço, já inseparável, que, em Cristo, liga divindade e humanidade.
Mas a Eucaristia é também aquilo que antecipa a pertença de homens e coisas à Jerusalém celeste. Revela assim cabalmente a natureza escatológica: como sinal vivo de tal expectativa, o monge continua e leva à plenitude na liturgia a invocação da Igreja "maranatha" repetido continuamente não só com palavras, mas a existência inteira.
4 Um olhar límpido à descoberta de si próprio

Para Cristo, o Homem-Deus, volta-se o olhar do monge: no seu rosto desfigurado, homem das dores, ele já divisa o anúncio profético do rosto transfigurado do Ressuscitado. Ao olhar contemplativo, Cristo revela-se como às mulheres de Jerusalém, que subiram a contemplar o espetáculo misterioso do Calvário. E assim, formado naquela escola, o olhar do monge habitua-se a contemplar Cristo também nas pregas escondidas da criação e na história dos homens, também ela inserida na sua conformação progressiva ao Cristo total.
O olhar, progressivamente cristificado, aprende desta maneira a separar-se da exterioridade, do turbilhão dos sentidos, isto é, de tudo aquilo que impede ao homem aquela suave disponibilidade a deixar-se agarrar pelo Espírito.
Percorrendo este caminho, ele deixa-se reconciliar com Cristo num processo incessante de conversão: na consciência do próprio pecado e do afastamento do Senhor, que se torna contrição do coração, símbolo do próprio batismo na água salutar das lágrimas, no silêncio e na quietude interior procurada e doada, onde se aprende a fazer bater o coração de harmonia com o ritmo do Espírito, eliminando toda a duplicidade ou ambigüidade.
Este tornar-se cada vez mais sóbrio e essencial, mais transparente a si próprio, pode fazê-lo cair no orgulho e na intransigência, se chegar a considerar que isso é fruto do seu esforço ascético. O discernimento espiritual, na purificação contínua, torna-o então humilde e manso, capaz de perceber apenas alguns traços daquela verdade que o sacia, porque é dom do Esposo, somente Ele plenitude de felicidade.
Ao homem que procura o significado da vida, o Oriente oferece esta escola para se conhecer e ser livre, amado por aquele Jesus que disse: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei" (MT 11,28). A quem procura o restabelecimento interior, Ele convida a continuar a procurar: se a intenção é reta e o rumo honesto, no fim o rosto do Pai far-se-á reconhecer, pois está impresso nas profundidades do coração humano.
5. Um Pai no Espírito

O itinerário do monge, em geral, não está somente marcado pelo esforço pessoal, mas também assinala a presença de um pai espiritual, ao qual ele se abandona com filial confiança, seguro de que nele se manifesta a terna e exigente paternidade de Deus. Esta figura dá ao monaquismo oriental uma ductibilidade extraordinária: com efeito, por ação do pai espiritual, o caminho de todo monge se encontra fortemente personalizado nos tempos, nos ritmos e nos modos da busca de Deus. Precisamente porque o Pai espiritual é o ponto de encontro e harmonização, isso permite ao monaquismo a maior variedade de expressões cenobíticas e eremíticas. Assim, o monaquismo no Oriente pôde exprimir a realização das expectativas de cada Igreja, nos diferentes períodos de sua história.
(Nota 31: São significativas, por exemplo, as experiências de António (cf.Atanásio, Vida de Antonio, 15; PG 26,865); de Pacômio, (cf. Vidas Coptas de Pacômio e seus sucessores, ed.L.Th.Lefort 1943, 3); e o testemunho de Evágrio Pôntico, Praktikós, 100 (SChr 171,710).
Nesta busca, o Oriente ensina de modo particular que existem irmãos e irmãs aos quais o Espírito concedeu o dom do aconselhamento espiritual: são pontos de referência valiosos, porque sabem olhar com os olhos do amor que Deus possui. Não se trata de renunciar à própria liberdade, para que os outros nos dirijam: trata-se de tirar proveito do conhecimento do coração, que é um verdadeiro carisma, para que nos ajudem, com doçura e firmeza, a encontrar o caminho da verdade.
Nosso mundo tem grande necessidade de pais. Freqüentemente os afastou porque lhe pareciam pouco confiáveis, ou porque o seu modelo dava a impressão de já estar superado e pouco atraente para a sensibilidade do momento. No entanto, esse mesmo mundo tem dificuldade para encontrar outros novos, e por isso sofre com medo e insegurança, sem modelos e sem pontos de referência. O que é pai no Espírito, se o é de verdade – e o povo de Deus tem sempre demonstrado que sabe reconhecê-lo – não tornará os outros iguais a si mesmo, mas os ajudará sim a encontrar o caminho para o Reino.
Bem cedo, também ao Ocidente foi concedido o dom admirável de uma vida monástica, tanto masculina como feminina, que conserva o dom da direção no Espírito e merece ser valorizada. Oxalá que nesse âmbito e onde for que a graça de Deus suscite esses valiosos instrumentos de amadurecimento interior, os responsáveis cultivem e valorizem um tal dom e todos dele se utilizem: experimentarão assim como a paternidade no Espírito é consolo e ajuda para o seu caminho de fé.
6. Comunhão e serviço

