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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Santos Padres Sobre As Doenças.



Introdução

"Se a ocasião demandar, um homem sábio aceitará prontamente a enfermidade do corpo e até mesmo entregará completamente seu corpo à morte pela busca de Cristo..." Santo Ambrósio de Milão.
Todo o mundo seja ou não Cristão, deve esperar que uma certa quantidade de doença ou desconforto entre em sua vida. A dor física é universal: ninguém dela escapa. Assim, quanto se, ou quão intensamente se sofra com as doenças, não importa tanto quanto se compreenda essas doenças. O entendimento é tudo.
Se alguém pensa que a vida deveria ser umas férias longa e luxuriosa, então qualquer quantidade de sofrimento que venha a ele é insuportável. Mas se um homem enxerga a vida como um tempo de pesares, correção e purificação, então o sofrimento e a dor tornam-se não só suportáveis como até mesmo úteis.
Santo Ambrósio de Milão diz da atitude do Cristão diante da doença: "Se a ocasião demandar, um homem sábio aceitará prontamente a enfermidade do corpo e até mesmo entregará completamente seu corpo ã morte pela busca de Cristo... Esse mesmo homem não será afetado em espírito ou, quebrantado por dores do corpo se sua saúde lhe faltar. Ele será consolado por suas lutas pela perfeição das virtudes" (Exegétical Works). Ouvindo isso, o homem mundano exclamará qualquer coisa como: "Que idéia! Como pode um homem 'aceitar prontamente' doenças e enfermidades?"
Para um descrente isso é de fato uma coisa incompreensível. Ele não consegue conciliar o fato do sofrimento humano com sua própria idéia de Deus. Para ele, o simples pensamento de que Deus permitiria a dor é repugnante; normalmente ele enxerga todo o tipo de sofrimento como mau em um sentido absoluto.
Sem a ajuda da Revelação Divina, o homem não pode entender a origem e causa da dor, nem seu propósito. Muitas pessoas, não tendo tido auxílio para esse entendimento, são assombradas peio medo da dor, aterrorizadas pelo pensamento de doenças prolongadas, e apressam-se a procurar socorro médico porque elas acreditam que as doenças são só o resultado do acaso.
Se fosse verdade que as enfermidades viessem meramente através de "má sorte" (o que até mesmo o senso comum desmente, pois muita doença é o resultado de uma vida imoderada), então de fato seria permitido e até mesmo desejável que se usasse todos os meios para evitar a dor da doença e até mesmo a própria doença. Por isso, quando uma doença torna-se irreversível e terminal, a sabedoria mundana ensina que é aceitável terminar a vida do paciente, o que é chamado de eutanásia, ou "morte misericordiosa," visto que, de acordo com esse ponto de vista, o sofrimento no leito de morte é inútil e cruel e por isso "mau.".
Mas mesmo na vida cotidiana nós sabemos que o sofrimento realmente não é "completamente mau." Por exemplo, nós nos submetemos ao bisturi do cirurgião para termos uma parte doente do nosso corpo cortada fora; a dor da operação é grande, mas nós sabemos que é necessária de modo a preservar a saúde ou mesmo a vida, Assim, mesmo num nível estritamente materialista, a dor pode servir a um bem maior.
Outra razão porque o sofrimento humano é um mistério para um descrente é que sua própria "idéia" de Deus é falsa. Ele fica chocado quando os Santos Padres falam de Deus da seguinte maneira: "Mesmo que Deus traga sobre nós fome, ou guerra, ou qualquer calamidade, seja qual for, Ele faz isso por Seu cuidado e bondade inexcedíveis" (São João Crisóstomo, Homily 7, On the Statues).
O teóforo Macário de Optina, na Rússia do século XIX, escreveu assim para um amigo: "Sendo de saúde frágil como tu és, não posso deixar de sentir muita simpatia pelo teu empenho. Mas a bondosa Providência não é só mais sábia do que nós; ela é também sábia de maneira diferente, É esse pensamento que deve nos sustentar em todas nossas tentativas, pois é mais consolador do que qualquer outro."
Sábia de maneira diferente... Aqui podemos começar a ver que o entendimento Patristico dos desígnios de Deus é contrário ao da visão mundana. De fato, é único: não é especulativo, escolar ou "acadêmico." Como o bispo Teófano, o Recluso escreveu: "A fé cristã não é um sistema doutrinal, mas uma maneira de restauração para o homem decaído." Assim, o critério de fé — conhecimento verdadeiro de Deus—não é intelectual. A dimensão da verdade, como escreveu o professor Andreyev, é a própria vida... Cristo falou disso clara, plena e definitivamente: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo.14:6). Isto é, Eu sou o caminho de perceber a Verdade; Eu próprio sou a Verdade encarnada (tudo que Eu digo é verdade)... e Eu sou a Vida (sem Mim não pode existir nada; Orthodox Christian Apologetics). Isso é muito distante da sabedoria desse mundo.
Podemos tanto crer quanto descrer nas palavras de Cristo a respeito de Si próprio. Se nós cremos, e agimos de acordo com nossa crença, então podemos começar a ascender na escada do conhecimento vivido, tal como nenhum livro texto ou filósofo pode nos dar: Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou louca a sabedoria deste mundo? (1Co.1:20).
Uma das dificuldades em compilar um manual de ensinamentos Patrísticos sobre as doenças é que as enfermidades não podem ser estritamente separadas da questão geral das dores (dores psicológicas e sofrimentos resultantes de guerras, fome etc). Algo do que os Santos Padres tem a dizer sobre doenças também estabelece os fundamentos de seus ensinamentos sobre adversidades, que será o assunto de outro livro dessa série.
Outra dificuldade é que os Padres Ortodoxos às vezes usam palavras como "pecado," "punição" e "recompensa" sem se limitarem ao significado que nossa sociedade moderna dá a elas. Por exemplo "pecado" é uma transgressão da Lei Divina. Mas no pensamento Patristico é também mais que isso: é um ato de "traição," uma infidelidade ao amor de Deus para com o homem e uma "violação arbitrária da sagrada união (do homem) com Deus" (Andreyev, Ibid). O pecado não é algo que devemos ver dentro do quadro de "crime e punição"; a infidelidade humana é uma condição universal, não limitada simplesmente a esta ou aquela transgressão. Está sempre conosco, porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Rom. 3:23).
As relações de Deus com o homem não são limitadas às nossas idéias legalísticas acerca de recompensa e punição. Salvação, que é o objetivo último da vida cristã, não é uma "recompensa," mas um presente dado de graça por Deus. Não podemos "ganhar" ou "merecer" a salvação por nada que façamos, não importa quão piedosos ou auto anulados nos consideremos.
Na vida do dia a dia nós naturalmente pensamos que bons atos deveriam ser recompensados e crimes punidos. Mas nosso Deus não "pune" com base nos padrões humanos. Ele nos corrige e castiga, tal como um pai amoroso corrige seu filho que erra para mostrar o caminho. Mas isso não é a mesma coisa que se ser "sentenciado" a um "termo" de dor e sofrimento por algum delito. Nosso Deus não é vingativo: Ele é o tempo todo perfeitamente amoroso, e Sua justiça não tem nada a ver com as regras legais humanas.
Ele sabe que nós não podemos chegar a Ele sem pureza de coração, e Ele também sabe que não podemos adquirir essa pureza a menos que nos libertemos de todas as coisas: libertos dos apegos ao dinheiro e propriedade, libertos das paixões e dos pecados, e até mesmo desapegados da saúde do corpo se isso se colocar entre nós e a verdadeira liberdade diante de Deus. Ele nos instrui, tanto através da Revelação quanto da correção, mostrando-nos como devemos adquirir essa liberdade, pois conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo. 8:32).
Como São João Cassiano ensina: Deus "te encaminha por um degrau mais alto para aquele amor que é livre de medo. Através disso tu começas sem esforço e naturalmente a observar todas aquelas coisas que originalmente tu observavas com medo de Deus e de punições, mas que agora tu o fazes sem mais medo de punições, mas com o amor da própria bondade, e jubiloso em virtude" (Institutes).
Tendo em mente esses profundos significados espirituais de palavras como "pecado," "recompensa" e "punição," podemos continuar a estudar os discursos divinamente sábios dos Santos Padres sobre doenças, dando graças a Deus que "nossa fé foi tornada segura por sábios e esclarecidos santos" (São Cosme de Aítolas), porque "na verdade, conhecer-se a si próprio é a coisa mais difícil de todas," como São Basílio, o Grande escreveu. Os Santos Padres indicam o caminho. Suas vidas e escritos agem, como se fossem um espelho no qual nós podemos tomar as nossas medidas, pesados e gordos que estamos por nossas paixões e enfermidades. A doença é um dos meios pelos quais podemos aprender como realmente estamos.

