Total de visualizações de página

quinta-feira, 14 de abril de 2011

DIACONADO


I-O DIACONADO PERMANENTE NA VIDA E NA
MISSÃO DA IGREJA

A - ASPECTOS HISTÓRICOS
 A Igreja primitiva
 O diaconado é um ministério que já esteve presente nos primórdios da Igreja. Os documentos do Magistério situam a sua origem na escolha dos sete homens "de boa reputação, repletos do Espírito e de sabedoria" (At 6,1-6), embora o texto não fale explicitamente de diáconos, ao menos no sentido atual do termo, mas sim de ministros. Referências explícitas a eles encontram-se nas cartas de Paulo (Fl 1,1 e 1Tm 3,8-13).
 O ministério diaconal, nos primeiros séculos, assume a dimensão da caridade, juntamente com o serviço ao culto e à pastoral. Nas primeiras comunidades cristãs percebemos uma consciência de que a diaconia é a expressão concreta do amor. “Pela caridade, colocai-vos a serviço uns dos outros.” (Gl 5,13). A diaconia é vivida como conseqüência do seguimento de Jesus, na humildade, na pobreza, na obediência, na disponibilidade, na entrega até o martírio, no compartilhar bens, dores, alegrias, aspirações. Já nas comunidades do primeiro século temos uma organização caritativa da Igreja que provoca admiração entre os pagãos e certamente é a grande atração e motivo de conversão de tantos ao cristianismo. É pela diaconia da acolhida nas casas, pela diaconia da coleta, diaconia das refeições, diaconia da palavra, pela diaconia da administração dos bens, que as comunidades tornam-se lugar da realização de uma sociedade sem necessitados entre eles.
 O Concílio Vaticano II (LG 29) restaurou o diaconado como grau próprio e permanente da hierarquia e estabeleceu condições teológico-pastorais favoráveis para que esse ministério pudesse desenvolver-se plenamente, entre as quais ressaltam-se: a eclesiologia de comunhão e participação; a teologia da diversidade dos carismas e ministérios; o poder como serviço; além da própria necessidade pastoral.

B - FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS
1. A diaconia de Cristo
 No meio do seu povo e para sua salvação, Deus suscita profetas, sacerdotes e reis. Esses ministérios do Antigo Testamento prefiguram o Cristo Profeta, Sacerdote e Pastor. O ministério apostólico encontra na missão de Cristo seu fundamento e modelo (LG 10). O Filho de Deus, que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos (Mt 20,28), testemunhou e ensinou que quem quiser ser o maior, seja o servo de todos (Mc 10,42-45).
 Cristo, Profeta, Sacerdote e Pastor é enviado pelo Pai como Servidor de sua Vontade, para realizar, pela força do Espírito Santo, de maneira plena e definitiva, o projeto de salvação da humanidade. Esse caráter escatológico da obra salvífica de Cristo confere ao seu ministério novidade e superioridade absolutas em relação aos ministérios de todos os tempos. A missão e o ministério de Cristo constituem a fonte dos ministérios e o modelo da ministerialidade da Igreja.

