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sábado, 16 de abril de 2011

Do Meu Querido e Grande Intercessor - São Serafin de Sarov


 III. As Instruções Espirituais.Símbolo vivo, o staretz não escreveu quase nada. Entretanto, restaram-nos dele algumas Instruções Espirituais. A princípio incluídas em uma biografia manuscrita redigida em 1837 por um hieromonge de Sarov, Sérgio, elas só foram impressas dois anos depois, como apêndice a um opúsculo intitulado: "Um breve esboço da vida de um Staretz do Deserto de Sarov, Marcos, Monge e Anacoreta" (Tratava-se de um dos dois eremitas, contemporâneos do Padre Serafim que viveram na floresta de Sarov naquela mesma época). Quanto à biografia do santo propriamente dita, foi apenas em 1841, oito anos após sua morte, que ela recebeu o Imprimatur do Santo Sínodo, após numerosas providências tomadas pelo Metropolita Filaret, de Moscou.
Foi igualmente este prelado, desejoso de apressar sua divulgação, que revisou as Instruções Espirituais, como atesta uma carta escrita a seu vigário e amigo, arquimandrita Antônio, Abade do Mosteiro da Trindade — São Sérgio.
"Envio-lhe, Padre Vigário, as Instruções Espirituais do Padre Serafim revisadas por mim. Permiti-me mudar e completar certas expressões, em parte para que fiquem gramaticalmente mais corretas, e também para evitar que pensamentos expressos de forma pouco clara ou pouco comum sejam mal interpretados. Veja e diga se é lícito crer que não deformei em nada os pensamentos do Staretz."
Infelizmente, como o original se perdeu, é impossível fazer a comparação hoje em dia. É pena. Entretanto, o grande Metropolita estava bem intencionado. O santo Sínodo provavelmente não teria dado o Imprimatur às instruções tais como haviam sido redigidas por Batiushka Serafim.
No livro de hieromonge Sérgio (4a edição, Moscou, 1856), estas instruções estão em número de 33. Uma biografia de santo compilada por N. Levitsky e editada em 1905, em Moscou, pelo Mosteiro de S. Panteleimão do Monte Athos, cita 36.
Nós nos permitimos abreviar ligeiramente estes textos e, a fim de evitar repetições, remetemos o leitor aos capítulos precedentes onde idéias idênticas já tenham sido apresentadas. Por outro lado, em certos trechos completamos as "Instruções" por ensinamentos do Staretz que se encontram em outros lugares, particularmente nos capítulos XVI e XVII do livro de N. Levitsky (pp. 166-199).
Pelo elevado número de citações, vemos que o espírito do Staretz efetivamente "nadava" (segundo uma expressão que lhe agradava) nas Santas Escrituras.
Deus.
Deus é um fogo que aquece e inflama os corações e as entranhas. Se, sentimos em nosso coração o frio que vem do demônio — pois o demônio é frio — peçamos socorro ao Senhor e Ele virá aquecer nosso coração com um amor perfeito, não somente para com Ele, mas também para com o próximo. E a frieza do demônio fugirá de diante de Sua face.
Onde está Deus, não há nenhum mal. . .
Deus nos mostra Seu amor pelo gênero humano não somente quando fazemos o bem, mas também quando O ofendemos, fazendo por merecer Sua cólera. . .
Não diga que Deus é justo, ensina Isaac (o Sírio) . . . David o chamava "justo" mas Seu filho nos mostrou que Ele é antes bom e misericordioso. Onde está sua justiça? Nós éramos pecadores e Cristo morreu por nós (hom. 90). 
1) O amor de Deus pelo gênero humano. Sim, "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16).
2) O restabelecimento no homem decaído da imagem divina e da semelhança a esta imagem, como canta a Igreja (Primeiro Cânone de Natal, canto 1).
3) A salvação das almas. "Porque Deus enviou o Seu filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele" (João 3:17).
Antes de tudo, é preciso crer em Deus, "pois Ele existe e é remunerador dos que O buscam" (Heb. 11:6)*. A fé, segundo S. Antioquio, é o princípio de nossa união a Deus. . . A fé sem obras é morta (Tia. 2:26). As obras da fé são: o amor, a paz, a longanimidade, a misericórdia, a humildade, a tomada da cruz e a vida segundo o Espírito. Somente uma tal fé conta. Não pode haver verdadeira fé sem obras.
*Nota: Na tradução de J. F. de Almeida, lê-se: "é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que o buscam."

Da Esperança.
