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terça-feira, 5 de abril de 2011


O Futuro da Vida Monástica
Bernardo Bonowitz, OCSO

Palestra, proferida em 15 de março de 2000, no
VII Ciclo de Palestras e Conferências do Instituto Ciência e Fé.
Texto íntegral

I. Introdução
A. No ano 1139, durante a Quaresma, S. Bernardo saiu de seu mosteiro de Claraval para dar uma palestra na Universidade de Paris. A assembléia foi composta dos letrados da cidade; portanto, o nome da conferência: Ad Clericos.O tema era De Conversione- "Sobre a Conversão", assunto predileto dos pregadores monásticos, especialmente dos reformadores como S. Bernardo. Quando terminou a palestra, segunda a tradição, sessenta dos ouvintes tomaram a decisão de deixar tudo e seguí-lo rumo ao Claraval onde se tornaram monges.
Hoje, um milênio mais tarde, no decorrer de uma outra Quaresma, me encontro na presença dos letrados de Curitiba. Também eu quero enfocar o tema da conversão- pensando mais na minha própria e na dos meus irmãos monges, do que na de vocês. Espero, porém, que estas reflexões sobre o compromisso monástico irão ter uma certa pertinência também para os religiosos de outras comunidades, e mais geralmente, para outros "comprometidos".
Se a história vai repetir-se.....vamos ver. Um ônibus está esperando na esquina.
B. O tema da palestra pedida a mim foi, "O Futuro da Vida Monástica".
Isto pressupõe que haverá um futuro, e eu estou totalmente a favor. Mas nenhuma instituição tem futuro garantido. Durante o nosso último capítulo geral (a reunião trienal de todos os superiores da Ordem), que desta vez se realizou em Lourdes, um dos abades colocou a pergunta se a nossa Ordem como tantas outras não poderá acabar um dia arquivada na "lixeira da história".
Ao meu ver, a vocação monástica é necessária, mas cuja continuidade não é assegurada. Faz parte constitutiva da multiformidade do corpo de Cristo, mas não floresce automaticamente. Talvez isto seja por que a vida monástica é radicalmente ligada à busca integral da santidade, e esta busca para permanecer verdadeira tem que ser para sempre renovada e ampliada (Atualmente temos em casa um religioso de uma outra congregação que me disse durante uma de nossas conversas,"Aqui não há meio-termo. Isto me alegra e me espanta.")
Gostaria de apresentar cinco colunas da nossa vida monástica, cada uma indispensável, cada uma de certa maneira estremecida hoje em dia . Se estas colunas não se mantiverem bem fincadas, a casa de Deus (nome que São Bento empregava para caracterizar o mosteiro) não poderá ficar de pé.

II. As Cinco Colunas
A. Ascese para chegar à Autarchia:
Em primeiro lugar, a vida monástica é uma prática, o que os antigos chamavam uma politeia.
Cada monge, na tradição do deserto, tinha a sua ("Qual é a sua politeia?" : Não comer até o pôr do sol; não dormir sem ter recitado todo o saltério; não terminar o dia sem fazer as pazes com um irmão com quem tinha desavenças).
A politeia era uma tarefa/ esforço, e também uma alegria (Edith Stein e Latim). Mas além disso, a politeia era um desafio lançado às próprias paixões ocultas - as compulsividades que dominavam a vida do monge, sem ele saber. A prática constante da politeia despertava as paixões, as compeliam a revelar-se, e assim desmascaradas, podiam ser combatidas (Cobras e leite da tradição ortodoxa; o menino pretinho dentro de Sant' Antão).
O monge esperava, ansiava, para chegar à autarquia: um estado em que a gente era rei na sua própria casa interior, em vez de ser o escravo de uma- ou de várias- compulsões. Só este autodomínio era digno da nobreza do ser humano; ao contrário,ser dominado pelos impulsos das oito paixões (cujo número foi reduzido para os sete pecados capitais por S. Gregório Magno no século sexto), era levar uma vida bestial, se não pior.
As três grandes tradições do império tardio compartilhavam a convicção que a gente chegava à autarquia através de encrateia:refrear-se, restringir-se. Foi esta capacidade de não ceder a todo estímulo que caracterizava o varão (em contraste com as feras, mas também com as mulheres). Peter Brown,por exemplo, no seu livro, The Body and Society (O Corpo e a Sociedade), demonstra como cristãos, judeus e pagãos estavam de acordo em afirmar que o cumprimento freqüente do ato conjugal, em vez de assinalar uma forte masculinidade, indicava claramente um caráter fraco e imaturo.
