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terça-feira, 14 de junho de 2011

Teologia das Virtudes Ascéticas: O Desapego

O Desapego

“Quem possui as virtudes da humildade e do desapego bem pode lutar contra todo o inferno junto e o mundo inteiro com as suas seduções” (Santa Teresa D’Ávila em AQUINO, Felipe: Os Pecados e as Virtudes Capitais. Lorena: Cleofas, 2005. p.58). O desprendimento dos tesouros desta vida nos faz valorizar os espirituais e eternos. A privação de riquezas, prazeres e glórias humanas é algo muito diminuto perto do que seria estar afastado eternamente de Deus, e o gozo destas coisas não chega a ser sequer uma pequena partícula do que teremos junto d’Ele. Como diz a mesma Santa Teresa já citada acima, quem a Deus tem, nada falta, só Deus lhe basta.

A virtude que regula nossas afeições pelos bens terrenos, em sua posse e uso, é chamada por Santo Tomás de Aquino de liberalidade, que requer desprendimento destes bens, fazendo com que não coloquemos neles nosso coração. Como conseqüência deste desapego, o liberal facilmente dispõe de suas riquezas para as necessidades próprias, de outros e para honra de Deus. Entretanto, não usa apenas o dinheiro com largueza e generosidade, mas também cuida do que é próprio, pois quer daí retirar o necessário sustento seu e da família, como auxiliar muitos outros. Assim, a matéria da liberalidade não está na quantidade ou na forma com que gastamos o dinheiro, mas sim em nossas paixões internas, nosso afeto relativamente às riquezas.

“A obra virtuosa consiste precisamente no bom uso daquelas coisas das quais podemos também abusar” (AGOSTINHO, Santo: O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995. p. 139). Aos que dão às riquezas um mal que não possuem por si mesmas, a Sã Doutrina não nega que são verdadeiros bens, se usados corretamente, o que constitui a virtude. É importante não tomar como maus os próprios bens, como se sua simples posse já fosse significado de pecado ou vício. O pecado do avarento é a falta de moderação, que pode estar no modo de adquirir e conservar as riquezas, se isto é feito indevidamente, furtando ou retendo o alheio, o que se opõe à justiça; e pode também estar em nossas afetos internos, ao desejarmos os bens materiais em excesso ou ao comprazer-nos neles exageradamente, mesmo que os tenhamos adquirido de forma lícita, o que se opõe à liberalidade. O vício da avareza chega a ser pecado mortal quando ocorre roubo ou furto ou quando, ainda que não se obtenha seus bens de forma ilícita, o amor a eles seja tamanho que se sobreponha à caridade, e nos leve a proceder contra o amor de Deus e do próximo, sobrepondo o amor das riquezas ao divino e, assim, entenebrecendo nossa alma.

Portanto, avarento peca contra o próximo, contra si e contra Deus. Relativamente ao próximo, pois ao ter uma posse desordenada de bens afeta outros, dos quais estes bens faltam devido ao nosso uso imoderado; peca contra si mesmo, desordenando seus afetos, deleitando-se no ilícito. Por conseqüência, peca contra Deus, ao desprezar os bens eternos e se afastar d’Ele em detrimento de bens temporais e passageiros. Torna-se ingrato, tendo “o deplorável vício do homem que se orgulha de suas riquezas e não reconhece que as deve a Deus, autor de todos os bens espirituais e temporais, segundo a palavra de Davi: Teu é tudo e o recebemos de tua mão” (AQUINO, Santo Tomás: Comentários ao Pai Nosso). Desconfia da promessa feita por Deus, quando ordenou: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6,33). Coloca antes sua confiança nas riquezas que possui, e acha que tendo-as em grande quantidade estará seguro. Eis aí uma verdadeira idolatria: substitui-se o lugar de Deus pelos bens terrenos e passageiros, fazendo destes seus deuses.

A desordem no amor aos bens terrenos pode estar tanto em fazê-los como fim, amando-os por si mesmos, ou por desejá-los para obter prazeres desordenados e honras que não nos são devidas, fazendo destes prazeres e honras um objetivo de vida. Isso inclui a busca ao dinheiro por causa do poder que ele oferece, não querendo colocá-lo a serviço dos demais, mas sim dominá-los através do poder adquirido. A oposição entre o vício e a virtude faz-se clara aí: quem não se apega à matéria e apenas quer bens passageiros como meios para atingir bons fins coloca tudo que tem a serviço do que é lícito.