Capitulo I.

"Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora" (Rom. 8:22).

A Origem e a Causa da Dor.

"E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida... (Mt. 7:14). isso é mostrado tanto pelo santo exemplo do Senhor, quanto pelo Seu santo ensinamento. O Senhor anunciou a Seus discípulos e seguidores que no mundo, isto é durante suas vidas terrenas, eles teriam aflições (Jo. 16:33; 15:18; 16:2-3). Daí fica claro que dor e sofrimento são indicados pelo próprio Senhor para Seus verdadeiros servos servidores durante suas vidas na terra" (Bispo Inácio Brianchaninov, The Arena).
Mas, porque assim? Porque "dor e sofrimento" junto com doenças, são na verdade "indicados" para nós? Os ensinamentos dos Santos Padres mostram como o sofrimento deve ser entendido no contexto do homem criado em seu primeiro estado, e na sua subseqüente queda no pecado.
No começo não havia dor, nem sofrimento, nem doença ou morte. O homem era um "estranho para o pecado, aflição e necessidades difíceis" (São Simeão, o Novo Teólogo, Homilia 45).
Se Adão e Eva não tivessem transgredido, "eles teriam, com o tempo, ascendido à mais perfeita glória e, estando modificados, teriam sido levados para perto de Deus... e a alegria e júbilo com que então nós estaríamos preenchidos pela amizade de uns pelos outros, seriam na verdade inexprimíveis e além da imaginação humana" (Ibid). Como não teria havido sofrimento, não teria havido doença e conseqüentemente não teria havido necessidade da ciência da medicina.
"Mas quando o homem foi enganado e ludibriado pelo perverso demônio... Deus veio para o homem como um médico vem para um doente" (São João Crisóstomo, Homilia 7, Sobre as imagens). Deus desceu ao Éden pela viração do dia, e chamou Adão, onde estás? (Gen. 3:8-9). Sua primeira manifestação ao homem após o pecado de desobediência não foi como um juiz vingativo, mas como Médico sábio, procurando Seu paciente, "porque Deus quando encontra um pecador, não considera como fazê-lo pagar uma penalidade, mas como corrigi-lo e torná-lo melhor" (São João Crisóstomo. Ibid).
O homem, a criatura sucumbiu à tentação, para ser igual a Deus o Criador — algo contra toda razão e possibilidade. Esse, o primeiro pecado, trouxe com ele não o entendimento como o de Deus, mas dor, doença e morte, e não por acaso, mas por uma específica razão corretiva: a de que o homem viesse, a saber, sem nenhuma dúvida e por todo o sempre que ele não é "como Deus."
Por isso o Médico Celestial "fez o corpo (do homem) sujeito a tanto sofrimento e doença, para que ele possa aprender de sua própria natureza a nunca mais ter o pensamento que poderia ser como Deus (São João Crisóstomo, Homilia II, Sobre as imagens). Deus disse a Eva: com dor terás filhos (Gen. 3:16); e a Adão: ...maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias de tua vida,., no suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra (Gen. 3:17-19).
É extremamente importante compreender isso de saída, porque se não nos agarrarmos a essa verdade acerca da natureza do homem decaído, nada mais do que os Santos Padres ensinam terá qualquer significado. Por outro lado, "se pudermos entender isso, seremos capazes de aprender sobre nós mesmos, e seremos capazes de conhecer Deus e adorá-Lo como Criador" (São Basílio, o Grande, Hexameron). "O pecado cria o mal, e o mal cria o sofrimento," escreve o professor Andreyev; "no entanto esse próprio sofrimento, que foi originado com Adão e Eva, é uma benção para nós porque nos força a constatar quão perniciosa para nossa alma, e mesmo para nossos corpos, é a nossa falta de fé em Deus" (Orthodox Christian Apologetics).

