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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Formação monástica

Estudos e Formação monástica

SÍNTESE
1. Visão geral
A espiritualidade do deserto
Atitude de quem é chamado ao deserto
2. Modalidades de Eremitismo
Anacoretismo
Eremitismo professado sob obediência

1.Visão Geral:

Rompendo com a civilização da sua época, houve homens e mulheres que se retiraram para o deserto ou lugares solitários, para aí se entregarem plenamente a DEUS.  Estamos a falar  dos anos 300 d.c.
No princípio, estes homens e mulheres, eram apenas uns pouquinhos – recordemos os padres do deserto do Egito ou os da Palestina – mas mais tarde, outros, atraídos por esta maneira de viver, começaram a pedir orientação a estes primeiros eremitas no deserto, constituindo, com o tempo, verdadeiras colônias monásticas. Em pouco tempo, estas experiências individuais e excêntricas, acabaram paradoxalmente por constituírem verdadeiros ‘centros’ monásticos.
Claro está que, com a aglomeração de todos estes homens que, necessitados de solidão e de silêncio para se dedicarem a Deus, foram impelidos para o deserto, foi necessário em primeiro lugar, encontrar ritmos de vida que conciliassem as exigências de uma vida ao ‘lado’ uns dos outros no deserto, com as suas peculiares exigências de solidão.
O ritmo de vida mais comummente adotado consistia em passar a semana inteira em seu ermitério (cela separada) e na noite de sábado para domingo encontrarem-se na Igreja ou nas dependências dela para, em conjunto, cantarem o Ofício noturno, celebrarem no Domingo a Eucaristia e fazerem algumas gestões necessárias, como sejam o colóquio espiritual, alguma ‘palavra de sabedoria’ dado pelo eremita mais sábio (a sabedoria do espírito) ou simplesmente chamar a atenção para alguma falta.
Cada um dos eremitas devia viver do seu trabalho manual, NÃO UM TRABALHO QUALQUER, mas um trabalho que fosse compatível com o deserto e com as exigências da oração contínua e do recolhimento. Este trabalho consistia no fabrico manual de cestos, cordas e esteiras que o ‘guardião’ da Comunidade de eremitas era encarregado de vender para obter, em troca, alimentos.
Foram estes bem-aventurados padres, os iniciadores e mestres da vida dos monges. Podemos também apontar alguns nomes femininos como exemplos pré-monásticos como sejam Stª Tecla, Stª Macrina- iniciadora da vida eremítica feminina, Stª Synclética, a mais famosa das ‘Madres do deserto’
Muito mais posteriormente, por volta do ano 1150 – sabendo que houve sempre eremitas como vocação peculiar e especial na Igreja – um grupo de homens, depois de haverem participado na reconquista dos lugares santos, instalaram-se como eremitas , na Palestina, nomeadamente na Montanha do Carmelo, junto a uma fonte, para se dedicarem plenamente à contemplação de Deus, como fizeram aqueles 1ºs padres do deserto.
Estes homens pretenderam inserir-se na tradição monástica oriental mais antiga, que se inspirava nos exemplos do profeta Elias e dos seus discípulos, segundo o testemunho dado por S. Jerônimo, que viveu também esta excepcional espiritualidade de Elias, na tradição Monástica oriental. Diz ele: “Nosso modelo é Elias, modelo é Eliseo, nossos guias aqueles filhos dos profetas”
Estes nossos 1ºs irmãos eremitas do monte Carmelo, no início, contentaram-se apenas com um conjunto de prescrições tomadas dessa grande tradição monástica oriental. Contudo, por volta do ano 1209, amadurecidos e experimentados na vida solitária, pediram ao então Patriarca de Jerusalém Stº Alberto de Av. uma norma ou uma regra de vida concreta para eles, salvaguardando sempre o peculiar da vida solitária com a sua oração contínua.
A Regra recebida do Patriarca de Jerusalém, codifica um gênero de vida em ativo, de carácter estritamente eremítico e contemplativo.
a) A Espiritualidade do deserto ou da vida solitária
O fim da vida solitária, ou eremítica ou de deserto que tudo significa praticamente o mesmo, é CONTEMPLAR, pura e constantemente a Deus; é AMAR fervorosamente e sem desânimo a Deus. Esta é a OCUPAÇÃO PRINCIPAL daquele que é chamado à vida solitária: dedicar-se, unir-se, gozar e abraçar perfeita e assiduamente a Deus, fazendo-se pouco a pouco uma só ‘coisa’ com Ele.
Os primeiros padres do deserto, assim como todos os eremitas e anacoretas posteriores, abandonaram os lugares habitados para, no silêncio e em solidão, se entregarem ASSIDUAMENTE e CADA VEZ MAIS INTENSAMENTE a Deus, evitando por meio da solidão distrações que prejudicassem essa união com Deus, manifestada na oração contínua. A ORAÇÃO CONTÍNUA É A MARCA DO EREMITISMO.