Todos os que esperam firmemente em Deus são elevados para Ele e iluminados pela claridade da luz eterna.
Se o homem deixa de lado seus próprios negócios por amor de Deus e para fazer o bem, sabendo que Deus não abandona, sua esperança é sabia e verdadeira. Mas se o homem se ocupa ele mesmo de seus negócios e só se volta para Deus quando lhe acontece algum infortúnio e ele vê que não pode se sair bem por seus próprios meios — tal esperança é artificial e vã. A verdadeira esperança busca antes de tudo o Reino de Deus, persuadida de que tudo o que é necessário à vida aqui embaixo será dado por acréscimo. O coração não consegue ficar em paz antes de adquirir esta esperança.
Aquele que chegou ao perfeito amor de Deus vive neste mundo como se não vivesse nele. Pois ele se considera como estrangeiro àquilo que vê, esperando perfeitamente o invisível. . . Atraído por Deus, aspira unicamente a contemplá-Lo.
É típico do homem pusilânime e de pouca fé ocupar-se demais dos negócios deste mundo. . . Se não levarmos a Deus os bens de que gozamos neste mundo, como podemos esperar d'Ele os bens prometidos no outro? Antes busquemos "O Reino de Deus e sua santidade, e todo o resto será acrescentado" (Mat. 6:33).
É melhor para nós desprezar o que não é nosso, isto é, o que é temporário e passageiro, e desejar o que é nosso, isto é, a incorruptibilidade e a imortalidade. Pois então seremos dignos da visão de Deus face a face, como os Apóstolos durante a divina transfiguração e, semelhantes aos Espíritos celestes, conheceremos a união supra-racional com Deus. Por sermos "iguais aos anjos" e "filhos de Deus, sendo filhos de ressurreição" (Luc. 20:36).
O corpo do homem é semelhante a uma vela. A vela deve se consumir, o homem deve morrer. Mas a alma é imortal e nós devemos nos preocupar com nossa alma mais do que com nosso corpo. "Pois que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou que daria o homem pelo resgate da sua alma?" (Mc 8:36; Mat. 16:26).
"Nós achamos que a alma é mais preciosa do que tudo — disse Macário, o Grande — porque Deus não se dignou unir a nenhuma criatura senão o homem que Ele amou mais do que toda outra criatura (Macário, o Grande, Hom. sobre a liberdade e a Inteligência, cap. 32). Devemos então nos preocupar com nossa alma e fortificar o corpo na medida em que ele contribua à fortificação do espírito.
— Da palavra de Deus, pois a palavra de Deus, como diz Gregório, o Teólogo, é o pão dos anjos com que se nutrem as almas sedentas de Deus.
É preciso também munir a alma de conhecimentos a respeito da Igreja, como ela foi preservada desde o início até os nossos dias, aquilo que ela teve que sofrer. É preciso saber disso não na intenção de governar os homens, mas no caso de questões que podemos ser chamados a responder. Mas, sobretudo é preciso fazê-lo para si mesmo, a fim de adquirir a paz da alma, como diz o Salmista: "Paz àqueles que amam teus preceitos, Senhor" ou "Grande paz aos que amam Tua lei" (Sal. 119:165).
Nota da Ed. Original: Chegamos aqui ao cerne do ensinamento do Staretz que pode se resumir nestas duas afirmações:
1) O objetivo da vida Cristã é adquirir o Espírito Santo.
2) Adquire a paz interior e milhares de almas encontrarão a salvação junto de ti.
Tudo está subordinado à aquisição desta paz: a adesão à Igreja, a "verdadeira" esperança, a ausência das paixões, o perdão das ofensas, a abstenção de julgamento do próximo e, sobretudo, o silêncio interior.
É notável o número de vezes que a palavra Paz aparece nestas Instruções Espirituais.
Não há nada acima da paz em Cristo, pela qual são destruídos os assaltos dos espíritos aéreos e terrestres. "Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade que habitam os espaços celestes" (Efe. 6:12).
Um homem razoável dirige seu espírito para o interior e leva-o a descer em seu coração. Então a graça de Deus o ilumina e ele se encontra em estado pacífico e suprapacífico: pacífico, porque sua consciência está em paz; suprapacífico, porque dentro de si se contempla a graça do Espírito Santo. . .
Poderíamos não nos rejubilar ao ver, com nossos olhos de carne, o sol? Maior ainda é nossa alegria quando nosso espírito, com o olho interior, vê o Cristo de justiça. Aí compartilhamos a alegria dos anjos. O apóstolo disse a este respeito: "Nossa cidade está nos céus" (Fil. 3:20).