Capitulo II.

"E se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com Ele padecemos, para que também com Ele sejamos glorificados" (Rm. 8:17).



O Propósito da Doença.

Nosso Salvador e os Padres teóforos ensinam que nosso único interesse nessa vida deveria ser a salvação de nossas almas. O Bispo Inácio diz: "A vida terrena, esse breve período, é dada ao homem pela misericórdia do Criador para que Ele possa usá-la para sua salvação, isto é, para a restauração dele mesmo da morte para a vida" (The Arena). Por isso, devemos "olhar para tudo nesse mundo como para uma sombra passageira e não se apegar com o coração a nada dele... porque nós não olhamos para as coisas visíveis, mas para as coisas invisíveis; porque as coisas visíveis são temporais, mas as coisas invisíveis são eternas" (São João de Kronstadt, Spiritual Counsels). Para Cristãos Ortodoxos, o centro de nossas vidas não é aqui, mas lá, na vida eterna.
Quanto nós viveremos, que doença ou enfermidade acompanhará nossa morte, não são interesses apropriados para Cristãos Ortodoxos. Ainda que cantemos "muitos anos" para os outros no onomástico e em outras celebrações, isso é só porque a Igreja em sua sabedoria sabe que na verdade nós precisamos de "muitos anos" para nos arrependermos de nossos pecados e sermos convertidos, e não porque uma longa vida tenha algum valor em si própria. Deus não está interessado em quão idosos nós somos quando nós chegamos diante de Seu Juízo, mas sim se nós nos arrependemos; Ele não está preocupado com o fato de termos morrido de ataque do coração ou câncer, mas sim se nossa alma está em um estado saudável.
Assim, "nós não devemos temer nenhuma doença humana, só o pecado; nem pobreza, nem doença, nem insulto, nem tratamento malicioso, nem humilhação, nem morte" (São João Crisóstomo, Sobre as imagens), pois esses "males" são só "palavras"; eles não tem realidade para aqueles que estão vivendo para o Reino dos Céus. A única "calamidade" real nessa vida é ofender Deus. Se nós temos essa compreensão básica do propósito da vida, então o significado espiritual das enfermidades corporais pode ser esclarecido para nós.
No capítulo precedente aprendemos como Deus sapientíssimo permitiu que o sofrimento entrasse no mundo para mostrar a nós que nós não somos mais do que criaturas. É uma lição ainda não aprendida pela raça de Adão que, em seu orgulho, segue buscando ser como "deuses": pois cada pecado é a renovação do pecado dos primeiros criados, um virar-se voluntário, de Deus para si próprio. Dessa maneira nós nos colocamos no lugar de Deus, na verdade adorando a nós próprios, hoje em dia como no início: por essa razão é um sinal da misericórdia de Deus e de Seu Amor. Como dizem os Santos Padres para aqueles que estão doentes: "Deus não te esqueceu, Ele cuida de ti" (Ss. Barsanúfio e João, Filocalia),
Ainda assim, é difícil se ver como a doença pode ser um sinal dos cuidados de Deus para conosco, a menos que nós entendamos a relação que existe entre o corpo e a alma. O staretz Ambrósio do Mosteiro de Optina falou disso numa carta enviada para a mãe de uma criança muito doente: "Nós não deveríamos esquecer que em nossa época de sofisticação, mesmo crianças pequenas são prejudicadas pelo que vêem e ouvem. Como resultado, é requerida uma purificação, e isso só é obtido através do sofrimento do corpo... Tu deves compreender que a bem aventurança paradisíaca não é concedida a ninguém sem sofrimento."
São Nicodemos da Montanha Sagrada, explicou que sendo o homem dual, feito de corpo e alma, "há uma interação entre a alma e o corpo" (Counsels), cada um agindo no outro e de fato comunicando-se com o outro. "Quando a alma está doente nós, geralmente, não sentimos dor," diz São João Crisóstomo. Mas se o corpo sofre, ainda que só um pouco, fazemos todos os esforços para nos libertarmos da doença e de suas dores. Mesmo assim, Deus continua corrigindo o corpo por conta dos pecados da alma, pois que castigando o corpo, a alma deveria receber alguma cura... Cristo fez isso com o Paralítico quando disse: Eis que já estás são; não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior! O que aprendemos dessa lição? Que a doença do Paralítico havia sido produzida por seus pecados (Homilia 38, sobre o Evangelho de São João).
Certa ocasião urna mulher foi trazida a São Serafim de Sarov. Ela estava gravemente entrevada e não podia andar porque seus joelhos estavam encostando no peito. "Ela contou ao Santo que havia nascido na Igreja Ortodoxa, mas depois, tendo casado com um dissidente, abandonou a Ortodoxia, e por sua infidelidade Deus a havia punido repentinamente... Ela não podia mover nem mãos nem pés. São Serafim perguntou à mulher doente se agora ela acreditava em sua Mãe, nossa Santa Igreja Ortodoxa... Tendo recebido uma resposta afirmativa, ele a mandou fazer o sinal da cruz da maneira correta. Ela respondeu que não podia sequer mover a mão um pouco. Mas quando o Santo rezou e a ungiu nas mãos e peito com óleo de lamparina, a doença abandonou-a instantaneamente." E eis que já estás são; não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior!