2. A missão da Igreja
 Cristo, o enviado do Pai, realizou sua missão profética (Mt 7,29; Mc 1,14-22) e confiou aos Doze a sua continuidade, a fim de que o Evangelho fosse anunciado a todas as nações (Mt 24,14). Os Apóstolos se tornaram ministros da Palavra (Lc 1,2) e, conduzidos na Verdade pelo Paráclito (Jo 16,13), não cessaram de testemunhar o Reino de Deus e a soberania de Cristo Ressuscitado (At 2,36).
 O ministério apostólico perdura até hoje na Igreja. É transmitido de geração em geração graças à sucessão apostólica que assegura a continuidade entre os ministérios atuais e o ministério dos Apóstolos e une a missão histórica dos Doze à missão de Cristo. O mesmo dom do Espírito Santo garante a identidade da missão (LG 20).
 O Bom Pastor, que deu a vida pelas ovelhas (Jo 10,15) e recriminou o mercenarismo (Jo 10,12), deixou claro que todo ministério profético, sacerdotal e pastoral não é um privilégio, pois é sacramento de sua diaconia para todos . Assim como Cristo assumiu em tudo a condição humana, menos no pecado, também a Igreja é chamada a testemunhar a diaconia de Cristo compartilhando “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem (GS 1). Comunidade dos salvos (At 2,48), corpo do Senhor (1Cor 12,27), esposa de Cristo (Ef 5,25), povo messiânico (LG 9), sacramento de salvação (LG 48), constituída e organizada como realidade teândrica (LG 8), a Igreja recebeu a missão de anunciar o Reino de Deus e de estabelecê-lo no meio de todos os povos (LG 5).
 A missão da Igreja, por natureza, reveste-se de caráter universal. Também através da ordenação, ela coloca seus ministros em estado de missão confiando-lhes a mesma tarefa que recebeu de seu Fundador: a unidade e a salvação do gênero humano. Em tudo o que se refere aos ministros da Igreja prevalece sempre a iniciativa absoluta e gratuita de Deus (LG 48; AG 5-7).


