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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Semana Santa - A festa anual da Páscoa

A Semana Santa - A festa anual da Páscoa


Segundo alguns estudiosos, a narração da paixão segundo S. João foi fortemente influenciada pela prática litúrgica das Igrejas da Ásia Menor que celebravam a Páscoa no dia 14 de Nisan, aniversário da morte de Cristo. A narração da ceia nos evangelhos sinópticos seria o testemunho da páscoa litúrgica da era apostólica nas comunidades de tradição sinóptica. 1 Cor 5, 7-8 e a primeira epístola de Pedro, considerada uma homilia pascal e batismal, fornecem outras indicações sobre a celebração da páscoa pelos primeiros cristãos. É preciso chegar ao século II para encontrar alguma documentação que ateste a celebração anual da páscoa, o seu conteúdo e alguns elementos litúrgicos.
No final do século II as igrejas da Ásia Menor celebravam a páscoa e o fim do jejum no dia 14 de Nisan (daí o nome de “quarto decimanos”), aniversário da morte de Cristo, independentemente do dia da semana. As outras igrejas, mais dependentes de Roma, não interrompiam o jejum no dia 14 de Nisan, dia da morte de Cristo, porque celebravam a Páscoa no domingo seguinte.
Esta diversidade de datas no que respeita à celebração da Páscoa, no tempo do Papa Vítor (189-199), deu origem a uma controvérsia que ameaçou a própria igreja. A questão não estava em saber se a expressão “celebrar a páscoa” indicava a celebração da morte ou a celebração da ressurreição do Senhor, mas era a questão do dia o que mais interessava: não sabiam se deviam escolher o dia da morte ou o dia da ressurreição. O que estava em causa era, fundamentalmente, a acentuação do mistério pascal e a tentativa de abandonar definitivamente os costumes judaicos.
Nesta controvérsia podemos distinguir três aspectos: um cronológico, outro litúrgico e outro teológico.
A contenda terminou com o Concílio de Niceia (325). Nele se afirmou que “os irmãos orientais adotassem a mesma prática dos romanos e dos alexandrinos e de todos os outros”. Apesar de uma discussão acerca desta norma, por volta de 387, a celebração da Páscoa ao domingo perdurou até 1582, quando o Patriarca de Constantinopla, Jeremias II, se recusou, em nome da fidelidade ao Concílio de Niceia, a adotar o calendário gregoriano, promulgado nesse mesmo ano, sem o consenso da Igreja grega. A celebração foi fixada no primeiro domingo depois da lua cheia de primavera, situada entre o dia 22 de Março e 25 de Abril.
O Concílio Vaticano II mostrou-se disponível para aceitar a fixação da festa da Páscoa num domingo certo do calendário gregoriano, «se obtiver o assentimento daqueles a quem interessa, especialmente dos irmãos separados da comunhão com a Sé Apostólica» (esta disposição constituí o primeiro parágrafo do Apêndice da Sacrosanctum Concilium).
A celebração litúrgica da Páscoa desenvolveu-se a partir da Vigília Pascal. Nesta noite - atesta Tertuliano para África e Hipólito para Roma - depois das leituras, celebrava-se também o Batismo e a Vigília terminava com a Eucaristia ao raiar do sol do dia seguinte. A Vigília era precedida por um jejum, que iniciava na Sexta-feira Santa e só terminava à hora da Vigília. O Tríduo Pascal de Cristo, morto, sepultado e ressuscitado - como lhe chamava S. Agostinho - desenvolveu-se à volta da Páscoa dominical, celebrada no domingo sucessivo ao 14 de Nisan. Este tríduo constava de três dias, Sexta, Sábado e Domingo.