Essa ligação entre corpo e alma, pecado e doença, está clara: a dor nos conta que algo de errado aconteceu com a alma, que não é só o corpo que está doente, mas também a alma. E essa é precisamente a maneira como a alma comunica suas doenças ao corpo, despertando o homem para o auto-conhecimento e para um desejo de voltar-se para Deus. Nós vemos isso o tempo todo na vida dos santos, pois a doença também ensina que nosso "ser verdadeiro," a parte principal do homem, não é o corpo visível, mas a alma invisível, o "ser interno" (São Nicodemos da Montanha Sagrada, Christian Morality).
Mas, significa isso que o homem que desfruta de boa saúde continuamente está em "boa forma" espiritual? De jeito nenhum, pois o sofrimento toma muitas formas, seja no corpo, na mente ou na alma. Quantos com excelente saúde lamentam que a vida não "vale a pena ser vivida?" São João Crisóstomo descreve esse tipo de sofrimento: "Alguns pensam que gozar de boa saúde é uma fonte de prazer. Mas não é assim. Pois muitos que tem boa saúde já quiseram milhares de vezes estar mortos, não sendo capazes de suportar os insultos infligidos a eles... Pois ainda que nós nos tornássemos reis e vivêssemos com toda realeza, nos encontraríamos tomados por muitos problemas e tristezas... Seguramente, por suas funções, um rei tem tantos momentos de tristeza quantas são as ondas do mar. Portanto, se nem a monarquia é capaz de garantir uma vida sem aflições, o que mais poderia dar esse tipo de vida? Nada, na verdade, coisa nenhuma, nessa vida" (Homilia 18, Sobre as imagens).
Os protestantes clamam freqüentemente por saúde "em nome de Cristo." Eles encaram a saúde como algo a que o Cristão está naturalmente "habilitado." Do seu ponto-de-vista, a doença denuncia falta de fé. Isso é exatamente o oposto do ensinamento Ortodoxo, como ilustrado pela vida do justo Jó no Velho Testamento. São João Crisóstomo diz que os santos servem Deus não porque esperam qualquer tipo de recompensa, seja material ou espiritual, mas simplesmente porque O amam. "Porque os santos sabem que a maior recompensa de todas é a de ser capaz de amar e servir a Deus." Assim, "Deus querendo mostrar que não é por recompensa que os santos O servem, tirou de Jó toda sua riqueza, entregou-o à pobreza, e permitiu que ele caísse em terríveis moléstias." E Jó que não estava vivendo por nenhuma recompensa nesta vida, ainda assim permaneceu fiel a Deus (Homilia I, Sobre as imagens).
Assim como as pessoas saudáveis não estão sem pecado, Deus, às vezes, também permite que verdadeiros justos sofram, "como modelo para os fracos" (São Basílio o Grande, The Long Rules). Pois como São João Cassiano ensina: "Um homem é mais completamente instruído e formado pelo exemplo de outro" (Institutes).
Nós vemos isto no caso escriturístico de Lázaro. "Ainda que tenha sofrido de feridas dolorosas, ele nem uma vez murmurou contra os rico nem lhe fez qualquer pedido... Como resultado, ele encontrou repouso no seio de Abrahão, como alguém que aceitou humildemente os infortúnios da vida" (São Basílio o Grande, The Long Rules).
Os Padres da Igreja também ensinam que a doença é um meio pelo qual os Cristãos podem imitar o sofrimento dos mártires. Assim, na vida de muitos santos, intensos sofrimentos corporais ocorreram no final, para que por seus justos sofrimentos eles pudessem atingir o martírio físico. Um bom exemplo disto pode ser encontrado na vida de um grande santo da Ortodoxia, São Marcos de Éfeso: ele estava doente por quatorze dias, e a doença, como ele contou, tinha sobre ele o mesmo efeito que os daqueles instrumentos de ferro das torturas aplicados pelos executores aos santos mártires, e que enquanto cingiam suas costelas e órgãos internos, pressionavam e permaneciam apertados de tal modo que causavam dores insuportáveis; assim, aconteceu que o que os homens não puderam fazer com seu corpo sagrado de mártir, foi feito pela doença, de acordo com o juízo inexprimível da Providência, de modo que este Confessor da Verdade e Mártir e conquistador de todos os sofrimentos possíveis pudesse aparecer vitorioso perante Deus, depois de ter passado por todas misérias, e que até seu último suspiro como ouro testado no forno, e de modo que, graças a isto, ele pudesse receber ainda maior honra e recompensas eternas do Justo Juiz" (Orthodox Word, vol 3, n° 3).