Todo monge sabia que esta luta com as paixões (e por isto ele foi ao deserto, em imitação à Jesus que enfrentou desta forma suas própias tentações, na primeira Quaresma) iria provocar uma crise. Ceder às paixões dava um falso sentido de segurança, de repouso, sim - Aristóteles na sua Ética a Nicômaco definia o prazer como a descarga da tensão- enquanto o não ceder mantinha o monge frente à toda sua ansiedade, e a todos seus sintomas.Por isso, os grandes mestres do deserto, como Cassiano no século quinto, dividiam as paixões em diversos agrupamento colocando ira, tristeza e desânimo depois de gula, luxúria e avareza. Restringir-se em coisas corporais infalivelmente provocava uma luta no nível emocional.(Do mesmo modo, num nível mais avançado, refrear as paixões emocionais iniciava o conflito com as paixões intelectuais de vaidade e soberba).
Mesmo assim, a perseverança na luta- por meio da fidelidade ao compromisso, oração, confiança na graça de Deus, conversa com o pai espiritual, e repetição de textos bíblicos, era o único caminho para a liberdade- ou, em outras palavras, para reformar a imagem distorcida de Deus no homem e assim permití-lo recuperar sua identidade original.
Hoje em dia surgem muitas dúvidas à respeito, pelo menos entre os jovens vocacionados e noviços brasileiros que são o nosso futuro monástico(alias, tudo isto diz respeito também aos jovens norteamericanos...e não somente aos jovens):
1)Falta muitas vezes a alegria da luta. Parece que o desafio de treinar-se, de formar-se espiritualmente (Gregório de Nyssa no século quarto fala de um "gerar-se": Através da ascese, tornamo-nos nossos próprios pais) excede a energia disponível dos que pretendem adotar o estilo da vida monástico. A gente pensa no imenso dinamismo do Prólogo da Regra de São Bento, e não encontra éco adequado nos corações daqueles que chegam ...ou daqueles que já estão.
2)O otimismo moral dos padres de monasticismo- a transformação do ser humano é possível e até natural- não é o clima dominante. O que é mais evidente é um tipo de fatalismo a respeito de qualquer modificação moral para o melhor, um fatalismo às vezes fantasiado por uma " confiança na imensa misericórdia de Deus" ("Imensa" na Missa). Para os antigos, contudo, a misericórdia de Deus revelava-se em nos capacitar a combater o bom combate.
3)Certas capacidades psicológicas são necessárias para passar da vida passional para apatheia (liberdade das paixões/tranqüilidade estável). Uma das mais importantes seria uma estrutura pessoal suficientemente forte para agüentar os tremores das paixões despertadas. Lembremos-nos:despertadas, as paixões são cobras que mordem e afligem. A tentação é sempre voltar atrás e e entregar os pontos. Durante o meu noviciado, por alguns meses eu tive a sensação que estava enlouquecendo por causa da pressão interior. Só conseguia ficar de pé confiando na palavra do mestre que me assegurava que, longe disso, eu estava finalmente recuperando a saúde mental ("You're not going insane; you're going sane.").
4)Finalmente, temos que reconhecer que as paixões, como ídolos, fornecem certas satisfações a seus adoradores. Gula consola, luxúria sossega, ira dá sentido de poder, tristeza é uma forma de autoconsolação. O teólogo leigo ortodoxo francês Olivier Clement, no seu livro Sources, recomenda o caminho da ascese somente àqueles que já experimentaram antes as consolações verdadeiramente espirituais. Quem vai a longo prazo sacrificar um prazer genuíno, de qualquer tipo, para uma experiência desconhecida? Vivemos numa cultura para o qual o material é considerado o único real, o único que não necessita ser desmistificado.