O ‘DESERTO’, O ‘ERMO’, O ‘ESPAÇO DESABITADO’  é muito mais do que um lugar de retiro, já que, pela sua extensão ou configuração, e pela sua ‘aspereza’ ou ‘austeridade’, tem VALORES PRÓPRIOS.
Todos esses  ‘lugares’ levam em si, o sinal da pobreza, da austera beleza que aponta a simplicidade mais absoluta, tornando-se num sinal da total impotência do homem, que descobre a sua fragilidade porque não pode subsistir sozinho no deserto, daí que ele se veja obrigado a procurar a sua única força  somente em Deus.
Permanecer nestes lugares é como uma tentativa de AVANÇO, mas despido, desprendido de todo o apoio humano, na carência de todo o sustento egocêntrico e incluso espiritual  (as noites), para encontrar DEUS. O homem necessita, aqui, de muita determinação.
Os dias no deserto são um ensaio, uma tentativa cheia de confiança para pedir a Deus que nos venha buscar, na nossa impotência, para levar-nos a Ele.
O deserto implica necessariamente o desprendimento total. O homem só permanece no deserto para se tornar totalmente ‘presa’ de Deus, de contrário, a sua vida  corre o perigo de se afundar no vazio.
O deserto leva consigo a ruptura com o próprio habitat: deixa-se o mundo das relações sociais e das comodidades para encontrar-se sozinho num ambiente ‘despido’ onde se privilegia a união com DEUS. Quem é chamado ao ‘deserto’ não só deve pacificar o seu espírito apagando os desejos inúteis e o lamento da ‘escravidão’, mas erigir o ABSOLUTO DE DEUS,  relativizando   os outros  valores  e rejeitando  os  ídolos.
Daí que, o ‘deserto’ seja um período (lugar) de prova e de tentação, a fim de desocupar o coração humano dos ídolos, e poder experimentar, que SÓ DEUS CONTA: Ele é o Absoluto, é o Senhor da VIDA, o DADOR da salvação anelada, pedida, implorada, desejada...
É necessário pois, que Deus  ponha esse coração em situações difíceis, de ‘morte’, a fim de que se manifestem as intenções do homem, este as conheça e se submeta ao tratamento purificador da Bondade infinita e então Deus converte-se em maná que nutre, em água viva que tira a sede.. converte-se em Cristo que salva...
Este absoluto, que é Deus, manifesta-se como AMOR que atrai a SI, numa comunhão íntima, singular, e como ALIANÇA ETERNA. O DESERTO, portanto, converte-se num tempo de REVELAÇÃO DE DEUS e de REVELAÇÃO DO HOMEM, de renovação da aliança e da restauração da santidade.
b) Atitude de quem é chamado ao ‘deserto’
Quem vai ao deserto para nele perseverar, vai pela SEDE DE ESTAR CARA A CARA COM DEUS. Foi esta a atitude – que é a única válida -  de Jesus quando se retirava discretamente para os lugares solitários.  Este desejo de intimidade com Deus é o único móbil que deve levar o homem à solidão do ermo, a retirar-se da barafunda da vida e das mil e uma distrações que o impediriam de realizar este anseio fundo que a sua própria vocação lhe proporciona. Assim procederam tanto os anacoretas verdadeiros do deserto nos seus primórdios, como todos os outros posteriores até aos nossos contemporâneos  (ex: Charles de F.)
O deserto, situação e lugar privilegiado, põe o homem frente a si mesmo. Privado de todos os seus hábitos de vida, das suas forças e potências, que se faziam valer na vida social, é impulsionado fortemente a enfrentar-se com a Presença de Deus no maior despojamento possível, e somente o desejo da intimidade com Deus é que lhe vai suster nesta luta entre o seu nada e o Absoluto de Deus.  Todo o homem que penetra no deserto, melhor dito, que se deixa penetrar no deserto e ser purificado no fogo divino, alcançará a pureza de coração...só assim poderá ‘ver’ a Deus.
Sintetizando: o Único motivo que deve animar a nossa procura de solidão e silêncio é DEUS, É ALCANÇAR A INTIMIDADE COM DEUS.
Todos os primeiros eremitas do Monte Carmelo, tiveram esta excelente experiência de solidão, como procura incessante de Deus. Como já foi dito, nos seus primórdios, estes nossos irmãos contentaram-se com umas reduzidas prescrições que orientaram a sua vida solitária – como aconteceu aos 1ºs padres do deserto quando depararam com abundantes discípulos. Claro está que, com a aglomeração de discípulos, havia que estabelecer-se normas concretas para defender o silêncio e a solidão que cada um procurou, quando deixou tudo e abraçou o eremitismo.
Esta vida solitária amadureceu levando-os a pedir ao Patriarca de Jerusalém Stº Alberto, que lhes desse uma regra de vida, respeitando quanto possível a vida eremítica e a oração contínua, que vinham experimentando havia anos.
Stº Alberto, ao dar-lhes uma regra de vida, tendo em conta o seu modo de viver, juntou-lhes 2 elementos, a saber: o oratório e o refeitório (rezar em comum e comer em comum) e pô-los sob a obediência de um superior, E ISTO PORQUÊ?