Aquele que anda em paz ajunta, como que com uma colher, os dons da graça.
Os Padres, estando em paz e na graça de Deus viviam até uma idade avançada.
Quando um homem adquire a paz, ele pode derramar sobre os outros a luz que ilumina o espírito. . . Mas deve se lembrar das palavras do Senhor: "Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o arqueiro do olho de teu irmão" (Mat. 7:5).
Nosso Senhor Jesus Cristo deixou esta paz a seus discípulos antes de Sua morte como um tesouro inestimável, dizendo: "Deixo-vos a Minha paz, a Minha paz vos dou" (Jn 14:27). O Apostolo fala também nestes termos: "E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus" (Fil. 4:7). *
Se o homem não despreza os bens deste mundo, não pode ter a paz.
A paz se adquire por intermédio de tribulações. Aquele que quer agradar a Deus deve passar por muitas provas.
Nada contribui mais à paz interior do que o silêncio e, se possível, a conversação incessante consigo mesmo e rara com os outros.
Nós devemos então concentrar nossos pensamentos, desejos e ações na aquisição da paz de Deus e exclamar incessantemente com a Igreja "Senhor! Dai-nos a paz!"**
Com todas as forças é preciso tentar salvaguardar a paz da alma e não se indignar quando os outros nos ofendem. É preciso se abster de toda cólera e preservar a inteligência e o coração de todo movimento impensado.
Um exemplo de moderação nos foi dado por Gregório, o Taumaturgo. Abordado em uma praça pública por uma mulher da vida que exigia o preço do adultério que ele teria cometido com ela, ao invés de se aborrecer, disse tranquilamente a seu amigo: Dê a ela o que pede. Tendo pego o dinheiro, a mulher foi derrubada por um demônio. Mas o Santo expulsou o demônio pela oração (vida de S. Gregório).
Se é impossível não se indignar, é preciso ao menos frear a língua. . .
Para manter a paz, é preciso expulsar a melancolia e tratar de ter o espírito jubiloso. . .
Quando um homem não pode provar suas próprias necessidades, é difícil para ele vencer o desencorajamento. Mas isso concerne as almas fracas.
Para manter a paz interior, é preciso evitar julgar os outros. É preciso entrar em si mesmo e se perguntar: Onde estou?
É preciso evitar que nossos sentidos, especialmente a visão, nos distraiam: pois os dons da graça só pertencem àqueles que oram e tomam cuidado com sua alma.
Da Guarda do Coração.
Devemos cuidar de preservar nosso coração de pensamentos e impressões indecentes. "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida (Pro. 4:23). Assim, nasce no coração a pureza." "Bem aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus" (Mat. 5:8).
Não devemos difundir inutilmente no exterior aquilo que entrou de bom no coração: pois aquilo que foi colhido somente pode estar abrigado dos inimigos visíveis e invisíveis se nós o guardamos no fundo do coração, como um tesouro.
O coração, aquecido pelo fogo divino, ferve quando está cheio de água viva. Se esta água é derramada no exterior, o coração se resfria e o homem fica como que gelado.
Devemos nos libertar de todo pensamento impuro, sobretudo oferecendo nossas orações a Deus, para não misturar o fedor aos aromas.
Devemos rejeitar imediatamente os pensamentos tentadores. . . prestando atenção principalmente à gula, à avareza e à vaidade. . .
Se nos opusermos ao que o demônio nos sopra ao ouvido, fazemos bem.
O demônio só pode influenciar os apaixonados. Não pode se aproximar senão do exterior daqueles que se purificaram de suas paixões. Pode o homem evitar, desde a juventude, ser perturbado por tentações carnais? Deve orar ao Senhor para que se apague desde o princípio a faísca do vício. . .
Quando o homem recebe em seu coração algo divino, ele se rejubila; quando é algo demoníaco, ele fica perturbado.
Aquele que quer a salvação deve dispor o coração à contrição e ao arrependimento: "Meu sacrifício é um espírito quebrantado, a um coração quebrantado e contrito não desprezarás" (Sal. 51:17).
Com o espírito contrito, o homem pode tranquilamente atravessar as emboscadas do demônio cuja maior atribuição é perturbar seu espírito e semear o joio, segundo as palavras evangélicas: "Senhor, não semeaste Tu no Teu campo boa semente? Por que tem então joio?" (Mat. l3:27-28). Mas se o homem conserva um coração humilde e pensamentos pacíficos, todos os ataques do demônio ficam sem efeito.