3. O ministério diaconal
 No contexto da ministerialidade da Igreja e, mais especificamente, no âmbito do ministério ordenado, o diácono define-se como sacramento de Cristo Servo e como expressão da Igreja servidora.
O Concílio afirma que os diáconos constituem um grau do Sacramento da Ordem (LG 29). É necessário esclarecer, então, o conceito de ministério ordenado para, em seguida, analisar as relações dos diáconos com os Bispos, com os presbíteros e com os leigos.
 No sentido cristão, o ministério ordenado, instituído por Cristo, é participação na missão de Cristo e, assim, expressão do poder de Deus. É, neste sentido, que se trata de um serviço único e insubstituível prestado à comunidade (2Cor 5,20). O espírito que anima a hierarquia, ressaltado em Lucas (22,27), está longe de qualquer dominação. Jesus rejeita atitudes de domínio e autoritarismo (Mt 4,8-10; Jo 6,15; Mt 16,21-23; 16,1-6; 20,20-28).
 A Igreja reconhece que o ministério eclesiástico foi instituído por Cristo, e desde os tempos apostólicos exercido pelos bispos, presbíteros e diáconos (cf. LG 28). Portanto, é de instituição divina. Cristo confere aos Apóstolos os poderes e as atribuições inerentes à vida e à ação da Igreja. Cabe, pois, à Igreja estabelecer os espaços dessa participação no ministério sacramental. O Presbiterado e o diaconado desde o início são considerados inerentes ao sacramento da Ordem, que tem a sua plenitude no episcopado, (LG 21).
O relacionamento dos três graus realiza-se através da unidade do sacramento e da diversidade de carismas e funções (LG 20; 28). Cada um dos três graus faz parte do único sacramento da Ordem e exprime, de modo oficial e público, o tríplice ministério de Cristo, Profeta, Sacerdote e Pastor. Se, de um lado, a diaconia, a exemplo de Cristo, é comum a todos os cristãos, de outro, existe uma forma específica, marcada sacramentalmente de participação no mistério de Cristo, Palavra definitiva do Pai, que constitui a essência do ministério diaconal. Por esse motivo, já no seu início, a Igreja valorizava o carisma e a missão dos diáconos. Pela imposição das mãos do bispo, ele recebe, publicamente, de modo irrevogável e definitivo, o mandato e a missão do serviço.
A identidade do diácono se encontra, antes de tudo, na ordem do ser. Ele recebe uma graça sacramental que determina o espírito com que exerce o seu ministério. Por isso, não deve, em primeiro lugar, ser definido a partir das funções ou dos poderes que lhe são confiados. Ele recebe uma marca indelével através da ordenação sacramental. É na sua significação que se encontra a especi­ficidade do diaconado (Cf. DP 698).
Além disso, a razão última do diaconado não deve ser procurada apenas no exercício externo de determinadas funções, mas na participação especial da diaconia de Cristo, pela força do Espírito, através do sacramento da Ordem. Ao exercer seu ministério, desempenhando, muitas vezes, as mesmas funções do presbítero, ou até mesmo aquelas que os leigos e leigas podem fazer, o diácono as realizará de um modo novo, não só marcado por uma graça específica que o configura a Cristo Servidor, mas igualmente por uma comunhão hierárquica, sacramentalmente constituída, pela qual o ministro participa de modo singular da Igreja, sacramento de salvação, sinal escatológico da revelação de Deus em Jesus Cristo.
4 -  Missão específica do diácono
 O Concílio afirma: "São-lhes impostas as mãos, não para o sacerdócio, mas para o ministério" (LG 29). Convém analisar o que significa esse ministério atribuído ao diaconado e determinar as relações existentes entre o diácono, o presbítero e o bispo.
O diácono não pode ser definido apenas a partir das funções que exerce. É preciso especificar qual a contribuição que o diaconado oferece para que o sinal eclesial da salvação de Cristo seja mais visível e responda às necessidades do mundo atual.
A missão do diácono está ligada ao Cristo-Servo. Ele coloca em evidência e potencializa para todo o povo de Deus a dimensão de serviço. Sua veste característica é a estola que lembra a toalha do lava-pés, gesto da atitude diaconal de Cristo. Ser ícone de Cristo-Servidor constitui a identidade profunda do diácono. Ao vê-lo deveríamos ser interpelados aos gestos concretos e à alegria do serviço.[6]
O diácono permanente, por sua condição de ministro ordenado e inserido nas complexas situações humanas, tem um amplo campo de serviço em nosso Continente. Através da vivência da dupla sacramentalidade, a do Matrimônio e a da Ordem, ele realiza seu serviço, detectando e promovendo líderes, promovendo a co-respon­sabilidade de todos para uma cultura da reconciliação e da solidariedade... principalmente nas zonas rurais distantes e nas grandes áreas urbanas densamente povoadas, onde só através dele um ministro ordenado se faz presente" (SD 76-77).
5 - Tríplice missão.
 Dentro da realidade sócio-econômica-politico-cultural em que vivemos, situa-se o ministério do diácono sempre em três âmbitos bem definidos: a ação litúrgica, a evangelização e o serviço da caridade.
 A diaconia da Caridade
 A promoção da caridade e do serviço constitui um campo de evangelização vasto e diversificado. O diácono testemunha a presença viva da caridade de toda a Igreja e contribui para a edificação do Corpo de Cristo, reunindo a comunidade dispersa, desenvolvendo o senso comunitário e o espírito de família. Vai ao encontro das pessoas de qualquer religião ou raça, classe ou situação social fazendo-se um servidor de todos como Jesus.
Na promoção social e na vivência das obras de misericórdia, o diácono assume a opção preferencial pelos pobres, marginalizados e excluídos. Ele é apóstolo da caridade com os pobres, envolvido com a conquista da sua dignidade e dos seus direitos econômicos, políticos e sociais. Está próximo da dor do mundo. Deixa-se tocar e sensibilizar pela miséria e provações da vida e reveste-se de especial compaixão pelos pobres, pelos desempregados, sem-terra, sofredores de rua.[10] Em razão da graça sacramental recebida e da missão canônica, compete aos diáconos administrar os bens e as obras de caridade e promoção social da Igreja.[11].
 A diaconia da Palavra
57. A Igreja nasce da ação evangelizadora de Cristo e da vinda do Espírito Santo, e permanece no mundo como sinal da presença do Reino. A evangelização é missão primordial da Igreja: Ela "existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o Sacrifício de Cristo na Santa Missa, que é memorial de sua morte e gloriosa ressurreição” (EN 14).
 O diácono, antes de ser servidor da Palavra, será discípulo e ouvinte. Com freqüência fará a leitura meditada e orante da Sagrada Escritura, que é a escuta humilde e cheia de amor daquele que fala. A familiaridade com a Palavra de Deus facilitará o itinerário de conversão não apenas para separar-se do mal e aderir ao bem, mas também para alimentar no coração os pensamentos de Deus, de modo que a fé como resposta à Palavra de Deus se torne o novo critério de juízo e avaliação das pessoas e dos acontecimentos[12].
A missão evangelizadora do diácono não se restringe à homilia ou ao anúncio da Palavra no contexto litúrgico. Como anunciador da Palavra, ele dá, antes de tudo, o testemunho de um ouvinte assíduo e convicto do Evangelho. Transmite à comunidade a Palavra redentora, da qual ele próprio já experimentou o poder de transformação. Identifica-se com a Palavra anunciada; é, em sentido pleno, servidor da Palavra. Anuncia a Palavra de Deus com a autoridade que nasce, especialmente, da convivência com o Evangelho.