"Tu que crês quando estás bem, vê se não te afastas de Deus nos tempos de infortúnio " (São João Kronstadt).

Doença e Oração.

Nosso Salvador nos ensinou: "Pedi e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe" (Mt. 7:7-8).
Assim, quando estivermos com dores deveremos rezar para entendermos nossa doença, para termos paciência para suportá-la e para nos libertarmos dela, se tal for a santa vontade de Deus. É esperado também que nós venhamos a pedir orações de outros e especialmente da Igreja, pois a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos (Tg. 5:16).
"Qualquer um que esteja doente deve pedir a oração de outros, para que ele tenha restaurada sua saúde. Para que pela intercessão de outros, a enfraquecida forma do corpo e os passos hesitantes de nossas obras tenham sua saúde restaurada... Aprendas, tu que estás doente, a obter a cura através da oração. Procura a oração de outros, peça à Igreja que ore por ti, e Deus, em Sua atenção pela Igreja, dará aquilo que Ele quiçá negaria a ti" (Santo Ambrósio, On the Healing of the Paralytic).
A grande oração pública da Igreja para aqueles que estão doentes é o sacramento dos Santos Óleos. Esse sacramento que é longo e inexcedivelmente rico em leituras das Escrituras, e contém numerosas alusões a figuras bíblicas que foram curadas pelo poder de Deus, dá em forma concentrada, os ensinamentos da Igreja sobre cura.
Esse sacramento identifica Cristo como O "Médico e Ajudante dos que sofrem," e invoca para a pessoa doente, através da unção, a graça do Espírito Santo, que é Quem cura almas e corpos. Já que Deus "misericordiosamente nos deu o comando para fazermos o ofício dos Santos Óleos nos Teus servos doentes," o próprio Cristo é citado como o "crisma incorruptível," que nos velhos tempos havia escolhido o ramo de oliveira para mostrar a Noé que o dilúvio havia cessado, (Desde tempos antigos o óleo de oliva é usado no preparo do Óleo Santo). No tempo do dilúvio o ramo de oliveira simbolizou tranqüilidade e segurança; por isso agora o celebrante ora para que o Salvador, pela "tranqüilidade de Teu selo misericordioso (a unção com o Óleo Santo)," venha a curar aquele que sofre.
Reconhecendo que a doença às vezes vem pela atividade de poderes demoníacos, o celebrante pede; "Não permitas que demônios malignos toquem os sentidos daquele que está marcado com Tua divina unção." Mostrando que a igreja compreende também a ligação entre o pecado e sofrimento, o celebrante ora para que através dessa unção o "sofrimento daquele que é atormentado pela violência das paixões" seja eliminado.
Esse sacramento de cura explora muitos aspectos do pecado, do sofrimento e da cura; é um sacramento profundo e muito intenso de oração e intercessão, Um ponto muito importante deve ser salientado aqui: durante os Santos Óleos pedimos a Deus para remover a doença, e pedimos para que, no lugar dela, Ele ponha o "júbilo da alegria" (a unção é chamada ela própria de óleo da alegria nos Salmos), para que a pessoa que estava doente, possa então "glorificar Teu divino poder." Assim, um dos propósitos da cura é capacitar aquele que sofre a retomar seu serviço para Deus de maneira saudável e ativa. Corno marca desse fato, a cura da sogra de Pedro pelo Salvador é contada assim:... e a febre a deixou; e levantou-se e serviu-os (Mt. 8:15). É muito importante que nos lembremos disso; quando ficarmos livres dos tormentos das doenças do corpo, é esperado que enchamos nossa boca com louvor a Deus e que O sirvamos corrigindo nossos caminhos pecaminosos e que vivamos daí para frente somente para Deus e para o mundo que há de vir, considerando mundo atua! como nada.
Muitos só descobrem a oração quando acamados por doença. E aqueles que durante toda sua vida participaram piamente das orações públicas da Igreja, descobrem, durante a doença que haviam infelizmente negligenciado tristemente os tesouros da oração interior ou privada. São Gregório de Nazianzo homem de oração mesmo quando sua saúde estava boa, exclamou durante sua última doença: "o tempo corre veloz, a batalha é grande e minha doença severa, reduzindo-me quase à completa imobilidade, O que resta então, que não seja orar a Deus?" (Letters).
Durante a doença, a oração é capaz de revelar verdadeiros e duradouros tesouros, "porque se tu tens o corpo saudável, a invasão da doença para qualquer alegria que tu vinhas tendo decorrente desse fato... porque qualquer coisa que pertença a esse mundo é sujeita a dano e é incapaz de nos dar um prazer duradouro. Mas piedade e as virtudes da alma são justo o oposto porque o seu júbilo permanece para sempre... se tu pões para fora orações contínuas e fervorosas, ninguém pode tomar de ti os frutos por elas produzidos, pois estes frutos são enraizados nos céus e protegidos de toda destruição porque eles estão além do alcance humano" (São João Crisóstomo, On Statues).
Dois incidentes de vidas de santos mostram como pode simples e incorruptível essa oração. Na vida do staretz portador de schema Partênío da Lavra das grutas de Kiev, aprendemos que na sua doença final, mesmo depois de lhe terem sido dados os Santos Óleos, ele continuou a cumprir a sua regra de oração de ler o Saltério completo. Na véspera de seu repouso ele disse para seus filhos espirituais:
"Breve, muito breve eu partirei, Ontem eu já não pude completar o Saltério, só fiz metade dele."
"Como é possível, Pai que até anteontem tu disseste toda tua regra habitual?"
"Bem, o Senhor me ajudou; além do que, eu agora faço de memória; eu não consigo mais fazê-lo com meus lábios; não há como respirar para falar; mas ontem não consegui completar nem de memória, pois esta já está me deixando. Só à oração do coração e as orações da Mãe de Deus eu me apeguei incessantemente" (Orthodoxr Life, n°3: 1969).
E na vida de Aba Doroteus nós lemos sobre a tocante morte de seu discípulo, São Dositeus, que havia estado no mosteiro só cinco anos, mas "morreu em obediência, em nenhum momento e em nada tendo feito a sua vontade e não tendo feito nada fora do determinado." Ele praticou sempre a oração do coração, e quando sua doença se tornou severa, Aba Doroteus disse a ele:
"Dositeus, cuida da oração; vê que nada a prive de ti."
"Muito bem, Pai," respondeu o monge, "mas ora por mim."
Quando ele ficou ainda pior, Aba Doroteus lhe disse:
"Bem, Dosíteu, como está a oração? Continua como antes?"
E Dositeus respondeu:
"Sim, Pai, por tuas orações,"
Quando, no entanto, a oração tornou-se extremamente difícil para ele, e a doença se tornou tão severa que ele tinha que ser carregado numa maca, Aba Doroteus lhe perguntou:
"Como está a oração, Dositeu?" E ele respondeu: "Perdoa-me Pai, mas eu não posso mais mantê-la."
E Aba Doroteu disse-lhe:
"Então pare com a oração, só mantendo Deus na mente e representa-O para ti como se Ele estivesse diante de ti" (Orthodox Word, vol. 5 n° 3).
Finalmente, nós vemos um glorioso e inspirador exemplo do lugar da oração em tempo de doença, no relato de São Gregório de Nazianzo sobre a doença de seu pai:
"Ele sofria de doença e de dores no corpo. O período de sofrimento do meu pai era o período da Santa e Ilustre Páscoa, a Rainha dos Dias, a noite brilhante que dissipa as trevas do pecado. Explicarei rapidamente o tipo de sofrimento que era o dele: seu corpo inteiro ardia corno fogo, possuído por uma altíssima febre; suas forças lhe faltavam, ele não conseguia se alimentar, seu sono havia se afastado dele e ele estava na maior tristeza, Toda sua boca estava tão ulcerada que era muito difícil até mesmo perigoso engolir qualquer coisa, até mesmo água. A habilidade dos médicos, as orações dos amigos, por mais diligentes que estivessem sendo, não estavam tendo nenhuma valia. Nesse estado desesperado sua respiração era curta e rápida e ele não tinha percepção das coisas presentes."
"A hora da Divina Liturgia estava chegando, quando toda ordem e silêncio são mantidos para os ritos solenes. Nesse momento meu pai foi levantado por Aquele que vivifica os mortos. Inicialmente ele moveu-se lentamente, e a seguir mais decididamente. Então, numa voz fraca e indistinta, ele chamou um servo pelo nome para trazer suas roupas e ampará-lo. O servo veio alarmado e com alegria ali permaneceu enquanto meu pai apoiando-se nele como num cajado, imitava Moisés sobre a montanha arranjando suas fracas mãos em oração..."
"Ele retirou-se de novo para sua cama, e depois de comer alguma coisa e dormir um pouco, sua saúde paulatinamente foi recuperada, de maneira que no primeiro domingo após a Páscoa ele foi capaz de entrar na Igreja e agradecer ao Senhor..."
"Durante sua doença ele não teve um só momento livre de dor. Seu único alivio foi a Divina Liturgia, para quem a dor cedeu, como se tivesse recebido um édito de banimento" (On the Death of His Father).