A contrição começa pelo Temor de Deus, diz o Mártir Bonifácio. Deste temor nasce a atenção, mãe da paz interior e da consciência que permite à alma ver, como em uma água pura e límpida, sua própria feiúra. . .
Durante toda nossa vida não fazemos outra coisa senão ofender a majestade de Deus. Devemos então nos humilhar diante dEle, pedindo perdão por nossos erros.
É possível uma nova elevação se o homem cai após ter estado na graça? Sim.
Exemplo: aquele anacoreta que, ao ir buscar água na fonte, encontrou uma mulher com quem caiu em pecado. Voltando para casa, mesmo se dando conta do erro cometido, continuou a viver como asceta, apesar dos conselhos do maligno que tentava desviá-lo de sua rota sob pretexto de que ele havia pecado. Deus deu a conhecer o caso a um ancião, encarregando-o de ir louvar o jovem monge por sua vitória sobre o demônio.
Quando nos arrependemos sinceramente de nossos erros e nos voltamos para Nosso Senhor Jesus Cristo de todo coração, Ele rejubila, e convida para a festa todos os espíritos amigos, mostrando-lhes a dama reencontrada. . .
Não hesitemos, então, em voltarmos-nos para nosso misericordioso Senhor, sem nos entregarmos nem à despreocupação, nem ao desespero. O desespero é a maior alegria do demônio. É o pecado mortal de que fala a Escritura (l João 5:16).
A contrição consiste, entre outras, em não cair novamente no mesmo pecado.
Aqueles que decidiram verdadeiramente servir a Deus devem se aplicar em guardar constantemente sua lembrança no coração e orar incessantemente a Jesus Cristo, repetindo interiormente: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, Tem piedade de mim, pecador. . .
Agindo assim, e guardando-se das distrações, mantendo a consciência em paz, podemos nos aproximar de Deus e nos unir a Ele. Pois, diz S. Isaac o Sírio, fora a oração ininterrupta, não há outro meio de se aproximar de Deus (Hom 69).
Na Igreja, é bom ficar de olhos fechados, para evitar as distrações; podemos abri-los se sentirmos sono; é preciso então pousar o olhar sobre um dos ícones ou uma vela acesa diante de um deles.
Se durante a oração nosso espírito se dissipa, é preciso se humilhar diante de Deus e pedir perdão. . . pois, como diz S. Macário, "o inimigo não aspira senão a desviar nosso pensamento de Deus, de Seu temor e de Seu amor" (Hom 2, cap. XV).
Quando a inteligência e o coração estão unidos em oração e a alma não é perturbada por nada, o coração se enche de calor espiritual, e a luz do Cristo inunda de paz e de alegria todo o homem interior.
A fim de receber no coração a luz de Cristo, é preciso, tanto quanto possível, desligar-se de todos os objetos visíveis. Tendo antes purificado a alma pela contrição e as boas obras, e cheios de fé em Cristo Crucificado, tendo fechado os olhos de carne, o homem deve mergulhar o espírito no coração para chamar o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo; então, na medida de sua assiduidade e fervor para com o Bem Amado, ele encontra no Nome invocado consolo e doçura, o que o incita a buscar um conhecimento mais elevado.
Quando por meio de tais exercícios o espírito se enraíza no coração, a luz de Cristo vem brilhar no interior, iluminando a alma com sua divina claridade, como diz o profeta Malaquias: "Mas para vós, que temeis seu Nome, o sol de justiça brilhará, que tem a cura em seus raios" (Mal. l 3:20). * Esta luz é também a vida, segundo a palavra do Evangelho "De todo ser Ele era a vida, e a vida era a luz dos homens" (João 1:4).
Quando o homem contempla dentro de si esta luz eterna, ele esquece tudo o que é carnal, esquece-se a si mesmo e deseja se esconder nas profundezas da terra para não ser privado deste bem único Deus.
Aquele que segue a via da atenção não deve se fiar unicamente a seu próprio entendimento, mas deve se referir às Escrituras e comparar os movimentos de seu coração, e sua vida, à vida e à atividade dos ascetas que o precederam. Assim, é mais fácil se preservar do maligno e ver claramente a verdade.
O espírito de um homem atento é comparável a uma sentinela velando pela Jerusalém interior. A sua atenção não escapa nem "o diabo (que) anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar" (l Ped. 5:8), nem aqueles que "põem as flechas na corda, para com elas atirarem, a ocultas, aos retos de coração (Sal. 11:2). Ele segue o ensinamento do Apóstolo Paulo, que disse "Portanto tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau" (Efe. 6:13).
