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sábado, 28 de maio de 2011

A PATERNIDADE ESPIRITUAL

A PATERNIDADE ESPIRITUAL

Capítulo proferido por D. Armand Veilleux, OCSO, na Abadia de Notre-Dame de Scourmont, em 25 de outubro de 1998.
Introdução
A "paternidade espiritual" é um dos assuntos mais populares em nossa época na literatura espiritual, sobretudo monástica. Na maioria dos casos, contudo, este tema é confundido com aquele da "direção espiritual". Assim, por exemplo, se se consultam os grandes dicionários de espiritualidade ou de teologia, chega-se à conclusão que não há em geral nenhum artigo, ao menos um artigo substancial, sobre o tema da paternidade espiritual. Contentam-se os autores a enviar ao verbete "direção espiritual", como se se tratasse da mesma coisa.
Estes estudos sobre a direção espiritual seguem em geral o esquema diacrônico habitual: direção espiritual nos Padres da Igreja, na Idade Média, na época moderna, etc. É necessário evidentemente colocar de lado a obra clássica de Irineu Hausherr: "A direção espiritual no Oriente antigo", que comporta um ensinamento de grande valor, mas cujo título permanece ambíguo, pois transporta à época dos Padres uma categoria moderna. Além disto, este estudo admirável se restringe em geral aos exemplos do mundo anacorético ou semi-anacorético e não trata em absoluto a relação da paternidade exercida por um abade cenobítico em relação à sua comunidade.
Quando se fala de paternidade espiritual no Cristianismo, é necessário obviamente que nos voltemos sempre às palavras de Jesus: "Não vos façais chamar de Pai. Vós só tendes um Pai". Não há paternidade fora daquela de Deus. Portanto, quem quer que seja chamado "pai" no Cristianismo só o pode ser pois encarna ou manifesta de um certo modo a paternidade única de Deus com relação a todos.
A relação de Jesus com aqueles que ele chamou e que o seguiram é geralmente caracterizada nos Evangelhos como uma relação do Mestre com seus discípulos. Este tipo de relacionamento já era encontrado nas correntes ascéticas da época como aquela que João Batista tinha com seus discípulos e por quem Jesus se fez batizar.
Aos seus discípulos, Jesus ensina constantemente quem é o Pai. As parábolas do Reino são quase todas voltadas para mostrar quem é o Pai, qual é a atitude do Pai com relação aos seus filhos e filhas. Não somente Jesus viu o Pai e ele o revela, mas é um com o Pai, de modo que quem vê o Filho, vê o Pai. E acima de tudo, ele ama os seus como o Pai os amou.
Jamais Jesus, no Evangelho, se atribui o título de pai. Jamais este título é dado a uma pessoa humana em todo o Novo Testamento. Paulo, sem se dar o título, se atribui três vezes um tipo de paternidade . Aos Coríntios (1 Cor 4,15), diz ele: "Ainda que vocês tivessem dez mil pedagogos em Cristo, não teriam muitos pais, porque fui eu quem gerou vocês em Jesus Cristo, através do Evangelho." Também aos Tessalonicenses (1 Tes 2,11-12), diz ele: "Vocês sabem muito bem que tratamos a cada um de vocês como um pai trata os seus filhos. Nós exortamos, encorajamos e admoestamos vocês a viverem de modo digno de Deus, que os chama para o seu Reino e glória."Enfim, em sua carta a Filemon (v. 10), fala de seu filho Onésimo, que gerou na prisão.
Em cada um dos casos mencionados por Paulo, trata-se do ensinamento do Evangelho. Paulo é pai, ou mais, ele é como um pai, não porque tenha engendrado filhos espirituais por si mesmo, mas porque engendrou o Cristo nos outros, através de seu ensinamento.
Há aí uma primeira lição importante a reter: jamais um pai espiritual pode falar de "seus" filhos espirituais: ele não engendra filhos espirituais - quando ele tentar fazê-lo, não se trata mais de paternidade mas de "clonagem". O verdadeiro pai espiritual faz nascer o Cristo em seus discípulos ou faz nascê-los para Cristo, o que é a mesma coisa.
Nos primeiros séculos da Igreja começa-se gradualmente a chamar de "pais" os bispos, pois seu papel principal é o ensino. Eles exercem também a mesma paternidade espiritual que o Cristo com relação aos seus discípulos.