Capitulo IV

"O reconhecimento de si próprio como merecedor de punição temporal e eterna, conduz ao conhecimento do Salvador" (Bispo Inácio Brianchaninov).

A Visão Cristã da Medicina.

Quando São Basílio, O Grande, foi perguntado se ir a um médico e tomar remédio estaria de acordo com os caminhos da fé, ele respondeu: "Toda arte é um presente de Deus para nós, feita para suprir o que está faltando na natureza... Depois que foi ordenado que voltássemos para a terra da qual nós havíamos vindo (no episódio da queda), e fomos juntados a uma carne ligada à dor que é destinada a morrer e tornada sujeita à doença por conta do pecado, a ciência e a medicina nos foram dadas por Deus, para nos aliviar a enfermidade, ainda que somente em pequeno grau" (The Long Rules).
Assim sendo, podemos recorrer a médicos e tomar remédios, pois essa ciência é um presente de Deus. "Deus deu as ervas da terra e suas drogas para cura do corpo, dispondo que o corpo, que é da terra, viesse a ser curado por várias coisas da terra... Quando o homem caiu do Paraíso, ele entrou imediatamente sob a influência de desordens e doenças da carne... Por essa razão deu a medicina ao mundo, para conforto, para cura e cuidado do corpo, e permitiu que ela fosse usada por aqueles que não pudessem confiar-se completamente a Deus" (São Macário o Grande, Homilia 48).
Quando ir a um médico e quão freqüentemente deveria ser uma questão de bom senso. Mas quando formos, "não deveremos esquecer que ninguém pode ser curado sem Deus. Aquele que se entrega à arte da cura, deve também se entregar à Deus, e Deus enviará auxílio. A arte da cura não é um obstáculo à fé, mas deve-se praticá-la com temor a Deus" (Santos Barsanufio e João, Filocalia).
"Pôr nossa esperança nas mãos de um médico é um ato de um animal irracional! No entanto, é precisamente isto o que ocorre com aquelas pessoas infelizes, que sem hesitação, chamam seus médicos de "salvadores"... De outro lado, é seguramente tolo rejeitar os benefícios da arte médica" (São Basílio o Grande, The Long Rules).
O ancião Nectário de Optina advertia que deveríamos ir aos médicos não para sermos curados, mas para sermos tratados, reconhecendo que nesta vida, nunca poderemos estar perfeitamente curados ou saudáveis. E escrevendo para o amigo de um homem seriamente doente, o ancião Nectário dizia: "Dá-lhe (ao paciente) minhas calorosas recomendações e os melhores votos de rápida recuperação. Diz-lhe também, que mesmo que sua esperança e sua fé sejam fortes, ele não deveria desprezar a ajuda de um médico. Deus é o Criador de todos os homens e de todas as coisas: não só do paciente, mas também do médico, da sabedoria do médico, das plantas medicinais e do seu poder curativo."
São Basílio o Grande ensina que "definitivamente deveríamos não depositar nossa esperança em aliviar a dor na medicina, mas confiar que Deus não permitirá que sejamos testados, além daquilo que podemos suportar. Eis aqui o que ele dirige para aqueles que correm para o médico por qualquer pretexto, e que esquecem esta importante diretriz: "Se fazemos ou não uso da arte médica, devemos de qualquer maneira manter nosso objetivo de agradar a Deus e ajudar a alma cumprindo este preceito: portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a Glória de Deus" (I Co. 10:31).
Este santo Padre também explica que, "às vezes, quando Deus assim julgar melhor, Ele nos cura secretamente, sem os meios visíveis (como médicos e drogas). Outras vezes Ele quer que usemos a medicina para nossas doenças."
Assim, "quando sofremos o sopro da doença nas mãos de Deus, devemos primeiro pedir entendimento a Ele, para que possamos saber porque Ele nos infligiu esse sopro. Secundariamente, devemos pedir a Ele que nos livre de nossas dores, ou no mínimo, que nos dê paciência para suportá-las." Tendo essa atitude, nós poderemos em boa consciência, buscar tratamento médico.
No entanto, para aqueles cuja confiança em Deus é muito profunda e forte, há um chamado mais alto: para essas almas, constatando seus pecados e qual é o propósito da vida, "suporte todas as aflições que são mandadas em silêncio, e se possível, sem recorrer à medicina, mantendo-se de acordo com as palavras: "Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra Ele" (Mq. 7:9; São Basílio, The Long Rules).
Esse modo de completo abandono à providência de Deus é muito alto e muito difícil, e não é dado a todos os homens. Mas nós precisamos pelo menos saber acerca dele para que possamos evitar auto-satisfação e "contentamento" com nossas próprias atitudes. Nós vemos esse modo de abandono e suprema confiança na vontade de Deus, particularmente nas vidas de santos monásticos. O incidente seguinte na vida de Pai Macário de Byeloberg Hermitage, mostra como o justo monge desprezou a medicina terrestre por uma medicina celeste.
Após vinte e oito anos de severas batalhas monásticas, a incansável força do monge e Pai espiritual, começou a fraquejar. No final de 1839, ele já tinha experimentado significativos ataques de doenças, mas ele não reclamava nem procurava auxílio médico. Quando seus dentes doíam muito, Pai Macário tinha o costume de sentar-se à mesa, onde havia uma cesta com restos de pão juntados no jantar. Dessa cesta, ele tomava crostas de pão e comia até última parte macia delas. Uma vez o monge encarregado do refeitório compeliu-o a revelar porque ele roia as crostas. "Os Santos Padres, disse Macário, comeram essas crostas com oração, e eu, um pecador, tocando essas crostas com minha boca pecaminosa, peço ao Senhor, que Ele, por Sua misericórdia, cure meus dentes doloridos e pelas orações dos Santos Padres, meus dentes melhoraram" (Orthodox Life, n° 16, 1971).
Essa confiança infantil em Deus é comum entre as grandes almas. Urna simplicidade similar pode ser vista, na vida do monge Marcos de Sarov. "Perto do fim de sua vida, o Pai Marcos sofria muito por conta de suas pernas: por longos períodos permanecidos em pé, em oração, e por laboriosas caminhadas pela floresta, as pernas do Pai Marcos tornaram-se hidrópicas, inchadas e cobertas de feridas, de modo que por algum tempo ele esteve incapaz de andar. Alguns dos irmãos de Sarov, sentindo compaixão pelo Pai, por seu incomodo, aconselharam-no a procurar auxílio de médicos terrenos. "O Pai, no entanto, não prestou atenção nesse conselho, e deu-se complemente ao Curador Celeste de almas e corpos. Com fé, ele pegou algum óleo da lamparina que queimava diante do ícone da Santíssima Mãe de Deus da Fonte Vivificante, localizada na catedral do Hermitage de Sarov, venerado como óleo milagroso e ungiu suas pernas doentes com esse óleo. Para espanto geral para aqueles que sabiam de sua doença, logo ele estava complemente curado dela pelo auxílio doador de graça da Mãe de Deus, que não o fez envergonhar-se de sua esperança" (Orthodox Life, n° 6, 1970).
Logo depois que foi para o Mosteiro de Sarov, São Serafim de Sarov caiu doente. De acordo com o livro "A Vida de São Serafim de Sarov," seu corpo inteiro inchou e ele jazia paralisado com grande dor, na sua cama dura. Não havia médico, e a doença não respondia a nenhum tratamento. Aparentemente era hidropisia. Durou três anos, e metade desse tempo, o sofredor gastou na cama. Mas ele nunca murmurou: Ele havia entregue a si próprio, completamente, corpo e alma, ao Senhor e orava a Ele sem cessar. Receoso que a doença pudesse se mostrar fatal, o superior, Pai Pacômio, propôs-lhe firmemente enviá-lo a um médico. Mas o Santo, com firmeza ainda maior recusou auxílio médico: "eu me entreguei complemente, Santo Pai, ele disse ao verdadeiro médico de almas e corpos, Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Imaculada Mãe. Mas se o Seu amor achar correto, dê-me, pelo amor do Senhor, o Remédio Celeste (Santa Comunhão)." Logo depois desse episódio, ele foi curado pela Mãe de Deus que lhe apareceu numa visão, junto com os Apóstolos Pedro e João.
Vivendo só para Deus e para a vida que há de vir, arrependendo-se a cada dia, desafiando-se constantemente a adquirir o Espírito Santo de Deus, homens e mulheres justos, são capazes de usar seu sofrimento, para subir ainda mais alto na escada da virtude, como fez o Hieromonge Partênio das cavernas de Kiev:
"Uma tosse sufocante não lhe dava descanso, e todos os seus ossos doíam. Mas ele continuava deitado, como antes, no banco estreito e duro, com um bom e paciente coração, apesar da sua grande enfermidade, dando graças ao Senhor por sua doença. Freqüentemente dizia: o que darei em troca ao Senhor por Ele ter me dado uma doença, além de todas as Suas outras bênçãos?" (Orthodox Life, n° 3, 1969).

