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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Dois assuntos: Indulgências e Tibieza


(Padre Faber)
“(…) Há ainda um assunto que reclama a nossa atenção enquanto nos ocupamos da oração vocal. Um homem dado à oração vocal está em grande parte à mercê dos livros de orações. A escolha das devoções preferidas é, portanto, de grande importância, e que devoções podemos escolher com mais segurança do que as aprovadas pela Igreja e por ela indulgenciadas?
Há uma grande relação entre as indulgências e a vida espiritual; e o emprego das devoções indulgenciadas é, pois, a pedra de toque pela qual reconhecemos de modo quase infalível um bom católico.
Segundo Santo Afonso, para tornar-se santo basta ganhar todas as indulgências possíveis, e São Leonardo de Porto-Maurício tem mais ou menos a mesma opinião. As revelações particulares e aprovadas dos Santos projetam uma luz importante sobre esta matéria. Santa Brígida foi suscitada em grande parte, como ela mesma diz, para propagar a glória das indulgências; e assim Santa Maria Madalena de Pazzi viu almas castigadas no Purgatório somente por havê-las menosprezado.
Há na vida espiritual o que chamarei as oito bem-aventuranças das indulgências.
Em primeiro lugar, por terem relação com o pecado, com a Justiça de Deus e com a pena temporal devida ao pecado, as indulgências conservam em nós certos pensamentos que pertencem à fase da purificação, o que para nós é salutar, embora desejemos com impaciência ir adiante e livrar-nos deles.
Em segundo lugar, produzirão em nós a feliz disposição de nos afastar deste mundo: conduzem-nos a um mundo invisível; cercam-nos de imagens sobrenaturais; infundem em nosso espírito uma ordem de idéias que nos desapega das coisas mundanas e exprobra os prazeres terrestres. 
Em terceiro lugar, guardam continuamente diante de nós a doutrina do Purgatório, e assim nos obrigam ao constante exercício da fé e ao mesmo tempo nos sugerem motivos de um santo temor.
Em quarto lugar, fazem-nos praticar para com os fiéis falecidos o exercício da caridade, que facilmente chegará ao heroísmo, estando assim ao alcance dos que não podem fazer outras esmolas, e produz deste modo em nossa alma os efeitos que acompanham as obras de misericórdia.
Em quinto lugar, a glória de Deus tem muito interesse nas indulgências, por uma dupla razão: porque libertam as almas do Purgatório, apressando a sua entrada na corte celestial, e porque patenteiam especialmente algumas das perfeições divinas, tais como Sua infinita pureza, Seu ódio ao pecado ainda mesmo ínfimo, e o rigor da Sua justiça, aliada à mais engenhosa misericórdia. 
Em sexto lugar, elas prestam homenagem às satisfações que Jesus ofereceu por nós. São para estas satisfações o que para os Seus méritos é a doutrina de que todo pecado não é perdoado senão devido a Ele. Portanto podemos dizer que, aproveitando d’Ele e dos Seus méritos o mais possível, as indulgências realçam a copiosidade da Redenção. Honram também as satisfações da Virgem Maria e dos Santos, de modo a honrar mais ainda a Jesus.
Em sétimo lugar, elas nos dão uma idéia mais séria do pecado e aumentam o horror que lhe temos. Com efeito, as indulgências lembram-nos constantemente a verdade de que o castigo é devido mesmo ao pecado perdoado, que este castigo é terrível ainda mesmo que seja apenas por algum tempo, e que só é possível livrar-nos dele pelas satisfações de Jesus.
Em oitavo lugar, elas nos mantêm em harmonia com o espírito da Igreja, o que é de suma importância para os que se esforçam por levar uma vida devota e caminham entre as dificuldades do ascetismo e da santidade interior. Depreciar as indulgências é um sinal de heresia, e o ódio que esta lhes vota é um indício de que o demônio as detesta, e isto mostra o valor do poder delas diante de Deus e da sua aceitação por parte d’Ele. Elas estão envolvidas em tantas particularidades da Igreja, desde a jurisdição da Santa Sé até à crença no Purgatório, nas boas obras, nos santos e na satisfação [das penas devidas ao pecado], que são, de certo modo, o sinal inconfundível da nossa ortodoxia [isto é, da nossa catolicidade]. A infeliz história dos erros que a Igreja sofreu a respeito da vida espiritual nos mostra que, para sermos verdadeiramente santos, devemos ser verdadeiramente católicos e católicos romanos, pois fora de Roma não pode haver nem catolicismo, nem santidade alguma.
