Total de visualizações de página

quarta-feira, 27 de abril de 2011

TEOLOGIA E MAGISTÉRIO



O SINAL DO CELIBATO
E A PATERNIDADE DO SACERDOTE  


O sinal do celibato como acolhimento da vontade de Deus
A vida sacerdotal no celibato supõe uma renúncia do grande bem do matrimónio. Contudo, não se pode ficar somente no nível da renúncia. Ela é abraçada sobretudo por causa do Reino dos céus. É uma renúncia feita por amor. O carisma especial concedido ao sacerdote pelo Espírito Santo no seu chamamento vocacional informa-o de um particular tipo de amor: um amor paterno espiritual.
O celibato existe por causa do Reino dos céus. Tem uma orientação escatológica. Eleva a vista da humanidade para olhar para além do imediato, para o eterno. No Evangelho de S. Marcos, Jesus responde à questão sobre a ressurreição dos mortos com uma subtil distinção: «Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres nem as mulheres, maridos» (Mc 12, 25). Neste estado, a pessoa humana experimenta a alegria da plenitude da doação pessoal e da plenitude da comunhão intersubjectiva das pessoas. Isto já está inscrito na nossa carne e há uma particular sensibilidade para isto no espírito humano. A vida sacerdotal no celibato ajuda a sensibilizar e iluminar este aspecto à humanidade, à falta do qual a beleza da pessoa humana perder-se-ia de vista, e homens e mulheres estariam reduzidos a viverem apenas para este mundo.
Esta é uma verdade que não é facilmente aceite. Ela apresentava dificuldades para os judeus do tempo de Jesus e os próprios discípulos achavam que era duro de entender. O celibato seria somente para aqueles que eram fisicamente deficientes ou assim tinham sido feitos pelos homens. O ensinamento de Jesus sobre o corpo é uma nova revelação.
Cristo falou especificamente da continência por causa do Reino dos céus. Ela é escolhida na vida presente – em que a norma é que os homens e as mulheres casem – «para uma singular finalidade sobrenatural», em palavras de João Paulo II.

Mesmo que um sacerdote viva a sua vida em continência perfeita externa, de acordo com o ensinamento da Igreja sobre a sexualidade, se esta continência não é escolhida com esta singular finalidade sobrenatural, ela não entra dentro do âmbito daquilo que Cristo estava a revelar. Ela deve ser escolhida e vivida como uma renúncia com uma particular determinação e esforço espirituais em vista do reino.
O celibato por causa do reino dos céus é um sinal escatológico. Ele convida cada geração da Igreja e do mundo a erguer as suas cabeças, do olhar para o túmulo do homem não redimido, para o significado da vida. Ele põe diante da humanidade – em palavras de João Paulo II – «a virgindade escatológica do homem ressuscitado» .

A importância do celibato por causa do reino dos céus está presente e activa no próprio momento do início da história do Cristanismo: o evento da Anunciação. Duas pessoas jovens, em obediência à bondade da ordem natural criada por Deus, têm a intenção de se casarem. Esta intenção tornou-se já comunitária desde que foi anunciado um compromisso formal. Nesta situação irrompe um evento de Deus. À jovem virgem comprometida, o Arcanjo Gabriel anuncia a boa nova. Ante este desígnio de Deus, que é diferente do que Maria tinha pensado para a sua vida, ela acolhe-o com humildade, simplicidade e alegria. Renuncia ao seu próprio plano, que era bom, o caminho normal do casamento, das relações conjugais com o seu marido, do acolhimento dos filhos como fruto desta união mútua. Ela acolhe o desígnio de Deus sobre ela, que inclui o mistério de uma maternidade virginal.
Acontece o mesmo, mas com alguma diferença, com São José. É do esposo de Maria que podemos aprender a espiritualidade do celibato sacerdotal. O mistério virginal de José corresponde ao de Maria. Ele tem de renunciar ao seu próprio plano e aceitar o plano de Deus para a sua vida. Foi uma crise existencial para José, que é retratada sucintamente no capítulo I do Evangelho de S. Mateus.
A iconografia primitiva compreendeu bem este drama da renúncia e da aceitação de José. Na representação da cena da Natividade, José é muitas vezes colocado a um lado, sentado. Ao centro está o recém-nascido Menino Jesus, com Maria e os pastores. José está em profunda reflexão, muitas vezes com o queixo apoiado numa mão, e com o braço apoiado no joelho. Ele está em crise. Diante dele está um velho barbudo dialogando com ele. É Satanás, que tenta José, dizendo-lhe: «Este não é teu filho». São José ensina-nos que não é suficiente renunciar ao nosso plano por Deus. Nem sequer é suficiente, depois de renunciar ao próprio plano, aceitar o plano de Deus, diferente do nosso. Isto podia ser feito sem liberdade, mais com uma atitude de obrigação servil. Não, a vontade de Deus deve ser acolhida, acolhida com a liberdade de um filho de Deus. Para a resposta ser plenamente humana, o plano de Deus deve ser acolhido com alegria. Há uma dimensão eucarística inscrita na própria natureza do homem. É com alegria que São José vive a sua paternidade espiritual como custódio do Menino Jesus.
Acolhendo esta continência por causa do reino dos céus, José e Maria, como toda a Sagrada Família de Nazaré, experimentam a fecundidade espiritual do celibato. Na história da salvação, esta continência foi a mais perfeita fecundidade do Espírito Santo. O matrimónio de José e Maria, vivido em continência por causa do Reino dos céus, revela o mistério da comunhão das pessoas no matrimónio e o mistério da continência do sacerdote por causa do Reino dos céus.