“Não é próprio da liberalidade dispensarmos as riquezas de modo a não nos sobrar o com que nos sustentemos e pratiquemos obras virtuosas, que nos levem à felicidade” (AQUINO, Santo Tomás: Suma Teológica – II-IIae. Porto Alegre: Sulina, 1980., p. 2907, Q. CXVII). A atitude de gastar imoderadamente é própria do pródigo, não do virtuoso, uma vez que a liberalidade jamais servirá à intemperança. O liberal cuida do que é seu, pois assim tem o que necessita e pode, por aí, auxiliar os outros e a construção do Reino de Deus.

Os bens materiais são concedidos ao homem para que supram suas necessidades temporais, inclusive da alma, no cuidado de sua própria vida e na do próximo, que dele depende, e para que possa cultivar sua inteligência e demais faculdades. Nosso Senhor nos diz que a cada dia basta seu cuidado, mas com isso não quer dizer que não é necessário prover hoje o que sabemos ser necessário amanhã. Com estas palavras nos exorta a não nos preocuparmos com isso em demasia, e sim colocar nossa confiança na providência divina, que não nos abandona se não deixamos de fazer nossa parte. O necessário desapego não exclui a diligência no trabalho honesto, que também é nosso dever: “Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer” (2Ts 3,10). Portanto, parafraseando Santo Inácio de Loyola, devemos confiar em Deus como se tudo dependesse d’Ele, mas trabalhar como se tudo dependesse unicamente de nossos esforços.

O Doutor Angélico, no seu comentário ao Pai Nosso, explicita o reto desejo de bens materiais ensinado por Cristo nesta oração: “Também é necessário pedir a Deus alguns bens indispensáveis, cuja possessão perfeita é possível na vida presente. Por isso, o Espírito Santo nos ensina a pedir estes bens, necessários à vida presente e perfeitamente possuídos aqui em baixo. Ao mesmo tempo nos faz mostrar que é Deus que nos provê em nossas necessidades temporais, quando dizemos: «O pão nosso de cada dia nos dai hoje»”. Mas, continuando, alerta que Cristo nos ensina a evitar o pecado de pedir bens acima de nossa condição, ambiciosamente, “mandando-nos pedir somente o pão, quer dizer, os bens necessários a cada um nesta vida, segundo a sua condição particular: sob o nome de «pão», estão compreendidos todos esses bens. O Senhor não nos ensinou a pedir coisas delicadas, variadas e exóticas, porém pão, sem o qual o homem não pode viver e que é o alimento comum a todos. O essencial da vida do homem, diz o Eclesiástico (29, 28), é a água e o pão. E o Apóstolo escreveu a Timóteo (1,6, 8): Tendo pois com que nos sustentar e com que nos cobrirmos, contentemo-nos com isso” (AQUINO, Santo Tomas: Comentários ao Pai Nosso).

Além dos bens necessários, outros podem ser úteis “para aumentar gradualmente os nossos recursos, assegurar o nosso bem-estar ou o dos outros, contribuir para o bem público, favorecendo as ciências ou as artes. Não é proibido deseja-los para um fim honesto, contanto que se reserve uma parte para os pobres e para as boas obras. [...] Somos, pois, em certa medida, tesoureiros da Providência, e devemos dispor do supérfluo para assistir aos pobres” (TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. p. 470).

Conforme São Francisco de Sales, é prestar um serviço agradável a Deus ser diligente ao cuidar dos bens materiais, com a diferença que este cuidado é por amor a Deus e não de si mesmo. “Ora, como o amor de si mesmo é um amor inquieto, turbulento e violento, o cuidado que dele procede é cheio de perturbação, pesar e inquietação; mas o cuidado que procede do amor de Deus, que enche o coração de doçura, tranqüilidade e paz, é necessariamente suave, tranqüilo e pacífico, mesmo quanto aos bens temporais. Tenhamos sempre um espírito calmo e uma tranqüilidade de vida inalterável, em conservando e aumentando os bens deste mundo segundo as verdadeiras necessidades e ocasiões justas que nos ocorrem; porque, enfim, Deus quer que sirvamos destas coisas por seu amor” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 242). A coexistência das riquezas materiais com a pobreza espiritual, segundo o mesmo santo, pode dar-se unindo “um grande cuidado com um grande desprezo dos bens temporais. [...] Os bens que temos não nos pertencem e Deus, que os confiou à nossa administração, quer que os façamos frutuosos” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 241).

