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segunda-feira, 20 de junho de 2011

São Paulo o grande Apostolo

A CONVERSÃO DE SÃO PAULO

A Luz de Damasco

“A luz de Damasco
é um grito
para a ovelha que regressa!

A luz de Damasco
é um tombar do trigo,
um cair do grão:
cega tanto como os olhos
de um homem perseguido
quando se volta para nós!

A luz de Damasco golpeia.
É circuncisão que abre, limpa!

A luz de Damasco
é dura,
da dureza das pedras
que um mártir junta com as mãos
com que empedra o caminho para a morte.

A luz de Damasco
é esse lume
da oração de um mártir ao morrer”.

Daniel Faria (1971-1999)

Queremos hoje dedicar-nos a refletir sobre a experiência que São Paulo teve no caminho de Damasco e portanto sobre aquele acontecimento habitualmente designado por «conversão de São Paulo». [1]

1. O relato: os fatos

A queda sem cavalo

Precisamente no caminho de Damasco, nos primeiros anos 30 do século I, e depois de um período no qual tinha perseguido a Igreja, verificou-se o momento decisivo da vida de Paulo.

Certo dia decidiu viajar até à cidade de Damasco, levando uma autorização especial para prender todos os cristãos que lá se en­contrassem.

Damasco distava uns 230 quiló­metros de Jerusalém e era uma das cidades mais antigas do mundo, onde vivia uma im­portante comunidade cristã. Paulo e os seus companheiros devem ter levado cerca de uma semana para fazer a viagem.

De repente, e já quase às portas da cida­de, uma poderosa luz envolveu-o e lançou-o por terra.

(Convém recordar que as viagens, nessa época, se faziam a pé; por isso, a famosa imagem de Paulo caindo" do cavalo" que tan­tas vezes vimos em quadros e pinturas, não corresponde à realidade).

Então, ouviu uma voz que lhe dizia: "Sau­lo, Saulo, porque me persegues?" Ele pergun­tou: "Quem és tu, Senhor?" Respondeu: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens a fazer."

Luz para o cego

Saulo levantou-se e constatou que não via nada. Então, com a ajuda dos seus com­panheiros, pôde entrar na cidade.

Assim, a­quele que tinha querido entrar em Damasco numa fúria, arrasando e acabando com os cristãos que encontrasse, entrou levado pela mão, cego e dependente como uma criança.

Em Damasco hospedou-se em casa de um tal Judas, e permaneceu ali três dias cego, sem comer nem beber, até que se apresentou em casa um homem chamado Ananias, e lhe disse: "Saulo, meu irmão, foi o Senhor que me enviou, esse Jesus que te apareceu no cami­nho em que vinhas, para recuperares a vista e ficares cheio do Espírito Santo" (Act 9,17).

Então, impôs-lhe as mãos, e no mesmo instante caíram dos seus olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista. A partir desse momento, Paulo foi outra pessoa. Verificou-se nele uma transformação impressionante.

Ananias baptizou-o, expli­cou-lhe quem era Jesus, introduziu-o na co­munidade local, instruiu-o na doutrina cristã. e enviou-o a pregar o Evangelho.

Deste modo, Paulo conheceu o cristianis­mo, e chegou a ser membro da Igreja que ini­cialmente combatia.

2. O acontecimento. O que tinha acontecido?

Sobre este acontecimento, muito foi escrito e naturalmente sob diversos pontos de vista. O que é certo é que ali aconteceu uma mudança, aliás, uma inversão de perspectiva. Então ele, inesperadamente, começou a considerar "perda" e "esterco" tudo o que antes constituía para ele o máximo ideal, quase a razão de ser da sua existência (cf. Fl 3, 7-8).

As fontes

Em relação a isto temos dois tipos de fontes.

