Total de visualizações de página

domingo, 13 de março de 2011

O Combate Espiritual

"Sinto-me pressionado dos dois lados: de uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo..."  Fl 1, 20ss


     
O Combate Espiritual
 
A tradição espiritual, empenhando-se na via da Escritura e rejeitando maiormente o ideal estóico, com freqüência comparou a ascese à luta, a um combate contra os inimigos da alma. Os textos sobre tal comparação são muito numerosos e de proveniência mais variada.
Os monges são chamados “combatentes”, em grego: “agonizomenoi, agonistai”.
Tal luta é apresentada pelos autores em dois modos diversos. Às vezes a alma aparece como uma espécie de campo fechado onde os vícios e as virtudes se colocam num combate espiritual. Por outro lado o mesmo asceta começa a lutar, as armas em suas mãos, na tentativa de derrubar as forças adversárias. Os monges devem combater em primeira linha sob dois campos: ao interno e externo de si mesmos. Esses purificam constantemente o seu coração com a ascese e purificam o cosmos com a “fuga do mundo” (cf Jo 8, 23). Então os inimigos dos monges são aqueles que a Escritura já desmascarou: a carne, o mundo, Satanás (cf Rm 7-8; 12, 31; 16, 11). Mas concretamente, as tentações a serem vencidas se apresentam sob mil modos, de acordo com as várias circunstâncias e as disposições de cada um.  Evágrio Pôntico fala da “guerra material e imaterial”: aqueles que vivem em comunidade são atacados pelos mais “negligentes entre os irmãos; mas tal... guerra é muito mais pesada” daquela movida diretamente pelos demônios “nus” contra os solitários. Dadišo Quatraya cita a Grande Carta de Macários, onde são enumeradas “todas as guerras que são contra o amor de Deus e contra a oração”.
A luta se impõe, qualquer seja o grau de perfeição o qual já alcançamos. Contrariamente a tendência ao quietismo da “apatheia” (apatia) no modo professado pelos hereges messalianos, Evágrio crê que as tentações aumentam com o crescimento da vida espiritual e que o progresso da alma é possível ser medido na qualidade e força dos demônios em sua perseguição. Um outro autor espiritual, Cassiano, pensa que tal combate seja um meio providencial para aperfeiçoar-se espiritualmente, até tornar-se um testemunho do amor, um sinal que aperfeiçoa o livre arbítrio. Então o monge perfeito é o homem provado por excelência: em grego – “dókimos monachós” (cf. Vida de S. Sabas).
 
A luta contra os demônios do ar
 
Já afirmamos que, segundo a concepção tradicional, a vida espiritual é descrita em termos de combate contra os demônios (cf Ef 6, 12). Na espiritualidade monástica do deserto, tal concepção assumiu um novo rosto: o deserto é o ambiente dos demônios, e o monge que aí se retiram irão enfrentar o diabo numa luta corporal como afirma Evágrio. São Sabas não teme Satanás que lhe aparece sob forma de leão raivoso. Como recompensa, “Deus lhe submete todo animal venenoso e carnívoro”.
A demonologia que se expressa na Vida de Antão, na obra de Evágrio e naquela de Cassiano, classicamente transformada para os monges do deserto, se torna um motivo fundamental na doutrina ascética tradicional. Eis os elementos principais desta concepção.
Segundo a antiga literatura cristã, os demônios, criados bons caíram de seu lar celestial e não obstante “rondam em torno a terra”. “Numerosa é a multidão destas potências no ar que circundam; elas não estão longe de nós” como afirma Antão. Mas Cristo, subindo nas alturas, aprisionou os encarcerados  (cf Sl 68, 19), destituiu as potências do ar. As “alturas, neste caso, é a cruz”. Por isso os demônios “os demônios tem um grande medo do sinal da cruz do Senhor”.
As conclusões práticas desta demonologia são sempre as mesmas. Não urge temer os demônios. O diabo não é causa do pecado, com dizem “alguns entre os simples”, contra os quais escreve Orígenes. E, contra as tentações, urge acreditar que, com a graça de Deus, temos a força suficiente para poder vencê-las. No seguimento de Cristo, os monges são chamados a purificar os lugares onde residem as potências do mal. Fazem-no com as orações, sobretudo o louvor, e também com sua ascese. Por isso os eremitas fixavam com boa vontade sua tenda aí onde criam que se encontrassem muitos demônios.
 