 A diaconia da Liturgia
A diaconia litúrgica é exercida pelo diácono na celebração dos sacramentos ou sacramentais, na presidência das celebrações da Palavra e nas orações.
62. São freqüentes os apelos do Concílio para que todos os cristãos, mas de modo particular os ministros do altar, façam da celebração eucarística o centro de suas vidas e de suas atividades[13]. O diácono, testemunha qualificada da diaconia e do amor de Cristo pelos homens, não poderá realizar eficazmente sua missão sem nutrir-se constantemente da Eucaristia, sacramento do serviço e da caridade.
Existe, ainda, profunda relação entre Eucaristia e serviço. O diácono leva o pão eucarístico e traz para o altar as oferendas que exprimem a comunhão dos fiéis. Leva aos doentes, ao mesmo tempo que o Corpo do Senhor, o auxílio da comunidade. Recebe e distribui. Seu ministério demonstra que a liturgia e a vida social não são duas realidades justapostas, mas pólos de uma mesma economia, pulsações de um mesmo movimento, que através de Cristo vem de Deus e a Ele retorna. No culto, o serviço encontra sua fonte; no serviço, o culto revela sua eficácia. O serviço litúrgico é expressão simbólica do centro de gravidade do ministério diaconal exercido num serviço setorial da comunidade.

II – VIDA E ARTICULAÇÃO DOS DIÁCONOS
Testemunho de vida e comunhão
 Os diáconos  são pessoas consagradas que representam pública e oficialmente o Cristo-Servo na sua família, no trabalho, na comunidade e na sociedade. Suas palavras, gestos e atitudes manifestam o Cristo. Por isso, o diácono deve continuamente avaliar o seu grau de identificação com o Senhor, de acordo com a exortação de Paulo: “A ninguém demos qualquer motivo de escândalo, para que o nosso ministério não seja criticado” (2Cor 6,3-4).
 Revelou-se, ao longo desses anos, como muito proveitoso e positivo, o convívio de bispos e presbíteros com as famílias do diácono, indo além dos encontros formais e pastorais. Essa convivência, incluindo a esposa e os filhos do diácono, visto que de alguma forma também eles participam da diaconia, seja incentivada em vista de uma integração cada vez maior que conduzirá, sem dúvida, a um fortalecimento na ação e no testemunho de comunhão[14].
  O testemunho de vida e comunhão do diácono afeta todos os ministros ordenados. Nesse sentido, o ministério ordenado "necessita recuperar sua vivência colegial.(...) Essa comunhão ministerial deve ser vivenciada, afetiva e efetivamente, em todos os graus do ministério” (DGAE, Doc 54, nº 320).
 Vida familiar
71. O diácono casado não descuidará do seu lar sob o pretexto do exercício do ministério. Por isso, desenvolverá uma autêntica espiritualidade matrimonial e estará sempre atento para que os trabalhos diaconais não o afastem da necessária convivência com a esposa e os filhos.
76. A família do diácono, Igreja doméstica, constitui o primeiro campo da sua ação ministerial, na qual o seu testemunho e ação evangelizadora constituem “um exemplo vivo de fidelidade e indissolubilidade” e “uma fonte de ânimo para todos aqueles que trabalham pela promoção da vida familiar”.

