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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Monaquismo

Monaquismo

Formação Permanente

1 A Espiritualidade Pascal e a Iniciação Cristã

            Os primeiros séculos da vida cristã foram marcados por uma grande espiritualidade.  No alvorecer do cristianismo, as comunidades foram marcadas por uma espiritualidade pascal.  Ao lermos com atenção os escritos do Novo Testamento e os primeiros textos cristãos, percebemos a força da espiritualidade nascida do evento da Ressurreição do Senhor.  A teologia da Igreja primitiva é, portanto, uma teologia pascal.  Por isso mesmo, o dia da iniciação cristã era considerado o mais importante da vida de um cristão.  Era o dia de seu nascimento para Deus e a convicção de sua pertença à comunidade dos eleitos, que se reunia semanalmente para celebrar a ressurreição de Jesus Cristo.
            Essa espiritualidade era marcada pela alegria, porque nasceu no contexto pascal.  Era também uma espiritualidade missionária, porque os primeiros cristãos sempre anunciavam, com suas próprias vidas, a Boa Nova.  Portanto, essa espiritualidade pascal era carregada de grande dinamismo, transmitida pela palavra e pelos atos dos primeiros cristãos, e capaz de transformar pessoas e sociedades inteiras.
            A iniciação cristã, que compreendia a recepção de três sacramentos – Batismo, Eucaristia e Confirmação – era realizada na noite da Vigília Pascal e compreendia a base sobre a qual era construída toda a vida espiritual e eclesial dos primeiros cristãos.  A partir dessa celebração, o batizado devia expressar sua conversão a Cristo por palavras e atos, mudando radicalmente a vida e deixando transparecer para todos uma vida nova emergida das fontes batismais.
 
Espiritualidade Comunitária

            A pertença a uma comunidade era um elemento de crucial importância na espiritualidade dos primeiros cristãos, mas esse modo de pensar comunitário não é autóctone, ele nasce da experiência daqueles primeiros convertidos por Jesus, que moravam na Terra Santa.  Aliás, é bom lembrar que os israelitas tiveram, ao longo dos séculos, uma grande experiência de vida comunitária.  Quando lemos o Antigo Testamento encontramos, em todos os momentos, essa dimensão na religião de Israel.  Os primeiros cristãos receberam do Judaísmo o sentido de comunidade, que vai perdurar ao longo dos séculos.
            Assim, ao receberem os sacramentos da iniciação Cristã, os fiéis eram introduzidos na vida comunitária. Essa comunidade se encontrava pelo menos uma vez por semana para celebrar a Eucaristia, passando em vigília do Sábado para o Domingo, rezando os salmos, lendo os textos bíblicos, especialmente os que faziam alusão à ressurreição, e, ao amanhecer do Domingo, celebravam a Eucaristia, em memória da ressurreição de Jesus.  Reuniam-se ainda, com freqüência, em outros dias ou em ocasiões especiais.
            Esse valor da vida em comunidade foi um grande presente que recebemos dos nossos pais na fé: os israelistas.  É bom lembrar que, no florescer dos primeiros lampejos da vida monástica, esse elemento foi de vital importância, influenciando quase todas as comunidades monásticas e seus diversos fundadores, especialmente a partir do século terceiro.

Uma Espiritualidade Bíblica e Orante

            Os primeiros cristãos tinham recebido do judaísmo um profundo amor às Escrituras.  Diariamente liam a Bíblia procurando perceber a ação de Deus ao longo da história, e atualizando essa história para suas vidas.  Possuíam, portanto, uma espiritualidade bíblica e orante.  Rezavam a partir da Palavra de Deus. Tinham, especialmente, um profundo amor à oração com os Salmos, que passaram a fazer parte da oração oficial da Igreja.  Aqui, mais uma vez, vemos uma grande influência do judaísmo nas primeiras comunidades cristãs.

