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segunda-feira, 13 de junho de 2011

A montanha Santa


  Monte Atos – A montanha Santa
Chamado pelos cristãos ortodoxos de Montanha Sagrada, este Estado-monástico-teocrático, no norte da Grécia, permanece isolado e distante da vida profana, como bem simbolizam a maioria de seus mosteiros no alto de penhascos sobre o mar Egeu. Os vinte mosteiros que compõem o conjunto, jamais visitados por uma mulher, guardam a arte, a rigidez ascética e a memória de mil anos de cristianismo. O cotidiano dos quase 1500 monges inclui de cinco a oito horas de orações, além de jejum e trabalho dedicados a Deus e à padroeira do Monte Atos, a Virgem Maria.
Não se sabe, exatamente, desde quando a vida monástica está presente no Monte Atos. Sabe-se, entretanto, que já no século VII lá peregrinavam ascetas do oriente e Egito perseguidos pelos árabes. Neste período chega no Monte Atos muitos monges procurando segurança, silêncio e isolamento indispensável para o desenvolvimento espiritual e, por isso intencionavam, viver longe do mundo.
Uma tradição milenar e a imutável hierarquia dos vinte mosteiros, onde vivem 1500 monges, guardam a memória do cristianismo ortodoxo desde o século X da nossa era. Sobre um promontório, com seu ápice no Monte Atos a 2033 metros de altura, os monges vivem imunes às turbulências da vida moderna, as paredes dos mosteiros preservam milhares de ícones, relicários, imagens sagradas e afrescos valiosos da arte da Macedônia e cretense. Ali, nessa república autônoma, monástico-teocrática o tempo não conta. Até o calendário usado no Monte Atos é diferente: está atrasado 13 dias em relação ao civil, é utilizado o calendário Juliano, que é o calendário litúrgico de toda a Igreja Ortodoxa. As horas os monges começam a contar a partir do crepúsculo.
Ao norte da Grécia, a província conhecida como Macedônia – terra de Alexandre, o Grande, apresenta uma grande península, a região da Calcídia. Na forma aproximada de um tridente, a Calcídia lança três faixas de terra sobre o Mar Egeu: as penínsulas de Cassandra, Longos e Atos, que é a mais oriental delas, medindo cerca de 60 quilômetros de comprimento por oito a doze de largura.
Com o litoral recortado por baías e enseadas, o local já foi conhecido como Pequena Grécia. Os gregos chamam o Monte Atos de Hágion Oros, que significa Monte Santo. O politeísmo da Grécia antiga narra-nos lendas sobre os primórdios da península. Uma delas afirma que uma briga feroz entre o deus das profundezas marinhas, Posêidon (Netuno, para os romanos) e o gigante Atos, que teria atirado um imenso rochedo sobre o deus. Errou o alvo e acabou lançando ao mar o Monte Atos. Outra versão diz que Posêidon teria sido o agressor, arrancando um fragmento da península de Palena para golpear o oponente.
A Tradição Cristã nos diz que, após a Ressurreição de Jesus Cristo, a Virgem Maria teria viajado em um barco, acompanhada do apóstolo João, rumo à ilha de Chipre. Lá visitaria Lázaro, que, havia sido ressuscitado algum tempo antes pelo Messias, durante sua estada em Betânia, uma aldeia próxima a Jerusalém. Uma forte tempestade teria surpreendido a Virgem Maria e São João no meio do caminho e eles foram obrigados a procurar refúgio na península de Atos, no local onde hoje se encontra o mosteiro de Iveron. De acordo com a Tradição, a Virgem Maria ficou impressionada com a beleza do lugar e orou para que seu filho lhe concedesse a soberania eterna do Monte Atos. Em resposta ao pedido, ouviu-se uma voz que parecia vir do céu, dizendo: “Que este lugar seja teu prêmio, teu jardim, teu paraíso e um refúgio para todo aquele que deseja a salvação”. Por causa disso, todos os mosteiros construídos na região foram dedicados à Virgem Maria, considerada protetora eterna do lugar.
