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sexta-feira, 4 de março de 2011

S. BERNARDO E OS “MONGES BRANCOS” - UM POUCO DA HISTORIA MONÁSTICA

 
S. BERNARDO E OS “MONGES BRANCOS”
O monaquismo cristão começou no Egipto, continuou na Abissínia (Etiópia). Segundo a tradição, no século III, Santo Antão, ou Santo Antônio do Deserto foi o primeiro cristão a adotar este estilo de vida. Passado algum tempo, outros o seguiram. Originalmente, todos os monges cristãos foram eremitas que raramente encontraram outras pessoas. Mas por causa da dificuldade extrema da vida solitária, muitos monges falharam, ou voltaram às suas vidas anteriores na cidade, ou ficaram espiritualmente desiludidos.
Monasticismo ou Monaquismo é a prática da abdicação dos objetivos comuns dos homens em prol da prática religiosa. Os monges consagram-se a Deus, separando-se do mundo para O poderem procurar, contemplá-Lo e meditar nas realidades espirituais, na solidão, distinguindo-se da vida religiosa no sentido mais restrito, cujo acento não se põe na vida contemplativa, na fuga do mundo nem no isolamento.
Várias religiões têm elementos monásticos, embora usando expressões diferentes: budismo, cristianismo, hinduísmo, e islamismo.
No séc. V a Europa vê nascer uma ordem religiosa de vital importância para a sua unificação, pacificação e organização: os Beneditinos, fundados em Monte Cassino por S. Bento de Núrsia (480-507). A regra, embora exigente quer que sejam misericordiosos e temperados.
Do grego “monos”, em francês “moine”, monge em português, significando um, só, sozinho, esta nova maneira de organizar comunidades orantes, primeiro masculinas com S. Bento, depois com a irmã, Santa Escolástica, também de monjas, veio transformar de tal modo a Europa que Imperadores como Carlos Magno vieram depois obrigar todos os mosteiros (monos=sozinho+terion=lugar para se fazer algo) dos seus territórios a adotar tal regra. E esta era muito simples: “Ora et Labora” (reza e trabalha).
Com o decorrer dos tempos e a evolução das sociedades, a organização beneditina veio a sofrer alterações, desleixos e abandono da pureza inicial vieram trazer Reformas importantes, das quais se sublinham a de Cluny, no séc. X e a de Cister, no XI. Em 1115 o Abade de Citeaux (origem do nome Cister) funda a Abadia de Claraval e põe à sua frente o jovem Bernardo de Fontaine, depois canonizado, que estendeu a sua influência a toda a cristandade.
S. Bernardo teve uma atividade eclesial assombrosa; além de dirigir os seus irmãos e fundar mais Abadias, viaja por toda a Europa: toma partido pelo Papa Inocêncio II, faz com que o Imperador o reconheça, vai à Aquitânia, comparece na Dieta de Bamberga, apazigua uma revolta popular em Milão, volta à Itália e acaba com o cisma de Vítor IV, está ativo no Sínodo de Sens, que condena Abelardo, em 1145 prega a Cruzada, percorre a Lorena e a Flandres, organiza a Picardia, o fracasso da Cruzada não o faz perder o ânimo, prega contra as heresias no Sul de França, já doente vai a Metz estabelecer a paz, escreve inúmeras Cartas, das quais se conservam 497 autênticas, comenta o Cântico dos Cânticos, redige obras de moral e teologia, de espiritualidade, sermões e orações, fazendo dele um autor místico abrindo o caminho à contemplação e ao Amor de Deus. Para percorrer o itinerário da alma em direção a Deus, S. Bernardo aconselha que se medite e contemple, primeiro a Cristo Homem, para desta contemplação mais acessível se passar a meditar em Cristo segundo o Espírito, o Verbo de Deus. Mas esta passagem de uma ordem a outra só se pode fazer por um desprendimento total de si mesmo. Esta doutrina é exposta com a maior espontaneidade e uma unção que revelam uma natureza riquíssima, plenamente desabrochada por uma experiência mística extraordinária. Foi o que seduziu os homens do seu tempo e os de hoje!