A luta contra os pensamentos perversos
 
Orígenes com freqüência conecta as palavras “daimon” (dêmon), pneuma (pnévma) e logismos (loghismós). Por trás de tal identificação pode-se encontrar uma noção importante da ética judaica, formulada a partir da palavra “yêsér”, pensamento, compreendida como algo de muito concreto no homem, quase pessoal, noção que o texto grego traduz como “diaboulion” (diavúlion). A vida de Antão ilustra tal doutrina segundo a qual os pensamentos perversos são armas dos demônios contra os anacoretas. Evágrio usa indiferentemente a palavra “demônio”, “pensamento”, ou “espírito”.
A luta contra os pensamentos perversos é um tema típico da literatura monástica. Chama-se “guerra invisível”. Segundo a explicação de Evágrio, “com os homens do mundo os demônios lutam utilizando preferentemente os objetos”. É a luta visível que concerne às coisas. Tal contato suscita as paixões. Para resistir aos demônios neste campo, o meio principal é a abstinência, a renúncia às coisas. “Mas, com os monges, com freqüência os demônios lutam utilizando os pensamentos; os objetos, com efeito, não surgem como causa da solidão”.
Os “logismoi” (loghismí), pensamentos perversos, tem sua origem “ao externo de nós”. Os graus de penetração no coração, sua eliminação e o cuidado com o coração, a arte de discerni-los, os elencos dos vícios, etc., tudo isso é abundantemente tratado na literatura monástica oriental e os temas mais famosos sobre este tema são retomados na Filocalia.
 
As lutas contra as paixões
 
Aos olhos dos estóicos, a vida moral é uma luta entre a razão livre e as paixões, que constituem uma espécie de doença da alma. A isso se reduzem, segundo a terminologia, todos os movimentos sensíveis. Mesmo aqueles que nos pareceriam válidos, como o sentimento da misericórdia, são banidos como não racionais. O homem honesto deve ser “logikós”, racional, o que significa a mesma coisa de “apathes”, impassível.
Ao contrário, os autores escolásticos ocidentais distinguem o sentido metafísico da paixão (receptividade) e o seu senso psicológico (o apetite sensitivo, concupiscível e irascível). Do ponto de vista moral, a paixão não é nem boa, nem má, mas é o seu uso virtuoso a torná-la moralmente boa e o pecado a torná-la malvada.
Os orientais seguem a terminologia dos estóicos. Eles consideram todas as paixões como ruins. Devem por tanto ser combatidas e desraigadas totalmente para chegar a impassibilidade, a “apatheia”.  Tal concepção acarretou a Evágrio ásperas admoestações por parte de S. Jerônimo. O doutor ocidental acusa os monges orientais de desejar tornar o homem “ou uma pedra ou um deus” (vel saxum vel deus est), de quer privá-lo de toda sensibilidade natural. Mas trata-se de um triste equívoco. No vocabulário, o termo “paixão” é reservado somente aos desejos, às tendências que impulsionam o homem a pecar. Os desejos sensíveis naturais são chamados por S. Gregório de Nissa simplesmente “potências” (dynameis), destinadas a servir ao bem. Neste contexto, a luta contra as paixões expressa o ideal da perfeita purificação da natureza humana.
Na vida dos monges, deve sempre existir episódios edificantes concernentes a sua impassibilidade paradisíaca. Os relatos às vezes são de um tal exagero que chegam a ser cômico. Mas a mensagem principal permanece reta: a apatheia é o ideal da perfeição monástica. Isso no sentido cristão, não é a ausência do sofrimento ou da morte dos sentidos corporais, nem a ausência dos logismoi, dos pensamentos perversos sugeridos pelos demônios. É uma força interior capaz de capaz de resistir-lhes. Não querendo ser uma insensibilidade morta, é mais ainda fogo divino, plenitude de caridade. Graças a ela, não há mais lugar na alma para o pecado e suas conseqüências.
É assim que o verdadeiro sentido da luta “contra” (as paixões, os pensamentos, os demônios, etc) se revela como uma luta “pelo” homem unido a Deus. É aquilo que diz Dadišo Quatraya quando chama a luta contra as paixões de “combate pelo amor de Deus”.
 
Fonte: O Monaquismo – T. Špidlík

Nenhum comentário:

Postar um comentário

“Todo o conteúdo destes Blog é livre para uso, até porque o Espírito Santo não cobra 'Direitos Autorais' ”