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domingo, 17 de abril de 2011

Vida Contemplativa

A Vida Monástica
Para contar em breves palavras a história desde o princípio, importa esclarecer em que sentido a comunidade, constituída e consolidada em Bose, ao longo dos últimos 30 anos, se reconhece na senda da tradição monástica.
Os monges foram, desde os primeiros tempos da Igreja, homens e mulheres que, para viverem a vocação cristã de uma forma radical, sentiram necessidade de se isolarem, de viverem à margem da sociedade e também da Igreja. Um Mosteiro está, em geral, junto dos desertos, das montanhas, dos bosques...
Diante de si está a cidade, um pouco distante mas não muito. Atrás de si o lugar desabitado, o silêncio e a solidão. O monge contempla a cidade e a Igreja: delas não se separa nunca, com elas mantém contacto, por elas intercede e reza em absoluta solidariedade. A elas, por vezes, se dirige com uma palavra, com um gesto, com silêncio. Outras vezes, para proteger o que lhe foi confiado, volta-se para o deserto dando a impressão de lhes ter voltado as costas. Não há qualquer tipo de desprezo nesta atitude mas apenas a sede de se voltar para o Senhor, no silêncio e na escuta.
Bose gosta de se definir como um comunidade no limiar do deserto (junto do deserto): uma comunidade em que ao silêncio, à escuta da Palavra e à sua partilha em comunidade se procura juntar o acolhimento ao ser humano, para caminhar na companhia dos Homens e dar voz às suas alegrias e esperanças, tristezas e angústias.
Assim, a vida de um Irmão e Irmã de Bose, é ritmada por um lado pelo louvor a Deus através da oração e por outro pelo serviço imprescindível aos Homens através do seu trabalho profissional e através do acolhimento aos hóspedes, aos viajantes e peregrinos, para além do serviço à Igreja e às Igrejas. Se, como diz a Regra de S. Bento, a primeira coisa que se deve perguntar, a quem queira entrar para um Mosteiro, é "se procura, de fato, Deus", em Bose é convicção geral que, apenas no rasto de Cristo, isto é, no servir e no dar a vida por cada Homem, é possível procurar/ encontrar Deus e não um ídolo.
Então, porquê no limiar do deserto? Para se especializar na escuta e no conhecimento do Senhor e ao mesmo tempo se especializar em Humanidade. O fim é o amor, a caridade.
Irmão, Irmã, tu não estás mais só! Tu deves contar, em tudo, com os teus irmãos.
Ama-os, porque Deus tos deu como guardas, da mesma forma que Cristo te amou até ao fim.
Ama esta comunidade e com ela e através dela todos os homens. Ama todas as criaturas, por elas louva Deus e através delas procura a purificação, ensino e consolação.
Tu foste chamado a ser um sinal de amor fraterno!
(Regra de Bose 2).
É a caridade o télos, o objetivo da vida cristã. Por isso a forma de vida escolhida em Bose, desde o princípio, foi a do cenóbio, para que tudo seja orientado para a vida e para a comunhão fraterna. Dando sempre primazia à palavra de Deus; procura-se pôr tudo em comum para que a vida da comunidade seja marcada por uma partilha de tal forma radical que possa ser sinal da comunhão trinitária que se dilata a toda a criação.
Ascese
"Não se nasce cristão, mas tornamo-nos cristãos'' (Tertulliano). Este "tornarmos-nos" é o espaço em que se insere a ascese cristã. Ascese é hoje uma palavra suspeita, se não de todo absurda e incompreensível, para muitos homens e, o que é mais significativo, mesmo para um grande número de cristãos. Na verdade, "ascese", que deriva do grego askeîn, "exercitar'', "praticar'', indica, antes de tudo, a aplicação com método, o exercício repetido, o esforço para adquirir uma habilitação, uma competência específica: o atleta, o artista, o soldado devem "treinar-se", fazer e refazer movimentos e gestos para poder atingir prestações elevadas.
A ascese é, antes de tudo, uma necessidade humana: o crescimento físico do homem, a sua humanização, exige uma correspondência interior. Exige dizer "não" para poder dizer "sim": "Quando eu era criança falava, pensava e raciocinava como uma criança mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio da criança" escreve São Paulo (1ª Carta aos Coríntios 13,11). A vida cristã que é renascer para uma vida nova, para uma vida "em Cristo", que é adaptação da própria vida à vida de Deus, requer assumir capacidades "não naturais" como a oração e o amor pelo inimigo: e isto não é possível sem um empenho constante, um exercício, um esforço incessante.