Graças precisamente ao progressivo desapego do que, no mundo, impede conseguir a comunhão com o seu Senhor, o monge considera o mundo como lugar onde se reflete a beleza do Criador e o amor do Redentor. Em sua oração o monge pronuncia uma epiclese do Espírito sobre o mundo e está seguro de que será escutado, porque essa oração faz parte da própria oração de Cristo. Sente assim nascer em si mesmo um amor profundo para com a humanidade, o amor que a oração, no Oriente, freqüentemente celebra como atributo de Deus, amigo dos homens, que não duvidou em entregar o seu Filho para que o mundo fosse salvo. Com essa atitude, pode o monge, às vezes, contemplar esse mundo já transfigurado pela ação divinizadora de Cristo, morto e ressuscitado.
Qualquer que seja a modalidade (de vida) que o Espírito lhe reserva, o monge será sempre, essencialmente, o homem da comunhão. Com esse nome procurou-se indicar, já na Antigüidade, o estilo monástico da vida cenobítica. O monaquismo nos mostra que não existe uma autêntica vocação que não nasça da Igreja e para a Igreja. Disso dá testemunho a experiência de tantos monges que, encerrados em suas celas, levam em sua oração uma paixão extraordinária não somente pela pessoa humano, mas também por toda criatura, na invocação incessante para que todos se convertam à corrente salvífica do amor de Cristo. Esse caminho de liberação interior na abertura ao Outro, transforma o monge no homem da caridade. Na escola do apóstolo Paulo que revela ser a caridade a plenitude da lei (Rm 13,10), a comunhão monástica oriental sempre tratou de garantir a superioridade do amor em relação a qualquer lei.
Essa caridade se manifesta, antes de tudo, no serviço aos irmãos na vida monástica, mas também, à comunidade eclesial, nas formas que variam segundo os tempos e lugares e vão desde as obras sociais até a pregação itinerante. As Igrejas do Oriente viveram com grande generosidade esse compromisso, começando pela evangelização que é o serviço mais alto que o cristão pode prestar a seu irmão, para prosseguir com muitas formas de ajuda espiritual e material. A mais ainda, pode-se dizer que o monaquismo foi, na Antigüidade, e várias ocasiões, e também em tempos posteriores, o instrumento privilegiado para a evangelização dos povos.
7. Uma pessoa em relação