Esta mesma paternidade será exercida em seguida nas escolas catequéticas; a mais célebre na Antiguidade foi a de Alexandria, pois o Mestre, através da catequese, fazia nascer para o Cristo seus discípulos. Nesta famosa Escola de Alexandria, por exemplo, Orígenes, após Clemente e Panteno, vivia com seus discípulos uma vida monástica não registrada em regras, guiando-os na meditação e no estudo da Palavra de Deus. O objeto de uma tal escola não era só o de formar a inteligência, mas a pessoa toda, purificando-a, de início, de suas paixões e de seus vícios. Esta vida comum implicava ocasionalmente momentos de abertura do coração com o mestre, nos períodos das grandes tentações; mas a paternidade espiritual do Mestre se exercia essencialmente com vista à comunidade dos discípulos mediante um ensinamento comum.
Isto, aliás, era conforme ao exemplo dado pelo Cristo que, no Evangelho, chama individualmente as pessoas para se tornar seus discípulos; mas uma vez que se torna discípulo, se é formado para o fato de colocar-se em seu seguimento, na comunidade, e de receber seu ensinamento público.
Um século após Orígenes, a fuga para o deserto é sancionada por Atanásio na sua Vida de Santo Antão, e assiste-se então a um fenômeno bastante extraordinário de fuga em massa para o deserto.
A vida no deserto é perigosa. Pode-se achar a si, mas pode-se também se perder. Assim o hábito de colocar-se sob a direção de um monge pneumatóforo- portador do Espírito, se desenvolve. Pede-se-lhe uma palavra:"Pai, que devo fazer para ser salvo?"
Esta palavra pode ser uma palavra da Escritura, escolhida especialmente para as necessidades daquela pessoa, ou uma palavra inspirada da Escritura. Pode-se dizer que, de todo modo, a Escola se mudara para o deserto, e assim também, a mesma forma de paternidade espiritual. Em torno de certos anciãos, constitui-se um grupo de discípulos. É o que se vê na vida de Antão. Diversas pessoas vêm consultá-lo e gradualmente Antão aceitará que eles formem uma comunidade (ou comunidades) que vivam na sua proximidade.
Nos meios de vida eremítica (ou semi-eremítica) do Baixo Egito, desenvolve-se algo particular. Dentre os numerosos discípulos que vêm consultá-los ocasionalmente, certos Padres do Deserto constituem com um ou alguns dos discípulos que vivem constantemente com eles e com os quais se estabelece não só uma relação de Mestre com discípulos, mas de pai com filho. Christoph Joest mostra como se tratava da forma tradicional de educação dos filhos no Egito antigo. Esta relação se assemelhava muito àquela do guru com seu discípulo no Hinduísmo. O que o guru transmite não é uma doutrina, mas usa sua experiência pessoal. Vive-se com ele, faz-se tudo o que ele faz, tal como o faria ele, e espera-se que isto nos permita, também a nós, chegar ao mesmo grau de pureza ou de transformação ao qual o primeiro chegou.
Esta relação implica uma renúncia a todo uso de seu próprio discernimento, de sua vontade própria, de seu próprio julgamento. Tem-se confiança total num mestre, que saberá como nos formar. Trata-se de uma obediência de caráter pedagógico, que, embora não se diga, é normalmente provisória, e que é totalmente diferente da obediência cenobítica.
A paternidade espiritual tal como praticada por Jesus e os primeiros cristãos consistia essencialmente em transmitir um ensinamento espiritual, de conduzir os discípulos a perceber quem é Deus, quem é o Pai - este o objeto de todas as Parábolas. Também consistia em conduzir alguém à pureza de coração, colocando-o diante da obrigação de tomar decisões radicais (cf. O jovem rico). Consistia também no exemplo de uma vida de serviço (Jesus que lava os pés dos Apóstolos).
Nas Escolas, como a de Alexandria, consistia numa vida em comum à imagem daquela dos Apóstolos com Jesus, e num estudo coletivo aprofundado da Palavra de Deus, assim como uma direção pessoal ocasional para lutar contra os obstáculos à ação da graça.
Agora, no monaquismo anacorético do deserto, há um elemento novo, enraizado na cultura local, que não se acha como tal na tradição cenobítica: a dependência radical de uma pessoa com relação a outra em todos os aspectos de sua vida interior e exterior, como método de formação.
Veremos numa próxima vez o exercício da paternidade espiritual na tradição cenobítica.
© Abadia de Scourmont, 1998.


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