2 As Primeiras Formas de Vida Consagrada
 
            O martírio sempre foi visto pela comunidade cristã como a maior prova de amor ao Cristo.  Era considerado a expressão suprema da perfeição evangélica.  Porém, não havia perseguições em todas as regiões.  Por isso, de forma pulverizada e paulatina, surge, ainda no século II, o ideal de se viver a vida cristã com generosidade e abnegação, numa espécie de “martírio incruento”, testemunhando o Cristo por uma vida totalmente devotada a Ele.
            As primeiras expressões de vida consagrada na comunidade cristã foram as “Virgens” e os “Ascetas”, estes últimos eram chamados de continentes, sendo a vida celibatária o elemento comum aos primeiros consagrados.
            As virgens consagradas ou Virgens de Cristo foram mais documentadas que os Ascetas.  Encontramos diversos textos que relatam suas vidas a partir do século III: viviam com suas famílias, não possuíam ainda nenhuma veste especial e participavam de todas as atividades da sociedade do seu tempo.  A virgindade para elas era considerada um estado de vida estável e definitivo.  As virgens tinham a aprovação do bispo local e, naquela época, já existia um voto de virgindade.
            A partir do século IV as virgens consagradas tornaram-se numerosas.  Elas recebiam a consagração durante a cerimônia litúrgica.  Após a consagração, ocupavam um lugar de honra na Igreja, especialmente durante os ofícios litúrgicos.  E mais, ajudavam os bispos como diaconisas: no ritual do batismo e no exercício da caridade.
            Os padres da Igreja dedicaram-lhe muitos textos.  Lendo-os podemos reconstituir os elementos principais da vida espiritual de uma virgem consagrada, destacando-se:
práticas da virtudes;
ascese vigilante;
desapego dos bens materiais(pelo menos interiormente);
lectio divina(leitura orante da Sagrada Escritura);
meditação, oração pessoal e canto dos salmos.
            As Virgens Consagradas sempre tiveram em Maria, Mãe de Jesus, o ícone da vida modelar.  A mãe de Deus era considerada as primícias e a “coroa das virgens”.
            Lembremo-nos sempre que o valor da virgindade nasceu nos textos do Novo Testamento.  No judaísmo, porém, o casamento sempre foi muito valorizado como valor máximo para a mulher.  Logo, todas as jovens queriam casar e ter filhos. A partir do exemplo deixado por Maria e com as cartas escritas pelo Apóstolo Paulo, a virgindade foi sendo cada vez mais valorizada pelos primeiros cristãos.  Encontramos, inclusive, nos Atos dos Apóstolos o testemunho de moças que permaneceram virgens.
            As virgens consagradas viviam em suas comunidades como “sinais” do Reino futuro.  Suas moradas, sempre que possível eram afastadas dos grandes centros, embora muitas dessas jovens consagravam sua virgindade no próprio seio da família vivendo profundamente a humildade e a pobreza, rezando e meditando as Escrituras e trabalhando.
            Aos poucos, as virgens começaram a viver em pequenas comunidades para se apoiarem mutuamente, seja no que tange aos bens materiais seja na vida espiritual.  Os bispos foram os primeiros a incentivar a vida comunitária das “desposadas pelo Senhor”. Essas comunidades de virgens consagradas tinham sempre uma responsável, nomeada pelo bispo, que zelava pelas demais. Tinham, também um sacerdote, nomeado pelo bispo, para a celebração da Eucaristia.  Essas comunidades de virgens, nos séculos seguintes, se transformarão em mosteiros de monjas.  Isso aconteceu no momento em que as virgens começaram a viver observando uma Regra de um legislador do monaquismo, escolhido pela fundadora dessas comunidades.
            O modo de vida das virgens consagradas no seio de sua família, assim como as  comunidades de virgens (não monjas), foi desaparecendo paulatinamente, até a sua completa extinção no decorrer dos séculos.  Por ser a primeira expressão de vida religiosa entre as mulheres, o Concílio Vaticano II (1963-1965) achou por bem restaurar esse estilo de vida, que se tornou uma das grandes graças da vida religiosa no século XX.
            Por sua vez os ascetas ou continentes (celibatários) foram menos documentados porque, muitos deles ingressavam na vida clerical.  Alguns, porém, se afastaram do convívio comunitário e foram viver sozinhos no deserto, dando origem à vida eremítica.  Esses foram mais documentados, destacando-se aqueles que possuíam um modo de vida excêntrico(os que viviam em grutas, os que habitavam o deserto, os que viviam sobre uma pilastra, etc.  Encontramos,também, os ascetas que harmonizavam a solidão com o trabalho pastoral.  Nesse caso, ascetas-clérigos que saíam de sua solidão para exercerem determinadas funções pastorais na comunidade onde haviam iniciado a vida monástica.
            Mais tarde, os eremitas se reuniram em comunidades tendo um Abade e uma Regra de vida.  É neste momento que nasce, no seio da Igreja, a vida cenobítica.
            Na Didaqué, encontramos informações sobre os apóstolos itinerantes, os doutores, os profetas e os missionários que, além de viverem pobremente, tinham vida celibatária.
            Podemos citar entre os ascetas três grandes personagens do mundo cristão da época: Tertuliano (+220), Orígenes (+254) e Santo Ambrósio (+397).
          Como havia acontecido com as virgens consagradas, aos poucos, os ascetas também se organizaram em comunidades. Podemos citar, por exemplo, a comunidade à qual pertencia Orígenes.
            Muitos ascetas eram homens comuns que haviam se convertido ao cristianismo, deixando para trás uma vida mundana e de prazeres.  Os bispos foram os principais incentivadores da vida comunitária dos ascetas, porque sabiam que esses recém convertidos podiam desanimar diante das dificuldades da vida cristã radical e retornar à vida anterior.  Essas comunidades formadas por ascetas vão se transformar, com o passar dos anos, em verdadeiros mosteiros.
            Em suma, podemos afirmar que as virgens consagradas e os ascetas foram as primeiras manifestações da vida religiosa na Igreja.  O núcleo primitivo e essencial de sua consagração era o celibato, depois a pobreza seguida pelos elementos espirituais e ascéticos: vigílias noturnas, oração freqüente, salmodia, jejuns e abstinências.

