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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A Humildade - Caminho seguro para a verdadeira conversão e o encontro real com Deus.



A humildade protege nosso encontro com Deus da inflação, do inchar-nos, do falso identificar-nos com Deus. Mas quanto mais, eu me identifico com uma imagem arquetípica, tanto mais perco a visão da minha realidade. Fico dividido, interiormente dilacerado. Sempre mais tenho que abrir os olhos para minha realidade. A humildade é o fundamento que impede que nos destaquemos em nosso caminho para Deus e que passemos por cima de nossa condição humana. Ela nos preserva da inflação, que constitui o perigo maior as pessoas religiosas.

No monaquismo antigo a humanidade não é apenas o sentir a baixeza e a condição térrea, mas ela está intimamente ligada à mansidão. Humildade, em grego, é tapeinos, mas frequentemente prays se traduz também como humilde. Mas prays é, também ao mesmo tempo, bondade, mansidão. Para Evágrio Pôntico, a mansidão é a qualidade característica do pai espiritual. Mansidão significa a bondade quando dirigimos o olhar para nós mesmos e para os outros, a compaixão com erros e as fraquezas, nossos e dos outros. Na mansidão de uma pessoa se manifesta como o humilde autoconhecimento transformou seu coração. Evágrio adverte contra a continência sem mansidão. “A continência oprime unicamente o corpo, mas a mansidão faz com que a inteligência veja” (Evágrio,1986: 27,4). A mansidão é a condição para que exista verdadeira contemplação. Por isso, sempre de novo Evágrio lembra a seus monges a figura de Moisés: “Moisés era homem muito humilde, mais do que qualquer pessoa sobre a face da terra (Nm 12,3 Id, Ibid: 27,2). Só poderemos contemplar Deus como Moisés quando tivermos aprendido sua mansidão. Sem mansidão, a ascese apenas obscurece o espiríto. Por isso Evágrio adverte um discípulo: “Sobretudo não esqueças a mansidão e a prudência, que purificam a alma e aproximam do 'conhecimento de Cristo' (= contemplação), (id, Ibid: 34,2).

O Novo Testamento entende a humildade não apenas como um comportamento para com Deus, mas também para com os homens. Por isso a humildade, mansidão (brandura), longanimidade ( paciência)!” (Cl 3,12). Com estes cinco conceitos, Paulo descreve o comportamento de Deus para conosco, e ao mesmo tempo o modo de agir do homem novo que foi redimido por Cristo. O humilde não despreza o irmão nem a irmã, mas vê neles Cristo. Por isso, faz parte da humildade o respeito pelo mistério do outro e o coração grande, onde existe também para o irmãos e a irmã. Quando alguém encontrou sua própria condição humana, nada do que é humano lhe é estranho. Está reconciliado com todo o humano que se lhe depara, sobretudo com o fraco e o enfermo, com o imperfeito e o fracassado. Vê tudo envolvido pelo olhar de bondade de Deus, pela visão misericordiosa de Jesus. E assim não pode fazer outra coisa senão olhar também ele com bondade e misericórdia tudo que lhe vem ao encontro em sua própria alma e nas pessoas. A mansidão não é uma virtude que nasce do caráter. Ela não denota falta de agressividade, mas é, em ultima análise, expressão da fé no Deus misericordioso que fez seu filho Jesus Cristo descer à realidade desta terra. Jesus Cristo acolheu tudo quanto é humano e desta maneira o redimiu. Em sua humanidade, ele levou consigo para o céu todas as nossas fraquezas da terra, por isso ele também subiu ao céu. E assim também nos mostrou o caminho.
Não podemos subir ao céu se não estivermos dispostos a descer com Cristo ao nosso humus, às nossas sombras, à condição terrena, ao inconsciente, à nossa fraqueza humana. O paradoxo da ascensão espiritual, que São Bento coloca no inicio do capitulo sobre a humildade,(Cap.7 no final), é também o paradoxo de todo caminho espiritual. Nós subimos a Deus quando descemos à nossa humanidade. Este caminho é o caminho da liberdade, este é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia, e o caminho de Jesus também para nós.


A meta da humildade é o amor, que expulsa todo medo. Porque na humildade descemos ao inferno da própria divisão interior, por isso todos nós perdemos o medo do inferno. Descobrimos a Cristo mesmo em meio ao inferno de nossa alma.
Cristo trouxe-lhe a luz e a transformou. O medo tolhe e restringe. Mas quando a humildade expulsa o medo, o coração se dilata. Para o fim do caminho da humildade, vale, por isso, o que São Bento nos diz no final do prólogo sobre o caminho monástico: “Mas quando alguém progride na vida monástica e na fé, seu coração se alarga, e na inefável felicidade do amor ele percorre o caminho dos mandamentos de Deus”(Rol 49). O coração, a quem não é estranho nada do que é humano, alargar-se enche-se do amor de Deus, que transforma todo o humano. O caminho da humildade é o caminho da transformação; O homem vai ao encontro de sua realidade e coloca-se diante de Deus para que Deus transforme em amor tudo quanto existe nele, para que todo ele seja penetrado pelo espírito de Deus.



