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segunda-feira, 11 de abril de 2011

PURGATÓRIO E ORAÇÃO PELOS DEFUNTOS
(John O’ Brien)

Porque rezar pelos defuntos?

Porque rezam os católicos pelos mortos? É uma pergunta que fazem muitas vezes os não católicos. Como o costume de rezar pelos defuntos se baseia na crença no Purgatório, suprimida pelos reformado­res do séc XVI e é praticamente desconhecido pelos seus discípulos actuais, estes têm naturalmente difi­culdade em saber como devem compreender o cos­tume católico de rezar pelos irmãos defuntos. A Igre­ja mostra aos seus filhos este exercício de piedade, permitindo a todos os sacerdotes que celebrem três missas pelos defuntos em 2 de Novembro. E também consagra o mês de Novembro inteiro a orações espe­ciais pelas almas do Purgatório.
Convidamos os nossos leitores não católicos a examinarem connosco como esses exercícios de piedade pelos defuntos se fundamentam na Sagrada Escritura, na Tradição e na razão.

Purgatório e oração pelos mortos
A Sagrada Escritura convida-nos, durante a nossa vida, a recorrermos à intercessão dos santos e dos an­jos e a orarmos uns pelos outros, não só pelos vivos, mas também pelas almas dos nossos irmãos defuntos.
Conta o segundo Livro de Macabeus que Judas, vencedor de Górgias, com os seus companheiros, en­terrou os judeus caídos em combate e fez, entre todos os seus homens, uma colecta que rendeu 2000 dracmas de prata. Enviou esta soma para Jerusalém para ofe­recer um sacrifício pelos pecados deles. Não conside­rava graves os pecados deles porque, diz o texto, “ele pensava que, àqueles que tinham adormecido piedo­samente, estava reservada a mais bela recompensa”. O autor sagrado tira o ensinamento contido nesta atitude: “Santo e piedoso pensamento! Ele ofereceu esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido; a fim de que fossem absolvidos do seu pecado” (2Mc 12, 43-46).
Embora os nossos irmãos separados não conside­rem como inspirados os livros dos Macabeus, devem pelo menos admitir que são documentos históricos autênticos que atestam a fé dos judeus dois séculos antes de Jesus Cristo. Com efeito, assentam na mes­ma autoridade que Isaías, S. João e os outros livros sagrados: o ensinamento infalível da Igreja que de­clara inspirados os livros da Bíblia.
O nosso Salvador fala do perdão dos pecados «no mundo que há-de vir» (Mt 12, 32). Segundo Santo Agostinho e S. Gregório o gran­de, esta passagem refere-se ao Purgatório.