O primeiro tipo, o mais conhecido, são as narrações pela mão de Lucas, que por três vezes narra o acontecimento nos Actos dos Apóstolos

·         Act.9,1-18: Narrativa da conversão
·         Act.22,1-21: Discurso de Paulo aos judeus de Jerusalém
·         Act.26,1-23: Discurso de Paulo perante o Rei Agripa

O leitor é talvez tentado a deter-se demasiado nalguns pormenores, como a luz do céu, a queda por terra, a voz que chama, a nova condição de cegueira, a cura e a perda da vista e o jejum. Mas todos estes pormenores referem-se ao centro do acontecimento:  Cristo ressuscitado mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua própria vida. O esplendor do Ressuscitado torna-o cego:  assim vê-se também exteriormente o que era a sua realidade interior, a sua cegueira em relação à verdade, à luz que é Cristo. E depois o seu "sim" definitivo a Cristo no baptismo volta a abrir os seus olhos, faz com que ele realmente veja.

Na Igreja antiga o baptismo era chamado também "iluminação", porque este sacramento realça, faz ver realmente. O que assim se indica teologicamente, em Paulo realiza-se também fisicamente: curado da sua cegueira interior, vê bem.

Portanto, São Paulo foi transformado não por um pensamento mas por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro. Ele mudou fundamentalmente a vida de Paulo; neste sentido pode e deve falar-se de uma conversão.

Este encontro é o centro da narração de São Lucas, o qual é possível que tenha usado uma narração que provavelmente surgiu na comunidade de Damasco. Leva-nos a pensar isto o entusiasmo local dado à presença de Ananias e dos nomes quer do caminho quer do proprietário da casa em que Paulo esteve hospedado (cf. Act 9, 9-11).

A habilidade narrativa de Lucas: engrandecer Paulo

Mas Lucas não conta três vezes a mesma coisa; com grande habilidade narrativa, apresenta os relatos de maneira diferente, com pequenas alterações graduais, que servem para exaltar de modo progressivo a figura de Paulo. Vejamo-los.

Sobre a luminosidade que envolveu o apóstolo, os dois primeiros relatos falam de "uma in­tensa luz, vinda do Céu" (9,3; 22,6). E o terceiro, de "uma luz vinda do Céu, mais bri­lhante do que o sol (26,13).

O primeiro e o terceiro relatos não dizem a que hora foi aquela luz.

Mas o segundo es­clarece que foi "por volta do meio-dia", o qual ressalta o esplendor luminoso.

E o terceiro, ao dizer que a luz era mais brilhante do que o Sol, dá a entender que foi à hora em que o sol brilha com maior intensidade, ou seja, em ple­no meio-dia.

No primeiro e no segundo relato diz que a luz envolveu somente a Paulo (9,3 e 22,6). No terceiro diz que a luz envolveu também os que o acompanhavam (26, 13).

De pé, ou no chão?

Também as perseguições que Paulo fazia antes de se converter aparecem descritas com esta técnica de graduação. O primeiro relato diz, relativamente aos cristãos, que Paulo "en­tregava-os à prisão" (8,3). No segundo, é o próprio Paulo quem diz: "persegui de morte esta Via" (22,4). E no terceiro, leva mais longe o requinte da perseguição: «meti na prisão grande número de santos e, quando eram mortos, eu dava o meu assentimento. Muitas vezes ia de sinagoga em sinagoga e obrigava­-os a blasfemar, à custa de torturas. Num ex­cesso de fúria contra eles, perseguia-os até nas cidades estrangeiras» (26,10-11).

O mesmo acontece com a missão confiada a Paulo. O primeiro relato só antecipa que Paulo levará o nome de Cristo "perante os pagãos, os reis e os filhos de Israel (9,15). No segun­do, Ananias já lhe diz: "serás testemunha di­ante de todos os homens, acerca do que viste e ouviste" (22,15). E no terceiro, Paulo não só é enviado, mas também se especificam os por­menores da sua missão (26,16-18).