B. Lectio para conseguir a Sabedoria
São Paulo afirma que em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus (Col 2:3) . Esta plenitude comunica-se ao monge, habita nele e progressivamente o une consigo. O processo da iluminação do intelecto humano pela sabedoria divina realiza-se pela meditação da Sagrada Página, isto é, do texto bíblico e da doutrina da Igreja, que representa a reflexão e articulização da mesma mensagem bíblica, sob a inspiração do Espírito Santo. Assim como para o salmista, para o monge a Palavra de Deus é a alegria de seu coração. Lâmpada, jardim, árvore da vida, óleo derramado- estes são alguns dos títulos com os quais o monge da antiguidade descrevia a Sagrada Escritura. Para ele, o texto- e sim, cada parcela do texto- possuía uma riqueza de significados inesgotável, participando da mesma profundidade infinita do próprio Cristo, dado que a Bíblia era a Carne feita Verbo: o Logos Divino em palavras humanas. E cada vez que o monge aproximava-se do texto num espírito de fé, o Espírito Santo soprava sobre o texto, e sobre o monge em leitura, enchendo a sua mente com nova luz (Fresco de São Domingos por Giotto no convento de São Marcos na Florença: enquanto ele medita a página bíblica, a estrela da sabedoria divina brilha na sua testa).
As duas condições exigidas para progredir a uma compreensão adequada do texto (adequada, mas felizmente nunca finalizada) eram a meditação constante da palavra sagrada, e a pureza do coração. São Pacômio insistia que todos seus monges, na maioria, camponeses egípcios, aprendessem a ler, para depois poder decorar todo o Novo Testamento e o saltério. Nas horas fora da celebração do Ofício Divino, o monge- seja trabalhando com as mãos, seja passeando, seja recolhido em sua cela, entregava-se à meditação e repetição devota dos textos. Há uma história bonita de um jovem monge que passou cinco anos meditando sobre o texto, "Amarás o teu próximo como a si mesmo". Ele queria compreender mesmo. Deste modo ele exemplificava a atitude monástica em relação à leitura: a última importância de ser penetrado e transformado pela Palavra de Jesus, a palavra que era Jesus.
Os padres monásticos sentiam tamanha reverência diante da Palavra de Deus, que geralmente recusavam fazer qualquer comentário a respeito. Temos o famoso apotegma que relata a visita de um grupo de jovens monges a um ancião venerado. Os noviços, chegando depois de uma longa viagem, pedem a interpretação de vários textos difíceis da Bíblia, mas ficam sem resposta. Finalmente, meio-chateados, um deles coloca uma pergunta sobre o combate contra os vícios, e imediatamente o ancião começa a dialogar e a instruir. Pedido para explicar o seu silêncio e o seu discurso, ele responde que o monge maduro tem alguma capacidade de ensinar a respeito da vida ativa; a instrução sobre o verdadeiro sentido de um texto é reservado aos santos bispos e teólogos da Igreja.
Ao mesmo tempo, a quantidade do texto meditado ordinariamente ficava cada vez menor, às vezes reduzindo-se a um único versículo, ou até menos. Quer dizer, segundo Guilherme de São Thierry, monge e teólogo cisterciense do século doze, chega um momento de apropriação espiritual do texto, do "monge-bíblia", para assim dizer. Para um tal monge, a Bíblia tem realizado sua finalidade: Ele tem uma cognitio experimentalis da doutrina adumbrada na Bíblia -Ele vive dentro da corrente da vida trinitária, não recebendo mais informações sobre ela, mas participando dela.
Os anciãos gostavam de falar da embriaguez da doutrina- isto é, como as verdades centrais da fé, reveladas através da Bíblia (Encarnação, Trindade)pouco a pouco levam o monge para além de si- por meio de uma iluminação intelectual , que finalmente rompe os limites do intelecto discursivo e o abre a uma experiência estática e pessoal com o Deus trino.

Hoje em dia, vivemos em outro clima intelectual, mesmo dentro da Igreja. Não fazemos parte da época da construção das grandes doutrinas da cristandade, assim como o faziam os padres do deserto no século quarto e quinto; nem testemunhamos um tratamento confiante das mesmas doutrinas, seja místico, seja escolástico, como faziam os primeiros cistercienses. Nossa cultura, como bem sabemos, é científica e pluralista, e sobretudo, exposta a dúvida sistemática . O Verbo - a Razão, a Inteligência Divina- feito homem, fonte da salvação para todos os homens; a Bíblia- comunicação,juntamente com os sacramentos, desta vida divina encarnada, a Bíblia dom além de todo preço, porque Deus " escrito" (os místicos judeus descrevem a página bíblica como "fogo preto sobre fogo branco"), a Trindade, mistério que excede o universo, o qual porém dá origem e forma à toda criatura, e cujo o conhecimento é vida eterna: o que pensamos destas afirmações hoje em dia ? Tais afirmações, contudo, são à base da vocação monástica cristã.