Infelizmente o mito da espontaneidade, que domina ainda a adolescência e que leva a contrapor exercício e autenticidade, revela-se um obstáculo determinante à maturidade humana das pessoas e à compreensão da essência da ascese para um crescimento espiritual. A ascese cristã é sempre um meio para alcançar a caridade, o amor pelo Senhor e pelo próximo. Não é possível sem quedas, falhanços, "pecados" que fazem com que a ascese cristã, corretamente empreendida seja sempre indissociável da graça: "Che uno possa vincere la sua natura non Š tra le cose possibili'' (Giovanni Climaco). A História cristã conheceu muitos desvios e excessos da ascese mas soube sempre condená-los pois reduziam a vida cristã a um conjunto de fatos heróicos. E soube fazê-lo sempre com sentido de humor:"Se praticais a ascese de um jejum não vos orgulheis. Se por isso ficais cheios de soberba, é melhor que comeis carne; pois é melhor comer carne que inchar-se e vangloriar-se'' (Isidoro Presbítero).
A ascese não visa apenas o aperfeiçoamento do próprio "eu'', mas a educação do "eu'' à liberdade e à relação com o outro: o seu fim é o amor, a caridade. A ascese leva a sério o facto de não se poder servir dois patrões e que a alternativa à obediência a Deus é servir os ídolos. Também a vida interior deve ser educada, também o amor deve ser afinado e purificado, também as relações são sempre mais inteligentes e respeitosas: diz a ascese! Em particular "o suor e o cansaço"(Cabasilas) do esforço ascético são a abertura ao dom de Deus, o dispor-se a receber o dom da graça. Podemos resumir a dimensão cristã da ascese nesta afirmação: a salvação vem de Deus, em Jesus Cristo. A ascese não é mais do que aceitar-se a si próprio pela graça do Outro que tem o nome de Deus, é dizer sim para receber a própria identidade nesta relação com o Outro. Em particular, a ascese corporal, que muitas vezes foi conotada negativamente, sobretudo assumindo um modelo antropológico do tipo dual, afirma, como essencial para o conhecimento teológico, o envolvimento de todo o corpo. Sem esta dimensão, o cristianismo reduz-se a um exercício intelectual, a gnosi, ou apenas a uma dimensão moral.
Estando ao serviço da revelação cristã que confirma que a liberdade autêntica do homem se manifesta no seu devir capaz de dom de si, por amor de Deus e do próximo, abrindo-se ao dom de Deus, a ascese tende tende a libertar o homem da filautía, isto é, do amor de si, do egocentrismo e a transformar um indivíduo em pessoa capaz de comunhão e gratuitidade, de dom e de amor. Mais uma vez a tradição cristã antiga mostra capacidade de autocrítica nas palavras de um Padre do deserto que constata que: "Muitos prostraram o seu corpo sem qualquer discernimento e foram-se sem encontrar nada. A nossa boca exala um mau hálito devido aos nossos jejuns, sabemos as Escrituras de memória, recitamos todos os Salmos, mas não temos aquilo que Deus procura: amor e humildade". Apenas uma ascese inteligente e conduzida com discernimento pode agradar a Deus. E resulta humanizante e não desumanizante. Resulta capaz de ajudar o homem no trabalho de fazer da sua própria vida uma obra de arte. Talvez não seja por acaso que askeîn seja utilizado na literatura grega antiga, também para indicar o trabalho artístico. É este, afinal, o objetivo da ascese: pôr a vida do crente sobre o signo da beleza que, no Cristianismo, é um outro nome para a Santidade.
Deserto
"A experiência do deserto foi, para mim, dominante. Entre céu e areia, entre Tudo e Nada, a questão torna-se fogo. Como a sarça ardente, arde e não se consome. Arde por si mesma, no vazio. A experiência do deserto é também de escuta, de escuta absoluta'' (Edmond Jabès). Talvez seja esta ligação com o escutar que faz com que na Bíblia o deserto, presença sempre plena de significado espiritual, seja tão importante. É antes de tudo um lugar e um lugar que, no hebraico bíblico, tem diversos nomes: caravah, lugar árido e estéril, que designa a zona entre o mar morto e o golfo de Aqaba; chorbah, designação, mais psicológica que geográfica, para indicar um lugar desolado, devastado, habitado por ruínas esquecidas; jeshimon, lugar selvagem e de solidão, sem pistas, sem água; mas sobretudo midbar, lugar desabitado, terra inóspita, habitada por animais selvagens, onde crescem apenas arbustos, silvas e cardos. O deserto bíblico não é um deserto de areia mas é o resultado da erosão do vento, da ação da água, devido às chuvas, raras mas fortes e é caracterizado por elevadas amplitudes térmicas entre o dia e a noite (cf. Salmo 121,6). Refratário à presença humana e hostil à vida (Números 20,5), o deserto, este lugar de morte, torna-se, na Bíblia, pedagogia para o crente; a iniciação através da qual a grande mole de escravos saídos do Egito se torna Povo de Deus; o lugar fundamental para (re)nascer.