Na epístola aos coríntios, S. Paulo escreve: “... a obra de cada um será posta em evidência. O Dia tomá-la-á conhecida pois ele se manifestará pelo fogo e o fogo provará o que vale a obra de cada um. Se a obra construída sobre o fundamento subsis­tir (quer dizer, se as obras de alguém são boas), o operário receberá uma recompensa. Aquele, porém, cuja obra for queimada (quer dizer, se as suas obras são defeituosas e imperfeitas), perderá a recompen­sa. Ele mesmo, entretanto, será salvo, mas como que através do fogo.”(1Cor 3, 13-15).
Por estas palavras S. Paulo diz-nos que a alma deste homem será no fim salva, embora tenha de sujeitar-se, por algum tempo, às chamas do fogo purificador (purgatório).
É esta a exegese unânime dos primeiros Padres da Igreja; é esta a tradição constante de séculos, que nos fala dos túmulos dos mártires e das cata­cumbas onde estão sepultados os corpos dos pri­meiros cristãos. O autor viu, nas catacumbas de S. Calisto, às portas de Roma, muitas inscrições que eram um eco das últimas palavras dos cristãos mo­ribundos: “Nas vossas orações pensai em nós que vos precedemos”; “Que a luz eterna brilhe sobre ti em Cristo”, era a resposta e a oração dos so­breviventes. Encontramos também estas inscrições nos monumentos funerários de numerosos cristãos dos três primeiros séculos.
Citam-se frequentemente os Padres da Igreja do Oriente e do Ocidente a propósito do costume de orar pelos defuntos. Tertuliano (+ 160, +240) fala em duas passagens diferentes, das missas de aniversá­rio: “Nós oferecemos todos os anos, em dia deter­minado, o sacrifício pelos mortos como pelo dia do seu nascimento” e “A viúva crente reza pela alma do seu esposo, reza por ele que está no repouso espe­rando, para que tenha parte na primeira ressurreição, e oferece por ele as suas orações no aniversário da sua morte”.
Na sua oração fúnebre pelo imperador Teodósio, S. Ambrósio, bispo de Milão, diz: “Dá ao Teu servo Teodósio o repouso perfeito, esse repouso que Tu preparaste para os santos... Eu amei-o; por isso que­ro segui-lo na terra dos vivos. Não o abandonarei até que o chame na santa montanha de Deus”.
Um dos relatos mais tocantes que nos foram trans­mitidos sobre este assunto nos escritos dos Padres da Igreja, vem-nos de S. Agostinho, no princípio do séc V. O sábio bispo conta que sua mãe, chegada a hora da morte, lhe fez este último pedido: «Sepulta o meu corpo em qualquer lugar, não importa onde; não te preocupes com ele. Mas peço-te somente que, onde quer que estejas, te lembres de mim no altar do Senhor». A lembrança deste pedido inspirou ao fi­lho esta ardente prece: «Por isso Te imploro, ó Deus do meu coração, pelos pecados da minha mãe. Que ela repouse em paz com o seu marido... E inspira, Senhor, aos teus servos meus irmãos, que eu sirvo pela palavra, pelo coração e pela escrita, a todos os que lerem estas linhas, que lembrem no Teu altar, a Tua serva Mónica». Encontramos aqui o eco do uso geral na Igreja primitiva, de rezar pelos defuntos e da crença num estado chamado purgatório (fogo purificador).
O hábito de oferecer orações e sacrifícios pela alma dos parentes defuntos estava já profundamente enraizado no antigo judaísmo. Conservou-se até aos nossos dias apesar das migrações e da dispersão por todo o mundo. Há alguns anos, o autor viu um gran­de número de judeus rezar pelos seus defuntos em Jerusalém, no muro das lamentações.
Um livro de orações, de uso generalizado entre os judeus da América, contem a seguinte fórmula de oração para as cerimónias fúnebres: «Irmão desapa­recido, possas tu encontrar as portas do céu abertas e ver a cidade da paz e o lugar de delícias da segu­rança; que os anjos venham apressadamente ao teu encontro para te servir; que o Sumo Sacerdote se apreste a acolher-te. Vai até ao fim; repousa em paz e ressuscita para a vida. Que a estadia no lugar de delícias do céu seja o quinhão, a morada e o lugar de repouso da alma do nosso irmão defunto; que o Es­pírito do Senhor o conduza ao paraíso, a este irmão que saiu deste mundo por vontade de Deus, Senhor do céu e da terra. Que o grande Rei dos Reis, na Sua misericórdia infinita, o esconda à sombra das suas asas. Que o desperte no fim dos seus dias e o sacie na torrente das Suas delícias»..
De facto, nota o padre B. L. Conway, é singular que os reformistas tenham afastado tão unanimemen­te, uma tal quantidade de testemunhos sobre o Purga­tório e a intercessão pelos mortos, contida na Sagrada Escritura e na Tradição. Mas, no Evangelho de Cristo os ensinamentos estão tão ligados uns aos outros que a negação de um dogma fundamental acarreta logica­mente a de muitos outros. A opinião errónea de Lutero a respeito da justificação pela fé, levou-o a negar a diferença entre pecado mortal e pecado venial (quanto aos castigos temporais), a necessidade de boas obras, a eficácia das indulgências e a utilidade da oração pelos mortos. Se os pecados são, não perdoados, mas sim­plesmente “cobertos”; se o “homem novo” do Evan­gelho é o Cristo que imputa a Sua justiça ao homem pecador, seria de facto insensato “rezar pelos mortos para que sejam libertados dos seus pecados”. A nega­ção do Purgatório por Lutero tem como consequência, ou a doutrina que ensina que a maior parte dos cristãos piedosos são condenados (o que até certo ponto expli­ca a negação moderna da eternidade das penas), ou a suposição que garante que Deus, no momento da mor­te, purifica a alma por uma súbita mudança mágica.
Embora a palavra “purgatório” não se encontre na Sagrada Escritura, o Antigo e o Novo Testamento, como os escritos dos Padres da Igreja do Oriente e do Ocidente, fazem alusão à realidade que ele desig­na simbolicamente, uma vez que a crença na eficácia da oração pelos mortos não teria nem sentido, nem significado se o Purgatório não existisse.