 


Regra de Nosso Pai São Bento
CAPÍTULO 7 - Da humildade

[1] Irmãos, a Escritura divina nos clama dizendo: "Todo aquele que se exalta será humilhado e todo aquele que se humilha será exaltado". [2] Indica-nos com isso que toda elevação é um gênero da soberba, [3] da qual o Profeta mostra precaver-se quando diz: "Senhor, o meu coração não se exaltou, nem foram altivos meus olhos; não andei nas grandezas, nem em maravilhas acima de mim. [4] Mas, que seria de mim se não me tivesse feito humilde, se tivesse exaltado minha alma? Como aquele que é desmamado de sua mãe, assim retribuirias a minha alma.

[5] Se, portanto, irmãos, queremos atingir o cume da suma humildade e se queremos chegar rapidamente àquela exaltação celeste para a qual se sobe pela humildade da vida presente, [6] deve ser erguida, pela ascensão de nossos atos, aquela escada que apareceu em sonho a Jacó, na qual lhe eram mostrados anjos que subiam e desciam. [7] Essa descida e subida, sem dúvida, outra coisa não significa, para nós, senão que pela exaltação se desce e pela humildade se sobe. [8] Essa escada ereta é a nossa vida no mundo, a qual é elevada ao céu pelo Senhor, se nosso coração se humilha. [9] Quanto aos lados da escada, dizemos que são o nosso corpo e alma, e nesses lados a vocação divina inseriu, para serem galgados, os diversos graus da humildade e da disciplina.

[10] Assim, o primeiro grau da humildade consiste em que, pondo sempre o monge diante dos olhos o temor de Deus, evite, absolutamente, qualquer esquecimento, [11] e esteja, ao contrário, sempre lembrado de tudo o que Deus ordenou, revolva sempre, no espírito, não só que o inferno queima, por causa de seus pecados, os que desprezam a Deus, mas também que a vida eterna está preparada para os que temem a Deus; [12] e, defendendo-se a todo tempo dos pecados e vícios, isto é, dos pecados do pensamento, da língua, das mãos, dos pés e da vontade própria, como também dos desejos da carne, [13] considere-se o homem visto do céu, a todo momento, por Deus, e suas ações vistas em toda parte pelo olhar da divindade e anunciadas a todo instante pelos anjos. [14] Mostra-nos isso o Profeta quando afirma estar Deus sempre presente aos nossos pensamentos: "Deus que perscruta os corações e os rins". [15] E também: "Deus conhece os pensamentos dos homens". [16] E ainda: "De longe percebestes os meus pensamentos" [17] e "o pensamento do homem vos será confessado". [18] Portanto, para que esteja vigilante quanto aos seus pensamentos maus, diga sempre, em seu coração, o irmão empenhado em seu próprio bem: "se me preservar da minha iniqüidade, serei, então, imaculado diante d’Ele".

[19] Assim, é-nos proibido fazer a própria vontade, visto que nos diz a Escritura: "Afasta-te das tuas próprias vontades". [20] E, também, porque rogamos a Deus na oração que se faça em nós a sua vontade.

[21] Aprendemos, pois, com razão, a não fazer a própria vontade, enquanto nos acautelamos com aquilo que diz a Escritura: "Há caminhos considerados retos pelos homens cujo fim mergulha até o fundo do inferno", [22] e enquanto, também, nos apavoramos com o que foi dito dos negligentes: "Corromperam-se e tornaram-se abomináveis nos seus prazeres". [23] Por isso, quando nos achamos diante dos desejos da carne, creiamos que Deus está sempre presente junto a nós, pois disse o Profeta ao Senhor: "Diante de vós está todo o meu desejo".

[24] Devemos, portanto, acautelar-nos contra o mau desejo, porque a morte foi colocada junto à porta do prazer. [25] Sobre isso a Escritura preceitua dizendo: "Não andes atrás de tuas concupiscências". [26] Logo, se os olhos do Senhor "observam os bons e os maus", [27] e "o Senhor sempre olha do céu os filhos dos homens para ver se há algum inteligente ou que procura a Deus" [28] e se, pelos anjos que nos foram designados, todas as coisas que fazemos são, cotidianamente, dia e noite, anunciadas ao Senhor, [29] devemos ter cuidado, irmãos, a toda hora, como diz o Profeta no salmo, para que não aconteça que Deus nos veja no momento em que caímos no mal, tornando-nos inúteis, [30] e para que, vindo a poupar-nos nessa ocasião porque é Bom e espera sempre que nos tornemos melhores, não venha a dizer-nos no futuro: "Fizeste isto e calei-me".

[31] O segundo grau da humildade consiste em que, não amando a própria vontade, não se deleite o monge em realizar os seus desejos, [32] mas imite nas ações aquela palavra do Senhor: "Não vim fazer a minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou". [33] Do mesmo modo, diz a Escritura: "O prazer traz consigo a pena e a necessidade gera a coroa".

[34] O terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus, se submeta o monge, com inteira obediência ao superior, imitando o Senhor, de quem disse o Apóstolo: "Fez-se obediente até a morte".