2. Modalidades de eremitismo

O  anacoretismo

Como diz o Ecl IV,5   “ai daquele que está só, que, se cai, não tem quem o levante”. De fato S. Jerônimo já dizia : “no deserto, muito facilmente nasce a soberba, pela liberdade que existe em agir segundo o próprio parecer”
Só os homens e mulheres muito acrisolados na virtude e na vida do espírito é que podiam permanecer no deserto sem sucumbirem; é o caso dos chamados “padres ou madres do deserto”. Uma delas, a “Amma Sara” dizia de si mesma quando um dos anciãos, também anacoreta, foi ter com ela para a humilhar : “pela natureza sou mulher, mas não no espírito...”. Foi destes homens e mulheres fortes na fé e no discernimento, possuídos pelo Espírito Santo, que Stº Agostinho dizia: “Os que moram no deserto gozam dos divinos colóquios de Deus, a Quem se entregaram com pureza de alma; devem jejuar boas temporadas a pão e água”.
Esta vida eremítica completamente isolada nos seus primórdios, constitui a 1ª modalidade, pois foi a 1ª forma aparecida nos desertos, montanhas ou lugares solitários junto dos rios. A estes eremitas  chamam-se ‘anacoretas’. 


O Eremitismo sob Obediência

Contudo, a partir desta 1ª modalidade, surgiu mais tarde o eremitismo que se professa debaixo da obediência, pois a experiência anacorética foi mostrando quantos erros se pode cometer quando o eremita não está “sujeito” à obediência.  S.Jerônimo, destes que vivem sujeitos diz :”Não poderão fazer o que querem, mas aquilo que se lhes mande; terão unicamente aquilo que se lhes der... e assim conseguirão servir e amar a Deus com filial amor..”
Nesta 2ª modalidade, o eremita, logo à partida, pode não possuir essa tal virtude acrisolada que se exige para o anacoretismo, mas recebe a  aprendizagem que a “obediência” lhe proporciona para poder entrar na solidão, no silêncio e na oração contínua, orientado apenas pela Vontade de Deus. O eremitismo vivido sob a obediência impede o homem de extraviar-se pelo labirinto do orgulho, da vaidade e dos caprichos da sensibilidade; ajuda-o a sair vitorioso  na luta contra o “inimigo de Cristo” como dizia uma das madres do deserto referindo-se ao mau espírito, e contra si próprio, já que esta, é a guerra mais tenaz e encarniçada que o eremita tem que travar. Só a obediência lhe pode conferir a certeza moral de caminhar sob a Vontade de Deus, a única que o purifica, a única que o salva.

3. O Deserto Carmelitano

Professado sob a obediência
Inspiração individual anacorética e solitária
Organização exterior cenobítica (refeitório e oratório comum)

