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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Paz que Brota do Perdão: o Início da Conversão - Continuação

A Paz que Brota do Perdão: o Início da Conversão - Continuação


A história da humanidade está repleta de ricos exemplos de homens e mulheres que viveram uma experiência de paz, transformando suas vidas. Através deste ângulo pessoal, inspiraram muitas pessoas a buscarem seguir por mesmo caminho, que podemos apresentar como um caminho de experiência do amor e do desejo de Deus para cada pessoa e para a sociedade: de viver intensamente em paz.

A paz se constitui em primeira instância como uma virtude que a alma experimenta porque faz uma experiência íntima de Deus, ou seja, é Deus quem pacifica o ser humano, porque dele tem misericórdia, nesse sentido ela é uma realidade teológica.

A paz também reflete uma realidade psicológica, como realidade prática na vida, na sociedade, porque ela incide sobre a qualidade dos interelacionamentos humanos, possibilitando ao indivíduo viver o amor de Deus amando o próximo, portanto de anteciparmos o reino de Deus entre nós, isto é, já experimentando uma perspectiva de ressurreição dos afetos, de recuperação da alegria, de aquisição de sentido e de geração de valores morais e éticos que ajudem à humanidade a se tornar cada vez mais humana, no sentido pleno que Deus criou. Trata-se de uma perspectiva de sacralização da vida presente até a Ressurreição eterna.

Isto se faz possível porque a paz é capaz de comunicar o eu interior presente na subjetividade da pessoa humana como realidade espiritual de criatura na qual Deus insufla o seu Espírito, que sabemos ser o Espírito da Paz, e esta presença santificante se mistura a um nós da comunidade para refletir a mesma realidade de doação divina, de um criador que nos faz sua imagem e semelhança.

A paz que Deus vivencia no interior da Trindade Santa é a paz que Ele manifesta ao mundo como manifestação harmoniosa de um viver no paraíso, lugar onde a perspectiva da vida comunitária tem sua maior significação e seu sentido mais pleno. A paz, então realiza o desejo e a realização do estar com Deus, de ir-Lhe ao encontro em todos os momentos e situações. Assim, a paz é um desafio à coragem e determinação humana, que nos podem demonstrar se optamos ou não por Deus e pelo paraíso.

O ser humano deseja este paraíso, e por ele se empenha à medida que descobre o sentido pleno e a riqueza do viver com Deus, presente na vida e no ser, e mais, da necessidade de ver Deus presente em cada pessoa humana. Com isso, a paz deixa de ser apenas uma experiência individual e se demonstra essencialmente comunitária.

Nesse sentido, tal desejo humano tem que se transformar em reflexo da ação direta da graça de Deus que ensina a pessoa individualmente, que toca no ser humano enquanto criatura e que transforma a sociedade num paraíso. Essa é uma utopia que nos inquieta e desafia. Daí podermos abstrair que o desejo humano de estar no paraíso de Deus é um princípio agente de transformação da realidade existencial em lugar da paz primordial, que predominava no início da criação, no Éden, como o modelo de lugar da Paz, que hoje queremos contemplar na pessoa humana e nas nossas comunidades.

Esse princípio ativo é o ir ao encalço da paz, é nossa caracterização como cristãos, uma vez que se manifesta no desejo de imitação do amor de um Deus que nos amou ao extremo, inclusive morrendo na Cruz como ação salvífica para toda a humanidade.

Na cruz Jesus Cristo viveu sua expressão máxima de comunhão com o Pai, falando-lhe de modo direto, de comunidade com a humanidade, manifestando que não nos deixaria órfãos e que nos enviaria o Paráclico. Qual foi então a expressão íntima do ser de Jesus Cristo naquele momento? A da comunhão que nos permitiria vivermos a paz realizada pela redenção. A paz, então é a marca da comunhão com Jesus Cristo, é expressão do ser membro da Igreja desse Jesus Cristo, que nasce na sua cruz. A paz, então é transformação da morte em ressurreição, e é por isso que se pode dizer que nenhum de nos gozará de paz se não nos esforçarmos e nos convertermos à esperança de que com a graça de Deus podemos ser novas criaturas.

O gesto do perdão de Jesus Cristo não foi uma manifestação de autoridade, mas de gratuidade. Aliás, a este propósito podemos ressaltar que muitas vezes não conseguimos entender em profundidade essa lição de Jesus, uma vez que tantas vezes encaramos nossas atitudes de perdão como necessidade explícita de comprovação de nossa autoridade, do tipo, eu perdou porque tenho razão, porque sou superior. Na prática, vivemos tentados a agir assim, mascarando-nos como virtuosos. Cristo não agiu assim, Ele era sobremaneira humilde. Perdoou porque simplesmente queria amar, e amar acima de tudo era o Príncipe da Paz.

