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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Fuga Mundi

No deserto
O primeiro passo de toda vida monástica é o afastamento do mundo. A necessidade de abandonar o mundo resulta simplesmente do grande preceito de amor a Deus. Amar Deus, com efeito, é fazer a sua vontade, observar seus mandamentos.

Ora, esse cumprimento da vontade divina exige uma atenção contínua, um esforço do espírito e do coração todo inteiros. Como um operário aplicado ao seu trabalho, o cristão deve entregar-se exclusivamente à execução das ordens divinas. Por isso, ele precisa renunciar não somente a qualquer outra ocupação, mas também à sociedade daqueles que não se preocupam em obedecer a Deus. A separação do mundo é, portanto, uma exigência do primeiro Mandamento.

O monaquismo, já desde suas origens, refletiu a tensão entre fé cristã e mundo. Um exemplo típico dessa tensão, que é mesmo anterior ao monaquismo, pode ser encontrado no Evangelho de João, onde continuamente dois conceitos de mundo se entrecruzam, um positivo (“Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único” – Jo 3,16) e outro negativo (“Não rogo pelo mundo” – Jo 17,9; “O mundo os odiou, porque não são do mundo, como eu não sou do mundo” – Jo 17,14).

Essa tensão implicou não só uma separação de caráter interior em relação ao mundo carnal, pecador, (“fazer-se alheio às coisas do mundo” – Regra de São Bento 4,20) mas também uma separação de caráter físico da sociedade (“... que todas as coisas necessárias ... e os diversos ofícios se exerçam dentro do mosteiro, para que não haja necessidade de os monges vaguearem fora, porque de nenhum modo convém às suas almas” – Regra de São Bento 66,6-7).
Diante de Deus
O monge é alguém que se retira do mundo para “estar diante do Pai”. Dentro da Igreja, o monaquismo assumiu uma especificidade própria, expressa na busca de Deus (“que haja solicitude em ver se procura verdadeiramente a Deus” – Regra de São Bento 58,7), que impele a deixar tudo o que possa distrair da atenção que a Ele é devida.

A comunidade monástica está oculta num lugar deserto, longe do mundo, mas isso não significa que os monges sejam cristãos amorfos, passivos, ou desocupados. De fato, São Bento assim o expressa em sua Regra: “A ociosidade é inimiga da alma; por isso em certas horas devem ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e em outras horas com a leitura espiritual” (Regra de São Bento 48,1).

A fuga mundi foi e continua sendo um elemento essencial da vida monástica; de maneira nenhuma, entretanto, deve ser interpretada como um subterfúgio, uma manobra, ou um pretexto para evitar dificuldades, ou para esquivar-se de obrigações. É uma fuga do mundo no sentido de recusar tudo o que este mundo ama e tudo o que há nele, pois “se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai” (1Jo 2,15).

É preciso reconhecer que a solidão é um traço da vida monástica que já aparece claramente na vida dos cistercienses primitivos. Do ponto de vista pessoal, a solidão e o silêncio são importantes para a vida de oração, criando as condições para que a Palavra penetre em cada um de nós, e para que, calando todas as vozes interiores que nos afastam de Deus, possamos escutar o que o Espírito Santo – de quem somos templo – quer nos dizer.

Estar perto do Pai, viver ad dexteram Patris (à direita do Pai) é o que o Filho prefere a tudo, e é o que julga melhor e mais eficaz para nós, para a Sua obra junto de nós e para a redenção do mundo: “Eu saí do Pai e vim ao mundo. De novo, deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16,28). O monge acredita com o coração, com a mente e com a vontade numa presença de Deus que se manifestou na história passada (“saí do Pai e vim ao mundo”), que dá significado à presente e que sugere uma forma precisa de olhar o futuro (“vou para o Pai”). Afastando-se do mundo no presente, o monge dá testemunho daquilo que crê e espera do futuro: ir para o Pai.


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