A razão exige o Purgatório
À falta de provas que nos dão a Sagrada Escritura e a Tradição, a razão faria por si só supor a existência de um estado intermediário entre o céu e o inferno; até a exigiria. Do facto de “nada sujo poder entrar no céu”, re­sulta que uma alma que sai desta vida com um pe­cado venial, ou uma pena não expiada, não poderia entrar no céu. Também não poderia, em justiça, ser enviada para um inferno que dura para sempre, por­que não haveria nenhuma proporção entre uma tal punição e a falta cometida.
É provável que um número muito grande de se­res humanos morram com faltas veniais. Eles não são dignos de entrar imediatamente no céu, mas não podem também, em justiça, ser condenados ao infer­no. Deve portanto haver um outro estado em que a pena é proporcional à falta. É o que reclama a sim­ples razão. Esse estado, que a própria razão exige, é o Purgatório onde as almas são purificadas das suas imperfeições e assim preparadas para aceder à subli­me presença do seu Criador e Senhor, à felicidade inexprimível do céu.
Não só o hábito de rezar pelos defuntos está em harmonia com a Sagrada Escritura, mas também o nosso instinto natural nos impele a isso. A doutrina da comunhão dos santos sublinha a solidariedade so­cial e espiritual do género humano, ensinando-nos claramente de que maneira podemos ajudar-nos uns aos outros nas nossas necessidades. Ela contribui muito para tirar à morte o seu carácter aterrador.
Negando esta doutrina, os reformadores do séc. XVI, não só violaram a Sagrada Escritura e a uma tradição ininterrupta de quinze séculos na Igreja Cristã, mas também violentaram e perturbaram o nosso instinto natural e os desejos do nosso coração. Cortaram as ternas ligações que unem a terra com o céu, a alma na carne com a alma liberta do seu invó­lucro terrestre.
Se posso rezar pelo meu irmão enquanto está na terra, porque não posso rezar por ele quando fran­queou o limiar da eternidade? Ao destruir o corpo, a morte não deixa a alma intacta? Esta alma não continua, portanto, a viver, a pensar, a recordar, a amar? Porque motivo terrestre não deveria eu pensar no meu irmão e continuar a provar-lhe o meu amor, não por lágrimas inúteis, mas pelo meio muito eficaz da minha oração por ele? Onde encontraríamos um cristão que pudesse ficar de pé, junto da tumba aberta a que vê descer o cadáver de um ser amado ao lugar do seu último repouso, sem levantar ao céu os olhos vermelhos de lágrimas e fazer esta oração: “Ó Deus, tem piedade da alma do meu querido defunto”.
Apesar do silêncio da sua religião acerca da eficá­cia das orações pelos mortos, o protestante presta aten­ção à voz do seu coração e à da linguagem universal do amor e da simpatia que todos os homens entendem. Dos lábios mudos do seu amigo defunto, ouviu esta mesma súplica que Job, na sua infelicidade, dirigia aos amigos: “Tende piedade de mim, tende piedade de mim, ao menos vós que sois meus amigos, porque a mão do Senhor me feriu”. O facto de nenhum ouvido ficar surdo a um tal pedido é a prova de que o coração humano não deixou que o preconceito religioso lhe arrancasse o amor e a simpatia. Das almas que pas­saram o limiar da morte, entraram na eternidade, e do Purgatório nos pedem que as lembremos nas nossas orações, nós podemos dizer com toda a verdade: “Já não podemos tocá-las com as nossas mãos, os nossos olhos não poderia vê-las, mas, graças a Deus, o nosso amor e as nossas orações podem sempre alcançá-las”.
Após cerca de 50 anos de experiência no minis­tério pastoral, o cardeal Gibbons conta um facto que nos esclarece sobre este ponto: “Vi uma jovem atarefar-se, cheia de bondade, à volta de um pai doente, ternamente amado. Durante longos dias cheios de angústia e noites sem sono, ela velou junto do leito do doente, humedecendo-lhe os lábios secos, refrescando-lhe a testa ardente, ajei­tando-lhe na almofada a cabeça que descaía. Toda a melhora e agravamento do estado do doente eram para o seu coração um raio de sol ou uma sombria nuvem de tristeza. O amor filial era o grande impul­sionador de toda a sua actividade. O pai morreu; ela acompanhou ao cemitério o seu despojo mortal. Não era católica; mas enquanto ali estava de pé junto do caixão, rompendo as cadeias com que um cruel preconceito religioso tinha fe­chado o seu coração, ela elevou-se acima da sua seita e gritou: “Senhor, tem piedade da sua alma!” Era a voz da natureza e da religião.