Não provém o mundo, como cosmo ordenado, do caos informe do deserto inicial? A terra marcada pela ausência e pela negação ("Quando o Senhor Deus fez a terra e os céus, e ainda não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra'': Gênesis 2,4b-5) transforma-se no jardim oferecido ao Homem na obra da criação (Gênesis 2,8-15). E a nova criação, a era messiânica, não será o florir do deserto? "O deserto e a terra árida vão alegrar-se, a estepe exultará e dará flores belas como os narcisos." (Isaías 35,1-2). Mas entre a primeira criação e a nova criação está a obra de creatio continua, a intervenção salvífica de Deus na história. E é nesta história que o deserto aparece como o lugar das grandes revelações de Deus: no midbar (deserto), diz o Talmud, Deus faz-se ouvir como medabber (Aquele que fala). É no deserto que Moisés vê a sarça ardente e recebe a revelação do Nome (Êxodo 3,1-14); é no deserto que Deus dá a Lei ao seu povo, o encontra e faz com ele a Aliança (Êxodo 19-24); é no deserto que Deus cumula de dons o seu povo (o maná, as codornizes, a água da rocha); é no deserto que Deus se apresenta a Elias, no "murmúrio de uma brisa suave'' (1 Reis 19,12); é no deserto que Deus convence a esposa - Israel, depois da sua traição, (Oseías 2,16) a renovar a aliança nupcial...
Eis pois o esboço, entre negatividade e positividade - a bipolaridade semântica do deserto na Bíblia, que remete para três grandes âmbitos simbólicos: o espaço, o tempo e o caminho. Espaço hostil de atravessar para chegar à terra prometida; tempo longo mas com prazo, com um fim, tempo intermédio de espera, de esperança; caminho cansativo, duro, entre a saída de um ventre de escravidão e a entrada numa terra acolhedora "onde brota leite e mel": eis o deserto do êxodo! A espacialidade árida, monótona, feita silêncio do deserto, ecoa na paisagem interior do crente como prova, como tentação. Valia a pena o êxodo? Não era melhor permanecer no Egito? Que salvação é aquela em que se passa fome e sede, em que cada dia traz o mesmo horizonte? Não é fácil aceitar que o deserto faz parte integrante da salvação! No deserto Israel tenta Deus, o deserto revela-se um filtro terrível, a revelação do que habita o coração humano. "Recorda-te de todo esse caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer durante quarenta anos pelo deserto, a fim de te humilhar, para te experimentar, para conhecer o teu coração e ver se guardarias ou não os Seus mandamentos" (Deuteronômio 8,2). O deserto educa a conhecer-mo-nos e, talvez, a viagem empreendida pelo Pai dos crentes - Abraão - como resposta ao convite do Senhor "Deixa a tua terra, a tua família, a casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar." (Gênesis 12,1), contenha todo o sentido espiritual da viagem no deserto.
O deserto é o lugar das rebeliões contra Deus, das murmurações, das contestações (Êxodo 14,11-12; 15,24; 16,2-3.20.27; 17,2-3.7; Números 12,1-2; 14,2-4; 16,3-4; 20,2-5; 21,4-5). Também Jesus viverá o deserto como o noviciado do seu ministério: o face-a-face com o poder da ilusão satânica e com o fascínio da tentação revelará, em Jesus, um coração fortemente radicado na Palavra de Deus (Mateus 4,1-11). Fortificado pela luta no deserto, Jesus pode começar o seu ministério público! O deserto aparece também como tempo intermédio: não se vive no deserto mas atravessa-se o deserto! Quarenta anos, quarenta dias: é o tempo do deserto para todo o Israel, mas também para Moisés, para Elias, para Jesus. Tempo que pode ser vivido apenas aprendendo a paciência, a espera, a perseverança, aceitando o preço da esperança. Talvez, a imensidão do tempo de deserto seja já experiência e degustação da Eternidade! Mas o deserto é também caminho: no deserto deve-se avançar, não é permitido "desertar". Mas a tentação é a de regressão: o medo que empurra para voltar atrás, a preferir as seguranças da escravidão Egipciana ao risco da aventura da liberdade. Uma liberdade que não está no fim do caminho mas que se vive durante o caminho. Mas, para cumprir este caminho, devemos estar leves, ter pouca bagagem: o deserto ensina a essencialidade que se aprende apenas com subtração e despojamento.
O deserto é magistério de fé: isso aguça o olhar interior e faz do homem um vigilante, um homem de olhar penetrante. O homem do deserto pode, assim, reconhecer a presença de Deus e denunciar a idolatria. João Baptista, homem do deserto por excelência, mostra que nele tudo é essencial: ele é voz que grita no deserto pedindo a conversão, é mão que indica o Messias, é olho que perscruta e discerne o pecado, é corpo esculpido pelo deserto, é existência que se faz caminho para o Senhor ("Preparai no deserto, o caminho do Senhor!'': Isaías 40,3). O seu alimento é escasso, a sua veste declara-o profeta, ele rebaixa-se perante Aquele que vem depois dele: aprendeu a fundo a "economia de redução", do deserto. Mas viveu o deserto também como lugar de encontro, de amizade, de amor: ele é o amigo do esposo que está a seu lado e alegra-se quando lhe sente a voz. Sim, é de fronte a esta ambivalência da vida humana que nos põe o deserto bíblico que assim se torna sua imagem bem como imagem da experiência quotidiana do crente, da contraditória experiência de Deus. Talvez tenha razão Henri le Saux quando escreve que "Deus não está no deserto. É o deserto que é o próprio mistério de Deus."
