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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Hesicasmo - Descritivo - Modo Espiritual - hesychia = tranquilidade, quietude, repouso


Hesicasmo

A ESPIRITUALIDADE HESICASTA

Quando se fala de hesicasmo, pensa-se geralmente em um método de oração baseado na repetição infinita do Nome de Jesus, método codificado no ambiente do Monte Athos,  nos séculos XIII e XIV.
Trata-se da sistematização filosófico-teológica dada a esta corrente de espiritualidade por Gregório Palamas no século XIV. Trata-se de uma corrente de espiritualidade que se identifica muito bem com a espiritualidade monástica.
Essa corrente de espiritualidade perpassa os Apoftegmas dos Padres e as Vidas dos Padres do Deserto. Todavia, aqueles que a descreveram com maior perfeição são os autores da chamada Escola Sinaítica dos séculos VI e VII, de um modo todo especial João Clímaco e Hesíquio o Sinaíta.
Em grego, a palavra hesychia designa um estado de calma, paz, repouso, quietude, tranqüilidade, resultado da ausência disciplinada de agitação interna e externa. É o exercício feito para se libertar do barulho, conflito, inquietude, preocupação e medo.
Assim compreendida, a hesychia, nos autores espirituais, indica também recolhimento da alma, silêncio, solidão interior e exterior, uma plena união com Deus. Este termo é também usado na espiritualidade monástica para indicar o estado de quietude e de silêncio de todo o ser humano, para que ele possa permanecer ligado no divino.
Pode-se, então, definir o hesicasmo como um sistema espiritual de orientação essencialmente contemplativa, que consiste no aperfeiçoamento do humano na busca da união com Deus através da oração contínua.
Os grandes mestres da oração hesicasta, que criaram o método e sobretudo a teologia da oração hesicasta, podem ser encontrados entre os séculos XIII e XIV no Monte Athos.
Vamos aqui recordar alguns nomes: Gregório, o Sinaísta (+1346).
Do Mosteiro do Monte Sinai, ele transportou a “oração do coração” para o Monte Athos. Nicéforo, o Hesicasta, de origem calabresa, converteu-se à Ortodoxia e se tornou monge no Monte Athos. Escreveu um pequeno tratado intitulado: “Sobre a Custódia do Coração”, que se tornou um clássico da oração hesicasta.

Do século XIV temos um tratado anônimo chamado: “Método da Santa Oração”, que é às vezes atribuído a São Simeão, o Novo Teólogo, mas não é verdade que seja dele esta obra. Um outro grande hesicasta é Teolepto, Metropolita de Filadélfia (1250-1345), que formou gerações inteiras de hesicastas.
Finalmente, temos o já citado Gregório Palamas (1296-1359), que é considerado o maior teólogo do hesicasmo. Pressupostos da espiritualidade hesicasta.                              


1. Hesychia e Amerimnia


A hesychia diz respeito à interioridade do humano. Mais que um modo de vida é um estado de alma. É resultado de uma longa luta contra as paixões escravizantes, as agitações e as preocupações mundanas. É o domínio sobre as paixões para poder amar absolutamente e com a máxima liberdade o Senhor.
Quanto à amerímnia (do grego: não-preocupação, despreocupação, tranqüilidade), esta indica de certa forma a mesma coisa: é a conquista disciplinada da serenidade existencial, ser livre de qualquer afã terreno, desvincular-se dos pensamentos deste mundo para se dedicar somente a Deus.


2. Nepsis


Trata-se de outra atitude recomendada pelos mestres hesicastas. Nepsis, palavra de origem grega, significa sobriedade, abstinência (o verbo nepso quer dizer: manter-se sóbrio, abster-se de vinho). É aprender a viver do estritamente necessário, em uma espécie de jejum espiritual que atinge todas as dimensões da existência. É cuidar da inteligência, da mente e do coração, é não se deixar encher de paixões, distrações e excitações, para permanecer sempre em estado de oração. É a atitude do cristão que deve sempre permanecer em Cristo (Jô 15,4), com todas as suas faculdades.  É um método espiritual que confronta todo o humano com a graça de Deus.
Graças à nepsis consegue-se afinar sempre melhor a atenção, apurar a atenção do coração. Muitos consideram a nepsis a mãe da disciplina da oração.