Aquele que possui a virtude da liberalidade não dispõe de seus bens apenas por amor àquele a quem dá, o que é próprio do caridoso ou da virtude da amizade, mas sua dádiva provém do desprendimento relativo aos seus bens, não os cobiçando nem os amando. Mas esta virtude anda junta da caridade, que nos faz dispor de nossos bens por amor dos irmãos. Por isso, o apego às riquezas também é um forte embaraço para o cumprimento dos mandamentos de Cristo: amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças e amarás o teu próximo como a ti mesmo (Cf. Mr 12,30-31). “Quem não se desprendeu das paixões das coisas materiais não pode amar verdadeiramente a Deus nem ao próximo, porque é impossível estar apegado à matéria e ao mesmo tempo amar a Deus. E é isto que diz o Senhor: Ninguém pode servir a dois senhores e não podeis servir a Deus e a Mammon (à riqueza). A nossa mente está apegada às coisas do mundo na medida em que é escravizada por elas e, transgredindo o mandamento de Deus, O despreza” (MÁXIMO, São: Centúrias sobre a Caridade. São Paulo: Landy, 2003. p. 26).

É preciso ter cuidado para que nosso amor-próprio, por vezes, não nos engane sob máscaras de amor de Deus, e se infiltre em nossa vida como se ao invés de avareza fosse virtude: dá-se desculpa de cuidado para tentar esconder o que na verdade é um desejo desordenado. “Os bens da terra, repartidos entre poucos; os bens da cultura, encerrados em cenáculos. E, lá fora, fome de pão e de sabedoria; vidas humanas - que são santas, porque vêm de Deus - tratadas como simples coisas, como números de uma estatística. Compreendo e partilho dessa impaciência, levantando os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pôr em prática o mandamento novo do amor” (ESCRIVÁ, São Josemaria: É Cristo que Passa. Ponto 111). Por isso os santos, bem como a Santa Madre Igreja, nos exortam a, muitas vezes, praticar concretamente atos de pobreza, reservando parte dos bens para usá-los em benefício dos mais necessitados.

Muito embora, nos dias de hoje, a aversão ao termo seja grande, a Igreja não deixa de nos exortar à esmola dada aos pobres, que é “uma forma concreta de socorrer quem se encontra em necessidade e, ao mesmo tempo, uma prática ascética para se libertar da afeição aos bens terrenos” (Sua Santidade, o Papa Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2008). Esmola vem do grego eleemosyne, que significa compaixão e misericórdia, indicando inicialmente a atitude do misericordioso e, mais tarde, toda obra de caridade feita aos necessitados. “Podemos não estar de acordo com quem dá a esmola, pelo modo como a dá. Podemos também não concordar com quem estende a mão pedindo esmola, se não se esforça por ganhar a vida por si mesmo. Podemos não aprovar a sociedade, o sistema social, em que haja necessidade de esmola. Todavia, o fato mesmo de prestar auxílio a quem precisa, o fato de repartir com os outros os próprios bens deve merecer respeito” (Sua Santidade, o Papa João Paulo II, Audiência Geral do dia 29 de março de 1979). Dar esmola não significa apenas descarregar do bolso algumas moedas que não nos fariam falta, ou simplesmente doar grandes quantidades de dinheiro para depois vangloriar-se de sua boa ação, pois, como diz São Paulo, “Ainda que distribua todos os meus bens em esmolas..., se não tiver caridade, de nada me aproveita” (1 Cor. 13, 3); pelo contrário, é dispor-se em partilhar o que tem em benefício daquele que necessita, assim como fez a viúva pobre, no tempo de Cristo, que doou uma pequena quantia, sendo, porém, tudo o que tinha. Sendo assim, a esmola é, antes de tudo, dom interior.

