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terça-feira, 17 de maio de 2011

Filosofia e Catolicismo

A vida virtuosa

Um aspecto da antiga filosofia grega que constituiu uma ponte para o pensamento católico foi a afirmação de que existe um gênero de vida que convém ao chimpanzé, e outro que convém ao ser humano. Dotado de razão, o ser humano não está condenado a agir por mero instinto. É capaz de reflexão moral, uma faculdade que nem os mais evoluídos espécimes do reino animal possuem. Se falha no exercício dessa faculdade, jamais poderá viver à altura da sua natureza. Se não dá prioridade às operações da inteligência, se não submete a sua conduta a um juízo moral sério, como se poderá dizer que é um ser humano? Se o princípio que rege a vida de um homem é fazer tudo o que lhe traga um prazer imediato, esse homem, em certo sentido, não difere de um animal.
A Igreja ensina que uma vida verdadeiramente digna do ser humano requer a ajuda da Graça Divina. Mesmo os pagãos romanos se apercebiam de certo modo da condição degradada do homem: “Que coisa desprezível é o homem, se não consegue elevar-se acima da condição humana!”, escreveu Sêneca. A graça de Deus podia ajudá-lo a conseguir essa superação. Essa é a finalidade com que a Igreja nos propõe o exemplo dos santos: demonstram ser possível a um homem alcançar uma vida de virtudes heróicas quando se deixa diminuir para que Cristo possa crescer nele.
A Igreja ensina que uma vida boa não é simplesmente aquela em que as ações externas estão acima de qualquer censura. Cristo insiste em que não basta não matar ou não cometer adultério; não se deve apenas preservar o corpo desses crimes; a própria alma deve proteger-se da inclinação a praticá-los. Não devemos apenas não roubar nada do nosso vizinho, mas também não admitir pensamentos de inveja sobre o que ele possui. E embora nos seja permitido, evidentemente, odiar o que é mau – o pecado ou Satanás -, temos que afastar qualquer tipo de ira e ódio, que só corroem a alma. Devemos evitar não apenas cometer adultério, mas também entreter-nos com pensamentos impuros, para assim não transformar um ser humano em mero objeto. Uma pessoa que deseje viver uma vida boa não deve converter os seus semelhantes em uma coisa.
Costuma-se dizer que é difícil fazer bem alguma coisa, que é difícil viver como um ser humano mais do que como um animal. Requer-se seriedade moral e autodisciplina. É célebre a afirmação de Sócrates quando diz que “o conhecimento é virtude”, que (…) “conhecer o bem é fazer o bem”. Aristóteles e São Paulo sabiam mais que isso, pois todos nos lembramos de momentos da nossa vida em que, conhecendo perfeitamente o que era bom, não o fizemos e, do mesmo modo, sabendo o que era errado, o fizemos. É por isso que os diretores espirituais recomendam aos seus orientados que comam uma cenoura da próxima vez que desejarem comer um doce; não porque os doces sejam maus, mas porque, se conseguirmos disciplinar a nossa vontade em situações em que não está em jogo nenhum princípio moral, estaremos mais bem preparados no momento da tentação, quando estivermos realmente perante a disjuntiva de escolher entre o bem e o mal. E assim como, quanto mais nos habituarmos ao pecado, mais facilmente pecaremos, também é verdade que – como observou Aristóteles – a vida virtuosa se torna cada vez mais fácil quanto mais a praticamos e mais ela se torna um hábito.
Essas são algumas das idéias distintivas que a Igreja introduziu na civilização ocidental. Hoje em dia, a maioria dos jovens só ouviu falar em termos caricatos dos ensinamentos da Igreja sobre a moral sexual, e dada a cultura em que vivem, nem podem começar a entender por que a Igreja os propõe.
Contudo, fiel à missão que tem cumprido ao longo de dois milênios, a Igreja continua a anunciar uma outra proposta moral a esses jovens imersos em uma cultura que os ensina incansavelmente a buscar o prazer imediato. A Igreja recorda as grandes figuras da Cristandade – como Carlos Magno, São Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, para citar uns poucos – e oferece-os como modelo de como devem viver os verdadeiros homens.
A sua mensagem? Essencialmente esta: você pode aspirar a ser um desses homens – um construtor da civilização, um servidor de Deus e dos homens, um missionário heróico -, ou então alguém centrado em si mesmo, obcecado pela ânsia de satisfazer os seus apetites. A nossa sociedade faz tudo o que está ao seu alcance para que você siga o segundo caminho. Seja você mesmo. Erga-se por cima da manada, declare a sua independência em face de uma cultura que pensa que você é tão pouca coisa, e proclame que quer viver não como um animal, mas como um homem.

Thomas E. Woods Jr. Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental. São Paulo: Quadrante, 2008. 224 pg.

2 comentários:

  1. A vida sem reflexão não merece ser vivida e se o que distingue o homem, eis que é a reflexão, que Deus nos dê olhos de ver, olhos de refletir sempre acerca daquilo que indignifica a vida, tornando-a menos humana. Que peçamos a Deus para que sejamos ao menos filósofos e quem sabe um dia santos.

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  2. Visitem o meu blog https://joaoemilianoneto.blogspot.com.br

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