Quando no século IV se começou a interpretar os acontecimentos do Evangelho, a instituição da Eucaristia foi colocada na quinta-feira; esta celebração acabou por quebrar a unidade do tríduo pascal, a antiga estrutura (Sexta, Sábado e Domingo), e começou com a ser constituído pela Quinta, Sexta e Sábado. A Sexta-feira santa foi, como sabemos, esmagada pela devoção popular (ex. A via crucis e as procissões do “enterro do Senhor”). A Vigília pascal desapareceu totalmente e os seus ritos foram celebrados na manhã de sábado.
O tríduo pascal: celebração e teologia
A liturgia do tríduo tem o seu fundamento na unidade do mistério pascal que consta inseparavelmente da morte e ressurreição de Cristo. Cada celebração abre-se à que se segue porque a morte supõe a ressurreição e esta supõe a primeira. O centro de gravitação é, no entanto, a vigília pascal com a renovação das promessas batismais e a celebração eucarística. Em síntese, devemos dizer que a tríduo é a “páscoa celebrada em três dias”.
As Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e do Calendário (CR, 18) esclarecem que, tendo Cristo realizado «a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus… especialmente através do seu mistério pascal, com o qual, morrendo, destruiu a nossa morte, e ressuscitando restaurou a vida», «o Sagrado tríduo da paixão e ressurreição do Senhor e o ponto culminante de todo o ano litúrgico». Portanto, a preeminência de que goza o domingo na semana, goza-a a páscoa no ano litúrgico». «O tríduo pascal da paixão e ressurreição do Senhor inicia-se com a Missa da Ceia do Senhor, tem o seu centro na Vigília Pascal e termina nas Vésperas do domingo da ressurreição» (CR, 19).
Desde a publicação do MR 1570 até ao século XX e, em particular, até à recente reforma do Vaticano II não se realizaram mudanças significativas na estrutura das celebrações pascais. A mudança mais relevante neste período foi a reforma da Vigília pascal por iniciativa de Pio XII em 1951, acolhida depois pela reforma da Semana Santa, o Ordo Hebdomadae Sanctae instauratus de 1956. Este Ordo foi retomado e aperfeiçoado depois do Vaticano II, por isso ocupamo-nos apenas da liturgia atuai, fruto das decisões do Vaticano II que representam a melhor recuperação dos elementos da antiga tradição romana e nos conduzem a uma visão unitária destas celebrações.
Os atuais livros litúrgicos usam a expressão moderna Sacrum Triduum Paschale para indicar o período que tem início na missa vespertina in cena Domini de Quinta-feira santa, com o centro na Vigília pascal, e termina com as Vésperas no domingo da ressurreição (Cf. CR 19; MR 1970). Como dizem as Normas Gerais, no número 18: “O tríduo da paixão e ressurreição do Senhor é o centro e vértice do Ano litúrgico”. O tríduo pascal comemora o mistério da morte e ressurreição de Cristo.
Deste modo, foi recuperado o antigo tríduo de Cristo, morto, sepultado e ressuscitado. A perspectiva celebrativa da páscoa anual e histórica, que determinou a celebração em três dias, segundo a tradição cronológica neo-testamentária, presente no antigo Kerygma de 1Cor 15, 3-4: «Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia segundo as escrituras...», porque o “hoje” da celebração é sempre memorial de um acontecimento.
De fato, a celebração vespertina de Quinta-feira Santa faz parte - como “prólogo” sacramental - dos três dias do tríduo, que compreende os três dias seguintes (Sexta-feira, Sábado e Domingo). É, fundamentalmente, o que nos diz a primeira oração inicial (o missal propõe duas) de Sexta-feira Santa: «Jesus Cristo vosso Filho instituiu (inaugurou) o mistério pascal». Podemos dizer que enquanto o tríduo nos apresenta a realidade do mistério pascal na sua dimensão histórica, a celebração de Quinta-feira santa transmite-o na sua dimensão ritual; é o momento “sacramental” do único mistério pascal. Deste modo, a Quinta-feira Santa está ligada ao tríduo, ainda que historicamente não faça parte dele.
