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domingo, 12 de junho de 2011

Ordem Cisterciense

A Ordem Cisterciense e o seu Desenvolvimento

 


Há nove séculos, em 1098, no dia 21 de março, início da primavera européia, festa de São Bento, e naquele ano também Domingo de Ramos, vinte e um monges deixaram o mosteiro de Molesme para fundar na Borgonha francesa, a 20 km ao sul de Dijon, uma nova sede monástica, que foi chamada "Novo Mosteiro". Encabeçando o grupo de 21 monges estava o próprio abade de Molesme, Roberto, que tinha obtido antes a aprovação do Legado do Papa, Hugo, arcebispo de Lyon. Mais tarde o "Novo Mosteiro"receberá o nome de Cîteaux, proveniente do nome da localidade, Cistercium, em latim.
Eis, em poucas palavras, a origem dos cistercienses, que tanto desenvolvimento deveriam alcançar nos séculos sucessivos. Origem humilde e difícil, de homens que dispunham de pouquíssimos meios, de um terreno inculto e selvagem, recebido em doação de Reinaldo, visconde de Beaume, mas de grande coração e de fé segura, sustentado pelo desejo, que se estendia por anos, de uma vida monástica solitária e pobre, fiel à tradição dos antigos, representada pela Regra de S. Bento.

Quem foi o primeiro santo abade de Cîteaux e quais as vicissitudes que o levaram, juntamente com os seus companheiros, a dar este passo ?
Roberto nasceu por volta de 1028 numa pequena localidade da Champagne, filho de nobres e na primeira juventude entrou para a abadia de Moutier-la Celle, perto de Troyes, onde em 1053 torna-se prior. Em 1068 foi eleito abade de Sain Michel de Tonnmerre, depois, por razões desconhecidas, retornou a Troyes e logo depois foi eleito prior de Saint-Ayoul. Também neste último lugar a sua permanências foi breve: em 1074 realizou o seu desejo de vida eremítica, retirando-se nos bosques de Collan. Logo outros eremitas se reagruparam ao seu redor e o grupo tornou-se numeroso. Achou-se melhor fundar um mosteiro: Molesme. Corria o ano de 1075.

A sua experiência, a fama de sua santidade, o desejo de reformar a vida monástica imitando os Padres do deserto, atraiu numerosas vocações e muitas doações dos nobres que residiam nas imediações. Foi possível, então, fundar priorados e abadias dependentes. Calcula-se que em 1100 existiam mais de 40 mosteiros dependentes de Molesme. Um notável sucesso. Entretanto, em breve tempo, o número de eremitas fundadores encontrou-se em minoria e a abadia tornou-se em tudo semelhante às demais existentes naquela época. Não se tratava de decadência, o desenvolvimento o comprova, mas as doações traziam consigo provilégios para os nobres, que vinham ao menos uma vez por ano com toda a corte; os monges tinham servos e colonos; a pobreza e a solidão tinham desaparecido, como também a possibilidade de seguir fielmente a Regra de S. Bento. Eis as razões que levaram os mais fervorosos entre os monges de Molesme a fundar o Novo Mosteiro.