A vida ascética- o encontro proposital com o espírito do Mal- empurra - e deve empurrar- o monge à beira do abismo. Em que ele pode apoiar-se, em que pode fazer uma suprema afirmação da fé que o segure enquanto balança na beira do abismo (entre céu e terra, como diz S. João da Cruz)? Os nossos antepassados monásticos apoiavam-se em Cristo e em suas promessas escriturais (Papel no bolso do hábito).Abordavam os Evangelhos com fé absoluta e obediência absoluta, dispostos a ser desafiados, desmontados e reconstruídos pelo texto, assim como os primeiros discípulos foram por Jesus (Bonhoeffer: Se depois de uma meia hora da leitura do Evangelho, você termina a leitura sendo a mesmo pessoa que era quando começou, você não estava lendo a Bíblia). Mas esta confiança radical e necessária hoje em dia enfrenta novos obstáculos: Um contexto da interpretação que se concentra muito nos limites de um texto, limites provindo de suas origens culturais e históricas; uma pressuposição que nenhum texto tem condições para comunicar a Realidade, supondo que tal Realidade tenha existido; um Jesus relegado ao estado de ser mais um no meio de uma fila de avatares. Não estou dizendo que nós monges devemos ou podemos fugir dos frutos da modernidade; estou simplesmente indicando um novo (para nós católicos) e grande desafio na caminhada monástica. O próprio Santo Agostinho no século quinto reconheceu-insistiu- no seu comentário sobre o Evangelho de João que a linguagem humana tem limites para comunicar a suprema verdade; à seu ver, a grande oração sacerdotal de Jesus(Jo. 17) não passava do balbucio de uma criança, frente à verdade trinitária que tentava anunciar.Todos os místicos cristãos sabiam (e sabem) que a realidade sempre ultrapassa a experiência humana, e a experiência vai mais longe que a formulação intelectual dela, e a formulação intelectual ultrapassa a comunicação verbal. Sim- mas ao mesmo tempo acreditavam implicitamente que havia uma escada firme, levando as pessoas da leitura da palavra à apropriação intelectual e de lá à experiência amorosa- contato verdadeiro com a Realidade que à tudo excede. Antigamente, em outras palavras, os limites nos convidavam- para entrar neles, e entrando, ultrapassá-los. Hoje, por outro lado, os limites nos desencorajam. Mesmo assim, o monge cristão só encontra a Deus através da revelação da Palavra de Deus.

C. Filiação para chegar à Discretio
O processo da santificação monástica é um processo guiado, acima de tudo pelo Espírito Santo, mas isto por meio do seu agente, o pai espiritual. No seu grande estudo sobre a paternidade espiritual no monasticismo primitivo, Pe. Irenée Hausherr deixa claro que o uso da palavra "espiritual" não é genérico; refere-se particularmente ao Espírito Santo. De fato, esta é a única condição para ser um pai espiritual: ter conseguido uma união estável com o Espírito Santo (Pentecostes monástico), ser verdadeiramente um templo do Espírito, liberado por ele de todas as paixões, iluminado por Ele em toda a sabedoria, e capacitado por Ele a discernir os movimentos interiores do espírito humano- do seu próprio espírito, no primeiro lugar, e no espírito do discípulo- o que se também se chama o dom de cardiognosia. Então o pai espiritual seria a presença do Espírito no mundo, capaz de transmití-lo aos outros por um relacionamento mestre-discípulo, e assim gerá-los como filhos espirituais: filhos no espírito, filhos habitados pelo Espírito.
O jovem monge egípcio (siríaco, etc.)ia ao deserto em busca de um pai espiritual e ficava sentado "aos pés" do mestre. O mestre era, antes de tudo, um livro da vida para o discípulo. O discípulo mergulhava na realidade do mestre- não tanto suas instruções verbais, apesar do seu grande valor, como sua presença icônica. Existe um apotegma relatando a visita de vários jovens a Antão, cada um apresentando sua dificuldade ou dúvida. Só um deles fica totalmente calado. Finalmente, Antão toma a iniciativa e pergunta se ele não tem nada a colocar. "Para mim, meu pai," responde o jovem, "basta vê-lo."