 Vida profissional e social
 Os diáconos sejam homens do seu tempo: vivam, participem, estejam presentes, convivam com os seus conterrâneos e contemporâneos sendo em tudo como eles, menos naquilo que contradiz o Evangelho e os ensinamentos da Igreja.
 O tipo de profissão ou trabalho civil que o diácono exerce não deve ser inconveniente ou inadequado para um ministério ordenado (cf. CDC 17); por isso, será sempre oportuno decidir essa questão em comunhão com o bispo.
 Organismos de articulação dos diáconos
 O primeiro nível de organização é o diocesano. Quando da formação do grupo de aspirantes ao diaconado, deve ser indicado alguém que articule e acompanhe o grupo, estabelecendo contato com os níveis regional e nacional.
 A Comissão Diocesana de Diáconos (CDD) contribui para unir e articular os diáconos na Diocese, servindo também de elo de comunicação e de participação na vida do ministério diaconal nos níveis regional e nacional.
O segundo nível de organização é o regional, com a articulação dos diáconos das várias dioceses que o compõem. Mesmo sendo pequeno o número de diáconos, convém trabalhar nesse sentido, em vista de uma sólida base de comunhão.
111. A Comissão Regional de Diáconos (CRD) orienta-se por um regimento aprovado pela Comissão Episcopal Regional. Normalmente acompanhada por um bispo do Regional, a CRD tem-se revelado um instrumento muito útil na articulação e no desenvolvimento do diaconado.
113. O terceiro nível é o nacional. A Comissão Nacional dos Diáconos (CND) é organismo vinculado à CNBB, para animar e promover o diaconado, em sintonia com o episcopado nacional.