Aquele que segue este caminho não deve dar atenção aos rumores que correm nem se ocupa dos negócios dos outros. . . e sim, orar ao Senhor: "De meu mal secreto, purifica-me" (Sal. 19:12).
"Entre em si mesmo — dizia o staretz, parafraseando S. Isaac o Sírio — e veja que paixões se enfraqueceram em você, quais se calam, em conseqüência da cura de sua alma; quais foram aniquiladas e o largaram completamente, veja se uma carne firme e viva começa a crescer sobre a fenda de sua alma — essa carne firme é a paz interior. Veja também que paixões sobraram ainda — corporais ou espirituais? E como reage sua inteligência? Ela entra em guerra com estas paixões ou finge que não as vê? E novas paixões não se formaram? Estando assim, atento, você pode conhecer a medida da saúde da sua alma."
É preciso que o homem esteja atento no começo e no fim de sua vida, sendo o meio indiferente — com aquilo que ele tem de alegria ou tristeza.
O homem que busca seguir a via da atenção interior deve ter, a tes de tudo, o temor de Deus que é o princípio da sabedoria, lembrando-se das palavras do salmista: "Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos com tremor" (Sal. 2:11).
Ele deve seguir esta via com prudência e respeito pelo sagrado. . . "Maldito aquele que fizer a obra do Senhor fraudulentamente" (Jr 48:19).
Aquele que teme Deus faz bem tudo o que faz, por amor a Ele.
Quanto ao diabo, é preciso não temê-lo; aquele que teme Deus derrotará o diabo; diante dele, o diabo é impotente.
Há dois tipos de temor: se você não quer fazer o mal, tema a Deus e não o faça; se você quer fazer o bem, tema a Deus e o faça.
Um homem não pode adquirir o temor de Deus antes de se livrar das preocupações deste mundo. Liberto das preocupações, o espírito é levado pelo temor de Deus para o amor de sua misericórdia.
O temor de Deus se adquire quando o homem, tendo se desviado do mundo e de tudo o que está no mundo, concentra seus pensamentos e sentimentos na lei divina e mergulha por inteiro na contemplação de Deus e na busca da beatitude prometida aos santos. . .
O homem, corpo e alma, é chamado a seguir uma via dupla — a da ação e da contemplação.
A via ativa compreende: o jejum, a abstinência, as vigílias, as genuflexões, a oração — "Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem" (Mat. 7:14).
A via contemplativa consiste na elevação do espírito para Deus, a atenção interior, a oração pura e, por meio destes exercícios, a contemplação das coisas espirituais.
Aquele que aspira à vida contemplativa deve começar pela vida ativa. . . pois é impossível ter acesso à vida contemplativa sem passar pela vida ativa.
A vida ativa serve para nos purificar de nossas paixões pecadoras. . . pois, somente os puros podem se engajar na via da contemplação. . . São Gregório Teólogo disse: "A contemplação só não é perigosa para os perfeitamente experientes" (Hom. Sobre a Páscoa).
É preciso abordar a vida contemplativa com temor e tremor, com um coração humilde e contrito, após ter consultado longamente as Santas Escrituras e, de preferência sob a direção de um staretz iniciado, e não temeriamente e com uma vontade própria caprichosa. *
Não se deve abandonar a vida ativa mesmo após haver passado, por seu intermédio, à vida contemplativa; pois ela é um enriquecimento para a vida contemplativa, ajudando em sua elevação.
Não se deve fazer nada em excesso, mas tratar de permitir a nosso amigo, o corpo, permanecer fiel e concorrer para o desenvolvimento das virtudes.
O caminho do meio é o melhor. . . Ao espírito deve-se dar o que é espiritual, ao corpo — o necessário. Não se deve tampouco recusar à vida social aquilo que ela exige de nós legitimamente. "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mat. 22:21).
A um jovem noviço que vinha lhe pedir a permissão de usar cilício e correntes, o Staretz respondia rindo: "O que você quer que eu diga? Se um bebê viesse me pedir isso, o que lhe responderia? Um homem que bebe e come segundo sua fome, que dorme à vontade, que não consegue agüentar a menor reprimenda da parte do seu superior sem cair no desencorajamento, está maduro para carregar corrente e um cilício?"
É preciso ser paciente consigo mesmo e agüentar os próprios defeitos como se agüenta os do próximo, mas sem se deixar levar pela preguiça e se esforçando constantemente em melhorar.