A vida do monge dá razão à unidade que existe no Oriente, entre espiritualidade e teologia: o cristão e o monge em particular, mais que buscar verdades abstratas, sabem que somente o Senhor é verdade e vida, mas sabem também que Ele é o caminho (Jo 14,6) para ambas alcançar. Conhecimento e participação são, portanto, uma só realidade: da pessoa ao Deus Trino e através da encarnação do Verbo de Deus.
O Oriente nos ajuda a delinear, com grande riqueza de elementos, o significado cristão da pessoa humana. Está ele centrado na Encarnação, que ilumina a própria criação. Em Cristo, verdadeiro Deus, e verdadeiro homem, se revela a plenitude da vocação humana: para que o homem chegasse a Deus, o Verbo assumiu a humanidade. O homem, que experimenta continuamente o gosto amargo de seu limite e de seu pecado, não se abandona à recriminação ou à angústia, porque sabe que em seu interior atua o poder da divindade. A humanidade foi assumida por Cristo sem separação da natureza divina e sem confusão, e o homem não permanece só, para tentar, de mil maneiras, freqüentemente frustradas, uma impossível ascensão ao céu: há um tabernáculo de glória que é a pessoa santíssima de Jesus o Senhor, onde o humano e o divino se encontram em um abraço que nunca poderá desfazer-se: o Verbo se fez carne, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado. Ele derrama a divindade no coração enfermo da humanidade e infunde-lhe o Espírito do Pai, a torna capaz de chegar a ser Deus por graça.
Porém, se isso nos foi revelado pelo Filho, então nos foi concedido aproximar-nos do mistério do Pai, princípio da comunhão no amor. A Trindade santíssima se nos apresenta então como uma comunidade de amor: conhecer a esse Deus significa sentir a urgência de que fale ao mundo, de que se comunique; e a história da salvação não é mais que a história do amor de Deus à criatura que amou e escolheu, querendo-a "segundo o ícone do ícone" – como expressa a intuição dos Padres Orientais (cf. São Irineu, Contra as Heresias, V.16,2; SC 153/2; Iv, 33,4; SC 100/2 811; São Atanásio, Contra os gentios, 2-3 e 34; PG 25 e 68-69; A Encarnação do Verbo, 12-13; SC 228-231), a saber, criada à imagem da Imagem, que é o Filho, levada à comunhão perfeita pelo santificador, o Espírito de amor. E mesmo quando o homem peca, esse Deus o busca e o ama, para que a relação não se quebre e o amor continue existindo. E o ama no mistério do Filho, que se deixou matar na cruz por um mundo que não o reconheceu, mas ressuscitou pelo Pai, como garantia perene de que ninguém pode matar o amor, porque aquele que participa desse amor foi tocado pela glória de Deus: esse homem transformado pelo amor é aquele que os discípulos contemplaram no Tabor, o homem que todos nós somos chamados a ser.

8. Um silêncio que adora

Agora bem, esse mistério continuamente se oculta, se cobre de silêncio (O silêncio é um elemento essencial da espiritualidade monástica oriental. Cf. Vida e ditos dos Padres do Deserto: PG 65,72-456; Evágrio Pôntico, Os fundamentos da vida monástica: PG 40, 1.252-1.264), para evitar que, em lugar de Deus, construamos um ídolo. Somente em uma purificação progressiva do conhecimento de comunhão, o homem e Deus se encontrarão e reconhecerão, no abraço eterno, sua conaturalidade de amor nunca destruída.
Nasce assim o que se costuma chamar o apofatismo do Oriente cristão: quanto mais cresce o homem no conhecimento de Deus, tanto mais o percebe como mistério inacessível, inatingível em sua essência. Isso não se deve confundir com um misticismo obscuro, onde o homem se perde em enigmáticas realidades impessoais. Mais ainda, os cristãos do Oriente se dirigem a Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, pessoas vivas, ternamente presentes, às quais tributam uma doxologia litúrgica solene e humilde, majestosa e simples. No entanto, percebem que a essa presença nos aproximamos, sobretudo quando deixamo-nos educar por um silêncio orante, porque no cume do conhecimento e da experiência de Deus está sua absoluta transcendência. A ela se chega, mais que por uma meditação sistemática, mediante a assimilação orante da Escritura e da Liturgia.
Nesta humilde aceitação do limite da criatura diante da infinita transcendência de um Deus que não cessa de revelar-se como Deus- Amor, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, na alegria do Espírito Santo, vejo expressada a atitude da oração e o método teológico que o Oriente prefere e continua oferecendo a todos os que acreditam em Cristo.
Devemos confessar que todos temos necessidade deste silêncio carregado de presença adorada: a teologia, para poder valorizar plenamente a sua própria alma sapiencial e espiritual; a oração, para que nunca se esqueça de que ver a Deus significa descer do monte com um rosto tão radiante que nos force a recobri-lo com um véu (Ex 34,33) e para que nossas assembléias possam dar espaço à presença de Deus, evitando celebrar a si próprias; a pregação, para que não se engane pensando que basta multiplicar as palavras para atrair os homens à experiência de Deus; o compromisso, para renunciar a fechar-se em um luta sem amor e perdão.
Desse silêncio tem necessidade o homem de hoje, que freqüentemente não sabe calar-se, por medo de encontrar-se consigo mesmo, de descobrir-se a si próprio, de sentir o vazio que se interroga por seu significado; o homem aturdido pelo ruído. Todos, tanto crentes como não crentes, necessitam aprender o silêncio que permite ao Outro falar, quando quiser e como quiser, e a nós, permite compreender essa palavra.

Fonte:
(Editrice Vaticana)

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