O estado de pobreza é imposto a alguns, pelas condições de vida que têm, mas pedido de Cristo a outros, como fez ao jovem rico “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!” (Mt 19,21). “Nosso Senhor Jesus Cristo, a SS. Virgem, Sua Mãe, os apóstolos e tantos santos e santas foram pobres e, podendo ter riquezas, as desprezaram. Quantas pessoas que podiam ocupar no mundo um lugar saliente, apesar de todas as contradições dos homens, foram procurar com avidez nos conventos ou nos hospitais a santa pobreza!” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 247). Aos pobres, o mesmo santo exorta: “Querer ser pobre e não querer suportar os incômodos da pobreza é uma grande ambição; sim, é querer as honras da pobreza e a comodidade da riqueza” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 249). Entretanto, há muitos pobres quanto ao dinheiro que são, no entanto, avarentos em seu coração. Por isso o pedido de pobreza feito por Cristo ao jovem rapaz não é apenas para alguns. O convite à pobreza espiritual é feito a todos, e dever de todo cristão é aceitá-lo, despojando-se de si mesmo e seguindo a Cristo.

A pobreza de espírito, tendo como conseqüência o desapego dos bens materiais, se faz necessária em muitas virtudes, várias das quais já citadas anteriormente. O liberal cuida e dispõe de seus bens moderadamente, não tendo por eles qualquer paixão desordenada; o justo não se utiliza de meios fraudulentos para adquirir riquezas; o caridoso, por sua vez, dá o necessário por amor ao próximo e a Deus, seja de si mesmo, através de seus esforços e sacrifícios, ou de suas riquezas; o que possui a virtude da religião não deixa seus deveres para com Deus em segundo plano para mais se empregar em seus negócios; o humilde jamais deixa de colocar sua confiança em Cristo e sabe que tudo que possa ter d’Ele obteve; o diligente não mede esforços em seu trabalho honesto e por amor de Deus, vendo nisto um meio para melhor servi-Lo; o prudente confia na Providência Divina, buscando sempre o Reino de Deus em primeiro lugar; já aquele que vive a castidade não busca os prazeres deste mundo e nem quer bens materiais para comprá-los, se aplica apenas em adquirir bens eternos.

O desprendimento dos bens passageiros leva o homem a não ser duro de coração, e deixar suas portas abertas a Cristo; misericordioso, socorrendo seu irmão no que necessitar; a viver uma grande quietude, por não se impor preocupações e cuidados excessivos com o passageiro; pacífico, jamais se utiliza de violência para obter o que precisa; verdadeiro, pois vê nos enganos e ludibriações caminhos inválidos na aquisição de riquezas. Estes são apenas alguns exemplos do desprendimento relativo às riquezas, mas a verdade é que aquele que deseja ter uma vida virtuosa necessariamente viverá o desapego, pois, em termos gerais, todo pecado é um voltar-se desordenadamente a algum bem, enquanto que o virtuoso busca utilizar todos os bens retamente.

Para os que estão em busca da perfeição, o amor desordenado das riquezas é um grave obstáculo, pois o lugar de Deus em nós é ocupado por paixões mundanas e inquietações. Um coração desprendido é essencial para nos unirmos a Deus, pois onde está nosso tesouro, aí também estará nosso coração. Sendo nosso tesouro o Cristo, desprendida de todo bem e apegado apenas ao único Bem Supremo, nossa alma com Ele permanece, e nela o Senhor faz morada, aí deleitando-se. “Enquanto o homem não for elevado em espírito e livre de todas as criaturas e todo unido a Deus, pouco vale quanto sabe e quanto possui. Imperfeito permanecerá por muito tempo e preso à terra quem algo estimar que não seja o único, imenso e eterno Bem” (KEMPIS, Tomás: Imitação de Cristo. São Paulo: Círculo do Livro. p. 135).

“É claro que Deus criou estas coisas e as deu aos homens para seu uso. E todas as coisas criadas por Deus são boas, e são para que, usando retamente delas, agrademos a Deus. Mas nós, que somos fracos e terrenos na mente, preferimos as coisas materiais ao mandamento do amor; e, aderidos àquelas, combatemos os homens; ao passo que deveríamos preferir o amor por todos os homens a todas as coisas visíveis, incluindo nosso próprio corpo” (MÁXIMO, São: Centúrias sobre a Caridade. São Paulo: Landy, 2003. p. 26). Livres de todos estes embaraços seria simples perdoar os que nos causam algum mal, sofrimentos e humilhações, seguindo os passos de Cristo, que não foi apegado a qualquer bem passageiro, prazer ou honras e, podendo ter tudo, não quis nada: foi de encontro à Cruz e aos que nela O pregaram, rogando a Deus que os perdoassem por não saber o que faziam.