Se comermos demais ou fizermos algo de condenável por fraqueza humana, não nos indignemos, não acrescentemos um mal a outro, mas, mantendo a paz interior, apliquemos-nos corajosamente em nos reerguermos. A virtude não é uma pêra que se come de uma vez só.
Não é qualquer um que está apto a se sujeitar a uma regra severa e a se privar de tudo o que pode aliviar seus males. Insensato é aquele que enfraquece voluntariamente seu corpo, mesmo na intenção de chegar à perfeição.
Não empreenda nada que esteja além de suas forças. Senão você cai e o inimigo zombará de você.
Alguns colheram muito durante a juventude, mas, no meio da vida, tendo sido tentados pelos demônios (especialmente o da luxúria), não souberam resistir e perderam tudo.
Cada um deve estar atento para medir suas próprias capacidades.
Devemos atribuir todo progresso de Deus e repetir como salmista: "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Teu nome da glória" (Sal. 115:1).
É preciso sempre desconfiar dos ataques do demônio. Como podemos esperar que ele nos deixe em paz quando ousou atacar o próprio Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo? É preciso chamar sempre por Deus e rogar-lhe humildemente para que a tentação não esteja acima de nossas forças, e para que Ele nos livre do maligno.
Quando Deus abandona o homem a si mesmo, o diabo está pronto a reduzi-lo a pó, como uma mó a um grão de trigo.
No monge, ao espírito de tristeza junta-se o do tédio. "Este tédio — observaram os padres — domina o monge por volta de meio dia e coloca-o em tal estado de inquietude que ele não consegue suportar nem seu recanto, nem os irmãos que o cercam; provoca-lhe a falta de gosto pela leitura e a vontade de bocejar e comer. Uma vez de barriga cheia, o demônio do tédio inspira ao monge o desejo de sair de sua cela para conversar com alguém, como se a conversa fosse o único meio de se livrar do tédio. . . Se não consegue fazer o monge sair da cela, o demônio trata de distrair seu espírito durante a leitura e durante a oração. Isto aqui está fora do lugar, sugere ele, e aquilo ali deve ser posto lá. . . O objetivo destas distrações é tornar o espírito ocioso e estéril."
Uma coisa é o tédio — outra é o desencorajamento. Acontece que o homem, neste estado de espírito, preferiria se destruir ou ficar privado de conhecimento a permanecer neste vago tormento. É preciso sair dele o mais rápido possível. Guarde-se do espírito de desencorajamento pois todo mal nasce dele.
Para salvaguardar a paz interior, é preciso então fugir da tristeza e tratar de ter o espírito sempre alegre, pois, segundo o Sirácida, a tristeza mata e não tem nenhuma utilidade. "A tristeza segundo Deus opera um arrependimento para a salvação, mas a tristeza do mundo opera a morte" (2 Cor. 7:10).
Pior do que tudo é o desespero. É a maior alegria do demônio. É o "pecado mortal" de que fala a Escritura (l João 5:16).
O corpo é escravo da alma. A alma é rainha. Quando o corpo é enfraquecido pela doença, é um sinal da misericórdia de Deus: a doença enfraquece as paixões, o homem volta a si. Até acontece que a doença seja gerada pelas paixões. Tire o pecado — as doenças desaparecerão, afirma S. Basílio, o Grande. O Senhor criou o corpo, não a doença, a alma e não o pecado. O que então é salutar e necessário? A união com Deus é uma troca de amor com Ele. É perdendo o amor que nos separamos de Deus e, separados, nos tornamos presa de diversos males. Ao contrário, para aquele que suporta a doença com paciência, ela é contada como equivalente a uma "façanha" ascética, e até mais.
É preciso tratar o próximo com doçura, tomando cuidado em não ofendê-lo de jeito nenhum.
Quando evitamos ou ofendemos alguém, é como se colocássemos uma pedra sobre nosso coração.
É preciso devolver a coragem a um homem desamparado e perturbado, com uma palavra afetuosa.
"Joga teu casaco sobre o pecador para cobri-lo," aconselha Isaac, o Sírio (Hom 89).
Ao se aproximar dos homens, é preciso ser puro em palavras e espírito, igual para com todos, nunca elogiar ninguém — senão tornaremos nossa vida inútil.
Devemos amar o nosso próximo não menos do que a nós mesmos, segundo o preceito do Senhor: "Ama a teu próximo como a ti mesmo" (Luc. 10:27), mas de tal forma que, permanecendo nos limites da moderação, este amor não nos afaste do primeiro e mais importante mandamento: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que Mim não é digno de Mim" (Mat. 10:37).
