Total de visualizações de página

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ascética e Mística





Assim com na ordem da natureza necessitamos do concurso de Deus, para passarmos da potência ao ato, assim na ordem sobrenatural não podemos por em ações nossas faculdades sem o auxílio da graça atual.

A graça atual é um auxílio sobrenatural e transitório que Deus nos dá para nos iluminar a inteligência e fortalecer a vontade na produção dos atos sobrenaturais.
a) Opera, pois, diretamente sobre as nossas faculdades espirituais, a inteligência e a vontade, não já unicamente para elevar essas faculdades à ordem sobrenatural, senão para as pôr em movimento, e lhes fazer produzir atos sobrenaturais. Demos um exemplo: antes da justificação, ou infusão da graça atual ilumina-nos acerca da malícia e dos temerosos efeitos do pecado, para nos levar a detestá-lo. Depois da justificação, mostra-nos à luz da fé, a infinita beleza de Deus e a sua misericordiosa bondade, a fim de no-la fazer amar de todo coração.

b) Mas, a par destas graças interiores, há outras que se chamam exteriores, e que, atuando diretamente sobre os sentidos e faculdades sensitivas, atingem indiretamente as nossas faculdades espirituais, tanto mais que muitas vezes são acompanhadas de verdadeiros auxílios interiores. Assim, a leitura dos Livros Santos ou duma obra cristã, a assistência a um sermão, a audição dum trecho de música religiosa, uma conversa boa são graças exteriores; é certo que, por si mesmas, não fortificam a vontade; mas produzem em nós impressões favoráveis, que movem a inteligência e a vontade e as inclinam para o bem sobrenatural. E por outro lado Deus acrescenta-lhes muitas vezes moções interiores, que, iluminando a inteligência e fortificando a vontade, nos ajudarão poderosamente a nos convertermos ou tornarmos melhores. É o que podemos concluir daquela palavra do livro dos Atos dos Apóstolos, que nos mostra o Espírito Santo abrindo o coração duma mulher chamada Lídia, para que ela preste atenção à pregação de São Paulo. Enfim, Deus, que sabe que nós nos elevamos do sensível ao espiritual, adapta-se à nossa fraqueza, e serve-se das coisas visíveis, para nos levar à virtude.
A graça atual influi sobre nós, de modo juntamente moral e físico: moralmente, pela persuasão e pelos atrativos, à maneira de mãe que, para ajudar o filho a andar, suavemente o chama e atrai, prometendo-lhe uma recompensa: fisicamente, acrescentando forças novas às nossas faculdades, demasiado fracas para operar por si mesmas; tal a mãe que toma o filho nos braços e o ajuda não somente com a voz, senão também com o gesto, a dar alguns passos para frente. Todas as Escolas admitem que a graça operante atua fisicamente, produzindo em nossa alma movimentos indeliberados; tratando-se, porém, da graça cooperante, há entre as diversas Escolas Tecnológicas certas divergências que na prática, afinal, pouca importância têm.

Sob outro aspecto, a graça previne o nosso livre consentimento ou acompanha-o na realização do ato. Assim, por exemplo, vem-me o pensamento de fazer um ato de amor de Deus, sem que eu tenha feito coisa alguma para o suscitar: é uma graça preveniente, um bom pensamento de Deus me dá; se a recebo bem e me esforço por produzir esse ato de amor, faço-o com o auxílio da graça adjuvante ou concomitante - Análoga a esta distinção é a graça operante, pela qual Deus atua em nós sem nós, e a graça cooperante, pela qual Deus atua em nós e conosco, com a nossa livre cooperação.


(Fonte: Compêndio de Teologia Ascética e Mística - Ed. Apostolado da Imprensa - 1961 - 6ª edição)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

“Todo o conteúdo destes Blog é livre para uso, até porque o Espírito Santo não cobra 'Direitos Autorais' ”