3 O Monaquismo Copta e os dois grandes Pais do Egito: Antão e Pacômio
 
            O monaquismo egípcio, também chamado de monaquismo copta, é considerado a base de todas as experiências monásticas vividas no Oriente Médio e na Europa.  Ele foi, inclusive, um referencial para os escritores monásticos.  Assim, podemos considerar o Egito como sendo capital do monaquismo nascente, mais ou menos o que foi a Gália para o monaquismo medieval.
            A vida monástica no Egito começou pela forma eremítica.  Foi organizada por Santo Antão através das Colônias dos Eremitas.  Posteriormente, São Pacômio dará princípio ao que hoje denominamos vida cenobítica, ou seja, vida em comunidade.

Santo Antão, o Pai dos eremitas

            Santo Antão nasceu em Coma, no Egito, por volta do ano 251.  Crê-se que tenha vivido até o ano de 356, data provável de seu falecimento.  Seus pais eram camponeses ricos que morreram quando ele tinha cerca de vinte anos. Herdou, então aquele jovem, as diversas propriedades familiares, devendo cuidar também de sua única irmã, mais jovem do que ele.
            A vida de Santo Antão, escrita por Santo Atanásio (+372), Patriarca de Alexandria, começa pela narrativa da vocação do grande padre do deserto.  Diz-nos que, ao entrar na igreja de sua cidade no momento em que se lia o texto “Se tu queres ser perfeito vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres; depois vem e segue-me, e terás um tesouro no Céu”, viu ali o chamado de Cristo para a perfeição evangélica.  Vendeu todos os seus bens, mas guardou uma parte da herança para o sustento de sua irmã.  Voltando a igreja ouviu um outro texto que dizia “Não vos preocupeis com o dia de amanhã”.  Entendendo nisso a vontade de Deus, vendeu o que havia guardado, pôs sua irmã sob o cuidado de religiosas e, desse modo, sentiu-se apto a começar uma vida monástica.  
E começou vivendo vida pobre e simples na periferia da cidade, sendo orientado por um mestre espiritual.  Como qualquer asceta da época, organizava sua vida diária dividindo-a entre o trabalho manual e a leitura da Sagrada Escritura.  Para conhecer melhor a vida de monge começou visitando diversos ascetas de seu tempo, procurando observar, em cada um deles, a qualidade que mais sobressaía para, assim, construir, ele mesmo, o seu caminho monástico.  Em alguns ascetas encontrou o espírito de oração, noutros o exemplo do despojamento e a paciência, e em outros a transparência da humildade de coração.
            Esse contato de Antão com os mais variados monges de seu tempo o enriqueceu muito e o ajudou a construir sua vida monástica sobre o alicerce do que havia de melhor em matéria de ascetismo.  Inclusive vemos que Santo Atanásio faz questão de mostrar que Santo Antão era um jovem humano, equilibrado e querido pelas pessoas com as quais convivia antes e depois do ingresso no "deserto".
            O livro de Santo Atanásio (Vita Antonii) divide a vida de Santo Antão em quatro etapas.  A primeira etapa consta da vocação e do noviciado do grande santo, que resumidamente citamos acima.  Após o noviciado começa a segunda etapa, com a experiência da solidão no deserto e sua luta contra o demônio.  Nesta etapa, Antão morou num túmulo abandonado, uma espécie de capela mortuária, relativamente grande, tão comum no Egito.  Exatamente nessa etapa da narrativa de Santo Atanásio é que vemos o desenvolvimento de uma Teologia Monástica, que será de importância fundamental para o progresso do monaquismo posterior a Santo Antão.
            É interessante ressaltar que todos os eremitas, após a "iniciação" com um mestre, tinham que fazer a experiência da solidão.  Iam ainda muito novos para o deserto, tendo aí a mais dura e difícil etapa de sua formação monástica.  Os escritores do monaquismo irão se apropriar dessa etapa para desenvolver temas como: solidão e o encontro consigo mesmo.  Aliás, os sonhos do jovem Antão receberam uma atenção especial por parte do seu biógrafo, e hoje muitos deles são interpretados pela psicologia.