[35] O quarto grau da humildade consiste em que, no exercício dessa mesma obediência abrace o monge a paciência, de ânimo sereno, nas coisas duras e adversas, ainda mesmo que se lhe tenham dirigido injúrias, [36] e, suportando tudo, não se entregue nem se vá embora, pois diz a Escritura: "Aquele que perseverar até o fim será salvo". [37] E também: "Que se revigore o teu coração e suporta o Senhor". [38] E a fim de mostrar que o que é fiel deve suportar todas as coisas, mesmo as adversas, pelo Senhor, diz a Escritura, na pessoa dos que sofrem: "Por vós, somos entregues todos os dias à morte; somos considerados como ovelhas a serem sacrificadas". [39] Seguros na esperança da retribuição divina, prosseguem alegres dizendo: "Mas superamos tudo por causa daquele que nos amou". [40] Também, em outro lugar, diz a Escritura: "Ó Deus, provastes-nos, experimentastes-nos no fogo, como no fogo é provada a prata: induzistes-nos a cair no laço, impusestes tribulações sobre os nossos ombros". [41] E para mostrar que devemos estar submetidos a um superior, continua: "Impusestes homens sobre nossas cabeças". [42] Cumprindo, além disso, com paciência o preceito do Senhor nas adversidades e injúrias, se lhes batem numa face, oferecem a outra; a quem lhes toma a túnica cedem também o manto; obrigados a uma milha, andam duas; [43] suportam, como Paulo Apóstolo, os falsos irmãos e abençoam aqueles que os amaldiçoam.

[44] O quinto grau da humildade consiste em não esconder o monge ao seu Abade todos os maus pensamentos que lhe vêm ao coração, ou o que de mal tenha cometido ocultamente, mas em lho revelar humildemente, [45] exortando-nos a este respeito a Escritura quando diz: "Revela ao Senhor o teu caminho e espera nele". [46] E quando diz ainda: "Confessai ao Senhor porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna". [47] Do mesmo modo o Profeta: "Dei a conhecer a Vós a minha falta e não escondi as minhas injustiças. [48] Disse: acusar-me-ei de minhas injustiças diante do Senhor, e perdoastes a maldade de meu coração".

[49] O sexto grau da humildade consiste em que esteja o monge contente com o que há de mais vil e com a situação mais extrema e, em tudo que lhe seja ordenado fazer, se considere mau e indigno operário, [50] dizendo-se a si mesmo com o Profeta: "Fui reduzido a nada e não o sabia; tornei-me como um animal diante de Vós, porém estou sempre convosco".

[51] O sétimo grau da humildade consiste em que o monge se diga inferior e mais vil que todos, não só com a boca, mas que também o creia no íntimo pulsar do coração, [52] humilhando-se e dizendo com o Profeta: "Eu, porém, sou um verme e não um homem, a vergonha dos homens e a abjeção do povo: [53] exaltei-me, mas, depois fui humilhado e confundido". [54] E ainda: "É bom para mim que me tenhais humilhado, para que aprenda os vossos mandamentos".

[55] O oitavo grau da humildade consiste em que só faça o monge o que lhe exortam a Regra comum do mosteiro e os exemplos de seus maiores.

[56] O nono grau da humildade consiste em que o monge negue o falar a sua língua, entregando-se ao silêncio; nada diga, até que seja interrogado, [57] pois mostra a Escritura que "no muito falar não se foge ao pecado" [58] e que "o homem que fala muito não se encaminhará bem sobre a terra".

[59] O décimo grau da humildade consiste em que não seja o monge fácil e pronto ao riso, porque está escrito: "O estulto eleva sua voz quando ri".

[60] O undécimo grau da humildade consiste em, quando falar, fazê-lo o monge suavemente e sem riso, humildemente e com gravidade, com poucas e razoáveis palavras e não em alta voz, [61] conforme o que está escrito: "O sábio manifesta-se com poucas palavras".

[62] O duodécimo grau da humildade consiste em que não só no coração tenha o monge a humildade, mas a deixe transparecer sempre, no próprio corpo, aos que o vêem, [63] isto é, que no ofício divino, no oratório, no mosteiro, na horta, quando em caminho, no campo ou onde quer que esteja, sentado, andando ou em pé, tenha sempre a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, [64] considerando-se a cada momento culpado de seus pecados, tenha-se já como presente diante do tremendo juízo de Deus, [65] dizendo-se a si mesmo, no coração, aquilo que aquele publicano do Evangelho disse, com os olhos pregados no chão: "Senhor, não sou digno, eu pecador, de levantar os olhos aos céus". [66] E ainda, com o Profeta: "Estou completamente curvado e humilhado".

[67] Tendo, por conseguinte, subido todos esses degraus da humildade, o monge atingirá logo, aquela caridade de Deus, que, quando perfeita, afasta o temor; [68] por meio dela tudo o que observava antes não sem medo começará a realizar sem nenhum labor, como que naturalmente, pelo costume, [69] não mais por temor do inferno, mas por amor de Cristo, pelo próprio costume bom e pela deleitação das virtudes.

[70] Eis o que, no seu operário, já purificado dos vícios e pecados, se dignará o Senhor manifestar por meio do Espírito Santo.



 

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