Além do que, as devoções indulgenciadas oferecem em si a seguinte vantagem: temos certeza de que são mais que aprovadas pela Igreja. Sabemos que no mundo numerosas almas piedosas as empregam todos os dias, e unindo-nos a elas participamos mais inteiramente da Comunhão dos Santos e da vida da Igreja, que constitui sua unidade. Por todas as razões que enunciei, o emprego das indulgências espiritualiza cada vez mais a nossa alma a aviva a nossa fé. Elas nos levam a rezar como quer a Igreja e sobre assuntos por ela indicados, e assim podemos alcançar muitos fins ao mesmo tempo. Pois pelo mesmo ato não somente rezamos, como fazemos ato de veneração às chaves da Igreja, honramos a Jesus, Sua Mãe e os Santos, evitamos o castigo temporal que nos é devido, ou, o que é ainda melhor, libertamos os mortos [do Purgatório] e assim glorificamos a Deus. Podemos ainda verificar que, ao percorrermos as devoções indulgenciadas, transferimos para o nosso espírito muita doutrina tocante, que serve de alimento à oração mental e a um amor cheio de reverência.
Tomemos um exemplo. Não posso conceber que um homem seja espiritual se não tem o hábito de rezar o terço, que pode ser chamado a rainha das devoções indulgenciadas. Em primeiro lugar, considerai a importância do Rosário como sendo uma devoção própria da Igreja, imprimindo em nossa alma um caráter particularmente católico, conservando perpetuamente em nosso espírito a lembrança de Jesus e de Maria, e como sendo um precioso auxílio para alcançarmos a perseverança final, se o recitarmos com fidelidade, como no-lo provam diversas revelações. Considerai, em seguida, que São Domingos o instituiu em 1214, inspirado por uma visão, com o fim de combater a heresia, e considerai o êxito que o consagrou. (…)
Nada desejaria dizer que pudesse restringir qualquer devoção. Todavia, considerando bem todas as coisas, quando a Igreja indulgenciou um tão grande número de orações e devoções, por que recorrer a outras orações vocais em vez de procurar as indulgenciadas?”

(FABER, Padre Frederick William [1814-1864], in: O PROGRESSO NA VIDA ESPIRITUAL, tradução de Marianna Nabuco, Editora Vozes, Petrópolis: 1924, páginas 278-282, grifos nossos)


 “A alma caída em tibieza não pensa em se corrigir de suas faltas: e estas se multiplicando a tornam de tal sorte insensível aos remorsos, que um dia chega onde se acha perdida, sem que sequer o tenha percebido!” (Santo Afonso Maria de Ligório - A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo)
Diz o Senhor dos Exércitos:
“Oxalá fosses frio ou quente!Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te” (Ap 3,15-16)
Isto é: “Seria mais vantajoso para ti, se fosses privado inteiramente da minha graça; porque terias mais esperança de sarar. Permanecendo pelo contrário, na tua tibieza, estás mais exposto à condenação, porque desse estado cairás mais facilmente em pecado mortal, com pouca esperança de te levantares” (Santo Afonso Maria de Ligório - A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo)
“Toma-se facilmente uma bebida, quando está fria ou quente; mas não, quando está tépida, porque causa náuseas. É por isso que a alma tíbia está exposta a ser vomitada da boca de Deus, ou a ser privada da sua graça e abandonada; o que é bem expresso pelo vômito, porque tem-se horror de tomar de novo o que uma vez se vomitou.Mas, eu pergunto, como é que Deus começa a vomitar uma alma? – Cessa de dar-lhe as luzes vivas da fé, as consolações espirituais, os santos desejos, e deixa de lhe fazer ouvir pelos apelos cheios de amor de que a tinha favorecido até então. Dai, ela se põe a descuidar da oração, das comunhões, visitas e preces, ou então faz tudo isso com grande enfado, desgosto e distração, ou faz tudo como forçada, com o espírito dissipado e agitado, e sem devoção. Eis de que maneira Deus começa a vomitá-la. E assim não achando senão peso e repugnância na oração e nos outros exercícios de piedade, sem nenhum alívio, a infeliz acaba por abandonar todos, e se deixa cair em faltas graves” (Santo Afonso Maria de Ligório - A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo).