            Não há dúvida que muitas pessoas ficam assustadas quando lêem a vida de Santo Antão pelo excesso de aparições demoníacas.  Aos leitores de primeira viagem é fundamental explicar o contexto cultural e religioso do Egito antigo no qual a demonologia era muito acentuada entre os primeiros monges do deserto, para, explicar aspectos psicológicos e religiosos que eles não conseguiam interpretar.  O Egito sempre teve tradições cultuais e culturais muito originais e o cristianismo nascente bebeu abundantemente dessa fonte.  Por isso mesmo, não devemos estranhar os textos do monaquismo nascente.
            Essa segunda etapa da vida do jovem eremita termina com a visão consoladora de Deus, motivada por seus combates, prometendo auxiliá-lo sempre.
            A terceira etapa da vida de Antão começa aos trinta e cinco anos, quando ele se muda para um forte abandonado, essa etapa durou cerca de vinte anos e foi marcada por uma intensa reclusão.  Lembremos que ele já era um eremita experiente e habituado à vida do deserto. Essa etapa termina aos cinqüenta e cinco anos, quando Antão recebe o dom da "paternidade espiritual".  É interessante notar que, a partir desse momento, começaram a chegar muitos discípulos que encontraram apoio nele o apoio de um "apa" (pai) carismático, capaz de escutar e de curar as feridas  espirituais dos que estavam iniciando a vida monástica, porque ele mesmo se tornara um profundo conhecedor de suas limitações e de suas forças, sendo considerado por todos um "homem de Deus". É importante frisar que esses anacoretas o elegeram para ser seu abade e, por décadas afora, ele não mais se desligou desses irmãos.
           A quarta etapa da vida desse pai do deserto começa quando ele resolve "fundar" a primeira colônia de anacoretas.  Com essa colônia foi oficialmente inaugurado o monaquismo no deserto egípcio.  Assim o deserto começou a ser povoado por monges, que posteriormente, fundaram outras colônias monásticas.  Essa etapa tem dois aspectos importantes para a história e para a teologia do monaquismo: o conceito de paternidade espiritual e a busca, pelos eremitas, que viviam solitários, por uma certa vida comunitária.  Esses dois elementos, abade e comunidade serão os pilares da vida monástica posterior.  Junto a esses elementos aparecerá um outro, à medida que a vida foi se tornando cada vez mais comunitária: o seguimento de uma Regra de vida.
          Mais tarde Santo Antão partirá do Antigo forte onde habitara, indo para a Tebaida Superior.  Porém, a caminho daquela importante região, mudou de idéia, e, seguindo os beduínos da região, foi para as montanhas de Pispir.  Nesse local habitou até seus últimos dias de vida, com dois de seus discípulos. Faleceu Antão em 356, no alto de seus 105 anos de vida santa, sábia e de muitos trabalhos.  Não existem registros sobre o local de sua sepultura.  Pelo que consta, ele pedira a seus discípulos para que não revelassem o local de seu sepultamento, temeroso de que os simples camponeses começassem a fazer romarias em sua honra.
          Santo Atanásio quis apresentar seu biografado como uma espécie de modelo para os monges da sua época.  Por isso mesmo Santo Antão é apresentado como sendo um grande pai, possuidor de dons sobrenaturais e capaz de dirigir os espíritos.  Santo Atanásio o chamava de "médico de todo Egito".
          A "Vitta Antonii" foi escrita logo após a morte do Santo, sendo influenciada pelas idéias espirituais de então e com os gêneros literários empregados no Egito, ricos na abordagem dos milagres, profecias e lutas contra o demônio.  Por outro lado, os Apoftegmas nos apresentam Santo Antão não como um herói da ascese cristã, mas como um abade cheio de experiência da vida espiritual, discreto, prudente, amante do silêncio e trabalhador infatigável.