Ambos, o matrimónio e o celibato sacerdotal, são tesouros da Igreja. O texto do capítulo V de São Paulo na sua carta aos Efésios sobre o casamento põe os fundamentos quer para uma teologia do matrimónio quer para uma teologia do celibato sacerdotal. O próprio Paulo sublinha que está a falar de Cristo e da sua Igreja. 
A paternidade do sacerdote
Quando Cristo começa a falar aos discípulos sobre o celibato por causa do Reino dos céus, eles acham isso difícil de entender, pois era contrário à tradição do Antigo Testamento que eles viviam. O corpo estava orientado para uma fecundidade natural no matrimónio, na procriação dos filhos. Eles foram entendendo gradualmente com o exemplo pessoal de Jesus. O próprio Cristo tinha permanecido célibe por causa do Reino dos céus. Lentamente, foram compreendendo que o celibato por causa do Reino dos céus tem uma fecundidade espiritual e sobrenatural que procede do Espírito Santo.
Particularmente no Ocidente, o valor do sinal do celibato como forma particular de paternidade espiritual tornou-se mais preeminente na teologia do sacerdócio. Tem-se actualmente desenvolvido uma antropologia do sacerdócio para perceber este tipo de continência como contendo em si o dinamismo interior do mistério da redenção do corpo. Esta antropologia está já presente no Evangelho de S. Lucas, quando Jesus ensina: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento, mas os que forem julgados dignos do século futuro e da ressurreição dos mortos não se casarão nem serão dadas em casamento. Na verdade, eles jamais poderão morrer, porque são iguais aos anjos e, sendo filhos da ressurreição, são filhos de Deus» (Lc 20, 34-36).
Jesus, vivendo o seu celibato, estava já fazendo do seu corpo um sacramento como uma especial participação no mistério da redenção do corpo. São Paulo, na sua epístola aos Colossenses, falou da sua própria experiência de usar o seu corpo para edificação da comunidade:
«Há bem pouco tempo, vós éreis estrangeiros e inimigos de Deus pelos vossos pensamentos e obras más, mas agora Elereconciliou-vos pela morte do seu corpo humano, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. Para isso, é necessário que permaneçais fundados e firmes na fé, inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda a criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro. Agora alegro-me nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, eu o completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja» (Col 1, 21-24).

Com esta mesma atitude e espírito, o sacerdote célibe pode tornar-se uma «verdadeira doação aos outros» (GS, 22). É um tipo de auto-sacrifício que orienta o sacerdote para a edificação da comunhão das pessoas. Isso supõe uma longa sucessão de auto-sacrifícios, porque a antropologia da pessoa humana consiste, ao mesmo tempo, na herança do pecado e na herança da redenção. Ele orienta-se, por este exercício da liberdade, para uma resposta eucarística a um carisma particular, para a futura ressurreição do corpo.
O sacerdote célibe, fiel à pregação da palavra de Deus, procura construir o Reino de Deus tornando os homens e as mulheres filhos e filhas de Deus mediante o baptismo. Tendo-os conduzido ao seio da Igreja, o sacerdote, como um pai espiritual, procura guiar, como pastor, o rebanho a ele confiado para os bons pastos da Eucaristia. É também da Eucaristia que o matrimónio recebe alimento espiritual. Os pais recebem fortaleza espiritual e sabedoria para a sua missão na Igreja doméstica. É para o sacerdote que a família é atraída em tempos de crise e divisão, para ser reconciliada pela misericórdia de Cristo, administrada no sacramento da reconciliação.