Relativamente aos fenómenos que apareceram, o primeiro relato diz que os companheiros de Paulo ouviram a voz mas não viram a luz (9,7). O segundo diz que viram a luz mas não ouviram a voz (22,9). E o terceiro, que nem vi­ram nem ouviram nada. Isto é: cada vez se vai centrando mais em Paulo a mensagem divina.

Sobre o efeito da comoção, da primeira e da segunda vez diz que só Paulo caiu por terra, enquanto os seus companheiros ficaram de pé (9,7; 22,7). Mas da terceira vez diz que todos eles caíram por terra (26,14). Assim, também os companheiros de Paulo se unem gradualmente à adoração da teofania.

E sobre a cegueira, no primeiro relato Paulo fica cego durante três dias (9,9). No segundo, só permanece cego durante o tempo em que brilha a luz divina (22,11). E no terceiro não se menciona a cegueira, de modo que não pre­cisa de ser levado pelos seus companheiros, nem de ser curado por Ananias. Assim, cada vez há menos escuridão em Paulo.

Um típico diálogo de aparição

Um único elemento se mantém sempre igual nos três relatos: o diálogo entre Paulo e Cristo, no momento da aparição. Porque foi conservado este diálogo com tanto cuidado? Talvez porque reflectia uma conversação real entre Jesus e o apóstolo?

Hoje os biblistas defendem que se trata de um diálogo também artificial, muito co­mum no Antigo Testamento, chamado" diálo­go de aparição". Os escritores sagrados utili­zam-no cada vez que querem contar a apari­ção de Deus ou de um anjo a alguma pessoa.

O "diálogo de aparição" consta normal­mente de quatro elementos:

a) a dupla menção do nome da pessoa (Saulo, Saulo!);
b) uma breve pergunta do personagem (Quem és Tu, Senhor?);
c) a auto-apresentação do Senhor (Eu sou Jesus, a quem tu persegues);
d) e um encargo (Ergue-te, entra na cidade).

Este mesmo" diálogo" encontra-se, por exemplo, quando o anjo ordena a Jacob que regresse à terra em que nascera (Gn 31,11-13), ou quando Deus o autoriza a descer até ao Egipto (Gn 46,2-3); na vocação de Moisés (Ex 3,2-10); a Abraão, no sacrifico de Isaac (Gn 22,1-2); na vocação de Samuel (1 Sm 3,4-14). Servindo-se deste" diálogo" artificial, uti­lizado oficialmente para estas ocasiões, Lucas quis dizer aos seus leitores que Paulo tinha conversado realmente com Jesus Cristo a ca­minho de Damasco, e que não tinha sido mera alucinação.

O segundo tipo de fontes sobre a conversão é constituído pelas próprias Cartas de São Paulo:

  • I Cor.15,8
  • Rom.1,5
  • I Cor.9,1
  • Gal.1,5-17

Ele nunca falou pormenorizadamente deste acontecimento, talvez porque podia supor que todos conhecessem o essencial desta sua história, todos sabiam que de perseguidor tinha sido transformado em apóstolo fervoroso de Cristo. E isto tinha acontecido não após uma própria reflexão, mas depois de um acontecimento importante, um encontro com o Ressuscitado. Mesmo sem falar dos pormenores, ele menciona diversas vezes este facto importantíssimo, isto é, que também ele é testemunha da ressurreição de Jesus, do qual recebeu imediatamente a revelação, juntamente com a missão de apóstolo.

I Cor.15,8

O texto mais claro sobre este ponto encontra-se na sua narração sobre o que constitui o centro da história da salvação: a morte e a ressurreição de Jesus e as aparições às testemunhas (cf. 1 Cor.15). Com palavras da tradição antiga, que também ele recebeu da Igreja de Jerusalém, diz que Jesus morto e crucificado, sepultado e ressuscitado apareceu, depois da ressurreição, primeiro a Cefas, isto é a Pedro, depois aos Doze, depois a quinhentos irmãos que em grande parte naquele tempo ainda viviam, depois a Tiago, e depois a todos os Apóstolos. E a esta narração recebida da tradição acrescenta:  "E, em último lugar, apareceu-me também a mim" (1 Cor 15, 8). Assim dá a entender que é este o fundamento do seu apostolado e da sua nova vida.