III – ETAPAS DO PROCESSO FORMATIVO
 A vocação diaconal
116. A vocação é condição basilar e primeira de todo o processo de escolha, seleção e formação de candidatos, pois os demais requisitos virão em decorrência de tal pressuposto. O chamado de Deus deve falar mais alto e ser colocado de modo tão explícito que outras motivações e critérios seletivos lhe estejam subordinados (cf. Jo 15,16).
 No entanto, essa vocação se direciona e é acolhida por homens concretos, cada qual com sua história, limitações e qualidades. Por isso, não é fácil procurar o candidato ideal, portador de todos os pré-requisitos para esse ministério. A ausência de algum dos requisitos abaixo elencados não deve ser motivo de prévia exclusão do candidato, mas constituir uma preocupação dos formadores para a superação ou a eliminação do problema.
 O surgimento de vocações específicas ao diaconado permanente pode acontecer de modos diversos, tais como: sugestão da comunidade; indicação por parte de um presbítero, bispo ou outro diácono; ou iniciativa própria de quem se sente chamado para tal ministério. Por todos esses meios, a voz de Deus se faz ouvir, convidando a assumir um novo estado de vida e um serviço a Deus e ao próximo.
 Pré-requisitos e perfil dos candidatos
121. Uma vez apontados os possíveis candidatos ao diaconado permanente, a etapa seguinte é a busca de um conhecimento mais apropriado de cada um deles. “Os diáconos devem ser dignos, de uma só palavra, não inclinados ao vinho, sem cobiçar lucros vergonhosos, conservando o mistério da fé com uma consciência limpa. Por isso, sejam primeiramente experimentados e, em seguida, se forem irrepreensíveis, exerçam o seu ministério... Os diáconos sejam esposos de uma só mulher, governando bem os seus filhos e a sua própria casa. Com efeito, os que administram bem adquirem para si um posto honroso e muita confiança em Jesus Cristo” (1Tm 3,8-10.12-13). São Policarpo aconselha: “Assim os diáconos devem ser sem mancha no tocante à justiça, como ministros de Deus e de Cristo, e não de homens; não caluniadores, não duplos de palavra, não amigos de dinheiro, tolerantes em todas as coisas, misericordiosos, ativos; caminhem na verdade do Senhor, o qual se fez servo de todos”[25].
 Nesse período de discernimento, sejam levados em consideração os seguintes critérios objetivos: requisitos pessoais, eclesiais, familiares e comunitários.
Os requisitos pessoais dizem respeito estritamente à pessoa do candidato:
a) saúde física e psíquica e equilíbrio afetivo-emocional;
b) idade canônica: 25 anos para solteiros e 35 para casados[26];
c) situação civil e profissão compatíveis com o ministério diaconal;
d) independência econômico-financeira[27];
e) escolaridade: enquanto possível, equivalente ao Ensino Médio;
f) capacidade de boa liderança e espírito de equipe;
g) capacidade de autocrítica, de renovação e formação permanente.
 Os requisitos eclesiais referem-se à caminhada na fé de cada vocacionado, indicando sua vivência dos compromissos batismais nos níveis pessoal, familiar e comunitário:
a) maturidade na fé;
b) visão de Igreja solidária com a realidade atual;
c) capacidade de comunhão eclesial para ouvir, dialogar e acolher;
d) consciência apostólico-missionária;
e) vida sacramental e busca contínua da conversão;
f) espírito de oração e de contemplação;
g) espírito de serviço, principalmente aos mais pobres;
h) interesse pelo estudo e aprofundamento da Palavra de Deus e da doutrina da Igreja.   
Os requisitos familiares referem-se à vida do vocacionado em seu ambiente de convivência mais íntimo, como esposo, pai, filho e irmão:
a) aceitação, consentimento e colaboração efetiva da esposa e dos filhos;
b) estabilidade matrimonial;
c) envolvimento da família na caminhada da comunidade;
d) vida familiar em coerência com os ensinamentos da Igreja;
e) mínimo de cinco anos de vida matrimonial.
 Os requisitos comunitários concernem à dimensão interativa da caminhada de fé do vocacionado no que se refere à sua postura diante da comunidade, e vice-versa:
a) consciência de que será diácono da Igreja e não apenas de um grupo ou comunidade determinada;
b) engajamento pastoral de cinco anos ou outro estabelecido pela Diocese;
c) visão do ministério como dom e serviço, superando possíveis tendências utilitaristas e autoritárias;
d) sensibilidade para os desafios que se apresentarem na comunidade;
e) comunhão com os bispos, presbíteros e todos os organismos do povo de Deus;
f) capacidade de inculturação;
g) capacidade de perceber e valorizar outros ministérios e boas lideranças da comunidade;
h) visão de pastoral de conjunto e abertura missionária;
i) capacidade de diálogo ecumênico com outras denominações cristãs;
j) aceitação por parte da comunidade e do presbitério.
Os aspirantes, com base nos requisitos requeridos para o ministério diaconal, sejam convidados a realizar um discernimento livre e consciente, sem deixar-se condicionar por interesses pessoais ou pressões externas de qualquer tipo.
 Em vista do amadurecimento integral e harmônico do futuro diácono e do bom exercício de seu ministério, tenham-se presentes, desde o início do processo formativo, as dimensões: humano-afetiva, eclesial-comunitária, intelectual, espiritual e pastoral.

Dimensão humano-afetiva
No processo formativo privilegie-se a capacidade de abertura, sentir com o outro; de doação, capacidade de partilhar e de relacionamento; ser aberto, ser flexível, respeitar as diferenças. Em se tratando de homens com idade mais avançada, verifique-se com maior atenção sua capacidade de assimilar as novas contribuições e aprofundamentos do Concílio Vaticano II e dos sucessivos desenvolvimentos fiéis ao Magistério, de adaptar-se aos novos contextos eclesiais e às exigências de uma evangelização inculturada.


 Dimensão eclesial-comunitária
A partir da família, Igreja doméstica, o diácono alimentará o amor pela vida comunitária inspirada no Evangelho e integrar-se-á plenamente na comunidade eclesial.
 Evitará a tendência individualista em sua vida pessoal, familiar, comunitária e ministerial. Com efeito, a forma individualista do exercício do ministério ordenado é um dos principais entraves à realização de uma Igreja toda ela responsável pela missão (cf. PDV 17). O diácono vive, pois, o desafio de não se fechar em sua família, em detrimento de sua ligação com o presbitério e a comunidade eclesial. Igualmente, envidará esforços para não ser absorvido totalmente pelos compromissos e atividades pastorais em prejuízo de sua família.
No exercício de sua missão o diácono testemunhará que todo ministério, ordenado ou não, deverá ser vivido na dimensão do serviço, a exemplo do Cristo-Servo, evitando toda e qualquer forma de autoritarismo, monopólio e busca de privilégios.

