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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Santos Maronitas III


Os antigos historiadores preocupavam-se, habitualmente, em narrar a vida e as façanhas dos grandes conquistadores, dos reis e dos Imperadores. Porque São Maron não foi conquistador de países fabulosos , nem rei, nem imperador, os historiadores da época em que ele vivia não registraram as suas conquistas, seus discípulos e seguidores não publicaram as suas façanhas, os pó elas e os músicos não se apressaram em aclamar e cantar as suas virtudes.
Por isso, não nos parece estranho o fato de não encontrarmos nas obras dos contemporâneos de São Maron mais que simples indicações e alusões rápidas que nos possibilitam , de certa maneira, perceber as características de sua rica personalidade. Por outra parte, não podemos exigir mais que isso da vida de um monge anacoreta que escolheu viver longe do mundo, há mais de 1600 anos. Porem ele não conseguiu escapar ao agrupamento das multidões ao redor de sua pessoa, por causa da irradiação espiritual de sua vida virtuosa.
Fontes de informação:
A primeira fonte de informação que diz respeito a São Maron é uma carta que São João Crisóstomo mandou em 405, de seu exílio de Cucusa, em Arménia, a “Maron sacerdote eremita”, na qual pede a sua oração e se lamenta porque não pode visitá-lo pessoalmente. Esta carta é um testemunho autentico de um contemporâneo que conheceu pessoalmente a São Maron e apreciou muito a sua piedade.
A segunda fonte de informação apareceu uns vinte anos mais tarde. É a famosa obra “Historia Religiosa” de Theodoreto de Cyr (Curoch), Bispo e Historiador, que nos dá maiores informações sobre a vida hermética de São Maron e de sua influencia espiritual sobre seus discípulos. Theodoreto (393-452) narra nesta obra, a vida de trinta e sete anacoretas dos dois sexos. No capitulo XVI fala de São Maron que não conheceu pessoalmente, mas conheceu alguns de seus discípulos que lhe deram as melhores informações.
Segundo o Bispo de Cyr, na segunda metade do século IV e nos primeiros anos do V, sobre uma montanha situada na região de Apaméia da Síria Segunda, vivia um santo anacoreta chamado Maron. Retirou-se sobre aquela montanha, perto de um templo pagão que ele próprio convertera em Igreja. Dedicava-se à oração e à penitencia. Vivia dia e noite ao ar livre. Poucas vezes, quando o frio ou o calor chegavam ao extremo, ele se refugiava sob uma tenda de pele.
Nos séculos IV e V, a Síria e o Líbano eram províncias do Império do Oriente. A província de síria dividia-se em três partes:
- Síria Primei Ra, com a cidade de Antioquia como Capital;
- Síria Segunda, com a cidade de Apaméia como Capital;
- Síria terceira, com a cidade de Membej como Capital.
Theodoreto, na introdução à vida de Baradat, discípulo de São Maron, descreve a vida ascética ao ar livre: “ muitos, decidiram não ter nem gruta, nem caverna, nem barraca, nem maloca. Têm exposto seus corpos ao ar livre, agüentando as qualidades contrarias das estações , as vezes gelados , pelos rigores do frio e outras vezes queimados pelos raios do sol.”
Este novo gênero de vida ascética foi chamado “hypètre” por A. J. Festugiere: “ o fundador desta vida “hypètre” parece ser um certo Maron que teve muitos discípulos, entre outros Jacob e Lemnáceos”.
Segundo o autor da “Historia Religiosa”, São Maron foi dotado de muita sabedoria que fez dele grande diretor de almas. A austeridade de sua vida e o dom de milagres do qual foi favorecido fizeram dele uma das grandes celebridades da região, naquela época: “ Deus sendo rico e generoso para com os seus santos o gratificou (Maron) com o dom de curar as doenças. Sua fama espalhou-se em toda a região. As multidões corriam a ele... Com efeito, a febre parava sob o rocio de sua bênção , os demônios fugiam, os enfermos recuperavam a saúde, todos pela virtude de um único remédio : a oração do Santo. Porque os médicos prescrevem um remédio para cada doença, mas a prece dos amigos de Deus mostra-se como o remédio que cura todas as doenças”.
“Contudo, Maron não curava somente as doenças do corpo, ele curava igualmente as doenças da alma. Libertava uns da avareza, outros do ódio; ensinava a uns a lei da justiça e acordava outros do sono da negligencia’’.