Ao morrer, S. Bernardo de Claraval já tinha fundado mais de 70 abadias-filhas!
Os monges de Cister fazem reviver a austeridade monástica e a pureza monástica no seu hábito branco, também por contraste com o hábito negro dos Beneditinos. Tinham por norma de vida a oração no Coro, a penitência e o trabalho manual. Era uma vida de constante comunidade no mais completo silêncio. Usavam de sinais para comunicar, e em caso de urgência podiam falar com o superior, a horas marcadas.
Pela sua excelente organização, a Ordem de Cister era, à época, a única preparada para desenvolver uma política de fomento e arroteamento em terras despovoadas. A auto-suficiência era fundamental para a sobrevivência da comunidade. Aumentam as zonas povoadas, fundam novas colónias, vivem num auxílio mútuo.
O desenvolvimento das povoações pode ser avaliado pelos forais concedidos pelo mosteiro, e ainda julgar o grande desenvolvimento da população.
Criam-se granjas e ricas quintas onde os monges, leigos e noviços, desenvolvem as suas atividades. Eram verdadeiras escolas agrícolas e industriais da época, conhecedores de segredos desse tempo, e foram chamados a resolver graves problemas de economia rural, tendo sido designados como “monges agrônomos”.
Em Portugal, as alterações políticas, as guerras com Castela e outras políticas trazem alterações, e cobiças. O Abade tem o Título de “ Dom Abade do Real Mosteiro de Alcobaça, do Concelho de Sua Majestade, Seu Esmoler-Mor, Donatário da Coroa, Senhor dos Coutos e Fronteiro- Mor”.
Fosse qual fosse o estilo arquitetônico da sua construção, tiveram sempre um traçado fundamentalmente igual, devido às exigências da vida religiosa em comunidade: a igreja conventual com o coro; o claustro no rés-dochão para onde abriam as salas em que se realizavam os outros atos de vida em comum; a sala do capítulo para as reuniões solenes de instrução e correção donde normalmente também eram erguidos o refeitório e a biblioteca; em cima, a toda a volta, corriam os dormitórios, com celas individuais; ao redor do edifício, campo para recreio e cultivo.
As igrejas desse período deviam conter relíquias santas. Portanto, uma igreja que contivesse um certo número de relíquias estaria favorecida não só porque atraía um grande número de fiéis, mas também devido a quantidade de ofertas. Daí dependia a popularidade dessa igreja.
D. Pedro I concedeu ao mosteiro de Alcobaça grandes doações por ter estado de seu lado quando das questões com seu Pai, D. Afonso IV, tendo por isso escolhido a igreja para receber o seu túmulo e o de D. Inês de Castro.
Nos finais do séc. XIII começam as Ordens Mendicantes a ter maior êxito, perdendo assim os contemplativos a sua importância, também pelo modo distinto de viver das sociedades. Os Franciscanos e Dominicanos dedicam-se
mais à pregação, às obras de misericórdia e aos pobres. Os cartuxos foram os únicos monges a resistir aos tempos, sem alterar as regras. No séc. XV e XVI aparecem novas ordens contemplativas, como os Jerônimos, mas a época moderna não os favoreceu.
Foi no XIX que com a época romântica, os monges atraem de novo os espíritos contemplativos, que, a pouco e pouco adaptam e simplificam as observâncias, dando forte impulso ao movimento litúrgico, reduzindo encargos pastorais e econômicos, vida de trabalho e diminuindo o número de monges, na fidelidade mais ao Evangelho que as regras. Aparecem os irmãozinhos de Jesus, com Charles de Foucault e depois da Guerra o Mosteiro de Taizé, reavivando assim a vida eremítica não só na Europa mas ainda na América e Norte de Africa, e fazendo tentativas de adaptação de budistas e hinduístas com cristãos na Índia, Vietname e Japão.