Rom. 1; 5; I Cor.9,1

Existem também outros textos nos quais se encontra a mesma coisa:  "Por meio de Jesus Cristo recebemos a graça do apostolado" (cf. Rm 1, 5); e ainda:  "Não vi eu a Jesus Cristo, Nosso Senhor?" (1 Cor 9, 1), palavras com as quais ele faz alusão a um aspecto que todos conhecem.

Gal.1,15-17

E finalmente o texto mais difundido lê-se em Gal. 1, 15-17:  "Mas, quando aprouve a Deus que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou pela Sua graça revelar o Seu Filho em mim, para que O anunciasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem voltei a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim, mas parti para a Arábia e voltei outra vez a Damasco". Nesta "auto-apologia" ressalta decididamente que também ele é testemunha verdadeira do Ressuscitado, tem uma missão própria que recebeu imediatamente do Ressuscitado.

3. Descubra as semelhanças

Assim podemos ver que as duas fontes, os Actos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo, convergem e convêm sob o ponto fundamental: o Ressuscitado falou a Paulo, chamou-o ao apostolado, fez dele um verdadeiro apóstolo, testemunha da ressurreição, com o encargo específico de anunciar o Evangelho aos pagãos, ao mundo greco-romano. E ao mesmo tempo Paulo aprendeu que, apesar da sua relação imediata com o Ressuscitado, ele deve entrar na comunhão da Igreja, deve fazer-se baptizar, deve viver em sintonia com os outros apóstolos. Só nesta comunhão com todos ele poderá ser um verdadeiro apóstolo, como escreve explicitamente na primeira Carta aos Coríntios: "Assim é que pregamos e é assim que vós acreditastes" (15, 11). Há só um anúncio do Ressuscitado, porque Cristo é um só.

4. Descubra as diferenças

Mas é curioso que este relato tão pormenorizado do livro dos Actos não coin­cida com a versão que o próprio Paulo dá nas suas Cartas.

Em primeiro lugar, em nenhum escrito seu Paulo conta a ninguém o que experimen­tou naquele dia a caminho de Damasco. Nem sequer aos Gálatas, que tinham posto em dú­vida o seu apostolado, e para os quais teria sido um excelente argumento contar-lhes esse acontecimento extraordinário. Só menciona a sua conversão de passo (Gal. 1,15). E quando, noutros textos, nos conta as suas visões e revelações, fá-lo na terceira pes­soa ("Sei de um homem ... ": 2 Cor. 12,2), como se não lhe agradasse falar desse tema nem aos seus mais íntimos. Pelo contrário, nos Actos, Paulo aparece a divulgá-lo várias vezes, com toda a liberdade, e uma delas nada menos que perante uma verdadeira multidão de gente desconhecida (Act. 22). Será este o mesmo Paulo das Cartas?

Em segundo lugar, os Actos não dizem que Paulo tenha visto Jesus. Mas só: "viu-se envolvido por uma intensa luz vinda do céu" e “ouviu uma voz” que lhe falava (9,3-4). Ao contrário, nas Cartas Paulo garante, embora sem entrar em pormenores, ter visto pessoal­mente A Jesus nesse dia. Aos Coríntios, inter­pela: “Não vi Jesus, nosso Senhor?” (1 Cor. 9,1). E ainda: "Em último lugar, apareceu-me também a mim" (1 Cor. 15,8).