A oração, uma relação
Na tradição religiosa, a oração, nas suas formas e nos seus modos, aparece diretamente ligada ao rosto de Deus que ela pretende atingir. E o Deus da revelação bíblica é o Deus vivo que não se atinge com o nosso raciocínio, mas através da liberdade amorosa dos seus atos, das suas intervenções que mostram que é Ele mesmo a interessar-se por nós. É, pois, verdade que, longe de ser o fruto da natural auto-transcendência do homem ou o sucesso do seu inato sentido religioso, a oração cristã, que contesta qualquer auto-suficiência antropocêntrica, aparece como resposta do homem à decisão gratuita e prioritária de Deus de entrar em relação com o homem. É Deus que, segundo todas a páginas da Bíblia, procura, interroga, chama o homem, que, por sua vez, é conduzido da escuta à fé e na fé reage dando graças (bênçãos, louvor, etc...) e interrogando (invocações, súplicas, intercessões,...), isto é, através da oração sintetizada nos seus dois momentos fundamentais.
A oração é portanto oratio fidei (Tiago 5,15), eloqüência de fé, expressão da adesão pessoal ao Senhor. A revelação bíblica confirma, também, a dimensão da oração como procura de Deus feita pelo Homem: procura como espaço que o homem predispõe ao revelar-se, que se mantém livre e soberano, de Deus para si; procura como abertura do homem ao evento do encontro que tem em vista a comunhão; procura como afirmação da alteridade de Deus em relação ao homem, como sinal do fato de que o homem não pode possuir Deus, mesmo quando o reconheça; procura como elemento constitutivo da dialética do amor, da relação de diálogo central, na oração.
Se a oração cristã é resposta a Deus que nos falou primeiro, ela é também invocação e procura do Deus que se esconde, que se cala, que oculta a sua presença. A diabética amorosa presente no Cântico do Cânticos, o jogo do esconde e aparece, do desejo e da procura entre amante e amada pode aplicar-se também à oração. Os Salmos mostram-no: "Ó Deus, Tu és o meu Deus! Anseio por ti! A minha alma tem sede de ti; todo o meu ser anela por ti, como terra árida, exausta e sem água (...) lembro-me de ti no meu leito, penso em ti se fico acordado (...) a tua mão direita me sustenta" (Salmo 63). E o diálogo amoroso presente no Cântico é no fundo a realidade a que a Escritura quer conduzir o Homem na sua relação com Deus. É talvez esta dimensão relacional o que melhor pode exprimir o proprium da oração cristã, oração que entra e vive dentro da aliança estabelecida por Deus com os homens. Feita esta premissa, podemos dizer que se a vida é adaptação ao ambiente, a oração que é a vida espiritual em ação, é adaptação ao nosso ambiente, vital e último, que é a realidade de Deus em que tudo e todos estão incluídos. Essencial, como disposição fundamental da oração cristã, é a aceitação e a confissão das nossas fraquezas. Exemplar é o comportamento do publicano da parábola evangélica (Lucas 18, 9-14) que reza, apresentando-se a Deus como na verdade é, sem mentiras, sem máscaras, sem hipocrisias, sem idealizações e aceitando como verdade aquilo que Deus pensa dele, o olhar que Deus lhe dirige. Apenas quem é capaz de um comportamento realista, pobre e humilde, pode estar diante de Deus aceitando ser conhecido por Deus por aquilo que verdadeiramente é.
De resto aquilo que é mesmo importante é o conhecimento que Deus tem de nós, enquanto nós nos conhecemos de forma imperfeita (cf. 1 Coríntios 13,12 e Gálatas 4,9). Ponto de partida para a oração é a confissão da nossa incapacidade de rezar em condições: "É assim que também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir, para rezarmos como deve ser; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis." (Romanos 8,26). Desta confissão se abre a vida de Deus em nós. A oração leva o sujeito a descentrar-se do seu "eu" para viver sempre mais da vida de Cristo nele, para viver guiado pelo Espírito, para viver como filho com o Pai. Este descentramento não tem nada a ver com o "fazer um vazio em si mesmo" que copia comportamentos espirituais de outras tradições culturais e religiosas. É um descentramento destinado ao agapê, ao amor. De fato, o objetivo da oração cristã, que a distingue de outras formas de meditação, técnicas de ascese ou de concentração difusas no Oriente, é a caridade, é o sair de si para encontrar a pessoa viva de Jesus Cristo, é o amar os homens "como Ele nos amou". Esta relação, que é reflexo da vida do Deus trinitário e que abraça tanto Deus como os outros homens, é a marca fundamental da oração cristã.
