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terça-feira, 14 de junho de 2011

Teologia das Virtudes Ascéticas

 A Humildade

Cristo, Aquele que detém todo poder, honra e glória, fez-se pequeno, viveu entre os homens, humilhou-se, foi pregado à cruz entre malfeitores. Diante dos olhos humanos não voltados a Deus seria apenas mais um fracasso. Entretanto foi assim que venceu o pecado, da morte trouxe-nos à vida. Se Deus, a quem tudo devemos, assim procedeu, quanto mais toda a humanidade está obrigada a reconhecer-se tal qual é, dependente de seu Senhor.

A humildade fundamenta-se na verdade, por nos conhecermos tais quais somos, e na justiça, ao nos tratarmos de acordo com este conhecimento, como verdadeiramente merecemos. Dizem as Escrituras que "quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo" (Gl 6,3). Não é, entretanto, humildade apenas conhecer-se e, vendo seus defeitos, encobri-los. Pelo contrário, o cristão deve reconhecer sua miséria e nela se comprazer. Precisamos aceitar que tudo em nós que há de bom vem de Deus. "Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade" (Tg 1,17). A humildade nos levará a admitir, mais que a isso, que tudo que há de mal em nós, isto sim, é nosso.

Certamente há coisas boas no homem, mas a admiração por elas deve ser dirigida a Deus, uma vez que é Ele que nos concede todas as graças, dons e talentos que porventura tenhamos. Lembremos o que o próprio Jesus disse: "Sem mim nada podeis fazer" (Jô 15,5). De que adiantará cultivar as demais virtudes, não tendo em si humildade para mantê-las? "Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós" (2 Cor 4,7). Se não permanecermos com Deus este vaso facilmente se quebrará. Devemos, portanto, reconhecê-Lo como fonte de todas as graças, de quem não podemos nos separar se quisermos conservá-las e nutri-las: é d'Ele o poder de dar e tirar.

Já nascemos maculados pelo pecado original, mas mereceríamos eternas humilhações principalmente pelos pecados atuais cometidos. Os homens quiseram ser deuses, e por isso a humanidade decaiu. Cristo, sendo Deus, para nos salvar fez-se homem. Nada que pudéssemos fazer expiaria nossas ofensas a Deus, não fosse pela sua encarnação, paixão, morte e ressurreição, que deu-nos a possibilidade de redenção. A humildade torna o homem livre, uma vez que seu exercício exige expropriação do próprio eu. Aquele que é livre não vive preso a si, mas se abre a Deus e ao próximo. A soberba de achar-se acima de tudo, quando a verdade nos faria reconhecer que não estamos neste patamar, é que realmente escraviza o homem. Esta virtude nos leva a temer a Deus, não somente pelos castigos, mas por reverência e adoração. Por conseqüência, os que temem a Deus serão também obedientes, pois nada desejarão senão fazer a Santa Vontade Divina, reconhecendo-se dependentes de seu Senhor.

A confiança em Jesus Cristo nos levará até sua Casta Esposa, a Igreja. A Ela devemos nos curvar, pois detém toda Verdade. Cristo-Cabeça a conduz e nós, bons filhos, devemos amá-La e submetermo-nos a Ela. No Romano Pontífice encontra-se o fundamento visível desta Igreja, e também a ele devemos total obediência, pois sendo sucessor de Pedro recebeu as chaves dos Céus, tendo autoridade infalível. Negar a Igreja, o Papa, e tudo que deles provém, é negar o próprio Cristo. Quem prefere a si ante a Verdade não pode ser considerado, pois, humilde.

A obediência se estende aos nossos superiores. Por serem homens, muitas vezes pensamos que não são dignos de tal, mas devemos lembrar que muito menos somos nós. Além disso, é preciso ter em mente que toda autoridade terrena emana dos Céus: “Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação” (Rm 13,1-2).

O silêncio, quando a fala não se faz necessária, é também ato de humildade. Não apenas calar diante das zombarias e fofocas, mas tudo quanto puder evitar que possa quedar em vaidade, parecendo sábio ou merecedor de qualquer honra. Amemos o silêncio da Virgem Maria, que tudo calava e meditava em seu coração.