Em terceiro lugar, Paulo assegura ter re­cebido tanto a sua vocação como o Evangelho que pregava, directamente de Deus, sem ne­nhum intermediário. Nas suas Cartas afirma: «Paulo, apóstolo - não da parte dos homens, nem por meio de homem algum, mas por meio de Jesus Cristo e de Deus Pai» (Gal.1,1). E diz: "Faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado, não o conheci à maneira humana, pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Je­sus Cristo" (Gal.1,11). Pelo contrário, nos Actos diz-se que foi Ananias quem explicou a Paulo o significado da luz que o envolveu, e quem lhe ensinou a doutrina cristã (9,10-18).

Há outras diferenças entre a versão de Actos e a de Paulo. Por exemplo, Actos apre­senta a experiência de Damasco como uma "conversão"; Paulo nunca diz que se conver­teu, mas fala da sua "vocação" (Gal.1,15). Actos diz que a sua conversão foi acompanhada de fenómenos externos (uma luz celestial, uma voz misteriosa, a queda ao chão, a cegueira); Paulo nunca menciona tais fenómenos exte­riores fantásticos, mas sobretudo afirma que a revelação que ele teve foi uma experiência in­terior (Gl1,16).

O porquê destas diferenças

Como se explicam estas diferenças? Por que motivo Lucas parece não ajustar-se ao que Paulo menciona nas suas Cartas? Para responder a isto devemos ter em conta a in­tenção de Lucas nos Actos dos Apóstolos.

5. Uma típica história de conversão

Lucas, no momento de compor o seu li­vro, conhecia uma tradição segundo a qual Paulo, a caminho de Damasco, tinha vivido certa experiência especial, e que um tal Ana­nias tinha desempenhado um papel impor­tante nela. E com estes dados compôs um relato seguindo o esquema das chamadas "lendas de conversão". Segundo J. Gnilka (43), este não é um relato de vocação. “É a história de uma conversão”! “A história da conversão, pintada em Act.9 foi esquematicamente seguindo um modelo que podemos encontrar também nas história judias de conversão, sobretudo na lenda de Heliodoro” (Gnilka, 44).

Que eram as "lendas de conversão"? E­ram narrações estereotipadas, nas quais se mostrava como a determinado personagem, i­nimigo de Deus, Este se manifestava com si­nais extraordinários e acabava por convertê-lo.

Um exemplo dessas lendas é a conversão de Heliodoro, relatada no 2º Livro dos Maca­beus. Conta esta lenda que Heliodoro, ministro do rei Seleuco IV da Síria, na sua perse­guição contra os judeus tentou saquear o te­souro do Templo de Jerusalém. Quando esta­va prestes a consegui-lo, Deus apareceu-lhe, numa impressionante manifestação. Heliodoro caiu por terra envolto numa cegueira total, ­enquanto os seus companheiros pressentiam o sucedido sem poderem reagir. No fim, Heliodoro, que tinha entrado no Templo com tanta soberba, teve de ser tirado numa esteira, mudo e incapacitado. Após vários dias, e gra­ças à intervenção de um judeu, o ministro recuperou as suas forças, converteu-se e rece­beu a missão de anunciar em toda parte a grandeza de Deus (2 Mac 3).

Três vezes a mesma coisa

Existem muitas outras lendas judias que contam do mesmo modo a conversão de al­gum personagem inimigo de Deus. Por isso, não devemos considerar os pormenores da conversão de São Paulo como históricos, mas antes, como parte de um género literário con­vencional.

E porque interessava tanto a Lucas a con­versão de São Paulo, ao ponto de não só a am­pliar com pormenores, mas de a repetir nada menos que três vezes? (ver Act 9,3-19; 22,6-16 e 26,12-18).

Porquê contar três vezes a mesma coisa, num livro como os Actos que se carac­teriza pela sobriedade e economia de porme­nores narrativos, e quando outros episódios mais importantes, como o do Pentecostes, aparecem apenas uma vez?