Como segundo São Gregório a avareza tem por objeto “não só o dinheiro, mas também a ciência e as grandezas, quando aspiramos a nos elevar sem medida” (GREGÓRIO, São em AQUINO, Santo Tomás de: Suma Teológica, II-IIae. Porto Alegre: Sulina, 1980. Q. CXVIII), o virtuoso é aquele que não tem apego desordenado a qualquer destas coisas passageiras: riqueza, conhecimento, honra, poder. Vê em tudo isso meios pelos quais pode alcançar fins maiores, entre os quais o principal é ganhar os Céus. Desapegar-se de tudo isto é essencial para progredir nas virtudes: “Em muito se há de ter uma virtude quando o Senhor a começa a dar e de nenhuma maneira nos devemos pôr em perigo de a perder. Assim é em coisas de honra e em outras muitas; pois creia V. Mercê que nem todos os que julgam estar desapegados de todo, o estão, e é preciso nunca descuidar nisto. Qualquer pessoa que sinta em si algum ponto de honra, se quer progredir, creia-me e esforce-se contra este atilho. É uma cadeia que não há lima que a quebre a não ser Deus com a nossa oração e fazermos muito da nossa parte. Parece-me que é um liame para este caminho, que eu me espanto com o dano que causa” (D’ ÁVILA, Santa Teresa: Livro da Vida).

“Se as riquezas abundarem, não apegueis a ela o vosso coração” (Sl 61,11). “Essas riquezas significam, ao nosso propósito, os gostos sensíveis, e outros bens temporais, e as consolações do espírito. Convém notar que não são apenas os deleites do corpo que impedem e contradizem o caminho de Deus; também as consolações e gostos espirituais, se a alma os conserva como proprietária ou os procura, são empecilhos à via da cruz de Cristo, seu Esposo” (CRUZ, São João: Cânticos Espirituais. Fortaleza: Edições Shalom, 2003. p. 45). Portanto, como disse o Doutor Místico, até mesmo dos deleites nas coisas espirituais devemos desapegar-nos, pois nossa busca deve ser somente por Deus, não pelas mercês que porventura Ele nos conceda, uma vez que sozinhos não somos merecedores de nada, e se Ele as dá é unicamente por Sua imensa bondade e misericórdia. Santa Teresa D´Ávila lembra “o muito que importa começarem as almas a terem oração indo-se desapegando de todo o gênero de contentamentos e entrarem nela determinadas única e somente a ajudarem Cristo a levar a cruz, como bons cavaleiros que, sem soldo algum, querem servir a seu Rei, pois sabem que têm a paga bem segura. E olhos postos no verdadeiro e perpétuo reino que pretendemos ganhar!” (D’ ÁVILA, Santa Teresa: Livro da Vida).

E, por mais difícil que nos pareça esta tarefa, devemos confiar não se tratar de nada que não esteja a nosso alcance se nos colocamos junto de Deus, dados tantos exemplos de almas santas que viveram a verdadeira pobreza de espírito. O próprio Cristo fez-se pobre, para assim nos enriquecer por sua pobreza (Cf. 2 Cor 8, 9). “Na sua escola, podemos aprender a fazer da nossa vida um dom total; imitando-O, conseguimos tornar-nos disponíveis para dar não tanto algo do que possuímos, mas darmo-nos a nós próprios. Não se resume porventura todo o Evangelho no único mandamento da caridade?” (Sua Santidade, o Papa Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2008).

O menino Jesus, que, sendo Rei, nasceu pobre e sem quaisquer honrarias, numa manjedoura, rodeado de pastores, encontrou alento numa igualmente pobre mulher. Sua mãe, que pouco possuía de bens deste mundo, tinha a alma como que revestida de ouro e ornada pelos mais preciosos diamantes, estes sim apreciados por seu Senhor. Era toda bela e formosa, e nEla não havia mancha alguma. Que a Virgem Maria seja nosso espelho de verdadeira pobreza, para que não coloquemos nosso empenho em ornar nossas casas com luxuosos artigos, mas sim os jardins de nossa alma com belas flores, onde Nosso Senhor possa ser acolhido com o mesmo amor que o pequeno Cristo foi acolhido por Sua Santa Mãe.

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