 Dimensão intelectual
 A formação intelectual é uma das condições para o exercício frutuoso do ministério ordenado em face dos grandes desafios da evangelização neste complexo contexto em que vivemos. Ela tem como objetivo alcançar uma compreensão adequada da realidade humana, interpretando-a à luz da fé e da Palavra de Deus e discernindo as linhas de ação evangelizadora. “Ela é particularmente urgente hoje, perante os desafios da nova evangelização a que a Igreja é chamada (...) A indiferença religiosa, o ofuscamento dos valores, a perda de convergência ética, o pluralismo cultural exigem que aqueles que estão empenhados no ministério ordenado tenham uma formação intelectual completa e séria.
A prática pastoral constitui o eixo integrador da formação intelectual. Conseqüentemente, a inserção de grande parte dos diáconos em diferentes profissões, no mundo do trabalho e nas graves questões sociais e políticas possibilitará uma mediação eficaz para a atuação do Ensinamento Social da Igreja.

 Dimensão espiritual
153. “A formação humana abre-se e completa-se na formação espiritual, que constitui o coração e o centro unificador de toda a formação cristã.[...] A formação espiritual do futuro diácono não pode ignorar a experiência já adquirida, mas deve pô-la à prova e incrementá-la, para enxertar nela as características específicas da espiritualidade diaconal”[35]. A formação espiritual, ordenada à santidade de vida, que consiste na comunhão íntima e profunda com o Pai, pelo Filho e no Espírito Santo, e que se atinge pela perfeição da caridade, prepara o diácono para desempenhar seu ministério[36].
O elemento que mais caracteriza a espiritualidade diaconal é a descoberta e a partilha do amor de Cristo-Servo. Aos diáconos a Didascalia Apostolorum recomenda: “Como o nosso Salvador e Mestre disse no Evangelho: ‘Quem quiser tornar-se grande entre vós, torne-se o vosso servo, da mesma forma como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos’ (Mt 20,26-28), vós, diáconos, deveis fazer o mesmo, ainda que isso implique dar a vida por vossos irmãos, por meio do serviço (diakonia) que sois chamados a cumprir. Se, pois, o Senhor do céu e da terra se fez o nosso servidor e sofreu pacientemente todo tipo de dor por nós, quanto mais não deveremos fazer o mesmo por nossos irmãos, pois somos seus imitadores e recebemos a mesma missão do Cristo?” (Didascalia Apostolorum XVI, 13).
 A espiritualidade diaconal há deve ser vivida na centralidade da Eucaristia, na vivência dos sacramentos e de toda a liturgia, na leitura orante da Palavra de Deus, na recitação da Liturgia das Horas, na oração pessoal, familiar e contemplativa, no serviço do povo pela caridade pastoral, na orientação espiritual, na partilha comunitária e na comunhão eclesial.