Porque Lucas, ao longo de todo o seu li­vro, pretende mostrar como se cumpre uma profecia de Jesus: que a Palavra de Deus se es­tenderá por todo o mundo de então. Com efeito, ao princípio, Jesus aparece aos apósto­los e diz-lhes: "Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo" (Act 1,8). E quais eram, naquele tempo "os confins do mundo"? Precisamente Roma, a capital do Império. Portanto, o objectivo de Lucas, nos Actos, é mostrar como a Palavra de Deus chega exactamente até Roma.

Uma profecia a cumprir

Mas Lucas não conhecia nenhum dos do­ze Apóstolos que tivesse chegado até Roma. No livro dos Actos, Pedra, a cabeça do grupo, nunca vai para além da Judeia e Samaria. João, companheiro de Pedra, tão-pouco viaja mais do que até Samaria. Tiago Maior é assas­sinado cedo. Tiago Menor não sai de Jerusa­lém. Matias, eleito na vez de Judas, desapa­rece imediatamente depois da sua eleição. Dos outros apóstolos não há sequer notícias.

Como mostrar que a profecia de Cristo se cumpre e que a Igreja chega "até aos confins do mundo"?

A solução foi fazer recair sobre Paulo o cumprimento desta missão. Mas o problema estava em que Paulo não era um verdadeiro apóstolo. Porque, para Lucas, "apóstolo" era o que tinha conhecido pessoalmente Jesus, e tinha recebido dele a missão de anunciar o Evangelho (Act 1,21-26); coisa que não suce­dera com Paulo.

Então, para explicar porque razão Paulo é o que cumpre a missão de chegar a Roma ­missão confiada, na verdade, aos apóstolos ­Lucas apresenta-o recebendo do próprio Je­sus esse encargo no caminho de Damasco. E repete-o três vezes ao longo do livro, enquan­to vai caminho de Roma, para que não restem dúvidas.

Um facto de conversão?

Como se vê, em todos estes trechos Paulo nunca interpreta este momento como um facto de conversão. Porquê?

Existem muitas hipóteses, mas para mim o motivo é muito evidente. Esta mudança da sua vida, esta transformação de todo o seu ser não foi fruto de um processo psicológico, de uma maturação ou evolução intelectual e moral, mas vem de fora:  não foi o fruto do seu pensamento, mas do encontro com Cristo Jesus. Neste sentido não foi simplesmente uma conversão, uma maturação do seu "eu", mas foi morte e ressurreição para ele mesmo: morreu uma sua existência e outra nova nasceu com Cristo Ressuscitado. De nenhum outro modo se pode explicar esta renovação de Paulo. Todas as análises psicológicas não podem esclarecer e resolver o problema. Só o acontecimento, o encontro forte com Cristo, é a chave para compreender o que tinha acontecido:  morte e ressurreição, renovação por parte d'Aquele que se tinha mostrado e tinha falado com ele. Neste sentido mais profundo podemos e devemos falar de conversão. Este encontro é uma renovação real que mudou todos os seus parâmetros. Agora pode dizer que o que antes era para ele essencial e fundamental, se tornou agora "esterco"; já não é "lucro", mas perda, porque agora só conta a vida em Cristo.

Contudo não devemos pensar que Paulo assim se tenha fechado num acontecimento cego. É verdade o contrário, porque Cristo Ressuscitado é a luz da verdade, a luz do próprio Deus. Isto alargou o seu coração, tornou-o aberto a todos. Neste momento não perdeu o que havia de bom e verdadeiro na sua vida, na sua herança, mas compreendeu de modo novo a sabedoria, a verdade, a profundidade da lei e dos profetas, e delas se apropriou de modo novo. Ao mesmo tempo, a sua razão abriu-se à sabedoria dos pagãos; tendo-se aberto a Cristo com todo o coração, tornou-se capaz de um diálogo amplo com todos, tornou-se capaz de se fazer tudo em todos. Assim podia ser realmente o apóstolo dos pagãos.