São Dimitri de Rostov se exprime bem a este respeito (Segunda parte, sermão 2): "Constata-se em um cristão um amor imperfeito quando ele compara a criatura ao Criador, ou tem mais olhos para ela do que para o Criador; e um amor verdadeiro quando somente o Criador é perfeito e amado acima de qualquer criatura"!
É preciso não julgar, mesmo se, com nossos próprios olhos, vemos alguém pecando e infringindo os preceitos divinos. Critique a má ação, mas não aquele que a fez. Não cabe a nos julgar, e sim ao Juiz Supremo.
"Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mat. 7:1), e ainda: "Quem és tu para julgar o servo alheio? que ele fique em pé ou caia, isso é com seu patrão; mas, ele ficará em pé, pois o Senhor tem a força para sustentá-lo" (Rom. 14:4). *
Não sabemos quanto tempo nós mesmos conseguiremos perseverar na virtude. "Eu dizia na minha prosperidade: não vacilarei jamais. Tu, Senhor, pelo teu favor fizeste forte a minha montanha; tu encobriste o Teu rosto, e fiquei perturbado" (Sal. 30:6-7).
Devemos considerar a nós mesmos como os piores culpados, perdoar ao próximo toda transgressão e só odiar o demônio que o tentou. Pode nos parecer às vezes que o outro faz o mal, enquanto que na realidade, por causa de sua boa intenção, ele faz o bem. A porta do arrependimento está aberta para todos e não se sabe quem será o primeiro a entrar — você que julga, ou aquele que é julgado por você.
Para não julgar, é preciso prestar atenção a si mesmo, não aceitar idéias alheias de ninguém, e ficar morto para tudo. Julgue-se a si mesmo, e você vai parar de julgar os outros.
Não se deve nunca vingar uma ofensa, qualquer que seja, mas, ao contrário, perdoar de todo coração aquele que nos ofendeu, mesmo se nosso coração se opõe. "Se não perdoardes aos homens, também vosso pai vos não perdoará as vossas ofensas" (Mat. 6:15), e ainda: "Amai a vossos inimigos, orai pelos que vos maltratam" (Mat. 5:44).
Se a sua honra é atacada, faça o máximo para perdoar. . . "e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir" (Luc. 6:30).
Deus nos recomenda a inimizade unicamente para com a serpente que, desde o começo, induziu o homem em tentação e expulsou-o do paraíso.
Pensemos em David, Jó, em todos os santos agradáveis a Deus que vieram ignorando o ódio.
Se nós também vivemos assim, podemos esperar que a luz divina brilhe em nossos corações, iluminando nosso caminho para a Jerusalém celeste.
É preciso suportar tudo, o que quer que aconteça, com paciência e até com reconhecimento pelo amor de Deus.
Você é acusado — responda com elogios: é perseguido — agüente; fazem-lhe críticas — não as faça.
Sofra em silêncio o ultraje do inimigo, e abra seu coração somente a Deus.
Humilhemos-nos, e veremos a glória de Deus, pois onde ha humildade a glória se manifesta. Assim como a cera sem ser aquecida e amolecida não pode receber a marca o selo, a alma não pode receber o selo divino sem haver antes passado por provas e tribulações. Quando o demônio deixou o Senhor no deserto, os anjos se aproximaram d'Ele para servi-lo (Mat. 4:11). Se eles se afastam de nós durante as tentações, eles não vão longe, e voltam logo. . .
Não agradeçamos a Deus somente na prosperidade. . .
O Apóstolo Tiago nos ensina: "Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em varias tentações. . . Bem aventurado o varão que sofre a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que O amam" (Tia. 1:2, 12).
Seja misericordioso para com os pobres e os peregrinos. Os Padres, luminares da Igreja, velavam assiduamente por eles.
Quanto a esta virtude, devemos nos conformar ao mandamento divino: "Sede, pois misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso" (Luc. 6:36), e ainda: "Misericórdia quero, e não sacrifício" (Mat. 9:13).
Os sábios estão atentos a estas palavras, enquanto que os outros não a escutam. Eis porque a recompensa será diferente: "O que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância também ceifará" (2 Lo 9:6).
É preciso dar esmola com benevolência, segundo o ensinamento de S. Isaac, o Sírio (Hom. 89): . . ". que a alegria de teu rosto preceda a oferta, e que tuas boas palavras consolem a miséria."
"Dê sempre — em qualquer lugar" dizia o staretz. E acrescentava: "Aquele que dá com alegria é amado por Deus. A esmola feita assim, mesmo se for insuficiente, traz consigo uma recompensa" (2 Lo 9:7-8).