3. A Recordação de Deus


A doutrina da recordação de Deus vem de São Basílio. Ele mesmo pergunta e responde: Qual é o “próprio” do cristão? Responde o Santo: É conservar a constante recordação daquele que morreu e ressuscitou por nós! Ser cristão é ter sempre o Senhor diante dos olhos.
É vencer o assalto dos pensamentos contrários para estar sempre no Senhor. É vencer a autocontemplação, o voltar-se mais para si mesmo, a preguiça, o cansaço. O hesicasta é aquele que diz: “Durmo, mas meu coração vigia!” Vale mais um desobediente alerta que um hesicasta distraído.
É também um culto e um serviço ininterrupto a Deus. A recordação de Deus é toda a respiração, se não, a solidão espiritual não pode ser compreendida.
O mistério cristão, na sua essência, é a união/a aliança entre Deus e o humano: “Eu lhes dei a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e Tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que Tu me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jô 17,22-23).
Esta união com Deus através da nossa união com Jesus constitui a salvação do humano, o vencer a fragilidade humana para participar da natureza divina. A esta noção os Padres Gregos chamam de “deificação” (em grego: theosis), o processo da divinização do humano.
A oração hesicasta quer sempre recordar esta certeza de “ser em Deus”. Com a oração, esta nossa transformação em Deus se faz sempre mais ativa e consciente, e se desenvolve em todas as suas possibilidades. O hesicasmo mostra que isto é possível através dos sacramentos, da ascese e da “oração de Jesus” (a invocação incessante do Nome de Jesus).


Característica da oração hesicasta 

A oração hesicasta possui algumas características inconfundíveis. Vamos elencar as principais:


1. Oração monológica


A Sagrada Escritura não se cansa de exortar o/a fiel a  rezar continuamente: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17); “Orai incessantemente com toda a espécie de orações e súplicas no Espírito...” (Ef 6,18). Também Jesus costuma frisar a “necessidade de orar sempre, sem cansar” (cf. Lc 18,1), E exortar os seus discípulos: “Vigiai e orai!” (Lc 21,36).
A oração monológica (repetindo sempre uma só e a  mesma coisa; do grego: monos: um só; e logos: palavra) é a preocupação de permanecer sempre na presença do Senhor, com orações simples e jaculatórias. A forma primitiva desta prece é o “Kyrie eleison”. A forma mais comum soa assim: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!” (cf. Lc 18,13 e 18,38). Trata-se de uma junção da oração do publicano da parábola com o grito do cego de Jericó, que implora a cura. A oração monológica é também chamada de “oração pura”.
Esta fórmula é a síntese de tudo aquilo que é necessário da parte de Deus e da criatura humana. A invocação: “Senhor Jesus, Filho de Deus” constitui o pressuposto divino de salvação (Deus quer salvar e salva de fato!); e a expressão: “tem de piedade de mim” constitui o pressuposto humano da  confiança e da compunção do coração.


2. A Oração de Jesus ou o Poder do Nome


A oração hesicasta, chamada também de “Oração de Jesus”, devido à contínua invocação do Nome de Jesus, é a oração que vai haurir a sua força no poder do Nome divino. O Nome de “Javé”, no Antigo Testamento, e o Nome de Jesus, no Novo Testamento, se identifica com a Pessoa mesma e é causa de salvação para quem o invoca: “Todo aquele que invocar o Nome do Senhor será salvo” (At 2, 21)
Invocar o Nome significa deixar que Deus transforme a pessoa que O invoca por meio de seu Filho Encarnado com o poder ou a força do Espírito; significa deixar que Deus opere a contínua e progressiva cristificação. Em outros termos significa: contemplar a Deus e tornar-se a Ele semelhante. A oração contemplativa, de fato, é o diálogo do humano com Deus, é uma união mística.

O Nome de Jesus salva, cura, purifica, limpa o coração – dizem os autores hesicastas. São Basanúfio e São João, mestres espirituais no Deserto de Gaza (século VI) recomendam: “A memória do Nome de Jesus destrói completamente tudo aquilo que é mau”.


3. A Oração do coração contrito


A segunda parte da Oração de Jesus: “Tem piedade de mim, pecador” revela a atitude fundamental do humano frente a Deus – a fé, a tranqüilidade dentro de si, a certeza de que só Deus salva. É a “metanóia”, a mudança radical da criatura para melhor, a partir da força/do poder do próprio Senhor.

Sisões, o Grande (séc. V), não satisfeito com 62 anos de austeridades, em seu leito de morte confessava perante os outros monges: “Parece-me que ainda nem comecei a fazer penitência”.

Os monges do Monte Athos, repetindo a oração de Jesus, usam uma espécie de Rosário, chamado “komboschini”, que os ajuda a contar as invocações feitas... É composto de 100 nós, divididos em intervalos de 25, onde se fazem as  “conversões”, isto é, prostrações profundas, grandes inclinações. Arrependimento e prostações demonstram a atitude física e psíquica dos convertidos do Evangelho.


4. Orar com o coração


A oração hesicasta é também chamada de “oração do coração”.
A noção de “coração” é um elemento essencial na espiritualidade oriental. O coração é o centro do ser humano, a raiz da faculdade ativa do intelecto e da vontade, o ponto de onde provém e para onde converge toda a vida espiritual. É a fonte, obscura e profunda de onde jorra a vida psíquica e espiritual da criatura humana.
A criatura humana costuma dispersar-se em muitas coisas, sobretudo através dos pensamentos. Pela inteligência, o espírito conhece um mundo mais
externo, e corre o risco de perder o contato com o mundo espiritual. Orar com o coração significa voltar os olhos mais para a interioridade. Para reconstruir e reunificar a pessoa, é necessário reencontrar uma relação mais harmoniosa entre a inteligência e o coração.