Obediência
"Importa mais obedecer a Deus do que aos Homens'' (Act 5,29). Este grande princípio bíblico sobre a obediência tem um caráter profundamente libertador. Na perspectiva Bíblica, a obediência é inseparável da liberdade: apenas na liberdade se pode obedecer e apenas obedecendo ao Evangelho se entra em pleno na Liberdade. De forma lapidária se exprimiu Bonhoeffer: "A Obediência sem liberdade é escravidão, a liberdade sem obediência é arbítrio''. Mas antes de vermos o proprium cristão da obediência importa recordar o seu aspecto antropológico.Há uma obediência fundamental, que cada homem é chamado a fazer à sua história, às suas origens, ao seu corpo, à sua família, enfim a uma série de situações e pessoas, tempos e lugares, eventos e condições que o precederam, fundaram e sobre as quais ele não teve qualquer possibilidade de escolha ou de decisão. Trata-se de bagagem pré-acondicionada para qualquer um que venha ao mundo e que o acompanhará no seu caminho de existência. Um crente lê esta obediência como "criatura" que é e reconhece a aceitação dos limites que é constitutiva da criatura de fronte ao criador e que consente ao homem tornar-se Homem fugindo da tentação da totalidade, isto é de erguer-se perante Deus. O sentido da história do livro de Gênesis, da proibição de comer o fruto da árvore que permitiria conhecer o bem e o mal, é exatamente este: o homem é Homem na medida em que não ambiciona o todo. O limite, o finito é o âmbito da sua relação com Deus. De acordo com a Bíblia a obediência deve ser entendida dentro desta relação, isto é, dentro da categoria da aliança. É esta relação com Deus que torna livre e por fim feliz a obediência à Lei revelada a Moisés no Sinai.
Se a Lei é a manifestação da vontade de Deus, do sócio do contrato, a aliança, a obediência a todos os seus mandamentos é o próprio desejo do crente que ama o seu Deus e encontra a sua felicidade ao fazer a Sua vontade. A fórmula usada em Ex 24,7 para indicar a aceitação da vontade de Deus, expressa na Lei, por parte do Povo de Israel, é significativa: "Tudo o que o Senhor disse, nós o faremos e obedeceremos." O pôr em prática a Palavra, precede a escuta dessa Palavra, quase a sugerir que é mais importante o anuimento dado a Deus que a especificação individual do conteúdo dos mandamentos. Para além de tudo, o texto significa que apenas pondo em prática a Palavra, isto é, obedecendo-lhe verdadeiramente, a compreendemos de fato. Esta radicalização da obediência no seio da aliança, da relação de escuta do crente no seu encontro com Deus, dá o tom também à obediência cristã. Para o Novo Testamento a Escuta, entendida como percepção da vontade de Deus, realiza-se verdadeiramente quando o Homem, com a sua fé a sua ação, obedece a essa vontade. Como coroamento da escuta (akouo/audire) nasce o obedecer (ypakouo/obaudire), aquele obedecer que consiste em crer. Paulo fala muitas vezes de "obediência da fé", entendendo que a fé é obediência e que a obediência manifesta fé. Mas o proprium da obediência cristã encontra-se na obediência ao próprio Cristo. Ora, os três textos, mais significativos, que nos falam da obediência de Cristo (Rom 5,19: "...pela obediência de um só, todos se hão-de tornar justos"; Fl 2,8: "...rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte''; Heb 5,8: "...aprendeu a obediência por aquilo que sofreu..." compõem uma síntese da vida, do ministério e da obra salvífica de Jesus colocando-o sob a matriz da obediência.
No centro da obediência está, portanto, uma relação filial vivida por Jesus com o Pai e no seu coração o Amor, pelo pai e pelos Irmãos -os Homens. O quarto Evangelho sublinha esta dimensão obediente de Jesus, apresentando-O como absolutamente desprendido de si que, naquilo que diz, faz e é, remete sempre para o Pai que o enviou. Esta obediência amorosa dá sentido ao viver e ao morrer, mesmo de cruz e é um ato de liberdade! Quem percebe a obediência cristã, encontra aqui a sua "medida" e a sua forma: uma forma plasmada pelo Espírito Santo, que obriga o crente a vivê-la criativa e responsavelmente, não de uma forma legalista. Sim, o critério da obediência cristã é o Espírito Santo que interioriza em cada um as exigências do Evangelho e as faz viver como vontade de Deus até serem assumidas como próprias. À luz desta obediência fundamental, podem compreender-se, aceitar e viver as outras obediências pela mediação da vontade de Deus. Sempre tendo presente que sobre tudo deve reinar o Evangelho e tudo deve ser submetido ao critério decisivo do Evangelho. Quando as mediações da vontade de Deus (autoridade eclesiástica, doutrinas teológicas, regras monásticas, ritos cultuais,...) se substituem a Deus e pretendem obediência a si mesmas, então devem ser criticadas e redirecionadas à obediência evangélica. De fato "é preciso obedecer a Deus mais que aos Homens".