6. Voltando a nós, perguntamo-nos o que significa isto para nós?

1. Significa que também para nós o cristianismo não é uma nova filosofia ou uma nova moral. Somos cristãos unicamente se encontramos Cristo. Certamente Ele não se mostra a nós deste modo irresistível, luminoso, como fez com Paulo para fazer dele o apóstolo de todas as nações.

2. Sempre nos parecem distantes e misterio­sos os personagens bíblicos, precisamente porque aparecem a viver experiências estranhas e especialíssimas, que nenhum cristão normal vive actualmente. Seguramente a nossa própria vocação cristã, consagrada ou ministerial, também foi um encontro grandioso com Jesus ressusci­tado. Mas não ouvimos vozes estranhas, nem vimos luzes maravilhosas. E por isso não a costumamos valorizar. E muitas vezes estiola, anémica, nalgum canto da nossa vida diária. Por isso faz bem a quantidade de vezes em que pode­mos experimentar, ordinariamente, Jesus ressuscitado na nossa vida, e que essa pode ser a ocasião para nos animarmos a fazer coisas maiores do que as que fazemos normalmente. Como as que São Paulo fez! Também nós podemos encontrar Cristo, na leitura da Sagrada Escritura, na oração, na vida litúrgica da Igreja. Podemos tocar o coração de Cristo e sentir que Ele toca o nosso.

3. As páginas que, nos Actos dos Apóstolos e nas Cartas de Paulo, se referem à revelação na estrada de Damasco não permanecem fechadas na Bíblia: atravessaram a história, tornando-se, por sua vez, fonte de conversão. O termo conversão evoca uma inversão de rota, uma mudança profunda de perspectiva, uma nova maneira de ler e ver Deus, de nos lermos a nós próprios e de ler a história. Neste sentido, São Paulo traz-nos o desafio de uma conversão, a vários níveis,  não apenas religiosa ou moral, mas de uma conversão mental e mística[2].

Um bom exemplo da conversão religiosa é Santo Agostinho (séc.IV). Ele passa de um não conhecimento do Deus da Bíblia ao conhecimento do Deus de Jesus Cristo. Antes da sua conversão moral e mística, ele experimentou uma radical conversão religiosa, graças ao contacto com Cícero. Ele próprio confessa que «aquele livro (Hortênsio) mudou o meu modo de sentir, mudou as orações que eu dirigia ao Senhor, suscitou em mim novas aspirações e novos desejos; de um golpe ficou envelhecida a meus olhos toda a vã esperança e me fez ansiar a sabedoria imortal com inaudito ardor do coração. Assim comecei a levantar-me para Ti”. Curiosamente, foi Santo Agostinho que escreveu: “Paulo vem de Saulo, como um cordeiro saído de um lobo. Antes adversário, depois apóstolo; antes, perseguidor, depois testemunha do evangelho”.

Um exemplo de conversão moral seria Santo Inácio de Loyola (+1556). Acreditava em Deus, tinha sido educado na fé cristã, dedicava-se a certas práticas religiosas, mas agradava-lhe a vaidade deste mundo e sua vida estava muito desordenada. Doente e ferido numa perna, ao ler “A vida” de Cristo e algumas biografias dos santos, deu-se conta da sua distância em relação a Deus e como não o amava como devia. Daí começou um caminho que fará dele um homem ao serviço da Igreja. Sua conversão é uma conversão moral, porque desemboca no serviço aos outros e à comunidade eclesial.