Estas instruções são como que um resumo da espiritualidade do Staretz de Sarov. Dirigem-se elas àqueles que aspiram à vida monástica? Só perguntaríamos isto se não soubéssemos que a ortodoxia traça poucas fronteiras fixas entre religiosos e "leigos".
Ao acordar, todo cristão, em pé diante dos ícones, deve recitar a oração dominical "Pai Nosso" três vezes, em honra da Santíssima Trindade; em seguida o canto à Virgem: "Rejubila ó Virgem, Mãe de Deus" (na Ed. Original é equivalente à Ave Maria); também três vezes e, finalmente, o Credo, uma vez — após orar assim, que cada cristão trate de seus afazeres. Trabalhando, em casa, ou fora, no caminho, deve repetir suavemente: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador" e se não está sozinho, deve dizer interiormente: "Senhor, tem piedade" e assim até o meio dia.
Antes de comer, deve repetir a regra matinal.
À tarde, cada cristão, ocupando-se de seus afazeres, deve dizer: "Santa Mãe de Deus, salva-me, pecador, ou: "Senhor Jesus Cristo, pela intercessão da Tua Santa Mãe, tem piedade de mim, pecador (ou pecadora)."
Na hora de ir dormir, cada cristão deve recitar de novo a mesma regra da manhã; depois deve ir dormir, após ter feito o sinal da cruz.
Seguindo esta regra, dizia o Staretz, pode-se chegar ao cume da perfeição cristã, pois as três orações que ela compreende estão na própria base do Cristianismo. A primeira foi dada pelo próprio Senhor e serve de exemplo a todas as outras; a segunda é um canto trazido do céu pelo Arcanjo para saudar a Virgem Maria, mãe de Deus; quanto ao Credo, contém de forma breve todos os dogmas da fé Cristã.
Àqueles que não tinham sequer a possibilidade de recitar esta regra diante dos ícones, o Staretz permitia recitá-lo na cama, andando, trabalhando, pois foi dito: "Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo." Quanto àqueles que têm mais tempo do que necessário para completar esta regra, e que são instruídos, podem acrescentar outras orações, a leitura dos cânones, dos acatistas, dos salmos, do Evangelho e das Epístolas.
Comparando esta regra àquela dada outrora pelo Staretz as monjas de Diveyevo, percebe-se que a diferença não é grande. O "Pai Nosso" a "Ave Maria" e o Credo formam a base. O mais difícil é comum às duas: "sustentar" a oração interior, ao longo do dia, no espírito, unido ao coração. Ela é "a vitória invisível" "a estrela que nos guia no caminho do Reino."
Tanto a leigos como a religiosos o Staretz aconselhava a comunhão freqüente. "Sempre que possível. Aquele que não comunga só uma vez por ano, mas frequentemente — dizia — será abençoado desde aqui embaixo. Creio que a graça se difunde também por sobre a descendência daquele que comunga. Um justo conta mais diante de Deus do que milhares de ímpios."
É preciso acrescentar que a regra seguida cotidianamente pelo próprio staretz não era tão simples nem tão curta. Compreendia um grande número de orações, invocações, tropários, kondakions, catismas* que deixamos de traduzir. Pode-se encontrá-la, resumida, no livro de N. Levitsky (pp. 643-646), assim como em V. I. Ilyn "São Serafim de Sarov" (em russo).
*Nota: (da Ed. Original) Tropários, Kodakions, Catismas, são hinos que fazem parte do ciclo liturgico da Igreja Ortodoxa.
Gostaríamos somente de citar aqui uma oração de penitência — a de S. Efrem o Sírio — que os fiéis recitam com amor e contrição durante a Grande Quaresma, e que o staretz havia incluído em sua regra cotidiana por sua grande beleza e sua íntima correspondência com o espírito da ortodoxia.

Senhor e Mestre de minha vida
afasta de mim o espírito de preguiça
o espírito de dissipação
de domínio e de vã loquacidade
Metanóia


Concede a teu servo
o espírito de temperança
de humildade
de paciência e de caridade
Metanóia

Sim, Senhor e Rei
concede-me que veja as minhas faltas
e que não julgue a meu irmão
Pois tu és bendito pelos séculos dos séculos
Metanóia

Amém.

"Curvado sob o peso da cruz,
Tendo tomado o aspecto de um escravo,
Percorreste, ô Rei do Céu,
Toda nossa terra natal
Abençoando-a."

P.s Quem desejar o livro, favor postar na área -Comentários - que enviarei com prazer por email.

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