 Dimensão pastoral
161. A formação pastoral deve ter uma dimensão missionária e seja desenvolvida a partir da prática pastoral e de seu desempenho.
162. Nessa formação teórica e prática, os diáconos encontrarão condições para:
a) crescer na assimilação pessoal das atitudes do Cristo-Servo (Fl 2,6-7; Jo 13,3; Mt 20,28), aprendendo a ter os mesmos sentimentos do Senhor (Fl 2,5);
b) crescer no compromisso pessoal, no serviço do povo de Deus e na caridade pastoral;
c) abrir-se à comunhão com a vida do povo, com a comunidade cristã e com o presbitério;
d) promover abertura de espírito para outras expressões de fé, tanto dentro da Igreja Católica como para outras confissões religiosas, numa atitude ecumênica;
e) ser fermento de transformação da sociedade, pelo testemunho e pela ação solidária, na promoção da justiça e da fraternidade;
f) abrir-se para o relacionamento com pessoas e setores influentes da sociedade: formadores de opinião, artistas, intelectuais, políticos...;
g) integrar a dimensão humano-afetiva com a dimensão pastoral;
h) adquirir espírito missionário e a consciência da prioridade da evangelização (cf. CNBB, Doc. 55, n. 94).
A dimensão pastoral consiste, sobretudo, no empenho pessoal e permanente do diácono para aperfeiçoar seu ministério. Não se trata apenas de uma preocupação puramente profissional na tentativa de corresponder aos objetivos da instituição, mas de uma sincera busca para viver sacramentalmente o ministério com total fidelidade a Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45; cf. Jo 13,12-17) e para ganhar a muitos, fazendo-se servo de todos (cf. 1Cor 9,19).






                         IV - ESCOLAS DIACONAIS
Os Regionais podem criar escolas diaconais para atender às exigências da formação específica para este ministério. Elas deverão seguir um currículo mínimo indicado nestas Diretrizes.
 A escola diaconal deve ser um espaço onde os vocacionados possam crescer nos requisitos que já possuem e onde tenham condições de suprir aqueles que lhes faltam e superar as deficiências.
A cada semestre ou etapa da formação, sejam ministrados cursos mais teóricos junto a cursos mais práticos. Isso fará com que a aridez da exposição doutrinal seja aliviada pelo estudo de um argumento mais próximo ao mundo dos candidatos, ou de uma aplicação mais imediata e dinâmica. Por isso, não se descuidem a didática e as estratégias de ensino, a fim de que todos tirem o máximo proveito do aprendizado.
Instalação da Escola Diaconal
 Tanto quanto a formação dos presbíteros, cada diocese deverá considerar a formação dos diáconos como uma tarefa prioritária, dedicando-lhe seus melhores esforços. Para tanto, os bispos, os presbíteros, os diáconos já ordenados e os leigos capacitados assumam uma postura de interesse, disponibilidade e cooperação, a fim de que cada diocese possa ter condições de formar seus candidatos ao diaconado. 1
Preferivelmente, portanto, a formação dos candidatos ao diaconado seja realizada na própria diocese. Em termos práticos, isso possibilitará a freqüência dos candidatos aos cursos, bem como a participação e o envolvimento das esposas e dos filhos no processo formativo, eventualmente permitindo a presença das esposas nas aulas. Em segundo lugar, colaborará para não desvincular o futuro diácono da realidade na qual exercerá seu ministério. Além disso, desde o período da formação já se criará um relacionamento fraterno e sincero entre os presbíteros e os diáconos.
Os formadores
 O processo formativo deve ser conduzido por equipe que saiba construir os passos pedagógicos apropriados no diálogo com os candidatos. Ela poderá ser constituída pelo bispo diocesano, o diretor ou coordenador do curso, o diretor espiritual, os professores e demais colaboradores. Atuará de forma integrada, fazendo ressaltar a diversidade e a complementaridade dos dons e tarefas de cada um de seus membros, num espírito de comunhão fraterna e em estreita relação com o presbitério e a comunidade diocesana.
Técnicas de Planejamento, Estudo da Realidade Brasileira, Assistência Social, Psicologia e outros que a diocese julgar possíveis e necessários, também os profissionais leigos podem ser chamados a colaborar no processo formativo. Nesse caso, ressaltamos a importância de que sejam pessoas integradas na vida eclesial da diocese ou paróquia, a fim de que sua colaboração possa estar amparada na vivência comunitária. Eles, por sua vez, sentir-se-ão envolvidos afetiva e efetivamente com o processo formativo e se considerarão valorizados em sua profissão e experiência, a partir do momento em que, por meio delas, colaboram para a formação dos evangelizadores de sua Igreja particular.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

“Todo o conteúdo destes Blog é livre para uso, até porque o Espírito Santo não cobra 'Direitos Autorais' ”