Matrimónio e continência complementam-se mutuamente. Encorajam-se mutuamente na edificação da comunidade das pessoas e de uma civilização do amor. O celibato por causa do Reino dos céus assenta sobre o fundamento do significado esponsal do corpo. O corpo tem um significado esponsal por sua própria natureza. Ele alcança a sua verdadeira realização somente no dom de si. Está orientado para a comunhão das pessoas. Está orientado para Jesus Cristo ressuscitado corporalmente. O amor conjugal perfeito está fundado na fidelidade e na doação a Jesus Cristo, o Esposo perfeito. A orientação do sacerdote célibe para esta especial intimidade com o Esposo complementa e encoraja os esposos no seu sacramento do matrimónio a terem Jesus Cristo no centro. A fecundidade do matrimónio na vocação para a paternidade e para a maternidade recorda constantemente ao sacerdote célibe que o seu amor deve ser também paterno em sentido espiritual. Deve estar aberto à fecundidade do Espírito Santo. Isto dá-se à custa de perder a vida pelos seus «filhos».
Para que esta opção da renúncia do valor do matrimónio e da sua fecundidade em filhos seja plenamente humana (feita conscientemente, livremente e em espírito de acolhimento), o sacerdote célibe necessita de ter um profundo apreço pela beleza do matrimónio. Isto também pressupõe que tenha um profundo apreço pela sua própria masculinidade. É semelhante à primeira pergunta que fazemos ao jovem casal antes de eles trocarem os seus compromissos de matrimónio: Viestes aqui livremente e sem reservas para vos dardes um ao outro em matrimónio?
O Papa João Paulo II observava que esta opção do celibato por causa do Reino dos céus «se dá na base da plena consciência desse significado esponsal que a masculinidade e a feminilidade contêm em si mesmos. Se esta opção se realizasse ‘prescindindo’ artificialmente deste real tesouro de todo o sujeito humano, não corresponderia apropriada e adequadamente ao conteúdo das palavras de Cristo em Mateus 19, 11-12».
Jesus conclui o seu ensinamento sobre o celibato com o convite: «Quem puder compreender, compreenda»; isto é, é necessária uma plena compreensão para uma resposta plenamente humana.
O celibato por causa do Reino ajuda a colocar o homem diante da antropologia mais plena: o homem ressuscitado da morte e no amor; um amor que está aberto à vida.

Catecismo da Igreja Católica

26 CELIBATO
C.26.1 Castidade e celibato
§2349 "A castidade há de distinguir as pessoas de acordo com seus diferentes estados de vida: umas na virgindade ou no celibato consagrado, maneira eminente de se dedicar mais facilmente a Deus com um coração indiviso; outras, da maneira como a lei moral determina, conforme forem casados ou celibatários." As pessoas casadas são convidadas a viver a castidade conjugal; os outros praticam a castidade na continência:
Existem três formas da virtude da castidade: a primeira, dos esposos; a segunda, da viuvez; a terceira, da virgindade. Nós não louvamos uma delas excluindo as outras. Nisso a disciplina da Igreja é rica.
C.26.2 Igreja latina e celibato presbiteral
§1579 Todos os ministros ordenados da Igreja latina, com exceção dos diáconos permanentes, normalmente são escolhidos entre os homens fiéis que vivem como celibatários e querem guardar o celibato "por causa do Reino dos Céus" (Mt 19,12). Chamados a consagrar-se com indiviso coração ao Senhor e a "cuidar das coisas do Senhor", entregam-se inteiramente a Deus e aos homens. O celibato é um sinal desta nova vida a serviço da qual o ministro da Igreja é consagrado; aceito com coração alegre, ele anuncia de modo radiante o Reino de Deus.
§1599 Na Igreja latina, o sacramento da Ordem para o presbiterado normalmente é conferido apenas a candidatos que estão prontos a abraçar livremente o celibato e manifestam publicamente sua vontade de guardá-lo por amor do Reino de Deus e do serviço aos homens.
C.26.3 Igrejas orientais e celibato
§1580 Nas Igrejas orientais, está em vigor, há séculos, uma disciplina diferente: enquanto os Bispos só são escolhidos entre os celibatários, homens casados podem ser ordenados diáconos e padres. Esta praxe é considerada legítima há muito tempo; esses padres exercem um ministério muito útil no seio de suas comunidades . O celibato dos presbíteros, por outro lado, é muito honrado nas Igrejas orientais, e são numerosos os que o escolhem livremente, por causa do Reino de Deus. No Oriente como no Ocidente, aquele que recebeu o sacramento da Ordem não pode mais casar-se.
C.26.4 Pessoas célibes e solicitude pastoral
§1658 Não podemos esquecer também certas pessoas que, por causa das condições concretas em que precisam viver - muitas vezes contra a sua vontade -, estão particularmente próximas do coração de Jesus e merecem uma atenciosa afeição e solicitude da Igreja e principalmente dos pastores: o grande número de pessoas celibatárias. Muitas dessas pessoas ficam sem família humana, muitas vezes por causa das condições de pobreza. Há entre elas algumas que vivem essa situação no espírito das bem-aventuranças, servindo a Deus e ao próximo de modo exemplar. A todas elas é preciso abrir as portas dos lares, "Igrejas domésticas", e da grande família que é a Igreja. "Ninguém está privado da família neste mundo: a Igreja é casa e família para todos, especialmente para quantos 'estão cansados e oprimidos'."
C.26.5 Vida Consagrada e celibato
§915 Os conselhos evangélicos, em sua multiplicidade, são propostos a todo discípulo de Cristo. A perfeição da caridade à qual todos os fiéis são chamados comporta para os que assumem livremente o chamado à vida consagrada a obrigação de praticar, a castidade no celibato pelo Reino, a pobreza e a obediência. E a profissão desses conselhos em um estado de vida estável reconhecido pela Igreja que caracteriza a "vida consagrada" a Deus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

“Todo o conteúdo destes Blog é livre para uso, até porque o Espírito Santo não cobra 'Direitos Autorais' ”