Um ensinamento que nos convém
Não há nenhum sistema religioso da antiguidade onde não se encontre algo de semelhante (ao Purgató­rio). Estava reservada aos reformadores do séc XVI a rejeição deste antigo dogma da Igreja. Quando eles negaram a santidade da missa e de numerosos outros caracteres sacramentais do catolicismo, de­sapareceu também a doutrina do Purgatório. Se as almas dos mortos passam imediata e eternamente, a um estado sem mudança que não está ao alcan­ce da nossa intercessão, todas as nossas relíquias, as nossas orações, todas as nossas outras práticas análogas são vãs. Mas se cremos na comunhão dos santos, quer dizer, na união entre a tripla Igreja: mi­litante desta terra, sofredora do Purgatório e triun­fante do Céu, então podemos ter influência sobre as almas que já franquearam o limiar e elas podem tê-la sobre nós.
São muito raros os que deixam esta vida num perfeito estado de graça que lhes assegure a en­trada imediata no céu. E esperamos que mais ra­ras ainda sejam aquelas a quem o bendito refúgio do Purgatório está vedado. Não consigo imaginar como os protestantes podem acreditar naquilo. Não é de espantar que a negação do Purgatório tenha tido como consequência, para muitos, deixarem de acreditar no inferno. Esta doutrina é portanto, em si mesma, monstruosa.

Todos os dogmas católicos são dependentes uns dos outros: aguentam ou caiem todos juntos. Não se pode retirar uma pedra a uma abóbada, sem que ela desmorone. O Purgatório é uma das ideias mais hu­manas e mais belas que se possam conceber. Quan­tos corações aflitos de mães ela acalmou e consolou, dando-lhes esperança para um filho desencaminha­do!”
A doutrina católica sobre o Purgatório agrada as exigências da razão. A doutrina da Igreja católica sobre o Purgató­rio, ensina que há um lugar em que as almas sofrem durante um certo tempo, antes de serem admitidas às alegrias do céu, porque devem purificar-se de certos pecados veniais, fraquezas e faltas ou porque têm ainda de expiar, pelos pecados mortais, penas tem­porais que ainda não expiaram, embora a pena eterna lhes tenha sido perdoada pela expiação de Cristo. De resto, a Igreja declara que pelas nossas orações e pelo santo sacrifício da missa, podemos sempre, graças aos méritos de Jesus Cristo, ajudar estas almas. Neste ponto pára o dogma definido pela Igreja. Não é ar­tigo de fé que haja um fogo material no Purgatório.
Crê-se, geralmente, que as almas sofrem aí tor­mentos espirituais porque sentem, com uma intensi­dade que nunca teria podido existir na terra, de que perfeita felicidade estão excluídas por algum tempo, ao mesmo tempo que têm de reconhecer a monstruo­sidade dos pecados que cometeram contra o Pai Ce­leste e seu Salvador”. -
Encontrei muitos protestantes que, embora a dou­trina do Purgatório não exista na fé que professam, confessam que pensam muitas vezes nos seus que­ridos defuntos quando oram. Lembro-me de uma protestante piedosa que dizia que rezava todos os dias pelo filho, morto num acidente de viação alguns dias depois de terminar os seus estudos universitá­rios. Embora ela nunca tenha lido uma única linha de Santo Agostinho, pelo desejo irresistível do seu coração e por um instinto enraizado da sua natureza humana, conhecia o ensinamento dele dizendo que “muitos daqueles que deixaram esta vida não são nem bastante maus para serem indignos de miseri­córdia, nem suficientemente bons para terem ime­diatamente direito à bem-aventurança”.
Em número crescente, os irmãos separados re­conhecem quanto é razoável e autêntica a doutrina do purgatório, à luz do ensinamento de Cristo e dos Seus apóstolos

Reconhece-se fa­cilmente que é a única doutrina que concilia, pelo menos até certo ponto, a fé numa recompensa futura e numa punição futura com a nossa maneira de ver acerca do que é bom e razoável. Longe de ser uma superstição supérflua, vê-se que é uma exigência da razão e da moral; e uma fé no Purgatório não é ape­nas uma afirmação da razão, mas uma parte harmo­niosa de todo o ideal moral”.
A doutrina do Purgatório responde às exigências da razão; está em harmonia com os desejos instinti­vos da nossa natureza; transmite-nos o ensinamento de Cristo e Seus apóstolos.
“A obra de cada um será posta em evidência. O Dia tomá-la-á conhecida, pois ele se manifestará pelo fogo e o fogo provará o que vale a obra de cada um”(1Cor3, 13).


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