O mestre assumia responsabilidade pela salvação do discípulo. Isto nos espanta, e é bom saber que espantava o potencial pai espiritual também. Ninguém sentia-se à vontade perante desta responsabilidade imensa, e muitos foram os pais espirituais que iniciaram seu papel fugindo . É interessante notar que esta concepção do papel do pai espiritual passou para A Regra de São Bento, regra vigente em quase todos os mosteiros ocidentais. A Regra é cheia de referências ao dever do abade de prestar contas a Deus por todas as "almas" que dirigia. O abade, segundo São Bento, vai ser julgado segundo a santidade da própria vida e a santidade que ele inspirava nos seus discípulos.
Como é que o pai assumia tal responsabilidade? Em primeiro lugar, rezando. Aceitar um discípulo era aceitar um ministério vitalício de intercessão. Até hoje quando um monge trapista passa de uma etapa de formação à outra, o superior pergunta, "Está disposto a dar este passo?"
Responde o discípulo: "Sim pai, com a ajuda da graça de Deus e o apoio de suas orações." A segunda parte não é mero enfeite.
O pai orienta em coisas práticas, corrige faltas, dá permissões ,etc. Além de sua oração, porém, onde mais exerce a paternidade é na comunicação da arte do discernimento. Em que consiste esta arte? 1)Reconhecer a origem dos "pensamentos" que surgem dentro de nós. 2)Responder apropriadamente, evitando tanto o excesso como a falta. Nenhum principiante chega à porta do mosteiro discreto. Falta-lhe o conhecimento de si mesmo: a capacidade de tomar consciência de seus impulsos, de pesquisar as suas raízes e de encontrar uma "politeia" adequada para equilibrá-los.
Concretamente, a discrição se aprendia pela "abertura do coração". Quer dizer, o discípulo revelava ao mestre os seus pensamentos- sobretudo os mais fortes, os obsessivos, os perturbadores. Revelava também as lembranças do passado que às vezes surgiam poderosamente, e as experiências da proximidade de Deus na oração e na leitura. Sua pergunta era sempre a mesma: "Dentro deste contexto atual, Pai, o que tenho que fazer para alcançar a salvação?"
O mestre não impunha suas próprias intuições. Ao contrário, as perguntas do mestre , ao mesmo tempo delicadas e incisivas, a sua tranqüilidade imperturbável frente às revelações do noviço que provocavam autonegação, a partilha ocasional e discreta de suas próprias lutas, e a confiança inabalável que ele manifestava no poder transformador da graça de Deus- tudo isto criava um ambiente no qual o jovem podia experimentar uma calma e maior liberdade e com isso, perceber por si mesmo o que o Espírito de Deus esperava dele.
Hoje em dia este relacionamento do pai espiritual-discípulo fica bastante bloqueado por uma desconfiança básica típica de muitos que estão entrando em nossas comunidade (e de vários que já estão dentro há muitos anos).Esta falta da confiança tem raízes teóricas e psicológicas:
1) O pai espiritual, assim como a Bíblia, é limitado. A Bíblia é mais um texto; muito mais, o pai espiritual é mais um homem- frágil, condicionado por seus pensamentos, incapaz de fazer o que somente eu posso fazer- conhecer e dirigir a mim mesmo.
Muitos de nossos monges exemplares no que diz respeito à obediência externa, que cumprem todos os deveres dados pelos superiores, raramente ou nunca aproveitam deste método de transformação. Em certos casos pode ser que o processo já tenha terminado: trata-se então de pessoas maduras que compartilham com o pai do mosteiro a paternidade espiritual. Entretanto, a minha impressão é que um bom número de monges de idade avançada nunca consentiram plenamente em entrar neste "ser gerado de novo".Em vez disso, empregaram toda a sua criatividade em manter o mestre a uma distância afetiva. É pena, porque mais do que ser simplesmente um método entre os outros, a filiação espiritual é o método conatural ao monasticismo: é assim que Deus gera filhos para si. Aqueles que por medo- ou por falta de humildade, como diria São Bento,não experimentam este tipo único de amizade perdem não somente uma determinada prática monástica, mas o equilíbrio, paz e profundidade que são os seus frutos.
2. Segundo o teólogo e bispo alemão Walter Kasper, desde o fim do sec. XVIII, as duas grandes paternidades- a paternidade natural e a paternidade divina (quer dizer, do Deus-Pai)- andam ameaçadas. Vários fatores têm colaborado para fazer da figura do pai(humano ou divino) primeiro um símbolo de opressão, e depois, um personagem aposentado, deslocado- mais avô do que pai. Pouco tempo depois da minha chegada ao país, um outro superior (também estrangeiro) me disse que na sua experiência , os jovens brasileiros buscam ou um pai para lutar contra (o pai opressor) ou um Papai Noel como presença bonachona, mas sem poder.