Quinta-Feira Santa: missa “in cena Domini”
Esta celebração tem um caráter festivo, unitário e comunitário. Nela celebramos a instituição da Eucaristia, inseparável, para o o seu entendimento, da cruz e da ressurreição. Na última ceia Jesus antecipa no rito eucarístico a sua oblação numa perspectiva de vitória. Os momentos fundamentais da celebração vespertina de Quinta-feira santa são: a liturgia da palavra (Ex 12, 1-8.11-14; 1 Cor 11, 23-26: Jo 13, 1-15); o lava-pés, opcional; a liturgia eucarística; a transladação do Santíssimo Sacramento; e a denudação do altar (feita em silêncio depois da celebração). No que respeita à reforma de 1956, a novidade mais importante é a proclamação de Ex 12 na primeira leitura, na qual se encontram as prescrições da ceia pascal hebraica, e o salmo responsorial (Sl 115) com o refrão: «O cálice de bênção é comunhão do sangue de Cristo».
Dada a multiplicidade de elementos que confluem nesta celebração, torna-se necessário fazer uma leitura unitária. Uma rubrica do Missal prescreve que na homilia «comentam-se os grandes mistérios que neste dia se comemoram: a instituição da Eucaristia, o sacramento da Ordem e o mandato do Senhor sobre a caridade». Significa isto que o sacerdócio ministerial e a caridade são componentes irrenunciáveis de cada celebração eucarística. No que concerne à instituição da eucaristia, esta deve ser lida à luz da antiga tradição romana: a entrega (traditio) que o Senhor fez aos seus discípulos dos mistérios cultuais do seu corpo e do seu sangue para que o celebrassem.
A celebração vespertina de Quinta-feira Santa é, portanto, memorial daquele momento em que Jesus, antes de se entregar à morte, confiou para sempre à sua Igreja o novo e eterno sacrifício, convite nupcial do seu amor, para que esta o perpetuasse em sua memória.
Sexta-Feira Santa: celebração da paixão
A celebração de Sexta-Feira da Paixão do Senhor divide-se em três partes: liturgia da palavra (Is 52, 13-53, 12; Heb 4, 14-16; 5, 7-9; Jo 18, 1-19, 42); a adoração da Santa Cruz; comunhão eucarística. A reforma de 1956 tinha re-introduzido a comunhão dos fiéis, que ainda se mantém e que é causa de alguns problemas teológico-pastorais. Alguns interpretam esta estrutura, fruto de uma síntese de diversas tradições, de uma forma linear: “paixão proclamada (liturgia da palavra); paixão invocada (oração universal); paixão venerada (adoração da cruz); paixão comungada (comunhão eucarística). O problema não está, no entanto, na estrutura da própria celebração mas na harmonia desta celebração no conjunto do tríduo pascal, que se orienta para a celebração eucarística da Vigília pascal. Tendo ainda em conta o jejum prescrito pelas Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e do Calendário (28) para este dia, a problemática da comunhão de Sexta-Feira Santa é ainda mais evidente. O problema não é histórico e muito menos arqueológico, mas teológico: em primeiro lugar, recordemos que para além da presença eucarística, existem outras expressões da presença de Cristo (cf. SC 7); em segundo lugar, convém ter presente que a cruz gloriosa constitui o simbolismo central de Sexta-Feira Santa. É de tal maneira notório este simbolismo que até as duas orações (uma “depois da comunhão” e outra “sobre o povo”) que encerram esta celebração fazem especial menção à «gloriosa morte e ressurreição de Cristo» (depois da comunhão) e à «morte do vosso filho na esperança da ressurreição» (oração sobre o povo).