Bernardo de Fontaine foi um abade de Claraval, santo e Doutor da Igreja. Nascido em 1090 em Dijon, falecido em 1153 na abadia de Claraval.
Foi um monge cisterciense e grande propagador da Ordem e defensor da Igreja. Uma das personalidades mais influentes do século XII. Nascido numa grande família nobre da Borgonha, no castelo de Fantaine-les-Dijon em Dijon, Bernardo foi o terceiro de sete filhos. Em 1112, decide entrar na Abadia de Cister, fundada em 1098 por São Roberto de Molesme, e na qual Santo Estêvão Harding havia acabado de ser eleito Abade. Convence vários amigos, irmãos e parentes a ingressarem com ele na vida monástica e chega assim com outros 30 candidatos para entrar na Abadia.
Em 1115, Estêvão Harding envia o jovem à frente de um grupo de monges para fundar uma nova casa cisterciense no vale de Langres. A fundação é chamada “Vale Claro”, ou Clairvaux – Claraval. Bernardo é nomeado Abade desta nova Abadia, e confirmado por Guilherme de Champeux, bispo de Châlons e célebre teólogo.
Os primórdios de Claraval são difíceis: a disciplina imposta por São Bernardo é bastante severa. Bernardo busca formação nas Sagradas Escrituras e nos Padres da Igreja. Ele tem uma predileção quase exclusiva pelo Cântico dos Cânticos e por Santo Agostinho. O livro e o autor correspondem às tendências da época.
Muitas pessoas afluem à nova abadia e Bernardo acaba de converter toda sua família: seu pai, Tescelin, e seus cinco irmãos tornam-se monges em Claraval. Sua irmã, Humbelina, toma igualmente o hábito no priorado de Jully-les-Nonnains. À partir de 1118, novas casas são fundadas para evitar a superlotação de Claraval (por exemplo a Abadia Nossa Senhora de Fontenay). Em 1119, Bernardo faz parte do Capítulo Geral dos Cistercienses convocado por Estevão Harding, que dá sua forma definitiva à Ordem. A Carta da Caridade que é então redigida é confirmada pouco depois pelo papa Calixto II.
São Bernardo fundou 72 mosteiros, espalhados por toda Europa: 35 na França, 14 na Espanha, 10 na Inglaterra e Irlanda, 6 em Flandres, 4 na Itália, 4 na Dinamarca, 2 na Suécia e 1 na Hungria. Fora muitos outros que se filiaram à Ordem.
Em 1151, dois anos antes de sua morte, existem 500 abadias cistercienses. Há 700 monges ligados à Claraval. Bernardo morre em 1153 com 63 anos.
Foi canonizado em 18 de Junho de 1174 por Alexandre III e declarado Doutor da Igreja por Pio VIII em 1830. É comemorado no dia 20 de Agosto.
Inúmeros milagres são atribuídos à São Bernardo em suas viagens. Diz-se que inúmeras pessoas iam até ele buscando curas e ele às atendia. Conta-se que após o fracasso da segunda cruzada, muitos culparam Bernardo e este, desconsolado foi chorar aos pés de uma imagem do Crucificado. Então a imagem de Cristo desprendeu-se da Cruz e abraçou-o para consolá-lo. Outra história popular é que São Bernardo sempre saudava a Virgem Maria quando via uma imagem sua: "Ave-Maria". Certa vez, andando por um mosteiro, ao fazer a costumeira saudação, a imagem lhe respondeu: “Ave Bernardo”. Também se diz que uma vez, quando escrevia uma carta importante ao ar livre, começou a chover. Bernardo abaixou a cabeça e fez uma breve prece, então somente no lugar onde estava não chovia.