Do ponto mais alto da península, avista-se as lendárias costas da Macedônia e da Trácia e ainda o Monte Olimpo, situado a mais de 200 quilômetros de distância e considerado pelos antigos politeístas como a morada dos deuses. Mas é o cristianismo ortodoxo que governa o Monte Atos desde o século X.
A proximidade com Bizâncio, posteriormente chamada de Constantinopla depois da transferência da capital do império por Constantino, atual Istambul, na época uma cidade forte e próspera, favorecia a proteção e ao isolamento. De 330 quando da transferência da capital até 1453, Constantinopla, cidade fundada pelos gregos à margem do estreito de Bósforo, foi a capital do Império Romano do Oriente, também chamado Império Bizantino.
O Monte Atos foi o principal local de concentração de eremitas e anacoretas de toda a Grécia, moravam sozinhos ou em pequenas casas comunitárias para dois ou no máximo três monges. Praticavam ascetismo rigoroso – jejum e oração incessante. A exposição ao tempo frio e quente aliada à oração, dava a eles forças para resistir às paixões carnais. Viviam em total tranqüilidade no seio da natureza com o mínimo de necessidades e o mínimo de contato com o mundo exterior. Por estes motivos obtiveram respeito da população da península Calcídica e posteriormente de toda Grécia e hoje de todo o mundo. O período entre os séculos X e XII é considerado a “Era de Ouro” do Monte Atos, quando sua fama cruzou as fronteiras da península e atraiu monges ortodoxos da Sérvia, Rússia, Bulgária, Romênia e Geórgia. Durante este período o Monte Atos chegou a ter 120 mosteiros e mais de 20.000 monges.
O Santo Monte Atos constitui uma parte independente do país grego atuando sob orientação espiritual do Patriarcado de Constantinopla. A capital deste estado teocrático-monástico é a vila de Karyes que é a sede do governo civil e onde situa-se a residência do Protos (Primaz), que está diretamente ligado ao Ministério das Relações Exteriores. A Autoridade Legislativa está nas mãos da Santa Synaxeis, uma assembléia constituída de 20 membros, que reúne-se duas vezes anualmente em Karyes. A Santa Comunidade é um corpo administrativo constituído de 20 membros com mandato anual sob a liderança do representante da Grande Lavra. Decisões judiciais são tomadas por várias autoridades: crimes e delitos leves são levados aos tribunais em Tessalônica; disputas entre diferentes mosteiros (dependendo da natureza) são resolvidos, ou pela Santa Comunidade ou pelo Santo Sínodo do Patriarcado de Constantinopla; enquanto problemas menores são julgados nos respectivos mosteiros. O corpo executivo dos comitês acima é a Santa Epistasia, que é composta de 4 membros representantes de quatro grupos de mosteiros do Monte Atos, nomeada a cada ano pela Santa Comunidade. Os 20 mosteiros existentes no Monte Atos são distintos pela denominação: real, aqueles que foram fundados por autorização de um decreto imperial e apoiados pelo Imperador bizantino; patriarcal e stavropegial, os que estão diretamente subordinados ao Patriarca de Constantinopla.
Atualmente vivem no Monte Santo em torno de 1500 monges ortodoxos de diversas nacionalidades em 20 mosteiros, em numerosas “kellia”, “kalyvae”, “skit” e eremitérios. “Kellion” é uma ampla sede de um só prédio com capela e contendo uma pequena área de terra para cultivo, acessível através do mosteiro destinada a grupos de três monges, que normalmente ocupam-se com agricultura, as “kellia” estão subordinadas a um dos 20 mosteiros principais. “Kalyva” é menor que uma “kellion” contendo uma capela, mas sem terra para cultivo associada, uma pequena mensalidade é paga por cada monge da “kalyva” ao mosteiro principal a que está ligada a “kalyva” “Skit” são comunidades organizadas constituídas de várias “kalyvae”, normalmente são antigos mosteiros, localizados no terreno de um mosteiro principal; os monges que vivem em “skit” normalmente ocupam-se com artesanato e escultura. Eremitérios ou hesicastérios são normalmente grutas ou pequenas cabanas para aqueles que querem viver a vida ascética em inviolável solidão; os eremitérios encontram-se, principalmente em lugares isolados tais como na parte sudoeste da península.