Em relação à reforma de 1956, a novidade encontra-se nas primeiras duas leituras. A primeira (a passagem do servo de IHWH de Isaías) é para ser compreendida à luz de Cristo sofredor. Conserva-se a proclamação da Paixão segundo S. João, para o qual a morte de Jesus não é uma derrota mas uma vitória; é uma “elevação” no duplo sentido da palavra: sobre a cruz e para a glória. A aclamação antes do Evangelho (Fil 2, 8-9) coloca-se na óptica de João quando anuncia a exaltação de Cristo obediente até à morte… Para além disso, numerosas variantes nos textos eucológicos configuram a celebração como memorial do sacrifício “pascal” de Cristo.
A paixão/morte de Cristo deve ser entendida à luz do seu aspecto soteriológico, que culmina com o convite sugerido na segunda leitura: «vamos, portanto, cheios de confiança, ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno» (Heb 4, 16).
Foram re-elaboradas as grandes intercessões, nas quais se evidenciam as orações V e VI, a primeira pela unidade dos cristãos e a segunda pelos judeus. No que concerne aos impropérios (o Missal italiano traduziu por “lamentações do Senhor” - lamenti del Signore) são exatamente o que a palavra indica, os impropérios que o Senhor levantado na Cruz dirige ao seu povo. Neles se percorrem as primeiras etapas da História de Israel nas quais Deus se manifesta como salvador; apesar destes acontecimentos se terem realizado em favor do povo este não o soube reconhecer, matando aquele que sempre o beneficiou. Na Idade Média os impropérios foram interpretados numa perspectiva anti-judaica. Devem, no entanto, ser entendidos como expressão da recusa da comunidade, judaica e cristã, diante de Deus que oferece continuamente a salvação.
A liturgia das horas, com os seus elementos característicos (salmos e leituras), apresenta-nos uma ampla releitura do mistério da cruz. As antífonas que acompanham a oração dos salmos da hora intermédia (Tercia, sexta e Noa) e as antífonas de Vésperas de Sexta-Feira Santa percorrem passo a passo os diversos momentos históricos do drama da cruz, até à última antífona de Vésperas que recorda o momento culminante do drama: «tendo tomado o vinagre, Jesus disse: tudo está consumado. E inclinando a cabeça, expirou».
A passagem patrística do Ofício de leituras, das Catequeses de S. João Crisóstomo, ilustra a força do sangue de Cristo e, em particular, explica o simbolismo da água e do sangue que saíram do lado de Cristo: o primeiro (a água) símbolo do Batismo; o segundo (o sangue) símbolo da Eucaristia. Portanto, conclui o santo bispo, «foi do lado de Cristo que se formou a Igreja, como foi do lado de Adão que Eva foi formada».
O Sábado Santo: o sepulcro de Cristo e a descida aos infernos
Com a reforma de Pio XII, retomada fundamentalmente pelo Vaticano II, o Sábado Santo adquiriu o seu aspecto originário: é o dia de Cristo sepultado. Não é um dia “aliturgico” como normalmente é chamado, porque a liturgia é sempre mais que a celebração da Eucaristia. Seria “aliturgico” se não se celebrasse a liturgia das horas, que aliás nos transmite o significado deste dia. A Igreja recomenda o jejum e a “veneração” do sepulcro na expectativa da ressurreição do Senhor, porque como diz a segunda antífona do Ofício de leituras, «o meu corpo descansará na esperança».
Tal como os dias anteriores, o sábado santo propõe a totalidade do mistério pascal. A interpretação que dele faz a Igreja está presente nos três salmos do Ofício de leituras que iluminam o mistério da Páscoa nos três momentos de morte, sepultura e ressurreição. O Sl. Nr. 4 celebra Cristo morto que repousa tranqüilo em Deus: «em paz me deito e adormeço tranqüilo, porque só vós, Senhor, me fazeis repousar em segurança» (v. 9). O Sl. 15 celebra a espera confiante da ressurreição de Cristo sepultado: «Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção» (v. 10). Finalmente, o Sl 23 celebra a plena glorificação de Cristo que ultrapassa as portas do céu para ser entronizado à direita do Pai: «levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o rei da glória» (v. 9). Assim também os dois salmos e o cântico de laudes (Sl 63, Is 38, Sl 150), iluminados pelas antífonas correspondentes, dirigem a nossa atenção para os três momentos: de morte («…O Senhor morreu inocente), de repouso na esperança («livrai-me, Senhor, das portas do abismo) e de glorificação («Eu estive morto, mas agora vivo para sempre, e tenho as chaves da morte e do abismo»). Os salmos das outras horas do Ofício e os outros elementos, como as leituras bíblicas, as invocações e as intercessões, sublinham ora um, ora outro momento do mistério pascal.
