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sábado, 18 de junho de 2011

A Pobreza


A Pobreza em Santa Teresa de Jesus

Quais são as grandes orientações espirituais de Santa Teresa em matéria de pobreza, que, arrancando do século XVI, sejam válidas para suas filhas carmelitas do século XXI?

Primeira consideração: Cremos que uma boa maneira de captar o que há de original e essencial - e por tanto, sempre atual - na concepção teresiana da pobreza, é sublinhar o que chamamos sua vertente "apostólico". O que entendemos nós com essa expressão?

Na linguagem moderna essa palavra pode ter um duplo significado:
Um primeiro, mais extenso, é o sentido "apostólico", que é tudo o que concorre para a obra divina da salvação do homem. Neste sentido, é apostólica uma pessoa ou comunidade que se propõe a imitar a vida dos apóstolos.
O segundo significado indica a maneira peculiar de pobreza, seu "estilo próprio": Para que essa pobreza seja um instrumento eficaz de salvação, tem que parecer-se o mais possível à que Cristo "aconselhou" a seus apóstolos, convidando-os a levá-la à prática.

1) Ser pobres como os apóstolos para "ajudar' a Cristo em sua obra de salvação.

O gênero de vida proposto por Teresa a suas irmãs é de finalidade essencialmente apostólica (no primeiro sentido). Para Teresa a "vida contemplativa" é um meio de trabalhar na salvação das almas. ( "E se vossas orações e desejos e disciplinas e jejuns não forem empregados no que acabo de dizer, não estais cumprindo o fim para o qual o Senhor vos juntou aqui".)

Os únicos meios que Teresa pode oferecer a suas irmãs para alcançar este objetivo são os da vida contemplativa, e que ela resume em um só: a "ORAÇÃO".

Para que a oração das Carmelitas possa ser escutada por Deus, deve partir de uma vontade que, no mais profundo do seu ser, se identifique com a vontade do Pai.

E qual será o meio, para se obter este objetivo? Será sempre o cumprimento fiei dos mandamentos, como diz a própria Santa Teresa: "seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição que eu pudesse e procurar que estas pouquinhas que estão aqui fizesse o mesmo" (C 1,2).

Para Teresa está claro que o "conselho" de Cristo por excelência é o da pobreza.

2) Em que consiste o estilo de pobreza vivido pelos Apóstolos?
Consiste na imitação da pobreza de Cristo.
Concretamente, isto significa para Teresa voltar à Regra primitiva do Carmelo, que estabelecia precisamente um estilo de pobreza totalmente "apostólico".

a. A imitação da pobreza de Cristo

O pobre que Teresa contempla em Jesus é aquele que a Escritura designa com o nome de Servo de Javé; aquele que recapitula em si mesmo e leva a sua última perfeição toda a justiça e santidade dos pobres de Javé, sobretudo de Maria, a Mãe de Jesus, rainha dos Anawim: "Muito te desatinará, filha, se olhas as leis do mundo. Põe os olhos em mim, pobre e desprezado dele". ( R. 1570,Toledo)

Jesus foi pobre desde o momento de sua concepção no seio de Maria sua Mãe. Depois quis Ele nascer em Belém na mais completa desnudez. (C 2,9). Teresa gosta de apresentar a suas irmãs o mistério insondável da pobreza de Deus feito homem, falando-lhes das "lágrimas do recém-nascido, da pobreza de sua mãe, da dureza do presépio, do rigor do tempo e da falta de acomodação do estábulo". (Entretenimento nas carmelitas de Valladolid, a vigília de natal, 1568, Reforma).

Durante sua vida pública, não tendo Cristo onde repousar a cabeça, teve que contentar-se, muitas vezes, com o dormir ao relento.

Porém, o ponto culminante da pobreza, Cristo o alcança, quando morre na cruz totalmente nu e abandonado de todos. Este mistério se prolonga admiravelmente na Eucaristia (F 3,13)

b. A imitação da pobreza dos Apóstolos

Os apóstolos foram os primeiros imitadores da pobreza de Jesus. Eles nos oferecem um modelo por excelência, inspirado diretamente por Cristo.

Eles constituem, com Jesus, o novo povo de Israel dos verdadeiros Pobres de Javé.

Jesus lhes pede (aos Apóstolos), que se abandonem sem reservas á Providência divina em tudo o que concerne sua subsistência material (C 2,2)

c. Pobreza "apostólica" da Regra primitiva

A Regra do Carmelo, sobretudo no tocante à pobreza, incumbe a cada um que trabalhe para ganhar o seu pão (Cons 2,6), com referência explícita ao ensinamento de São Paulo; com obrigação de pôr tudo em comum.

Na Regra Primitiva, está uma reprodução exata da pobreza apostólica, condição necessária para que a oração das carmelitas (aquelas primeiras do Carmelo São José de Ávila) possam ser ouvidas.