Os graus monásticos
Qualquer cristão ortodoxo (acima de 18 anos) do sexo masculino (no caso do Monte Atos) pode escolher seguir a vida monástica, apresentando-se ao superior do mosteiro (arquimandrita ou igúmeno) declarando ter tomado a decisão por livre e espontânea vontade e entrar na categoria dos noviços. Ao final do período de um ano, pode ser dado ao noviço o grau de rasofore (portador do raso, i.e. túnica a ser usada como parte dos trajes monásticos) se o superior do mosteiro considerar oportuno. Neste momento, também, o noviço é tonsurado passando a ser denominado monge rasofore, que ainda pode renunciar à vida monástica e voltar para o mundo. A seguir vem o grau de monge portador do pequeno escapulário, recebido pelo monge após responder a uma série de perguntas de modo a verificar sua determinação em seguir a vida monástica e receber a segunda tonsura feita com os votos definitivos de celibato, pobreza e obediência. O monge de mais alto grau é conhecido como monge portador do grande escapulário. O grande escapulário é concedido a poucos monges, geralmente de idade avançada e de rigoroso ascetismo.
A vida diária no Monte Atos
A cada madrugada bem antes do amanhecer, os monges são chamados à oração na igreja do mosteiro pelo som da simandre (bastão de madeira e pequeno martelo) ou sino aos domingos e dias de festa. Após uma série de ofícios litúrgicos que culminam com Matinas e a Sagrada Liturgia, os monges reúnem-se para uma refeição frugal, a primeira das duas únicas refeições que fazem por dia, constituída de batatas cozidas, saladas, azeitonas, nozes e pão integral. Eles nunca comem carne. As 2as. feiras, 4as feiras e 6as feiras são dias de jejum, isto significa que as refeições não contém óleo, ovos, leite, queijo e peixe, às 4a.s feiras e 6a.s feiras comem apenas uma vez por dia. Apenas aos domingos podem comer peixe. Durante as refeições são lidos trechos da Filokalia e, fora o leitor, todos os demais monges permanecem em absoluto silêncio.
Após a primeira refeição do dia iniciam o período de trabalho nos jardins, nos vinhedos, nas plantações, nas hortas, pintura de ícones, limpeza e manutenção dos prédios dos mosteiros e estudos teológicos. Os mosteiros produzem todo o alimento e os móveis que utilizam, com isso conseguem manter a autonomia financeira e acreditam que cada trabalho na terra guarda sua parte celestial. A oração é realizada concomitantemente à realização dos trabalhos, podendo também ser reservado períodos de oração em privado, isto é, na cela individual do monge.
Ao final da tarde segue-se os ofícios de nona hora canônica e vésperas seguido da refeição noturna. Segue-se, então, o ofício de pequenas completas, após o qual o silêncio torna-se obrigatório para todos.
Ciclo de ofícios e atividades dos monges no Monte Atos
Hora Ofícios Atividades
01:00 Ofício da meia-noite
Matinas
Horas canônicas (1,3,6)
Sagrada Liturgia
07:00 1a. refeição
08:00 Início dos trabalhos
15:00 Descanso na cela
16:00 Nona hora e vésperas
18:00 2a. refeição
19:00 Pequenas completas com cânon à Mãe de Deus
20:00 Descanso na cel
Os ofícios da madrugada duram em torno de 5 horas e meia a 6 horas. O tempo de descanso na cela significa tempo no qual os monges dedicam à oração pessoal, leitura das Sagradas Escrituras e da Filokalia e ao descanso propriamente dito. A rotina monástica pode ser dividida em três partes: oito horas de oração, oito horas de trabalho e oito horas de descanso.