Paciência
A escritura confirma que a "Paciência" é antes de mais uma prerrogativa divina: segundo Ex 34,6 Deus é makróthymos, «sofredor», «magnânimo», «paciente» (em hebraico a expressão equivalente diz literalmente: «lento à ira»). O Deus ligado em Aliança ao povo "teimoso" não pode ser senão construtivamente paciente. Esta paciência manifestou-se plenamente com o envio do filho Jesus Cristo e na sua morte pelos pecadores e é ainda este fato que rege o tempo presente: «Não é que o Senhor tarde em cumprir a sua promessa, como alguns pensam, mas simplesmente usa de paciência para convosco, pois não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam." (2 Pe 3,9). A paciência do Deus Bíblico exprime-se no fato de que Ele é o Deus que fala: falando, dá tempo ao homem para uma resposta e assim, espera que estes se convertam. A paciência de Deus não deve ser confundida com impassividade, pelo contrário, ela é «o longo respirar da sua paixão» (E. Jüngel), é a previdência do seu amor, um amor que «não quer a morte do pecador, mas que este se converta e que viva» (Ez 33,11), e é uma força operante mesmo quando o movimento de conversão não está ainda concluído.
A paciência de Deus encontra a sua expressão máxima na paixão e na cruz de Cristo: ali a assimetria entre o Deus paciente e a Humanidade pecadora amplia-se desmesuradamente na paixão de amor e de sofrimento de Deus no filho Jesus Cristo crucifixo. Desde então a paciência como virtude cristã é um dom do Espírito (Gal 5,22) outorgado pelo crucifixo-ressuscitado e configura-se como participação da força que provém do evento Pascal. Para o cristão a paciência estende-se à fé e é perseverante - fé que dura no tempo, que é makrothymía, «capacidade de olhar e sentir em grande», isto é, arte de acolher e viver a incompletude. Este segundo aspecto diz como a paciência deve ser necessariamente humilde: deve levar o Homem a reconhecer a sua incompletude pessoal e a tornar-se paciente para consigo próprio; ela reconhece a incompletude e a fragilidade das relações com os outros, estruturando-se como paciência no confronto com os outros; confessa a incompletude do desenho divino de salvação, configurando-se como esperança, invocação e esperança de salvação. A paciência é a virtude de uma Igreja que espera o Senhor, que vive responsavelmente o ainda - não sem antecipar o fim e sem se elevar a si própria perante o desígnio de Deus.
Ela rejeita a impaciência da mística como ideologia e percorre a via exigente da escuta, da obediência e da espera no encontro com os outros e com Deus para construir a comunhão possível, histórica e limitada, com os outros e com Deus. A paciência é atenção ao tempo do outro com a consciência plena de que o tempo se vive no plural, com os outros, constituindo um evento de relação, de encontro, de amor. Por isso, talvez, hoje, numa época assombrada pelo fascínio do tempo sem restrições - em que a liberdade é pensada como a ausência de relações, de restrições, como possibilidade de recomeçar tudo de novo, de um momento para o outro, apagando tudo o que estava para trás, incluindo relações e compromissos - pode parecer extemporâneo mas ao mesmo tempo urgente e necessário, falar sobre a paciência. Para o cristão ela é central tanto quanto o agapê, tanto quanto o próprio Cristo. Ter paciência, assumir como determinante da própria existência o tempo do outro (de Deus e do outro homem), é obra de amor. "O amor é paciente" (makrothymeí), diz Paulo (1 Cor 13,4). E a medida e o critério da paciência do crente não podem ser senão os da "paciência de Cristo" (2 Tes 3,5: hypomonè toû Christoû). Eis porque, muitas vezes, a paciência foi definida pelos Padres (da Igreja) como a summa virtus (cf. Tertulliano, De patientia I,7): ela é essencial à fé, à esperança e à caridade.
Cipriano de Cartágo escreveu: «o fato de ser cristão é obra da fé e da esperança, mas para que a fé e a esperança possam produzir frutos, é preciso paciência» (Cipriano, De bono patientiae 13). Implicada na fé em Cristo, a paciência torna-se «força nos confrontos consigo mesmo» (Tomás d’Aquino), capacidade para não desesperar, para não se deixar abater nas tribulações e nas dificuldades; torna-se perseverança, capacidade de permanecer, durar no tempo sem se desvirtuar; a verdade torna-se também capacidade de (su)portar os outros bem como as suas histórias pessoais. Nada de heroico nesta operação espiritual, mas apenas a fé de ser sustido pelos braços de Cristo, estendidos na cruz. Nesta difícil tarefa, o crente é consolado por uma promessa: "Mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo" (Mateus 10,22; 24,13). Promessa que não deve ser entendida apenas como confirmação de uma profissão de fé, mas como prática da paciência a difundir nas relações intra-eclesiais, intra-comunitárias («suportando-vos»: Col 3,13), como nas relações da comunidade cristã ad extra, com todos os outros homens («sede pacientes com todos»: 1 Tes 5,14). A paciência torna-se, assim, uma categoria que interpela a estrutura interna da comunidade cristã e a sua organização no mundo, no meio dos outros Homens, dos não-crentes. E enquanto interpela, inquieta!