O tema específico do sábado Santo, para além do repouso de Cristo no sepulcro, é a sua “descida aos infernos”. Deste tema fala-nos longamente a belíssima homilia de um anônimo do IV século que é lida no Ofício de leituras. O tema reaparece na oração do dia e nas invocações de laudes e mais tarde vamos encontrá-lo durante o tempo pascal. Trata-se de um artigo de fé que a liturgia proclama no pouco usado símbolo dos Apóstolos e na IV Oração Eucarística, estranho à sensibilidade moderna e à consciência dos crentes, mas fundamental para o entendimento do sentido cristológico e soteriológico da Páscoa. A homilia de Sábado Santo (leitura patrística do Ofício de leitura) afirma a este respeito: «Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam à séculos» e ilustra com imagens sugestivas o encontro de Cristo com Adão e os outros justos que jazem «nas trevas e na sombra da morte», aos quais o Redentor anuncia a salvação e conduz à eterna morada do reino dos céus: «e Cristo tomando Adão pela mão, levantou-o dizendo: desperta tu que dormes; levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará». A mesma doutrina encontra-se nas preces de laudes quando, na quarta petição, diremos: «Cristo, novo Adão, que descestes ao reino dos mortos para libertar os justos que, desde a origem do mundo, estavam encarcerados».
A descida de Cristo aos infernos tem, por conseguinte, uma dimensão eclesial - sacramental. É o que nos diz a oração daquele dia, a qual depois de ter recordado que o Filho de Deus («depois de ter descido à morada dos mortos») apresenta a seguinte súplica: «concedei aos vossos fiéis que, sepultados com Cristo no Batismo, também com Cristo ressuscitem para a vida eterna». No Sacramento do Batismo, o homem entra neste itinerário de solidariedade “dentro” e “para além” da morte de Cristo, pelo qual se torna membro da comunidade dos redimidos, como ilustra S. Paulo em Rm 6, 4-5, texto que inspira a última invocação de laudes: «Cristo, Filho de Deus vivo, que pelo Batismo nos sepultastes convosco na morte, conformai-nos cada vez mais à imagem da vossa ressurreição para vivermos uma vida nova.
A Ressurreição do Senhor: Vigília Pascal
Nesta noite «a Igreja espera a ressurreição de Cristo e celebra-a nos Sacramentos» (CR, 21). É a mãe de todas as vigílias, como lhe chamava S. Agostinho. No MR 1970 a vigília pascal está em relação com o domingo de páscoa: “Domingo de Páscoa in resurrectione Domini”
A primeira celebração do domingo de páscoa é, portanto, a vigília pascal. O simbolismo fundamental desta vigília é a de ser uma “noite iluminada”, ou melhor, “uma noite vencida pelo dia”, demonstrando através de símbolos, sinais e ritos que a vida da graça nasce da morte de Cristo. Por isso a Vigília é, por natureza, noturna. A espera, típica da vigilância, está em relação com a segunda vinda de Cristo, afirma-o uma rubrica que se encontra no missal, antes do formulário da celebração: «segundo uma antiqüíssima tradição, esta é uma noite de vigília em nome do Senhor, noite em que os fiéis celebram segundo a recomendação do Evangelho, de lâmpadas acesas na mão (Lc 12, 35), à semelhança dos servos que esperam o Senhor, para que quando Ele vier, os encontre vigilantes e os faça sentar à sua mesa».