O mesmo historiador chama São Maron “o grande, o sublime, o divino”. Numerosos foram os discípulos, homens e mulheres que, seguindo o exemplo do santo e querendo imitá-lo, transformaram as cavernas, as grutas, os morros em ermidas. Todos esperavam a visita do santo para escutar seus sermões e receber dele as orientações necessárias para a vida ascética.
Assim, podemos entender a conclusão entusiasta de Theodoreto, contente de ver os frutos da piedade se multiplicar nos jardins de sua diocese: “ Em suma, o ensino do Santo fez crescer muitas plantas para a sabedoria celeste. Maron cultivava para Deus este jardim que floresce em todas as regiões de Cyr”.
O famoso historiador termina a biografia de São Maron falando de sua morte que ocorreu depois de uma breve doença, “mostrando no mesmo momento a fraqueza da natureza e a sua força espiritual”. O desejo de conseguir seus restos mortais levou a uma forte disputa entre os habitantes das cidades vizinhas. Porem, os habitantes da maior cidade vizinha chegaram, em grande numero, expulsaram os outros e levaram esse rico tesouro. Mais tarde, construíram sobre seu tumulo uma grande igreja.
Reconstituição histórico-geográfica
O único antigo biografo de São Maron não fala da data de sua morte, mas, de maneira geral, os historiadores modernos concordam em fixá-la perto do ano 410. Alem disso, a biografia de São Maron, apesar de seu grande valor histórico, sua riqueza espiritual e a clareza de seu significado piedoso lhe falta notadamente indicações geográficas claras. Assim, por exemplo, baseando-nos somente sobra essa biografia, não podemos saber sobre que montanha retirou-se São Maron para se consagrar a Deus numa vida ascética, ao ar livre, nem podemos saber a que ídolo foi dedicado o templo pagão que ele convertera numa igreja onde se adora o único Deus verdadeiro.
A razão de ser dessa imperfeição consiste em que o autor não pensava escrever para as gerações futuras. Por isso, não lhe parecia necessário precisar as indicações geográficas e as datas históricas conhecidas de seus contemporâneos. Seu objetivo principal era consolidar, na alma de seus diocesanos, o sentimento de piedade, o desejo de penitencia, de austeridade e de mortificação. Contentava-se o autor da “Historia Religiosa” em “celebrar a memória de São Maron que havia embelezado o coro dos santos revestidos de Deus”, considerando-o como um verdadeiro exemplo para ser imitado.
Por isso, nos parece normal encontrar divergências na opinião dos historiadores acerca dos lugares geográficos que tem certa relação com a vida de São Maron. Para chegar à uma solução adequada é necessário se basear sobre o resultado das pesquisas arqueológicas feitas na região de Apaméia. Assim, segundo o arqueólogo Clermont Ganneau, naquele monte chamado hoje monte Semaan e que foi conhecido antigamente pelo nome monte Nabu, existia um ídolo adorado no lugar chamado hoje Kfarnabu. As ruínas existentes hoje neste monte são vestígios deixados pelos adoradores deste ídolo. Segundo outro arqueólogo, E. Littmann, em siríaco chamavam aquele lugar Kfarianbu. Segundo o arqueólogo H.C. Butler, o templo de Kfarnabu foi convertido em igreja na segunda metade do século IV.
Em resumo, São Maron viveu no Monte Semaan que era conhecido antigamente pelo nome de Nabu ou Yenbu (em aramaico), na aldeia de Kfarnabu cujo nome foi dado ao monte todo, por razão do famoso templo consagrado ao deus assírio Nabu. São Maron foi, provavelmente, quem converteu o templo em igreja.
No que diz respeito ao lugar onde foi enterrado São Maron, seguimos a opinião de Boutros Daou que se baseia principalmente sobre os descobrimentos arqueológicos feitos por G. Tchalenco e H.C. Butler. Estes descobrimentos levam a deduzir que na cidade de Brad, perto do Monte Nabu, numa capela que forma parte da igreja desta cidade e que foi construída pouco tempo depois que terminaram a construção da famosa igreja de Brad, foi enterrado o corpo de São Maron. Segundo os especialistas, aquela capela, foi unida à grande igreja construída com a finalidade de guardar os restos mortais de um sacerdote importante, porque foi descoberto nela um sarcófago. Naquela época não enterravam os sacerdotes em cova rasa, como o comum dos mortais, senão num sarcófago de pedra. Esse santuário de Brad não demorou muito, depois da morte de São Maron, para se converter em lugar de peregrinação do povo Cristão daquela região, como diz Theodoreto.

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