Não se confunda, entretanto, o santo silêncio com a falsa humildade, que muitas vezes nos leva a calar perante as injustiças do mundo, mentiras e calúnias a Nosso Senhor, por conveniências ou vergonha. Contra isso já dizia o Apóstolo: "é, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo" (Gl 1,10). A humildade também nos levará a confessar nossa fé no Cristo e abraçar tudo que dela advenha, ainda que nos custe. Assim o cristão é chamado a ser sal da Terra e luz do mundo, e isso não acontecerá sem a devida humildade. Dar sabor à sua vida e à de todos que o rodeiam só será possível tendo em vista o Senhor, será Ele quem brilhará por nosso intermédio. Sem Ele ficamos apagados e invisíveis em meio à escuridão do mundo. Por isso é preciso dar a Deus seu devido lugar, podendo tornar-se, somente deste modo, farol que leva a Luz que é Cristo a todos e que todos atrai a Ele, fazendo que cheguem ao porto seguro de Nosso Senhor.

Importante salientar que a soberba não encanta corações. Não somos donos da verdade. Para levar a Verdade ao mundo temos que nos fazer escravos desta mesma Verdade. Isso se dará através do testemunho de vida, uma vez que aquele que se coloca nos braços de Deus e tudo a Ele entrega, faz de sua fé algo concreto. Mais que conhecer, é preciso ser. E quem busca assim proceder sabe das dificuldades que encontrará no caminho, e por isso mesmo jamais desanima, colocando sua esperança no Senhor. Sabe de suas misérias, e são elas que podem o levar a anunciar as maravilhas do Reino de Deus, porque Ele é Bom e Misericordioso, nos acolhe e perdoa sempre que acorremos a Ele de coração contrito.

As graças recebidas, para o humilde, não são para proveito próprio, mas para a glória de Deus que se mostra Pai amoroso e misericordioso. Entende que tudo quanto lhe foi dado é por vontade divina. O Senhor, ao encontrar alma humilde, vazia de si mesma e, portanto, tão bem disposta a recebê-Lo, deseja enche-la com sua graça e aí se delicia. Assim, nos lembram as Escrituras, que o Senhor "resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes" (1Pe 5,5). Se nos surge a dúvida de como proceder para sermos humildes, Cristo antecipou-se vindo em nosso auxílio, dando Ele mesmo, através de sua vida e morte, uma resposta: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mt 11,29).

Cristo não prevaleceu-se de sua igualdade com Deus ao se fazer homem. Não precisaria para sua encarnação da cooperação humana, mas quis vir até nós pequeno e por intermédio da obediência de sua serva, Santa Maria, que o recebeu em seu ventre e em sua alma. Nasceu sem luxo, pois todos lhe negaram abrigo. Sendo Rei, foi acolhido apenas por alguns poucos pastores. Submeteu-se à lei, foi circunciso, seguiu todas as práticas religiosas. Até chegar à sua vida pública, ocultou-se numa vida comum, junto aos pais, como um simples carpinteiro.

Desta forma deu-nos Cristo, com seu próprio exemplo, ânimo para abraçar a vida cotidiana. Não precisamos de grandes posições ou cargos para servir a Deus, podemos fazê-lo no seio de nossa família, na vulgaridade de nosso trabalho. Assim também Cristo, durante sua vida oculta, mostrou-nos que é possível fazer do ordinário algo extraordinário quando feito para Deus, e colocando sentido sobrenatural nas atividades rotineiras, que também podem nos levar a Cristo se feitas com amor. “Uma missão sempre atual e heróica para um cristão comum: realizar de maneira santa os mais diversos afazeres, mesmo aqueles que parecem mais indiferentes” (São Josemaria Escrivá, Sulco, 496). Nosso Senhor não chamava a glória para sí (Cf. Jo 8,50), tudo o que fazia era para glorificar o Pai e tudo quanto fala é em nome d'Aquele que O enviou. Quando quiseram fazê-Lo rei – um rei, entretanto, aos moldes do mundo, e não rei de suas vidas - fugiu. Os sacrifícios não os fez por Ele mesmo, mas pelo Pai e pela humanidade, esquecendo-se de Si. Quão sublime exemplo deixado!