A Arquitetura dos mosteiros no Monte Atos
Os mosteiros no Monte Atos foram construídos no estilo arquitetônico bizantino, fortificados por quatro paredes elevadas e torres no estilo das pequenas cidades. Alguns mosteiros foram construídos sobre enormes rochas, posições naturalmente defensivas, como por exemplo os mosteiros Simon Petras e Dionísio. Os principais prédios de interesse arquitetônico são:
• as torres
• as celas
• o Katholikon
• a phiala
• os refeitórios
• os campanários
• e as arsanas
As torres
As torres serviam para defesa contra ataques e também usadas com ponto de observação. As mais altas encontram-se nos mosteiros de São Dionísio (23,9 m), Grande Lavra (21 m), Karakalos (25,8 m) e Dokheiariou (22 m). As torres eram construções de tijolo ou pedra bruta, com um grande piso que servia como área de estocagem. Os monges protegiam-se na capela no alto da torre e mantinham-se em oração em momentos de perigo: ataques de piratas e saqueadores.
As celas
Situam-se no interior dos mosteiros, são pequenos quartos retangulares para uso individual dos monges. Na maioria dos mosteiros, chega-se a ter vários andares destinados às celas.
O Katholikon
O Katholikon é a igreja principal de um mosteiro e como tal o prédio mais importante deste. O tipo de Katholikon dos mosteiros do Monte Atos tem a forma de cruz com a cúpula central apoiada por quatro colunas. As duas cúpulas menores cobrem o santuário e o nártex . No nártex são realizadas as orações da Lítia , nas Vigílias das Grandes Festas, para que os catecúmenos e penitentes possam participar.
A phiala
A phiala é uma cúpula sustentada por um anel e pilastras, normalmente encontrada entre o Katholikon e o refeitório. A phiala é utilizada para a benção da água na festa da Teofania, pois sua cúpula situa-se diretamente acima de um poço ou fonte.
O refeitório
O mais importante prédio de um mosteiro depois do Katholikon é o refeitório, onde os monges fazem suas refeições comunais. Os monges reúnem-se no nártex e entram cantando em procissão seguidos pelo superior do mosteiro (arquimandrita ou igúmeno). A primeira refeição do dia é considerada o último ato da Sagrada Liturgia. O superior do mosteiro toma o seu lugar na cabeceira da mesa, de onde abençoa os alimentos e o leitor para as leituras de praxe durante a refeição, normalmente trechos da Filokalia. O refeitório é situado imediatamente em frente ao Katholikon, possui forma retangular (1:3) e, assim como o Katholikon, está alinhado com o eixo leste-oeste dos pontos cardeais.
O Campanário
Além das torres de fortificação, os mosteiros normalmente possuem um a torre de um campanário, que abriga os sinos, a simandre e mais recentemente um relógio. O campanário é construído próximo ao Katholikon ou constitui parte dele. O mais antigo campanário é o do mosteiro de Vatopedi e data de 1427. No Monte Atos os sinos são tocados apenas aos domingos e dias de festa. Nos dias comuns um monge toca a simandre para o toque de despertar e para convocar os monges para os ofícios e refeições.
A arsana
A arsana é um ancoradouro que pertence aos mosteiros que situam-se no litoral próximo ao mar. Associado à arsana existe um prédio retangular com um grande portão em forma de arco diretamente voltado para o mar. Este prédio é utilizado como abrigo para os barcos de pesca e outras pequenas embarcações. Suprimentos são trazidos pelos barcos e armazenados na parte traseira do prédio, enquanto o monge responsável pela arsana, denominado arsanaris, mora no andar superior. Para a proteção dos víveres estocados, normalmente em quantidades consideráveis, uma fortificação com a forma de torre com uma capela no seu topo, era construída perto ou ao lado do prédio da arsana.
Quase todos os mosteiros no Monte Atos foram construídos nos moldes da Grande Lavra, com o Katholikon ao centro rodeado pelo prédio do mosteiro em si, como se fosse uma fortificação protegendo-o. O Katholikon em si também apresentam uma forma similar em quase todos os mosteiros, com uma estrutura principal em forma de cruz e duas capelas laterais.