Ora, os eremitas do Monte Carmelo, apesar de, nos seus inícios não pertencerem à 2ª modalidade, começaram a professar essa mesma vida eremítica sob a obediência de um “prior” quando  pediram a Stº Alberto, Patriarca de Jerusalém, que lhes desse uma regra de vida.
      Temos que ter em conta tudo quanto foi dito sobre o silêncio e o deserto, assim como a Oração contínua em outros estudos. A partir daqui, o eremitismo do Carmelo, professado sob a obediência, ao não dar oportunidade aos que o professam, de viverem “independentes” e totalmente “isolados”, como os antigos anacoretas, ganha maravilhosamente um caráter pessoal, i.e., enquanto a inspiração individual da vida do Carmelo permanece especificamente solitária e anacorética, a orientação coletiva é cenobítica. O caráter preponderantemente interior e pessoal do eremitismo decretado pela regra PERMITE-LHE organizar a vida exterior e coletiva numa estrutura cenobítica. A obediência - elemento introduzido na vida dos eremitas do Carmelo – aponta para uma vida organizada em comum, querendo dizer que ela une todos os eremitas, oferecendo-lhes um ideal comum e o emprego de meios idênticos para atingirem o mesmo fim.
      Este caráter pessoal é de extrema importância para a apreciação da nossa vida e do seu estilo, pois o espírito de solidão eremítica, o espírito de deserto do Carmelo  fica intacto, apesar da sua organização exterior cenobítica, pelo cumprimento da regra, já que a mesma mostra continuamente a preocupação de salvaguardar a solidão e o retiro de cada um, a saber:

Ø      A preocupação do eremitismo quanto aos lugares onde se devem situar os Mosteiros. A regra indica como lugares propícios os desertos e os lugares onde a observância da solidão pessoal possa ser respeitada.
Ø      Cada deserto material, o Mosteiro, tem a sua sentinela que é o Superior é ele que tem a função  e o dever de facilitar este “deserto” aos irmãos, defendendo o ambiente da ‘invasão’ do mundo.
Ø      Cada irmão – como eremita que é – tem a sua própria cela, onde ninguém pode entrar pois a cela é o ‘pequeno deserto’ do irmão.
Ø      Na cela, o irmão tem de morar sozinho
Ø      A obrigação dada pela Regra de permanecer na cela ou perto dela, defende a solidão e o retiro, ao limitar a necessidade de movimento que invade e penetra a criatura humana.
Ø      Há que morar na cela dia e noite a não ser que esteja legitimamente ocupado em outros afazeres.  Mesmo assim, quando a obediência leva o irmão a estar fora da cela, este deve permanecer solitário, i.e. separado, sozinho, sem companhia humana, e realizar o seu trabalho no maior recolhimento que lhe seja possível.
Ø      Cada irmão – como ordena a Regra – deve permanecer na cela meditando a lei do Senhor e velando em oração, quer esteja a trabalhar, quer esteja orando....
O  "Preceito"  da  cela
       O preceito da cela, i.e., quando a Regra ordena que o  irmão permaneça na cela enquanto a obediência não ordenar outra coisa, esclarece o caráter pessoal do nosso eremitismo e por esse caráter pessoal, a solidão e o ambiente de deserto dos nossos Mosteiros ficam melhor defendidos do que pelos elementos cenobíticos (que é o refeitório e o oratório comuns).
 Deste modo a 1ª e principal preocupação da Regra é salvaguardar, a todo custo, o silêncio e a solidão, para o irmão atingir aquilo que pretende: a união com o próprio Deus. Quando a nossa Regra nos enuncia um preceito que diz respeito à obrigação de permanecer na cela ou próximo dela em ORAÇÃO CONTÍNUA,  meditando a lei do Senhor está a pôr de manifesto o NÚCLEO VITAL DA REGRA de vida dos eremitas do Carmelo.
Ao ser enunciado esse mesmo preceito acrescenta: “ou perto dela, a não ser  que esteja legitimamente ocupado noutros afazeres”. Isto quer dizer que, estar fora da cela é uma exceção, exceção que confirma a regra (a obediência). É de notar contudo que a exceção só diz respeito à permanência na cela,  mas não à ORAÇÃO CONTÍNUA.  Aplicando ao concreto da vida das monjas do Carmelo diremos que: Quando a irmã está ocupada legitimamente em ‘outros afazeres’ fora da cela, tem à sua disposição um espaço também solitário, destinado só para ela, espaço esse denominado “oficinas”, para poder realizar trabalhos que não podem ser realizados na cela.
     Estas “oficinas” são como que o prolongamento da cela, mas de forma alguma substituem a cela – lugar privilegiado e solitário da monja. Além destas oficinas, as monjas também podem retirar-se para as “ermidas” situadas no exterior, sempre que a obediência lhes permita, a fim de poderem orar ou trabalhar. Também as ermidas são um prolongamento da cela, mas não a substitui de modo algum.
    Tanto a ermida, como a cela, assim como os espaços verdes e solitários são, por assim dizer lugares privilegiados do eremitismo carmelitano, contudo, é sempre bom repetir que o deserto “pessoal” da monja,  o lugar concreto  que a Regra defende a todo o custo, é a cela 
o deserto sem  a oração contínua já não é o deserto em sentido bíblico, o deserto do Carmelo






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