Lendas há que associam São Bernardo e Portugal. Diz-se, por exemplo, que o próprio Bernardo teria vindo a Portugal, por altura da introdução da Ordem Cisterciense no país (Mosteiro de São João de Tarouca, 1142), e até que teria estado na abadia de Alcobaça, um dos maiores coutos cistercienses de toda a Europa (o que evidentemente era impossível, já que a abadia Alcobacense foi sagrada no ano da morte de Bernardo).
Estudos recentes dão como certo que São Bernardo esteja associado à independência de Portugal – parece ter sido por sua mediação (ou pelo menos, por mediação da sua abadia) que o Papa enviou um legado à Península Ibérica, o qual reconheceu, senão a independência nacional, pelo menos o título de duque a Afonso Henriques e a submissão do novo país à Santa Sé, pelo pagamento de quatro onças de ouro anuais.
A Providência faz surgir homens providenciais que marcam todo o seu século, como São Bernardo, o Doutor Melífluo, cantor da Virgem, grande pregador de cruzadas, extirpador de cismas e heresias, pacificador exímio e um dos maiores místicos da Igreja Bernardo provou que a alta condição social, se vivida com fé, pode até ajudar a prática da virtude. Seu temperamento, inclinado à meditação, abriu-se à ação da graça, que o levava a escolher sempre a virtude ao
prazer, as coisas de Deus às do mundo.
Era tão intenso o dom de persuasão que possuía esse homem cheio do amor de Deus, que, ao pregar, as mulheres seguravam os maridos e as mães escondiam os filhos, por medo de que o seguissem.
Bernardo entregou-se à prática da regra como monge consumado. Posto que, nos caminhos da virtude, há várias vias para se atingir a santidade, Bernardo embrenhou-se com total radicalidade na bela via para a qual se sentia chamado por Deus. Dominou de tal maneira seus sentidos, que comia sem sentir o sabor, ouvia sem ouvir.
Dominou o paladar a tal ponto, que uma vez bebeu sem perceber um copo de azeite, em vez de água. Formou para si uma cela interior, na qual vivia tão recolhido que, depois de dois anos, não sabia se o teto da abadia era abobadado ou liso, e se havia janelas na capela. A sua comunicação com Deus era contínua, de maneira que mesmo enquanto trabalhava não perdia seu recolhimento interior.
Pensava que o monge devia ter o domínio de si, mesmo durante o sono; e mais tarde, quando ouvia roncar algum dos irmãos, dizia que isso era dormir de um modo carnal e no estilo dos seculares. Fugia do sono como de uma imagem da morte, concedendo-lhe tão pouco tempo que mal podia dizer-se que dormia.
Bernardo queria santos na sua milícia. Por isso dizia amiúde aos seus noviços: “Se desejardes viver nesta casa, é necessário deixar fora os corpos que trazeis do mundo; porque só as almas são admitidas nestes lugares, e a carne não serve para nada”.
A devoção de Bernardo para com Nosso Senhor Jesus Cristo e a Virgem Maria eram incomparáveis. Certo dia, quando entrava na catedral de Spira, na Alemanha, em meio ao Clero e povo, ele ajoelhou-se por três vezes,
dizendo na primeira: “Ó clemente!”; na segunda: “Ó piedosa!”; e na terceira: “Ó doce Virgem Maria!”. A Igreja acrescentou depois estas invocações ao final da Salve Rainha.
Estando para morrer, os seus filhos espirituais pediam aos Céus para o segurar na Terra. Ele lamentou-se docemente: “Por que desejais reter aqui um homem tão miserável? Usai de misericórdia para comigo, eu vos peço, e deixai-me ir para Deus”. O que ocorreu no dia 20 de Agosto de 1153.
CURIOSIDADES:
Dante elege-o como seu guia no Paraíso da Divina Comédia.
Em 2007 havia no mundo 1688 Monges, 831 Freiras, no total eram 2519.
Para ler:
Os pilares da Terra” Ken Follett
O nome da Rosa” Umberto Eco


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