Estamos diante de uma das realidades espirituais mais profundas da vida humana, isto é, a de podermos viver uma dimensão de paz, que se originou por conta do perdão na Cruz, concedido como gratuidade de Deus. E isso se prolonga ao longo de nossa história, porque mesmo recaídos por nossos pecados podemos receber o perdão e restabelecermos nossa paz com o Criador. Cada pessoa humana então, é um ser a quem Deus convida incessantemente a viver a paz interior do retorno, bem ao molde do filho pródigo.

Tudo o que se entende acerca da paz nada mais é do que descobrir que ela foi deixada por Deus como um sinal de sua harmonia, de sua presença, inclusive como estímulo à superação de nossos próprios limites. Viver em paz, é antes um desafio à humanidade e não um deleite egocêntrico. Por isso, ninguém pode viver em paz vendo que o seu próximo não a vive. No mínimo devemos mostrar-lhe nossa paz e ao máximo devemos nos empenhar para que dela ele participe. Isto é, quem vive em paz comunica paz, é agente de Deus na vida humana, é evangelizador, pois vive sua dimensão de missionário do amor de Deus.

Estamos diante de uma possibilidade histórica que nos permite reconhecermos na história da Igreja, uma grande quantidade de homens e mulheres que viveram essa busca como seu ideal maior, de modo que viveram em paz, daí serem admirados e se tornarem modelos.

Através desses exemplos de seguidores de Cristo (sem deixarmos de considerar a grandiosa quantidade de pessoas, que não cristãs, também foram em suas vidas, mensageiras da paz) podemos ressaltar de suas vidas que o encontro da paz, conduziu-lhes por um caminho de conversão de suas vidas.

Dentre o imenso número dos convertidos a Deus que por isso viveram uma experiência de paz interior, temos a figura de São João Gualberto. Homem incitado pela lógica de seu tempo histórico, por volta do ano 1000 a vingar o assassinato de seu irmão e com isso resgatar o poder e a autoridade de sua família.

A experiência histórica de João Gualberto, que lhe proporcionou o alcance de sua paz interior, teve como marco inicial sua experiência da Cruz de Cristo, que vivenciado num dos dias da liturgia do Tríduo Pascal, lhe demarcou o tempo de sua conversão e de sua vocação monástica.

Conta-nos a história, que numa Sexta-feira Santa, o jovem e valente João Gualberto encontra o assassino de seu irmão, a quem desejava matar para vingar o sangue do irmão e honrar o nome da família. Neste encontro todas as condições lhe estavam favoráveis para realizar com êxito o seu premeditado intento. Todavia, o jovem não imaginava que o seu inimigo tivesse a atitude de pedir-lhe perdão.

Assim, ele pede a João Gualberto que em nome do Cristo, que na Cruz perdoou seus crucificadores, e que naquele dia a Igreja celebrava como um mistério de salvação, ele lhe perdoasse.

Após alguns instantes de introspecção que tomaram conta de João Gualberto, o valente homem abraça o seu inimigo, experimentando um sentimento de libertação interior muito profundo. Era seu encontro com a paz.

O peso do desejo de vingança, a idéia fixa e a energia despendida no planejamento daquele momento, agora não mais existiam, e ele, João Gualberto abria-se a um estado interior de pacificação, o que também no outro deve ter acontecido em função da libertação do medo e do peso da consciência por ter matado alguém. Ambos viveram suas dimensões pessoais de encontro com a paz.

Quanto a João Gualberto, depois daquele momento marcante de sua vida, dirige-se à Igreja de São Miniato (Florença), confiada aos monges beneditinos cluniacenses, e lá vai rezar diante do crucifixo, ainda comovido pela menção do gesto de perdão de Cristo, que fora a estrutura de comunicação utilizada pelo seu inimigo: “Perdoa-me em nome do Cristo que hoje a Igreja celebra como a salvação e redenção da humanidade”.

Após sua oração e contemplação daquele crucifixo, percebe que o Cristo daquela cruz lhe inclina a cabeça. Esta experiência foi entendido por ele como um sinal da aprovação de Deus ao seu gesto humano, como também um chamado vocacional a tornar-se monge.

João Gualberto pede então, ao abade daquele mosteiro para ali tornar-se monge, e assim viver no claustro seu encontro com a paz. Ele vive dali por diante uma intensa recuperação de sentido para o ser cristão: perdoar e converter-se, expressões de uma alma que vive a paz como passagem a um estado de nova criatura.

Desta forma, o testemunho de paz desse santo monge reflete sua vida e espiritualidade, e chega até cada um de nós com a mesma intensidade de desafio, realizando assim a expressividade da paz beneditina como um dom e um desafio, que em nossa experiência de lectio divina podemos ler nas bem-aventuranças, ou seja, de que são “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.

Dom Robson Medeiros OSBV, Prior
Mosteiro de S. João Gualberto
São Paulo - SP

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