Dizia Santo Afonso Maria de Ligório que “Sta. Jacinta de Mariscotti vivia com muita tibieza no convento de S.Bernardino de Viterbo, quando o Padre Bianchetti, religioso franciscano, ai veio na qualidade de confessor extraordinário. Apresentando-se para se confessar o padre lhe disse em tom severo: “És religiosa? Pois bem! Sabe que o paraíso não é para as religiosas vãs e orgulhosas”. Ao que respondeu: “Pois terei eu deixado o mundo para ir ao inferno?” “Sim, replicou o Padre, o inferno é a morada destinada às que te são iguais. É para lá que vão todas as religiosas que no convento vivem como seculares“.Esta sentença fez refletir a pobre irmã, que entrou em si, confessou-se, chorando amargamente a vida passada, e se pôs desde logo a marchar com passo firme no caminho da perfeição” (Santo Afonso Maria de Ligório - A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo).
Santo Afonso Maria de Ligório nos ensina que há duas espécies de tibieza; uma inevitável e outra evitável
“A tibieza inevitável é aquela da qual nem os santos são livres.Ela abrange todas as faltas cometidas sem plena deliberação, mas só pela nossa fragilidade humana: as distrações na oração, as pertubações interiores, as palavras inúteis, a vã curiosidade, o desejo de se mostrar, o gosto no comer e no beber, os movimentos de sensualidade não controlados prontamente, e tantos outros.Essas faltas, devemos evitá-las quanto pudermos mas devido à fraqueza de nossa natureza humana, corrompida pelo pecado, é impossível evitá-las todas.Devemos, sim nos arrepender quando fazemos estes pecados, pois desgostam a Deus, mas não devemos nos perturbar por causa delas.Escreve São Francisco de Sales: ‘Todos os pensamentos que nos trazem inquietação não são de Deus, príncipe da paz, mas nascem sempre ou do demônio ou do amor próprio ou da estima de nós mesmos’.Portanto as faltas irrefletidas, feitas sem querer, também sem querer se apagam.Basta para isso um ato de arrependimento ou um ato de amor.
A tibieza, que impede a nossa santificação é aquela que chamamos de Evitável: cometer pecados veniais refletidos.Todos esses pecados cometidos de olhos abertos, bem que podemos evitá-los em nossa vida, com a graça de Deus.Por isso dizia Santa Teresa D’Avila: ‘Que Deus nos livre dos pecados deliberados, por pequeno que seja!’.Assim, por exemplo as mentiras voluntárias, as pequenas murmurações, as imprecações, os ressentimentos, o caçoar do próximo, as palavras picantes, a vaidade, as antipatias nutridas no coração, a afeição desordenada a pessoas de outro sexo.Santa Teresa D’Avila dizia que esses pecados são como vermes que não se deixam conhecer enquanto não roerem as virtudes em nós…Com as coisas pequenas o demônio vai abrindo buracos onde entram as coisas grandes.Por isso devemos recear cometer tais pecados deliberados.por causa deles, Deus diminui as luzes mais claras no coração, seu socorro mais forte, e nos tira o consolo espiritual da alma.Por isso é que uma pessoa faz contrariada e com muito custo os atos de piedade.Depois começa a deixar a oração, a comunhão, as visitas a Jesus Sacramentado, as devoções; finalmente deixará tudo como já tem acontecido muitas vezes a tantas pessoas infelizes” (Santo Afonso Maria de Ligório - A Prática do amor a Jesus Cristo)
Contra tudo isso, nos ensina o mesmo santo que existem cinco meios para deixar a tibieza:
Primeiro, o desejo de perfeição; segundo, a decisão de alcançá-la; terceiro, a meditação; quarto,a comunhão freqüente e quinto, a oração.
Que possamos abraçar os cinco meios ensinados por Santo Afonso Maria de Ligório, e fugir da tibieza que tanto impede a nossa perfeição, que tanto impede o vôo de nossas almas para Deus!
“Como a ave que, atravessando o ar em seu vôo, não deixa após si o traço de sua passagem, mas, ferindo o ar com suas penas, fende-o com a impetuosa força do bater de suas asas (Sb 5,11).Nossa alma escapou como um pássaro, dos laços do caçador. Rompeu-se a armadilha, e nos achamos livres.(Sl 123,7)”

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