São Pacômio, o Pai dos cenobitas

            O cenobitismo, que é o modo de seguir a vida monástica em comunidade, apareceu cronologicamente no Egito na mesma época do surgimento das colônias de eremitas.  Tradicionalmente São Pacômio (+347) é considerado o fundador das primeiras comunidades de monges que viviam em comum, sendo, por isso mesmo, chamado de "Pai dos Cenobitas".
            Os primeiros monges pacomianos se organizaram na Tebaida, a famosa Koinonia, enquanto os monges de Antão viviam em suas colônias  de Scete.
            Nenhum historiador afirma categoricamente que Pacômio fora o fundador da vida comunitária.  Na verdade, esse tipo de viver monástico já existia em alguns lugares.  Entretanto, Pacômio deu um novo sentido a esse modo de vida, dando-lhe um enfoque espiritual mais profundo, que será desenvolvido posteriormente por diversos autores monásticos como, por exemplo, São Basílio (+379), Santo Agostinho (+430) e São Bento (+547).  Portanto, foi Pacômio quem colocou as bases da reflexão sobre a vida monástica em comum. E, a partir dele, via se consolidar o conceito de Regra monástica, que nada mais é do que um conjunto de normas do viver monástico que guiará, segundo os conselhos evangélicos, a vida daqueles que a escolheram como caminho espiritual. As diversas Regras, surgidas pela pena dos mais diversos fundadores de comunidades, tiveram um papel relevante na organização da vida dos mosteiros incipientes.
            Pouco sabemos sobre a vida de São Pacômio. Diz-se que nasceu em Esma, no extremo sul do Egito, por volta do ano de 286.  Seus pais não eram cristãos.  Aos vinte anos encontramo-lo servindo o exército imperial.  Seu primeiro encontro com o cristianismo aconteceu na cidade de Tebas.  Nessa localidade viu, pela primeira vez, um grupo de cristãos.  Eles consolavam os soldados feridos e davam conforto espiritual aos que disso necessitavam.  Ficou tão impressionado com a vida e a caridade desses grupos de homens e mulheres que prometeu consagrar-se ao seguimento de Jesus quando deixasse o exército.  Assim, depois da milícia, foi para o Vale do Nilo, desejoso de ser batizado.  Três anos após o seu batismo iniciou a vida anacorética sob a direção do abade Palamon.
           Desde o início de sua vida monástica Pacômio procurou orientar-se pelas Sagradas Escrituras.  Ele vai ser, portanto, a base mais sólida de sua Regra monástica. 
            Depois de sete anos de experiências e andanças pelo deserto, Pacômio recebeu um novo chamado de Deus: devia iniciar uma vida comunitária para monges, e a iniciou com seu irmão João.  Logo no início Pacômio ficou com dúvidas se era realmente essa a vontade de Deus.  É ilustrativa a narração do autor da “Vida dos Coptas” ao dizer-nos que um anjo apareceu a Pacômio e disse-lhe: “ A vontade de Deus é que te ponhas a serviço dos homens para levá-los a Ele”.  Essa frase tem uma importância muito grande para compreender a doutrina espiritual de São Pacômio, pois, na sua concepção, a vida monástica tinha uma dupla finalidade: o serviço aos irmãos e o retorno para Deus.  E será exatamente o serviço aos irmãos a pedra de toque da Regra de Pacômio.
            Logo no início de sua experiência de vida comunitária São Pacômio teve algumas decepções com aqueles com quem dividia o ideal de vida monástica.  Ele procurava formá-los com o exemplo de sua própria vida.  Porém, nos princípios da vida cenobítica, não existia organização ditada por uma Regra monástica.  Assim, sua primeira experiência de vida comunitária malogrou.
            Reiniciando a experiência de vida em comum, Pacômio deu aos novos discípulos as orientações básicas do viver monástico cenobítico: renúncia aos bens, renúncia à própria vontade e a obediência.  Sua Regra Monástica determinava tudo: os horários dos monges, as ocupações, o vestuário e a alimentação.