Capitulo V.

"Uma vida terrena sem pesares é um verdadeiro sinal que o Senhor desviou Seu olhar de um homem, e que esse homem está desagradando a Deus, ainda que externamente ele possa parecer reverente e virtuoso" (Bispo Inácio Bríanchaninov).

Doença e o Trabalho da Perfeição.

O padre asceta do deserto São Aba Doroteu exorta seus discípulos a "ter o trabalho de descobrir onde eles estão: se eles deixaram suas cidades mas ainda permanecem em suas portas, na lixeira, ou se foram em frente pouco ou muito, se estão na metade do caminho, se andaram dois quilômetros para frente e dois para trás, ou mesmo cinco para frente e cinco para trás, ou se chegaram tão longe, na Cidade Santa e entraram na própria Jerusalém, ou se se encontram do lado de fora, incapazes de entrar" (On Vigilance and Sobriety).
A doença nos ajuda a ver "onde estamos" na estrada da vida: "doença é uma lição de Deus e serve para nos ajudar em nosso progresso, se nós damos graças a Ele" (São Barsanúfio e São João, Filocalia); "pois a regra número um que devemos observar é suportar toda pancada da doença com gratidão; pois elas nos são mandadas por causa de nossos pecados" (São João Crisóstomo, Homily 38 on St. John).
Ninguém deve usar a doença como uma desculpa para descansar dos trabalhos da vida espiritual. "Talvez alguns possam pensar que doenças e falta de forças no corpo retardem o trabalho da perfeição, já que, os trabalhos e as realidades não podem continuar. Mas isso não é um obstáculo" (Santo Ambrósio, Jacob and the Happy Life).
Mesmo quando estamos presos na cama, temos que continuar a lutar contra as paixões, produzindo valiosos frutos de arrependimento. Esse trabalho de perfeição requer que adquiramos paciência e resignação. Que melhor meio de conseguir isso do que quando estamos presos por uma doença, na cama? São Tikon de Zadonsk diz que no sofrimento podemos descobrir se nossa fé é viva ou só "teórica." O teste da verdadeira fé é a paciência no meio do sofrimento, pois "paciência é a armadura dos cristãos." "O que é seguir Cristo?" ele pergunta. É "suportar todas as coisas, olhando para Cristo que sofreu. Muitos querem ser glorificados com Cristo, mas bem poucos buscam permanecer com o Cristo sofredor. Não meramente por tribulação, mas com muita tribulação entra-se no Reino de Deus."
Para aqueles que supõem que só podem progredir na vida espiritual quando todo o resto está "bem," São João Cassiano replica: "Vós não deveis pensar que possais encontrar virtudes quando não estiverdes irritados, pois não está em vosso poder evitar que ocorram problemas, Deveríeis, ao invés, procurar por paciência como resultado de vossa humilhação e resignação pois a paciência depende de vossa vontade própria" (Institutes). Próximo do final de sua vida, São Serafim de Sarov sofreu de ulceração em suas pernas, "Mesmo assim," como relata Sua Vida, "sua aparência era sempre radiosa e alegre, pois em espírito ele sentia aquela paz e júbilo divino, que são as riquezas da gloriosa herança dos santos."
"Vós sois atacados por essas doenças," dizem os Santos Padres, "para que não partais esterilmente para Deus. Se puderes suportar e agradecer a Deus, essas doenças serão contadas para vós, como trabalhos espirituais" (São Barsanúfio e São João, Filocalia). O Bispo Teófano, o Recluso, explica: "suportando coisas desagradáveis alegremente, vós vos aproximai um pouco dos mártires. Mas se vós vos queixais, não só perdereis vosso compartilhar com os mártires, mas ainda sereis responsáveis por mais queixas. Por isso, alegrai-vos."
Para que nosso coração não fraqueje quando cairmos doentes, devemos pensar acerca e mentalmente "beijar os sofrimentos de Nosso Salvador e imaginar como se estivéssemos com Ele enquanto Ele sofre abusos, ferimentos, humilhações... vergonha, a dor dos cravos, o furo da lança, o escorrimento de sangue e água. Se agirmos assim, receberemos consolação em nossas doenças. Nosso Senhor não permitirá que esses esforços fiquem sem recompensa" (São Tikon de Zadonsk).
Pai Macário de Optina escreveu sobre isso para alguém que estava doente: "Gostei muito de saber por seus parentes quão bravamente estás suportando o cruel flagelo de tua grave doença. Na verdade, assim como o homem da carne perece, o homem espiritual é renovado."
E para outro ele escreveu: "Louvado seja o Senhor, por tu aceitares a tua doença tão mansamente! O suportar doença com paciência e gratidão é altamente reconhecido por Ele que freqüentemente recompensa os sofredores com Seus dons não perecíveis."
