Total de visualizações de página

domingo, 31 de julho de 2011

CONTEMPLAÇÃO E DIÁLOGO

 

CONTEMPLAÇÃO E DIÁLOGO

Em nossos dias, o homem, ameaçado de ruína por todos os lados, é ao mesmo tempo assediado por promessas ilusórias de felicidade. Tanto as promessas quanto as ameaças freqüentemente têm a mesma origem política. Tanto o céu quanto o inferno, assim [nos dizem], tornaram-se possibilidades imediatas, a se realizar aqui na terra. É verdade que o inferno emocional e o céu que trazemos dentro de nós tendem mais e mais a se tornarem propriedades públicas e comuns. E, com o passar do tempo, parece evidente que o que cada um de nós tem a partilhar com seus semelhantes é mais nosso próprio inferno do que nosso céu.
Pois o desejo que em segredo nutrimos no íntimo de nossas almas como nosso “céu”, ao ser oferecido como solução para problemas coletivos, algumas vezes se torna o inferno de todos. Essa é uma das características peculiares da civilização do século XX e uma das causas de seu mal-estar.
Em meio a esse caos moral e emocional, psicólogos populares e instrutores religiosos, homens de otimismo patético e de boa vontade, afainam-se na esperança de transmitir sua reconfortante mensagem. Raramente preocupados com a vida depois da morte, seja boa ou má, como certamente convém a homens do nosso tempo, querem eles endireitar as coisas para nós aqui e agora. Querem que nos sintamos, a todo custo, inspirados e animados. Atormentam-se com nossa aflitiva tendência de ver o lado negro da vida moderna, porque são capazes de imaginar que ela tem um lado luminoso perdido em algum canto. Afinal, não fizemos os mais notáveis progressos? O padrão de vida não está subindo dia a dia, e nosso quinhão aumentando a cada dia, de modo que em breve teremos de trabalhar cada vez menos e poderemos fruir cada vez mais? Com uma pitada de auto-ajuda psicológica e um mínimo decente de conformidade religiosa, poderemos nos adaptar à vacuidade de uma vida tão maravilhosamente desprovida de luta, sacrifício ou esforço. Esses benevolentes conselheiros querem reavivar nossa confiança em todos os gestos de bom sentimento burguês que magicamente transformarão a dor em prazer e a tristeza em alegria, pois Deus está em seu Céu e tudo vai bem com o mundo.
Numa tal época seria singularmente desagradável e desonesto de minha parte afirmar que a paz, a alegria e a felicidade são facilmente encontradas no trecho mais árido da jornada espiritual do homem: a vida de contemplação.
(...)
Antes de sequer começar a pensar em algo como a contemplação, a primeira coisa que você deve fazer é tentar recuperar sua unidade natural fundamental, reintegrar seu ser fragmentado em um todo simples e aprender a viver como uma pessoa humana unificada. Isso significa que você tem de reunir os fragmentos de sua existência dissipada, para que, quando disser “eu”, haja realmente alguém presente para dar sentido e suporte ao pronome que acaba de pronunciar.
Reflita, algumas vezes, sobre o inquietante fato de que a maior parte das afirmações que você faz sobre suas próprias opiniões e esperanças, bem como sobre seus gostos, atos, desejos e temores, são afirmações sobre alguém que não está presente, Quando você diz “eu acho”, freqüentemente não é você quem acha, são “eles” – é a autoridade anônima da coletividade falando por meio da máscara “você”. Quando você diz “eu quero”, algumas vezes está somente realizando um gesto automático de aceitar, ou pagar, o que lhe foi impingido. Quer dizer, só está querendo aquilo que fizeram você querer.
TRECHOS DO PRIMEIRO CAPÍTULO, “CONTEMPLAÇÃO E DIÁLOGO”, DE “A EXPERIÊNCIA INTERIOR - THOMAS MERTON”.
“eu”, haja realmente alguém presente para dar sentido e suporte ao pronome que acaba de pronunciar.
Reflita, algumas vezes, sobre o inquietante fato de que a maior parte das afirmações que você faz sobre suas próprias opiniões e esperanças, bem como sobre seus gostos, atos, desejos e temores, são afirmações sobre alguém que não está presente, Quando você diz “eu acho”, freqüentemente não é você quem acha, são “eles” – é a autoridade anônima da coletividade falando por meio da máscara “você”. Quando você diz “eu quero”, algumas vezes está somente realizando um gesto automático de aceitar, ou pagar, o que lhe foi impingido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

“Todo o conteúdo destes Blog é livre para uso, até porque o Espírito Santo não cobra 'Direitos Autorais' ”