A história do desenvolvimento do monasticismo no Monte Atos pode ser dividida em três grandes períodos:
- durante a era bizantina (do século VII à dominação turca em 1383).
- durante o domínio dos otomanos (dominação turca em 1383 a 1912).
- desde a independência da Grécia (1912) até os dias atuais.
O período bizantino
Os mais antigos santos que viveram no Monte Atos no século VIII foram: São Eutímio e um rigoroso monge conhecido como Pedro, o eremita, também chamado de Pedro, o Atonita. São Eutímio vinha de uma comunidade monástica do Monte Olimpo na Bitínia (Ásia Menor). São Pedro, o eremita foi considerado o primeiro anacoreta do Monte e passou lá 53 anos (681-734) e era considerado um hesicasta (?s??ast??).
O hesicasmo é antes de tudo um processo de purificação interna e extirpação das paixões do fundo da alma, a purificação do coração, a vigilância do espírito, de modo a protegê-lo de novas invasões de pensamentos pecaminosos, que constituem o alimento dos desejos e conduzem para o pecado real, concreto. A base do hesicasmo é a busca do silêncio interno através da oração, da oração do coração ou oração de Jesus (Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tem piedade de mim). São João Clímaco (579-641) é considerado o Pai do hesicasmo, que se tornou a base da espiritualidade no Monte Atos.
O hesicasmo teve sua origem entre os anacoretas dos primeiros eremitérios do Egito (Nítria) e do Sinai, com os quais São João Clímaco entra em contato e onde passa a viver por mais de meio século. Torna-se seu principal divulgador através de sua obra “Escada para o céu”. Mais tarde São Gregório Palamas (1296-1359) passa a ser o teólogo do hesicasmo, fundamentando teologicamente suas bases em sua obra em três volumes chamada Triad. São Gregório Palamas foi superior do Mosteiro Esfigmenu (passou também algum tempo no Mosteiro da Grande Lavra) e mais tarde torna-se arcebispo de Tessalônica, foi canonizado em 1368.
Segundo alguns historiadores do século X, monges do Monte Atos foram a Constantinopla em 843 festejar o restabelecimento do culto aos ícones. Isto significa que o Monte Atos, a esta altura, já era um centro monástico importante, conhecido e renomado, uma vez que seus representantes foram reunidos em delegações oficiais da Igreja em importantes solenidades.
O imperador Basílio I (867-886) ao assinar a “Bula de Ouro” em 883 concedeu privilégios e proteção aos monges do Monte, que garantia proteção contra invasores e proibia aos pastores das proximidades deixarem seus rebanhos pastarem na península.
Sabe-se que a partir de 908 passa a existir a função de “Protos” (Primaz), que exerce o cargo de governador do estado monástico e é o porta-voz em questões seculares com o mundo exterior. Até 1312 este cargo era indicado diretamente pelo próprio imperador. Outros funcionários administrativos começam a surgir no “Protaton” (complexo prédio, no qual mora o “Protos” e onde situa-se a Igreja principal dedicada a Virgem Maria) em Karyes . Outros funcionários administrativos começaram a surgir na Protaton , a saber: oikomonos , ecclesiarchis (972) e epitretis (1049). Reuniões, chamadas Synaxeis, desses funcionários administrativos com representantes dos mosteiros aconteciam três vezes por ano: no Natal, na Páscoa e na Festa da Dormição da Virgem Maria.
Santo Atanásio, o Atonita, introduziu grandes mudanças na vida dos monges do Monte. Era oriundo de Trebizond e foi professor em Constantinopla. Santo Atanásio seguiu para o Monte Atos, provavelmente em 957, com o objetivo de tornar-se eremita. Posteriormente, participa com seu amigo Nicéfor Focas, na campanha militar na ilha de Creta, nos anos 960-961, amealha algum dinheiro e consegue organizar um pequeno grupo de anacoretas, que rapidamente transforma-se em uma comunidade de 80 monges. Seu amigo Nicéfor II Focas torna-se imperador, reinando de 963 a 969, e o ajuda financeiramente a construir a chamada Grande Lavra. Esta Grande Lavra destacava-se, em comparação com outros mosteiros, principalmente por tratar-se da primeira comunidade cenobítica, isto é, de vida em comunidade contrapondo-se à vida nos eremitérios, à vida anacorética, isto é, em solidão e em isolamento. Inicialmente a Grande Lavra provocou muitas reações hostis da parte dos eremitas tradicionais.