3. Para o monge, o pai espiritual é, no sentido mais profundo, o meio-termo entre os outros pais.O pai espiritual recebe o noviço das mãos do seu pai natural e o prepara para ser filho adulto de Deus Pai, irmão de Jesus. A tarefa dele é aperfeiçoar e espiritualizar a filiação natural do jovem monge, capacitando-o à ficar de pé, reverente, santo e forte, na presença de Deus Pai. Quando, porém, a imagem e a experiência do pai natural são prejudicadas ou destorcidas (o que acontece com uma certa freqüência), e Deus-como-Pai permanece desconhecido ou rejeitado, a tarefa do mestre torna-se mais difícil. Fica com ele iniciar o jovem monge no seu mistério de filiação, e funcionar simultaneamente como ícone do pai natural e do Pai divino. Por meio dele, o noviço tem que aprender o que é obedecer (que não é curvar-se), o que é ser corrigido (que não é ser humilhado ou rejeitado), o que é ser desafiado a dar o seu máximo (que não é ser explorado), o que é confiar os sonhos, medos, pecados, aspirações (que não é ser desnudado), o que é ser amado paternalmente (que é uma realidade diferente do amor materno, fraterno, amigável ou matrimonial). No pai espiritual o discípulo tem que aprender a ver o seu próprio futuro como homem de Deus, homem livre, generoso, orante, "filantrópico".
Esta tarefa maior vai exigir do próprio mestre um grande desprendimento. Além de rejeitar as máscaras do tirano ou vovô, terá que purificar-se do desejo de manter o filho espiritual menino fora do prazo da "regressão" ou- tentação mais sedutora- de permanecer permanentemente a Face de Deus para este jovem. Ele deve meditar continuamente os últimos capítulos do Evangelho de João para perceber como o mestre Jesus "devolveu" os discípulos ao Pai como filhos já feitos.
Em outubro do ano passado, realizou-se no Rio a última CIMBRA- reunião de todos os superiores monásticos do Brasil. Qual o tema? A paternidade espiritual. Posso testemunhar que não era uma semana de estudos, mas um esforço colaborativo para tentar se chegar à altura de nossa tarefa, nas condições atuais da América Latina.

D. Coenobium: Meio e Fim
Hoje em dia, os eruditos estão de acordo que a vida monástica desabrochou simultaneamente em duas formas: a eremítica, no Egito, e a cenobítica, na Palestina e Síria.
O cenóbio- a vida comum- era considerada a prolongação da primeira comunidade cristã de Jerusalém. Nesta comunidade primitiva, segundo os Atos dos Apóstolos, "ninguém considerava como propriedade sua algum bem; pelo contrário, tudo era considerado bem comum." Esta comunhão de bens funcionava, na visão dos padres monásticos cenobíticos como Pacômio, Basílio, Agostinho e Bento, como sacramento de uma unidade mais profunda e mais teológica: o ter um só coração e uma só alma, do qual também falavam os Atos. No fundo, este único coração era o coração do Cristo Ressuscitado. O Espírito de Cristo era o centro da comunidade monástica, dando a si mesmo para todos os membros. Quanto mais intimamente ligado a Ele era o monge, mais ligado a todos e vice-versa.
Então, a convivência comunitária monástica era muito mais do que uma associação entre solitários, favorecendo o cumprimento das necessidades humanas, tais como alimentação, abrigo e um mínimo de boa companhia humana. A comunidade era uma Igreja, estreitamente unida em si e com seu Senhor, e segundo Balduino de Forda, padre cisterciense do século treze, a imagem mais perfeita da Santíssima Trindade, o ur-cenóbio. Ao mesmo tempo, vivendo asceticamente, a comunidade operava como "oficina" das virtudes, no termo de São Bento. Lá aprendia-se a arte da doação, do auto-esquecimento, a arte de verdadeiramente colocar a vontade comum e o bem comum acima da própria vontade. Se os irmãos tinham vícios e causavam aborrecimentos, melhor ainda: desenvolvendo a paciência para com eles, as pessoas tomavam consciência da sua própria miséria, cresciam em compaixão com o irmão irritante, e aos poucos curavam-se das faltas mais pesadas. Segundo Evágrio (sec. 4), isto era precisamente a vantagem do cenóbio: os pecados do próximo faziam com que o monge trabalhasse seus próprios.