Antes de continuar a narração sobre os cistercienses, consideremos brevemente a época histórica na qual se dá a fundação.
Estamos no apogeu de uma renovação iniciada no século X e manifestada claramente no século XI.
O fim das grandes raças escandinavas do norte, dos sarracenos no sul e dos húngaros do leste, tornou possível na Europa uma grande renovação da sociedade, sob o aspecto demográfico, econômico, social, político e cultural. A Igreja participa ativamente deste desenvolvimento com a reforma gregoriana, promovida pelo Papa Gregório VII (1073-1085): independência da Igreja do poder civil, retomada da sua tarefa espiritual, melhoria do clero.
Parte não pequena nesta reforma teve o Monaquismo, que, com Cluny no início do século X, liberta-se do domínio dos nobres, dependendo formalmente do Papa e conhece um crescimento portentoso em toda a Europa, ininterruptamente por mais de 200 anos, sob a guia de cinco santos abades. Em Cluny, grande importância era dada à liturgia, que ocupava grande parte da jornada monástica com conseqüente redução do trabalho e da oração pessoal. A liturgia queria ser um prelúdio da liturgia celeste, multiplicando ouro, prata pedras preciosas e sedas para as alfaias de altar, das igrejas, das procissões, dos pontificais. O governo era uma imitação da sociedade feudal: de Cluny dependiam alguns mosteiros que, por sua vez, tinham priorados numa ordem hierárquica piramidal. Empregados e colonos supriam o trabalho dos monges, que se ocupavam da cópia dos manuscritos, coisa tão benemérita para a cultura. Eram muito generosos para com os pobres, sobretudo durante os períodos de carestia, quando chegavam a vender os ornamentos da Igreja para suprir às necessidades dos indigentes.
Cluny não foi a única reforma daqueles séculos fecundos: na Itália S. Romualdo funda Camaldoli em 1012; João Gualberto faz nascer os Valumbrosanos em 1039: Pedro Damião é eremita em Fonte avelana. No oeste da França as novas fundações e reformas foram numerosas: entre as mais importantes temos a congregação Savigny, a ordem de Grandmont, os mosteiros mistos (monges e monjas) de Fontevrault, os Cartuxos fundados por São Bruno em 1084. Temos ainda as reformas canonicais dos Vitorinos em Paris e dos Premonstratenses. Todas ou quase todas estas reformas tinham a mesma inspiração: uma vida mais simples e pobre, mais solitária e separada do mundo, mais próxima do grande modelo idealizado pelos primeiros monges. Elas nascem não como reação contrária a um período de crise, mas sob o influxo de um crescimento espiritual e material. Evidentemente os cistercienses inserem-se neste movimento e o seu grande sucesso deve-se ao ter sabido interpretar as exigências, as aspirações e a cultura da sociedade daquele tempo.
Cluny foi, todavia, a grande representante do monaquismo beneditino tradicional, os assim chamados monges negros, em virtude da cor do hábito, aos quais foram contrapostos os cistercienses (monges brancos), numa fervente emulação, não isenta de polêmicas. Foram chamados monges brancos pela cor do hábito feito, por pobreza, de lã não trabalhada de ovelha, sem nenhum tingimento.

Santo Alberico, o segundo Abade
Retomamos, pois a história cisterciense interrompida no início da fundação, história desde logo tão movimentada, pois somente um ano após a partida dos 21 monges fundadores, a situação em Molesme tornou-se crítica. Com efeito o sucessor de Roberto não tinha um prestígio comparado ao seu, e a partida dos monges mais fervorosos fez aparecer graves abusos, com a conseqüente perda de estima e subvenções dos nobres do local. O único remédio pareceu ser o retorno de Roberto. Apelou-se para o Papa, o qual delegou o juízo a um sínodo local, que decidiu acolher o pedido de Molesme. Em 1099 os cistercienses tiveram que eleger um novo abade, na pessoa de Santo Alberico, um dos eremitas de Collan, que tinha seguido Roberto para Molesme, onde tinha sido nomeado prior. Favorável a uma reforma de seu mosteiro e, em seguida, ao êxodo para fundar um novo, tinha sofrido uma verdadeira perseguição , com injúrias, prisão e até agressão física. Era o homem mais segero para impedir uma nova rápida decadência e manter o espírito original. Transferiu o mosteiro para um lugar mais favorável, 1km ao norte. Construiu a primeira igreja de Cîteaux, consagrada em 1106 e preocupou-se em obter do Papa um privilégio que colocava o mosteiro sob a proteção de Roma. Foram fixadas normas de conduta e de vida que procuravam abolir dos usos monásticos do tempo tudo o que fosse contrário à Regra de São Bento. Afirmava-se, particularmente, a escolha da pobreza e de um lugar solitário para o mosteiro, a obrigação do trabalho manual para os monges, para conseguir do próprio sustento, renunciando aos dízimos e aos benefícios eclesiásticos. Alberco conseguiu consolidar a fundação e faleceu em janeiro de 1109, tendo como prior Estêvão, que foi eleito seu sucessor.