Pois um grande, densamente habitado e rico mosteiro, com seus próprios barcos e lojas, não apenas perturbava a paz do Santo Monte como também era diametralmente diferente da maneira de vida e costumes dos eremitas. Segundo o ponto de vista destes a Grande Lavra transformaria o Monte Atos num local secularizado e profano. Após o assassinato de Nicéfor II Focas os eremitas endereçaram seus pedidos e argumentos contra a Grande Lavra ao sucessor de Nicéfor II, João I Tzimiskis (969-976), que redirecionou a questão para o leal e honesto monge estudita (do Mosteiro de Studios em Constantinopla) de nome Eutímio, que era adepto da regra cenobítica de vida monástica. Em 972 o imperador outorgou ao Monte Atos o seu primeiro Typikon , que ficou conhecido como Tragos (pois era um pergaminho feito com couro de carneiro, Tragos significa carneiro em grego). Tragos foi elaborado pelo monge Eutímio e reconheceu as necessidades da Grande Lavra e estabeleceu as regras de convivência de ambos os sistemas: anacoretismo e cenobitismo, assim como definiu as atribuições do Protos. Em 972 a Grande Lavra era o maior mosteiro no Monte Atos com cerca de 80 monges, no século XI a comunidade já contava com cerca de 700 monges.
A partir daí, o cenobitismo dispersa-se por todo o Monte Atos como a forma de vida monástica predominante. O cenobitismo como uma das formas de vida monástica foi ratificado em 1045 pelo Imperador Constantino IX Monomach (1042-1055) que editou a segunda versão do Typikon do Monte Atos, no qual pela primeira vez usada a designação oficial de “Santo Monte Atos”, usada não oficialmente desde 985. O rápido e espetacular desenvolvimento das comunidades no Monte Atos que no futuro tornaram-se ainda mais prósperas, não se deveu unicamente ao fato de obter apoio imperial, pois mosteiros de outras regiões também o tinham. Eram resultados de muitos outros fatores. A península do Monte Atos possuía uma grande virtude em comparação com outros “Montes Santos” do período bizantino: possuíam acesso direto ao mar e através dele a todo o mundo conhecido de então. Além disso o Monte Atos era cercado por territórios habitados por cristãos ortodoxos, que mostravam profundo respeito pelas comunidades monásticas. Por este motivo os monges na verdade nunca sentiram insegurança da parte do lado terrestre, isto é dos territórios vizinhos. Situação completamente diferente teve as comunidades monásticas da Ásia Menor, que depois de 1071 sofreram repressão por parte dos turcos e foram diversas vezes destruídas. No Monte Atos a proteção do lado terrestre, o acesso ao mar e a segurança advinda disto atraía cada vez mais monges de diversas origens e nacionalidades.
No ano de 1060 o Imperador Constantino X editou um decreto especial chamado Avaton, que proibia a entrada no Monte Atos de mulheres, crianças, eunucos e outros “seres imberbes”, incluindo-se fêmeas de animais.
Em 1204 o Monte Atos foi invadido pela 4a. Cruzada, os latinos logo se retiraram, mas deixaram atrás de si um rastro de amargor e indignação. A imagem dos latinos ficou ainda mais manchada quando um destacamento catalão acampou na parte oriental da Macedônia e pilhou os mosteiros.
Os mosteiros do Monte Atos, freqüentemente, conseguiam apoio de nobres e pessoas importantes de diversos países da Europa sensibilizados com os ataques e pilhagens sofridas. Os mosteiros enriqueceram pois os governantes de países que tinham representantes no Monte Atos os apoiavam financeiramente. O número de monges que não falava grego crescia gradativamente, principalmente após a ocupação dos turcos otomanos a partir de 1383.




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