Se procurarmos um exemplo de conversão intelectual encontramo-lo no Cardeal Newman[3]. Ele acreditava profundamente em Deus e em Jesus, era moralmente muito recto, de grande austeridade e santidade de vida. Mas, intelectualmente, não sabia qual Igreja representava verdadeiramente a Igreja instituída por Cristo. Fez um grande esforço por o conseguir saber. Tratava-se de um esforço racional, intelectual. Um dia ao estudar as heresias do século IV e o modo como a Igreja superou o arianismo e o donatismo intuiu o princípio da unidade e da centralidade de Roma. Ele fala de uma «iluminação» que mudou a sua vida. É importante esta conversão intelectual, que conduz a pessoa a convicções pessoais. Trata-se de uma conversão própria de pessoas que aprenderam a pensar pela sua própria cabeça e a assumir a razoabilidade da fé graças a um caminho laborioso, que o capacita para iluminar os outros.
Por último temos a conversão mística, de que é exemplo Teresa de Ávila (1515.1582). Teresa acreditava em Deus, vivia uma vida excelente mas confessa que o ambiente do mosteiro não a ajudava a dar um salto qualitativo. Depois de mais de vinte anos de mediocridade, penetra, por pura graça, nesse estado de simplificação no qual contempla o Senhor presente nela, em qualquer membro do Corpo místico, em qualquer pessoa ou situação, e contempla toda a realidade nele. A conversão mística, na realidade, é essa condição de vida que nos permite captar imediatamente a presença de Deus em tudo. É a etapa contemplativa.

Enfim, amados irmãos:

Só nesta relação pessoal com Cristo, só neste encontro com o Ressuscitado nos tornamos realmente cristãos. E assim abre-se a nossa razão, abre-se toda a sabedoria de Cristo e toda a riqueza da verdade. Portanto rezemos ao Senhor para que nos ilumine, para que nos doe no nosso mundo o encontro com a sua presença: e assim nos conceda uma fé viva, um coração aberto, uma grande caridade para todos, capaz de renovar o mundo.

7. Oração

Dobro os joelhos diante de ti, ó Pai,
de quem toda a paternidade
nos céus e na terra recebe o nome.

Peço que me concedas,
segundo a riqueza da tua glória,
que eu seja poderosamente fortalecido,
pelo teu Espírito, no homem interior.

Que Jesus Cristo habite, pela fé, no meu coração,
e, assim, radicado/a e fundado/a na caridade,
eu esteja em condições de compreender,
com todos os santos,
qual e a largura, o comprimento, a altura
e a profundidade do amor de Cristo,
que ultrapassa todo o conhecimento,
para que, deste modo,
eu fique repleto/a de toda a sua plenitude.

(Inspirada em Ef. 3,14-19)
P.S. A Festa da Conversão de São Paulo celebra-se a 25 de Janeiro. No ano de 2009 esta data ocorre precisamente ao Domingo. Todavia, é permitido celebrar em cada igreja uma Missa segundo o formulário Conversão de São Paulo Apóstolo, como está no Missal Romano. Neste caso, a segunda leitura da Missa é tirada do Leccionário Romano para o 3º Domingo "per annum", e recita-se o Credo. Tal concessão, por mandato especial do Sumo Pontífice, vale somente para o ano de 2009.

Bibliografia:
ARIEL ALVARÉS VALDÉS, Como foi a conversão de São Paulo, in Revista Bíblica, 54 / 316 (2008) 4- 10
BENTO XVI, A conversão de São Paulo, Audiência de Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008.
CARLO MARIA MARTINI, Oración y conversión, Ed. Verbo Divino, Navarra 1994.
J. GNILKA, Pablo de Tarso. Apóstol y testigo, Herder, Barcelona, 2ª edição, 2002.




[1] Para uma Lectio divina do texto de Act.9,1-8, veja-se o guião da Semana dos Seminários Diocesanos 9 a 16 de Novembro de 2008, Quem semeia com generosidade assim colherá, 99-112.

[2] Seguimos aqui uma meditação do Cardeal Martini, aos padres da Diocese de Milão, sobre a importância da conversão intelectual: CARLO MARIA MARTINI, Oración y conversión, Ed. Verbo Divino, Navarra 1994, 245-257.

[3] John Henry Newman (Londres, 21 de fevereiro de 1801Edgbaston, 11 de Agosto de 1890) foi um bispo anglicano inglês convertido ao catolicismo, posteriormente nomeado cardeal pelo papa Leão XIII em 1879.


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