Os padres monásticos bem entendiam que o irmão ia além do símbolo teológico ou desafio moral. Ele era si - mesmo; o outro eu, o amigo, o irmão, dado a mim para minha alegria, e eu a ele. O elogio mais alto que os primeiros cistercienses podiam dar a alguém era chamá-lo: amator loci et fratrum- amante do mosteiro e dos irmãos. O irmão era um companheiro da peregrinação terrestre e do banquete celeste.
O monge atual conhece bem esta visão do cenóbio; é uma das teclas nas quais os superiores batem mais freqüentemente em suas conferências semanais, e a maioria dos monges gosta desta orientação "horizontal". A ideia da comunidade como família, como fraternidade calorosa, agrada; parece um bom remédio à frieza da orientação trapista dos séculos 17- 19. Mas a família monástica não se constroi automaticamente. O que falta atualmente é uma compreensão da verticalidade da dimensão horizontal. Longe de ser uma dispensação de autotranscendência, a vida comunitária é a escola desta transcendência de si-mesmo. É duro realizar este "êxtase"- este sair de si mesmo para se doar aos demais, em todos os níveis da vida; mas só assim reproduz a comunidade monástica a "circumincessio" do amor trinitário.Concretamente, onde se encontram os problemas?
1)A respeito dos bens: Desde o Concílio, o monge trapista não vive mais no dormitório comum, como ensina a Regra, mas na cela particular. Ninguém duvida dos aspectos positivos, tanto psicológicos como espirituais. Mas a cela particular foi concedida pelo capítulo geral para ser lugar do encontro íntimo com Deus, onde, no ambiente de simplicidade e despojamento, a oração e a leitura sagrada pudessem prolongar-se. A tentação (nem sempre combatida) é deixar a cela transformar-se primeiro em "quarto" e depois em "apartamento". Sim, tem-se de tudo nos lugares comuns do mosteiro- livros, durex, espelho- mas não seria bom ter um estoque dos mesmos ítens na cela, caso que algo faltasse? Então surge a tendência de se viver como esquimós, munidos contra toda "emergência".
2) Agostinho tinha razão. Ele colocou a comunhão dos bens à cabeça de sua regra comunitária, insistindo que aquele que não podia partilhar os bens da terra nunca poderia chegar a uma verdadeira koinonia. Desde os primeiros dias do monasticismo, surgiam os "espinhos de escândalos" entre os irmãos, mas os antigos entendiam ben a necessidade de erradicá-los antes do pôr do sol, afim do que o calor da raiva não se transformasse em ódio estável. Hoje em dia vê-se o verdadeiro escândalo de inimizades vitalícias, cada um dos discordantes tendo seus torcedores. Talvez pior, os hábitos aparentemente mais inocentes de ceder aos próprios humores em vez de superá-los para o bem comum, de falar mal dos outros à terceiros enquanto mantendo um "bonhommie" superficial, de cultivar uma familiaridade excessiva. Se podemos confiar nos documentos históricos, tudo isto sempre existiu nos mosteiros. Antigamente, porém, havia formas de correção pública e confidencial que despertavam arrependimento e conversão. Estas formas ou sumiram ou não funcionam adequadamente. Não consigo suprimir a pergunta: Será que não existem porque não queremos mais ser corrigidos?
3) Sem um firme compromisso a uma verticalidade ascensional, o cenóbio pode convidar a uma verticalidade descendente. Há situações nas quais a "mentalidade de rebanho" prevalece, e os perigos da democracia enunciados por Aristóteles se mostram verdadeiros.

E. E na vida eterna.Amém.
Os documentos do Concílio Vaticano Segundo falam da vida monástica como testemunho vivo do futuro reino de Deus. Todo o Prólogo da Regra de São Bento convida a uma corrida, puxada mas exuberante, para o monte de Deus- monte da contemplação,mas muito mais, monte da suprema visão de Deus no gozo da vida eterna. São Bento está com pressa, está com ânsia: seu monge tem que cingir-se e correr para a tenda do acampamento real, não somente porque a luz da vida dura pouco tempo e o monge tem que operar sua salvação dentro de um prazo bem limitado, mas porque o monge já viu, uma ou outra vez, o que Bento chama a "luz deífica", e não agüenta viver longe dela. O monge é aquele que diz constantemente a Deus, "Quando é que a gente finalmente pode matar as saudades?"