Estêvão Harding era de família nobre inglesa e entrou em Molesme, retornando de uma peregrinação a Roma, atraído pela fama deste mosteiro. Associou-se logo aos mais fervorosos, que desejavam uma vida mais austera e fez parte dos 21 monges que fundaram Cîteaux.
Ganhou logo a confiança dos nobres vizinhos que com suas doações fizeram crescer a propriedade do mosteiro, exatamente quando as vocações começaram a se tornar numerosas. Quis, entretanto, precaver-se de retornar à situação de Molesme e proibiu aos doadores de virem visitar o mosteiro com suas cortes. Esta medida radical, em contraste com o costume daquele tempo, não afastou a simpatia e o auxílio dos poderosos.
Estêvão era um estudioso: melhorou a liturgia fazendo até mesmo pesquisas, difíceis para aquele tempo, para ter hinos autênticos de S. Ambrósio; cuidou de uma séria pesquisa sobre os livros da Bílbia junto aos textos hebraicos originais com o auxílio de rabinos eruditos, e o resultado foi uma preciosa Biblia que foi miniaturada pelo scriptorium de Cîteaux e que chegou até nós. Seguiram-se outros trabalhos como a cópia, sempre ricamente miniaturada, dos Moralia in Job de São Gregório Magno, obras que se encontram entre as mais importantes da época.

Já no inicio do abaciado de Estevão, foi necessário fazer fundações, pois os monges já eram numerosos. A primeira, La Ferté, é de maio de 1113, e neste mesmo ano entrava em Cîteaux aquele que deveria tornar-se o mais famoso dos cistercienses: São Bernardo, juntamente com alguns amigos e parentes. A lenda posterior, para engrandecer os méritos deste santo, antecipou a sua entrada para 1112, declarando que antes dele faltavam vocações. Entretanto, São Bernardo possui tantos méritos que é não necessário um tal suplemento lendário. Todavia, permanece incontestável que o grandiosos desenvolvimentos sucessivoss se devem em grande parte à sua fama e influência.
 Em 1114 se faz a segunda fundação em Pontigny, e no ano seguinte serão duas: Morimond e Clairvaux, esta última tendo como superior o jovem Bernardo. Estas quatro primeiras casas filhas tiveram uma relação especial com Cîteaux e uma função especial na nova ordem monástica. A casa mãe e as quatro casas filhas fundaram numerosos mosteiros; outros já existentes agregaram-se à refora cisterciense, de modo que, em 1145, as abadia eram 200, 300 e 1150, e depois, lentamente, até atingindo um total máximo de 700, dois séculos mais tarde.

A causa principal desta expansão espetacular (pode-se dizer, com certo exagero que se podia viajar por toda a Europa, sem sair dos domínios cistercienses) foi sem dúvida, além da influência de personalidades carismáticas: o fato dos cistercienses interpretarem os ideais e as aspirações do século XII, não somente das classes mais ricas, mas também dos mais pobres. A grande expansão foi possível por causa de um número elevado de "irmãos conversos", cuja fonte inspiradora terá sido Camaldoli e Vallombrosa, mas que somente em Cîteaux tiveram uma acolhida, um estatuto, um desenvolvimento consideravel. Tratava-se de colonos e servos, que entravam não como verdadeiros monges de coro, que dedicavam muito tempo ao trabalho. Recebiam, porém, uma sólida formação religiosa e participavam dos benefícios espirituais da vida monástica e também tinham uma estabilidade e segurança que os colonos e os pobres não tinham, especialmente durante os períodos de carestia.
(Do opúsculo "Ordine cistercense - nono centenario della Fondazione 1098-1998",texto de Pe. Giuseppe Resmini, monge de Frattocchie, Roma)

(Tradução de Dom Abade Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

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