Para Teresa há uma correspondência absoluta entre o cumprimento dos conselhos evangélicos e a Regra (ef. C 1,24 e V 32,9). 
Fundamento Básico: Abandono Absoluto à Providência
A medula do conselho da pobreza, dado por Cristo a seus Apóstolos, consiste em entregar-se incondicionalmente à Providência divina, sem inquietação e com absoluta confiança (Cf Mt 6, 25-33)

Para Teresa, este texto do Evangelho fundamenta a sua maneira de entender a pobreza (Cf R 1,21; C2,2; CE 61,1 e Cons 2,1)

1. Fundamento da atitude de abandono

a. Tudo pertence a Deus e tudo vem dele. Ele é o Senhor das rendas e dos rendeiros; por isso, tudo o que recebemos, dele recebemos. Por isso também, a nossa gratidão aos nossos benfeitores, mas, sobretudo, a Ele que é o nosso Benfeitor por excelência.

b. Deus nos dá tudo aquilo de que precisamos. Isto se fundamenta no que Santa Teresinha chamará com a maior simplicidade "a maneira de ser de Deus".

Seu amor. Todo o pensamento da Santa está profundamente impregnado da idéia da solicitude infinita do Criador por todas as suas criaturas e muito particular por aquelas, que, como as carmelitas, não têm outro desejo que o "buscar o Reino de Deus e sua justiça" cumprindo em tudo a vontade de seu Filho. Teresa atribui a Cristo - o mesmo papel do Pai - . Não é Ele o seu Esposo por cujo serviço abandonaram tudo: pais, riquezas, honras, amigos? "Olhos em vosso esposo; Ele vos há de sustentar" (C 2, 1)

Sua sabedoria. Sendo Ele a "Sabedoria mesma" (V 27,14), sabe melhor que nós o 'que nos é necessário (CV 17,7), e os meios mais convenientes para nos dar aquilo de que precisamos.

Sua onipotência. Basta que o servo se contente com fazer o que seu Senhor espera dele, sem se preocupar por nada do mundo para sua própria subsistência.

A fidelidade a sua promessa. No Sermão da montanha Jesus nos revelou o rosto de Seu Pai celestial, que se preocupa por seus filhos, atendendo as suas necessidades para viver. E Teresa continua: "Verdadeiras são suas palavras; não podem faltar; antes faltarão o céu e a terra' (C 2,2).

2. Verdadeiro significado da atitude de abandono

a. Dois textos da Santa mostrando como convém entender, e sobretudo viver, com clareza, esse abandono à Providência:

"Queria falar com quem me ajudasse a crer assim, e não ter preocupação com o que hei de comer e vestir, senão deixá-lo a Deus" (Primeira Relação, 1560). "Não se entenda que este deixar a Deus o que é necessário seja de maneira que não o procure, porém, que não seja com preocupação, ... (R 1,21).

O outro texto, de sentido mais geral, se refere à essência mesma do que ela chama de "pobreza espiritual" (C 2, 3. 5) "Não digo eu que o deixe, senão que o procure, se for bem... Porque o verdadeiro pobre tem em tão pouco estas coisas, já que, algumas coisas as procura, jamais se inquieta, porque nunca pensa que há de faltar, e que o falte, ... tendo-o por coisa acessória e não principal e, como tem pensamentos mais altos, a força dos braços a ocupa em algo mais elevado". (CE 66,7).

b. Como entender o abandono?

Fazer tudo quanto depende de nós. O verdadeiro abandono não pode significar descuido, imprevisão, atitude irresponsável, passividade. "Ajuda-te e o céu te ajudará". Isto significa que a Providência divina não nos dispensa de trabalhar nos seguintes pontos: previsão e esforço para ganharmos o nosso pão de cada dia.

Porém não devemos nos inquietar. Há uma inquietação boa e outra má. A boa é a que busca os "bens verdadeiros", as "verdadeiras riquezas", quer dizer, "O Reino de Deus e sua justiça", em uma palavra, o mesmo Jesus: "Ó Riqueza dos pobres, e que admiravelmente sabeis sustentar as almas!" (v 38,21). Este é o tesouro escondido que temos de buscar com todas as nossas forças, sem cansar-nos nunca (5M 1,3), e que nos faz morrer de gozo quando chegarmos a descobri-lo (V 38,20). A inquietação má é a que busca com afã e perturbação interior as riquezas materiais, supérfluas. Esta provém da falta de fé, e de dois modos diferentes:

Em primeiro lugar, por dar importância ao que não deveria tê-la.
Em segundo lugar, por esquecer a promessa do Pai celestial de não abandonar jamais a seus filhos.

Conclusão
O que as carmelitas têm que buscar a todo custo é a paz interior, tão necessária para a sua vida contemplativa.

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