Cister, "mater omnium nostrorum", mãe de todos nós, tinha "quatro primeiras filhas", como diz a tradição- as primeiras quatro fundações às quais ela deu a luz. Uma delas se chamava, "Morimundus": morta ao mundo. A ideia não era ser macabro. Ao contrário, a saída resoluta do mundo e a entrada no ambiente de humildade, obediência e pobreza, constituía o primeiro grande passo para a eternidade, para ver a Deus face a face. Quanto mais fielmente a gente vivia esta renuncia, mais se sentia a atração irresistível de Deus.A ânsia de vê-lo, segundo João de Forda, abade cisterciense inglês do sec. 13, que começava como "opção" possível, ia tornando-se necessidade existencial, e finalmente, o "único necessário". Ninguém repetia com maior intensidade do que o monge as palavras do salmista: "Quando terei a alegria de ver a face de Deus?"
Na minha comunidade anterior de Spencer, fala-se ainda hoje de um irmão leigo a quem coube um dia entoar o Pai Nosso. Quando chegou às palavras "que estais nos ceús", em vez de proceder, simplesmente continuou, arrebatado, a murmurar as mesmas palavras, "Que estais nos ceús, que estais nos ceús." Ele era monge para valer. Junto com São Paulo,seu "desejo era de partir e de estar com Cristo."
No mosteiro trapista de hoje, este desejo fica mais pálido. A gente deseja uma vida longa, olha para a aposentadoria e os maiores confortos aos quais o monge de hoje tem direito.
Nada parece mais ridículo do que a garantia do abade De Rancé (assim diz a tradição), abade da primeira trapa, que o monge que entrava no mosteiro dele, ganharia o céu dentro de cinco anos. Aos ouvidos monásticos formados pelo humanismo secular, soa doentio este entusiasmo de sair desta vida para estar com Cristo, e sobretudo sair por meio de uma ascese muito rigorosa. Este entusiasmo, e este rigor, porém, não eram só de De Rancé, mas igualmente dos padres do deserto que ele maestralmente conhecia e muito amava, e dos primeiros cistercienses, que abandonaram seu mosteiro beneditino de Molesme para cumprir fielmente seus votos, inclusive uma maior separação do mundo. Separar-se deste mundo para aproximar-se do outro.
Tenho uma noção que nos apropriamos dos artigos do Símbolo (do Credo) um por um. O último, como se sabe, é "Creio na vida eterna". Aquele que já chegou lá, está em condições de dizer seu Amém, e passar da fé nas realidades invisíveis para a visão destas realidades. Será que nossas comunidades ainda não chegaram a este artigo, ou chegaram, mas depois retrocederam?

III. Conclusão
Comecei esta palestra referindo-me ao Sermão aos Clérigos sobre a Conversão de São Bernardo. Numa série de sermões para a Quaresma (Comentário sobre salmo 90:Qui habitat), São Bernardo fala dos desafios que a Igreja enfrentava e até hoje enfrenta . É uma teologia da história muito simples. Nos primeiros séculos, afirma Bernardo, a Igreja foi exposta à hostilidade direita do império romano: a idade de mártires. Depois da paz constantina, a igreja sofria os ataques dos hereges, no tempo da formulação das grandes doutrinas. Em nosso tempo,diz ele , passamos por um mal endêmico:um comodismo e uma mundanismo que prevalecem nos que fizeram compromisso público de viver a simplicidade evangélica. No fim dos tempos, continua Bernardo, a Igreja encontrará o perigo mais forte e mais sutil: a sedução do Anticristo. Eu, um mínimo Bernardo, me pergunto se o desafio apresentado a nosso monasticismo não seria uma certa desconfiança em nossa vocação:em seu processo de santificação, nos meios através dos quais a graça nos leva até lá, na possibilidade do produto final- o homem totalmente transformado em Cristo- divinizado- e no valor deste homem para a Igreja e a sociedade de hoje. Contudo, isto é o monasticismo, e este homem transformado em Cristo é o único dom que temos para oferecer. A Igreja e a sociedade têm necessidade deste dom. Mas se não acreditamos nele, como vamos poder entregá-lo?

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