Pondere essas palavras: "ainda que nosso homem externo pereça, o homem interno é renovado."
Santo Ambrósio de Milão comparou um corpo enfermo com um instrumento musical quebrado e explicou como o "músico" poderá ainda produzir "música" agradável a Deus, sem seu instrumento: "Se alguém costuma cantar acompanhado por uma harpa e encontra a harpa quebrada, com suas cordas partidas... ele põe de lado a harpa e ao invés de procurar por suas notas, ele se delicia com sua própria voz."
"Da mesma maneira, um homem doente pode por seu corpo de lado. E assim encontrar prazer em seu coração e conforto no conhecimento de que sua consciência está clara, Ele se sustenta com as palavras de Deus e com os escritos proféticos, e mantendo essa doçura e alegria na alma, ele as abraça com a mente. Nada pode acontecer a ele porque a presença cheia de graça de Deus sopra a favor dele... ele está preenchido com tranqüilidade espiritual" (Jacob and the Happy Life).
Muito freqüentemente, as "músicas" espirituais mais agradáveis a Deus são produzidas no anonimato, por santos desconhecidos ou quase desconhecidos, porque tais "melodias" são as mais doces porque são ouvidas por Deus sozinho. Uma dessas sofredoras modernas que viveu uma vida angelical, apesar de avançada e terrível moléstia, foi a Santa Nova Mártir da Rússia, Mãe Maria de Gatchina. Sua história é conhecida por nós, só porque agradou a Deus arranjar providencialmente, que um de seus visitantes, o Professor I. M. Andreyev, gravasse suas memórias sobre ela.
Mãe Maria sofria de encefalite (inflamação do cérebro) e do mal de Parkinson. "Seu corpo todo tornou-se imóvel como se estivesse acorrentado, sua face anêmica e como uma máscara; ela podia falar, mas começou a falar com a boca semi fechada, entre dentes pronunciando vagarosa e monotonamente. Ela estava complemente inválida e com necessidade constante de ajuda e de cuidadosa atenção. Normalmente essa doença desenvolve-se com profundas modificações psicológicas, de maneira que freqüentemente tais pacientes terminam em hospitais psiquiátricos. Mas Mãe Maria, estando uma completa inválida física, não só não degenerou psiquicamente, como ainda revelou extraordinários aspectos de personalidade e caráter não característicos de tais pacientes: tornou-se extremamente mansa, humilde, submissa, não demandante, concentrada em si própria; ela entrou em oração constante, suportando sua difícil condição sem o mais leve murmúrio.
"Como se fosse uma recompensa por sua humildade e paciência, o Senhor concedeu-lhe um dom: consolação dos aflitos. Pessoas completamente estranhas e desconhecidas encontrando-se em aflição, desconsolo, depressão, desânimo, desespero começam a visitá-la e conversar com ela. E todos que foram ter com ela saíram consolados, sentindo uma iluminação de seus pesares, a pacificação da aflição, um acalmar dos medos, um afastamento da depressão, do desânimo e do desespero" (Orthodox Word,vol. 13, n°3).
"Assim Deus agiu. Como um Pai providencial e não como um raptor, Ele primeiro nos envolveu em coisas pesarosas, dando-nos tribulações como mestres e professores, para que sendo purificados e temperados por essas coisas nós possamos, depois de mostrar paciência e aprendizado e rígida disciplina, herdar o Reino do Céu" (São João Crisóstomo, Homily 18, on the Statues).

Oração de Nosso Santo Pai, Santo Ambrósio, Bispo de Milão.

(Santo Ambrósio atribuía essa oração ao Apóstolo Mateus, por ocasião de sua conversão).
Só a Ti eu sigo, Senhor Jesus, que cura minhas feridas. Pois o que poderá me separar do amor de Deus, que está em Ti? Será tribulação ou distração ou fome? Tenho feito jejum como preso por pregos, e preso pelas ataduras da caridade. Remova de mim, ó Senhor Jesus, com Tua potente espada, a corrupção de meus pecados. Segura-me nas ataduras de Teu amor; corta fora o que é corrupto em mim. Vem rápido e dá um fim em minhas muitas, escondidas e secretas aflições. Abre o furúnculo que o humor maligno criou. Com Teu novo lavar, limpa-me de tudo que está maculado. Ouvi-me, ó homens terrestres, que em nossos pecados criam pensamentos bêbados: eu encontrei um Médico. Ele habita no céu e distribui Suas curas na terra. Só Ele pode curar minhas dores das quais Ele não tem nenhuma. Só Ele Que conhece o que está escondido, pode levar embora a aflição de meu coração, o medo de minha alma - Jesus Cristo. Cristo é graça, Cristo é vida, Cristo é Ressurreição! Amém.

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