Primeiro a escuta
"Fala, Senhor; o teu servo escuta! (1 Sam 3,10): estas palavras exprimem bem o fato da escuta, segundo a revelação hebraico-cristã, ser a atitude essencial da oração e contestam um nosso comportamento freqüente de silenciar Deus para nos fazermos ouvir. A oração cristã é antes de mais escuta: não é tanto expressão do desejo humano de auto-transcendência, mas acolhimento de uma presença, relação com um Outro que nos precede e nos fundamenta. Para a Bíblia, Deus não é definido em termos abstratos de essência, mas em termos relacionais e dialógicos: Ele é antes de tudo Aquele que fala e este falar de Deus faz do crente um chamado a ouvir. É emblemático o encontro de Deus com Moisés na sarça ardente (cf. Ex 3,1-14): Moisés aproxima-se para ver o espetáculo estranho da sarça que arde sem se consumir e Deus vendo que ele se aproxima, chama-o e interrompe a sua aproximação. O método da visão é o da iniciativa humana que leva o homem a reduzir a distância entre ele e Deus, é o regime do protagonismo humano, da escalada do homem para Deus, enquanto o Deus que se revela quer que Moisés entre numa atitude de escuta e conserva a distância que não pode transgredida ser para que haja relação:"Não te aproximes daqui" (Ex 3,5). E o que era um estranho espetáculo torna-se para Moisés presença familiar: "Eu sou o Deus de teu pai'' (Ex 3,6). A Prometeo que sobe o Olimpo para roubar o fogo contrapõe-se Moisés que para de fronte do fogo divino e escuta a Palavra.
A partir daquela primeira e criadora escuta, a vida e a oração de Moisés serão dois aspectos inseparáveis da responsabilidade de realizar a palavra escutada. Na escuta Deus revela-se-nos como presença que antecipa o nosso esforço de compreensão e de assimilação. Assim, o verdadeiro orante é aquele que escuta. Por isso "...o Senhor se compraz tanto nos holocaustos e sacrifícios como na obediência à sua Palavra? (1 Sam 15,22), é melhor do que qualquer outra relação entre Deus e o Homem que se baseie no frágil fundamento da iniciativa humana. Se a oração é um diálogo que exprime a relação entre Deus e o homem, a escuta é o que coloca o homem na relação, na aliança, na recíproca pertença: "Ouvi a minha voz e Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo;"(Jr 7,23). Entendemos agora porque é que toda a Escritura é atravessada pela recomendação de escuta: é graças à escuta que nós entramos na vida de Deus, antes, consentimos a Deus que entre na nossa vida. O grande mandamento do Shema' Israel (Dt 6,4-13), confirmado por Jesus como central nas Escrituras (Mc 12,28-30), revela que da escuta ("Escuta, Israel'') nasce o conhecimento de Deus ("O Senhor é um'') e do conhecimento o amor ("Amarás o Senhor''). A escuta é, por isso, a matriz geradora, é a raíz da oração e da vida em relação com o Senhor, é a aurora da fé (fides ex auditu: Rom 10,17), e consequentemente também, do amor e da esperança.
A escuta é geradora: nós nascemos da escuta. É a escuta que nos introduz na relação de filiação com o Pai e não é por acaso que o Novo Testamento indica que é Jesus, o Filho, a Palavra feita carne, que deve ser escutado: "Escutai-o!" diz a voz que vem da nuvem, no monte da Transfiguração, apontando para Jesus (Mc 9,7). Escutando o Filho nós entramos na relação com Deus e podemos, na fé, dirigirmos-nos a Ele dizendo "Abbà'' (Rom 8,15; Gl 4,6), "Pai nosso'' (Mt 6,9). Escutando o Filho somos gerados como filhos. Com a escuta, a Palavra e o Espírito recreador de Deus penetram no crente tornando-se princípio de Transfiguração, de confirmação em Cristo. Eis porque é essencial ao crente ter "um coração que escuta" (1 Re 3,9). E’ o coração que escuta através do ouvido! Isto é, o ouvido não é simplesmente, segundo a Bíblia, o órgão de audição, mas a sede do conhecimento, do intelecto em relação estreita com o coração, o centro unificante que abraça a esfera afetiva, racional e da vontade da pessoa. Escutar significa pois, ter "sabedoria e inteligência"(1 Re 3,12), discernimento ("Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas." Ap 3,7).
Se a escuta é, portanto, central na vida da fé, então necessita de vigilância: é preciso estar atento ao que se escuta (Mc 4,24), a quem se escuta (Jr 23,16; Mt 24,4-6.23; 2 Tm 4,3-4), e como se escuta (Lc 8,18). É preciso dar a primazia à Palavra sobre as palavras, à Palavra de Deus sobre as múltiplas palavras humanas e é preciso escutar com um "coração bom e largo'' (Lc 8,15). Como escutar a Palavra? A explicação da Parábola do semeador (Mc 4,13-20; Lc 8,11-15) dá-nos a resposta. Devemos saber interiorizar ou então a Palavra é ineficaz e não produz frutos de fé (Mc 4,15; Lc 8,12); é preciso dar tempo à escuta, perseverar, senão a Palavra não produz frutos de consistentes, firmes e com a profundidade de uma fé pessoal (Mc 4,16-17; Lc 8,13); é preciso lutar contra as tentações, contra as outras "palavras" e "mensagens" sedutoras da mundanidade, senão a Palavra sufocará, não fecundará e nã dará frutos de maturidade ao crente (Mc 4,18-19; Lc 8,14). Se não existir esta escuta não existe também, oração!