A estrutura da celebração desta vigília introduz os participantes na contemplação da Páscoa em todas as suas dimensões: a liturgia da luz ou “lucernário” (bênção do fogo novo, preparação e procissão do círio e o canto do exultet ou “precónio pascal”) celebra a Páscoa cósmica, que assinala a passagem das trevas para a luz; a liturgia da palavra (com sete leituras (ou quatro obrigatórias) do Antigo Testamento mais duas do novo) celebra a Páscoa histórica evocando os principais momentos da história da salvação; a liturgia batismal celebra a Páscoa da Igreja, povo renascido da fonte batismal; a liturgia eucarística celebra a Páscoa perene e escatológica com a participação no banquete eucarístico, imagem da vida nova e do reino prometido.
A liturgia da palavra sofreu mudanças consideráveis ao longo dos séculos. As leituras constituíam a preparação última dos catecúmenos, antes de receber o Batismo. Os textos proclamados convidam-nos a percorrer todas (ou pelo menos as mais importantes) etapas da salvação que apontam para o momento único da Páscoa do Senhor. Esta Páscoa do Senhor é, pois, a Páscoa da Igreja, como proclama Rm 6, 3-11 (a primeira leitura do NT): «fomos sepultados com Cristo no Batismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova». A Páscoa é, portanto, um convite a viver e a renovar todos os dias o acontecimento salvífico que se realizou em nós no dia do nosso Batismo.
O Domingo de Páscoa celebra o acontecimento pascal como o «dia de Cristo Senhor». As leituras bíblicas contêm o kerygma pascal e apelam para as condições da vida nova em Cristo ressuscitado. Como diz a atual coleta para este dia (proveniente do sacramentário GeV), celebrar a Páscoa significa «ser renovados pelo Vosso Espírito [para que] ressuscitemos para a luz da vida», isto é, a luz de Cristo ressuscitado. A páscoa é, portanto, a celebração de um acontecimento central da vida de Cristo, realizado de uma vez por todas, pelo qual, através das diversas celebrações do tríduo pascal, alcançamos a salvação, a passagem da morte à vida no presente da vivência eclesial.

Vejamos o belo exemplo de Jó:

 

Leitura do Livro de Jó 2, 1-13

Coberto de chagas, Jó e visitado pelos amigos

Ora, um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, Satanás apareceu também no meio deles na presença do Senhor.
O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, respondeu Satanás, e passeando por ele.
O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra, íntegro, reto, temente a Deus e afastado do mal. Persevera sempre em sua integridade; foi em vão que me incitaste a perdê-lo. Pele por pele!, respondeu Satanás. O homem dá tudo o que tem para salvar a própria vida. Mas estende a tua mão, toca-lhe nos ossos, na carne; juro que te renegará em tua face.
O Senhor disse a Satanás: Pois bem, ele está em teu poder, poupa-lhe apenas a vida.
Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça.
E Jó tomou um caco de telha para se coçar, e assentou-se sobre a cinza.
Sua mulher disse-lhe: Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre!
Falas, respondeu-lhe ele, como uma insensata. Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade? Em tudo isso, Jó não pecou por palavras.
Três amigos de Jó, Elifaz de Temã, Bildad de Chua e Sofar de Naama, tendo ouvido todo o mal que lhe tinha sucedido, vieram cada um de sua terra e combinaram ir juntos exprimir sua simpatia e suas consolações.
Tendo de longe levantado os olhos, não o reconheceram; e puseram-se então a chorar, rasgaram as vestes, e lançaram para o céu poeira, que recaía sobre suas cabeças.
Ficaram sentados no chão ao lado dele sete dias e sete noites, sem que nenhum lhe dirigisse a palavra, tão grande era a dor em que o viam mergulhado.



 


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