            Sua Regra Monástica foi uma inovação no monaquismo.  Ela nasceu da necessidade de organização da vida em comum, sendo fruto da sua experiência.
            Ao texto original da Regra de São Pacômio seus sucessores foram acrescentando novas regras.  O que chegou aos nossos dias são, na verdade, fragmentos do texto copta.  A antiga versão grega desapareceu.  São Jerônimo, em 404, traduziu a Regra de Pacômio para o latim.
            Os monges pacomianos multiplicaram-se abundantemente.  No ano 352, seis anos após a morte de Pacômio, haviam nove mosteiros.  O principal deles foi Pbou, com 600 monges.  Na Páscoa, considerada grande festa dos pacomianos, cerca de 1000 monges se reuniam fraternalmente. Paládio (Séc. V) fala 3000 e João Cassiano (+432/433) em 5000 monges.
            Existiram ainda as monjas pacomianas.  Seguiam, também elas, a Regra de Pacômio. Tinham iniciado a vida comunitária com Maria, irmã de Pacômio.  Acorrendo diversas mulheres a esse estado de vida, ela tornou-se uma verdadeira mãe espiritual.  Pacômio nomeará Apa Pedro para cuidar das monjas, auxiliando-as na vida espiritual, assim como as necessidades materiais.
            Após sua morte, Pacômio foi sucedido por um monge chamado Petrônio.  Esse, porém, viria a morrer dois meses e meio depois.  Assumiu, então, Santo Orsiésio, por nós conhecido por ter escrito uma obra entitulada “Sobre os Deveres dos Monges” que, mais tarde, fora traduzida por São Jerônimo, que a intitulou “Doctrina de Institutione Monachorum”.
            Em 350 a Koinonia pacomiana passou por uma grande crise de identidade.  Começou, entre seus monges, um verdadeiro movimento separatista.  Entretanto, o Abade Teodoro conseguiu terminar com sublevação, expandindo, posteriormente, ainda mais a Koinonia, ao fundar novos mosteiros.
            Lendo com atenção os textos pacomianos não encontramos nenhum que aponte o cenóbio como uma escola para formar anacoretas, o que era comum na época.
            São Pacômio achava que o cenobitismo era “superior” aos outros modos de vida porque o anacoreta (que vivia solitário) não se beneficiava do contato fraterno dos seus irmãos.  Aliás, ao lermos seus escritos, percebemos que, para ele, o monaquismo é uma verdadeira escola na qual se aprende a viver o perdão e a misericórdia.  Sem essa dimensão não é possível compreender a vida de Pacômio e o seu ensinamento.  Essa misericórdia torna-se real no serviço fraterno e no dia-a-dia da vida comunitária.  Portanto, a vida comunitária é, para Pacômio, a maior expressão de amor e perdão.
            São Pacômio fundara diversos mosteiros.  O de Pbou sempre fora considerado a  “Casa Mãe” da Congregação.  O Superior deste Mosteiro era chamado de Pai, Abade, Príncipe e Arquimandrita.  Tinha, inclusive, o privilégio de nomear os outros superiores das casas.  Somente ele podia receber novos postulantes e expulsar alguém da Congregação.  Cabia-lhe visitar os mosteiros.  Seguindo a tradição deixada por Pacômio, esse abade devia indicar quem seria seu sucessor.
            Os pacomianos faziam duas grandes assembléias anuais das quais participavam todos os monges: a primeira era dia da Páscoa e a segunda no mês de Agosto. Na primeira celebravam juntos os mistérios da Redenção.  Nessa celebração alguns candidatos que viviam nos mosteiros eram batizados, após a preparação catecumenal  feita dentro dos próprios muros dos cenóbio.  Inclusive era na Vigília Pascal que todos os monges renovavam os compromissos batismais.  Sabemos que os pacomianos  não faziam, nos seus primórdios, votos monásticos, mas viviam uma entrega total que se renovava a cada ano, na Páscoa.
            A espiritualidade dos monges pacomianos era fundada à luz da espiritualidade pascal.  Portanto, para Pacômio, ser monge é viver radicalmente a consagração batismal; é participar plenamente da Páscoa de Jesus Cristo.


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