Solidão
A solidão é um elemento antropológico constitutivo: o homem nasce e morre sozinho. Ele é certamente um "ser social", feito "para a relação" mas a experiência tem vindo a mostrar que apenas quem sabe viver só sabe também viver plenamente as relações. Mais: a relação para ser fundida ou ser absorvida exige a solidão. Apenas quem não teme descer ao seu interior sabe também confrontar-se com a alteridade, com o outro. É significativo que muitas das doenças "modernas", que dizem respeito à subjetividade, afetem a qualidade de vida relacional: por ex. a incapacidade de interiorizar, de habitar a vida interior, torna-se incapacidade de criar e viver relações sólidas, profundas e duradouras com os outros. Certo que nem todas as solidões são positivas: existem formas de fuga dos outros que são patológicas; existe sobretudo aquela "má solidão" que é isolamento, que implica fechar-se aos outros, rejeitar o desejo dos outros, o medo da alteridade. Mas entre isolamento, fecho, mutismo de um lado e necessidade da presença física dos outros, falar continuamente, ativismo excessivo, de outro, a solidão é o equilíbrio e a harmonia, a força e a firmeza. Quem assume a solidão é aquele que mostra a coragem de se ver ao espelho, de reconhecer e aceitar como trabalho "tornar-se ele mesmo"; é o homem humilde que vê na própria unicidade o trabalho que, apenas ele, pode realizar.
E não se subtrai a tal tarefa refugiando-se no "branco'', no anonimato da multidão, nem na deriva solipsista do fecho em si. Sim, a solidão guia o homem ao conhecimento de si e exige-lhe muita coragem. A solidão é essencial à relação, permite a verdade da relação e entende-se no interior da relação. Capacidade de solidão e capacidade de amor são proporcionais. Talvez a solidão seja um dos grandes sinais da autenticidade do amor. Simon Weil escreveu: "Preserva a tua solidão. Se não chegar o dia em que te seja dado um verdadeiro afeto, não existirá contraste entre solidão interior e a amizade; antes, deste sinal infalível, a reconhecerás". A solidão é um nicho do amor: as grandes realizações humanas e espirituais têm de atravessar a solidão. A solidão torna-se a bem-aventurança de quem a sabe habitar. Fazendo eco da medieval "beata solitudo, sola beatitudo'', escreve Marie-Magdeleine Davy: "A solidão custa apenas para aqueles que não têm sede da sua própria intimidade e que, consequentemente, a ignoram; mas ela constitui a felicidade suprema para aqueles que lhe provaram o gosto''. Na verdade, a solidão, temível, porque nos recorda a solidão radical da morte, é sempre solitudo pluralis, é espaço de unificação do próprio coração e de comunhão com os outros; é assunção do outro na sua ausência, é purificação das relações que, em continuo comércio, arriscam de se tornar insignificantes.
E para o cristão é lugar de comunhão com o Senhor que lhe pediu de o seguir onde quer que se encontre. Quanto da vida de Jesus não se passa em solidão! Jesus que se retira para o deserto onde conhece o combate com o tentador; Jesús que se recolhe em lugares isolados para rezar; que procura a solidão para viver a intimidade com o Abbà e para discernir a Sua vontade. Certo, como Jesus, o cristão deve preencher a sua solidão com a oração, com a luta espiritual, com o discernimento da vontade de Deus, com a busca do seu rosto. Comentando João 5,13 que diz: "Mas o que tinha sido curado não sabia quem era, porque Jesus se tinha afastado da multidão ali reunida." Agostinho escreve: "E' difícil ver Cristo no meio da multidão; é preciso estarmos sós. Na solidão, de fato, a alma está atenta, Deus deixa ver-se. A multidão é barulhenta; para ver Cristo é necessário o silêncio". O Cristo em que dizemos acreditar e que dizemos amar faz-se presente no Espírito Santo para habitar em nós e para fazer de nós a sua morada. A solidão é o espaço que se presta ao discernimento desta presença em nós e à celebração da liturgia do coração. Cristo que viveu a solidão da traição dos discípulos, do afastamento dos amigos, da rejeição da sua gente e finalmente o abandono de Deus, indica-nos o caminho da assunção, também das solidões sofridas, das solidões impostas, das solidões "negativas". Aquele que sobre a cruz viveu a plena intimidade com Deus conhecendo o abandono de Deus, recorda ao cristão que a cruz é o mistério da solidão e da comunhão. Ela é, de fato, o mistério do amor!

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