Por fim, Jesus morre numa Cruz, carrega o peso dos pecados de toda a humanidade ainda que n'Ele não houvesse pecado algum. Pedia ao Pai que perdoasse os que O injuriavam, enquanto seu sangue era derramado por nossas culpas. Sua doação foi total; seu sacrifício, perfeito. Nós, que facilmente nos achamos imerecedores de sofrimentos e humilhações, pensemos no Cristo que nada mereceu. Só assim alcançaremos a verdadeira humildade, reconhecendo nossa atual condição e suportando os padecimentos junto d’Ele. Aceitar privações, suportar as dificuldades, injúrias e humilhações por amor a Deus é grande prática de humildade. A alma humilde “não se inquieta do que possam dela pensar; sofre, quando a louvam, e preferiria mil afrontas a um só louvor, visto aqueles se fundarem na verdade e este na mentira” (Tanquerey, A., A Vida Espiritual Explicada e Comentada, 1134).

Quem segue os conselhos evangélicos, o testemunho do Cristo e de seus seguidores, faz-se humilde ante o próximo. O que nele houver de bom admira sem invejar. Se tiver defeitos, busca antes encobri-los que torná-los públicos. Cabendo-lhe corrigir, o faz de forma fraterna e visando o bem da alma a quem corrige, nunca expô-la e humilhá-la. Apenas Deus pode conhecer a intenção de cada um, portanto jamais poderemos julgar o próximo por mal ou perverso. “Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos” (Fl 2,3). Por nos conhecermos bem em nossas misérias, a nós devemos muito pouca estima. Assim já exortava São Paulo: "não façam de si próprios uma opinião maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto" (Rm 3,17). A virtude da humildade está, portanto, intimamente aliada à temperança, pois nos faz moderar o conceito que temos de nós mesmos e de nossa excelência.

Na relação com Deus e, através d’Ele, com o próximo, muitas são as atitudes e posições humildes que precisaremos tomar em nossa caminhada. O perdão, e o pedido de perdão, são atos de profunda humildade, pois aquele que perdoa o erro alheio e pede perdão pelos seus, se reconhece como nada diante da Grandeza que é Nosso Senhor. Quando perdoamos, damos testemunho do amor de Deus, porque ninguém mais que Ele perdoou. Se achamos que aquele que nos ofendeu não merece nosso perdão, devemos lembrar-nos de nós, pobres pecadores, que jamais merecemos qualquer perdão, mas ainda assim Deus enviou seu Filho para nos resgatar. “Tu não podes tratar ninguém com falta de misericórdia; e, se te parecer que uma pessoa determinada não é digna dessa misericórdia, tens de pensar que tu também não mereces nada: não mereces ter sido criado, nem ser cristão, nem ser filho de Deus, nem pertencer à tua família... “(São Josemaria Escrivá, Forja, Ponto 145).

Deus nos perdoa sempre que nos colocamos diante d'Ele com coração contrito e buscamos, através da Confissão, reconciliarmo-nos com Ele. O próprio sacramento da reconciliação é um profundo ato de humildade, pois nos reconhecemos pecadores diante de um homem, diante da Igreja e diante de Deus. Neste mesmo sentido, a Igreja nos ensina que a humildade é uma virtude essencial na oração. É na oração que nos colocamos diante de Deus, sendo a humildade o fundamento e disposição para receber o dom da oração. "Por meio desta virtude o Senhor se deixa render a tudo quanto dele queremos" (Santa Teresa de Jesus, Castelo Interior ou Moradas).

Cristo deu-nos Ele mesmo o exemplo. Mas deu-nos também uma nobre criatura, Aquela que está acima de toda outra. Santa Maria, quando o anjo lhe apareceu anunciando o nascimento de seu Senhor através dela, não duvidou, não impôs barreiras, apenas perguntou ao anjo como isso aconteceria. Mesmo sabendo tudo que deveria suportar, ela diz: "Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 28). Ainda que fosse a mãe de Deus, fez-se a menor de todas, fez-se serva, ocultou-se, suportou a espada que transpassou sua alma aos pés da Cruz... E por isso Deus a amou tanto e coroou-a Rainha e Senhora nossa. "Maria devia realmente ser inimiga da serpente, já que Lúcifer foi soberbo, ingrato e desobediente, enquanto que ela foi humilde, grata e obediente" (Santo Afonso Maria de Ligório, A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, Vol. II). Que possamos, por fim, dizer junto ao salmista: "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória, por amor de vossa misericórdia e fidelidade" (Sl 113, 9).

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