5. Orações simples, com poucas imagens


O Metropolita Ortodoxo Kálistos Were resume alguns aspectos importantes deste tema da oração hesicasta, baseando-se em experiências e palavras de muitos Santos eremitas:
Quando preenchemos a mente com a recordação de Deus, precisamos dar-lhe uma tarefa, uma atividade. E a única atividade, para este caso, é a invocação do Nome: “Senhor Jesus”.
A recordação do Nome recupera uma mente desintegrada, partida em muitos cacos, e coloca de lado os pensamentos dispersivos. Não se trata de um conflito selvagem, nem de repressão violenta, mas de um delicado e perseverante ato de dar destaque ao Nome do Senhor. Quem não gosta  de colocar em evidência o nome da pessoa amada?
Pronunciar o nome é morar na intimidade, é ir para o interior da casa. Não há necessidade de visualizar nada, mas é bastante estar dentro, morar, permanecer, bem dentro de uma sensação, de um sentimento, de uma convicção.


6. Oração hesicasta e iluminação


Quando a oração hesicasta se torna perfeita oração do coração, seu primeiro efeito é a iluminação. Não podemos esquecer que esta oração é o grito suplicante do cego que pede  a Jesus que o cure da cegueira (cf. Lc 18,38). E Jesus atende ao grito do pobre cego: abre-lhe os olhos e lhe dá a iluminação.
A teologia da luz é muito importante para a espiritualidade. Na liturgia tudo é luz: a igreja fica toda iluminada, as imagens, o altar, os candelabros, a Palavra que vai ser proclamada diante do povo fiel. A Páscoa é uma festa de luz!
O Natal tem a Estrela que conduz os magos ao local onde se acha o Menino-Deus! A Festa da Transfiguração relembra  o modo como o corpo de Jesus se torna transparente e todo iluminado no alto do Monte Tabor (cf. 9,28s). A luz espiritual interior deve tornar-se, de modo carismático, sempre mais visível. É o frágil corpo humano, transfigurado, que já começa a participar da glória da divindade.
Quem através da prece provou a alegria e a presença de Deus tem os olhos iluminados.


7. A Oração como bondade do coração


O que mais impressiona, em pessoas que seguem a via hesicasta, é a sua capacidade de criarem dentro de si mesmo e ao redor de si certas condições para serem elas mesmas a encarnação de uma oração contínua: a sua mansidão, a sua imensa bondade e o seu modo, reconciliado, de relacionar-se com todas as criaturas.
Conta-nos o Peregrino Russo: “Quando rezava, no fundo do meu coração, tudo o que me cercava aparecia sob um aspecto maravilhoso: árvores, ervas, pássaros, terra, água, ar... tudo parecia dizer-me que existem para o homem, que através do Amor de Deus, tudo rezava, tudo cantava a glória do Senhor. Compreendia assim aquilo que a Filocalia chama de consciência, o conhecimento da linguagem da criação, e via como é possível conversar com as criaturas de Deus”


8. Oração e atuação no mundo


Orar com o coração não quer dizer desprezar o mundo e as pessoas, pelo contrário: é reencontrar o amor para com todas as criaturas. A Oração de Jesus transforma cada um (a) em criaturas para os outros. Yves Leloup, autor francês, que viveu um período no Mosteiro do Monte Athos, recolheu estas palavras de um dos monges: “Rezar é a arte de amar!”
Orar, rezar segundo o modelo hesicasta significa dar o sangue do próprio coração. É dar-se ao mundo, às pessoas, à própria casa, às estradas, ao trabalho e às refeições, dar a todas as atividades uma palavra, uma luz, transformar, enfim, tudo em um mundo espiritual.


Concluindo 


Podem-se ler páginas e páginas maravilhosas sobre a oração hesicasta. Mas vamos fechar estas páginas de Leitura Espiritual, citando alguns belos pensamentos de Evágrio Pôntico (séc. IV dC):
A oração é um diálogo do intelecto com Deus
Reza sobretudo para receberes o dom das lágrimas, para abrandares a dureza do teu coração e obteres a misericórdia do Senhor.
Comporta-te com coragem e ora com força: manda para longe de ti todas as preocupações e reflexões que te assaltarem. Reza para não te deixares tomar pela inquietação e para não veres esvair-se o teu vigor.
A oração brota da doçura do coração e da ausência do ódio.
A oração é fruto da serena alegria e do reconhecimento.
A oração expulsa a tristeza e a falta de coragem.

Durante a oração, esforça-te para tornares a tua mente surda e muda. Então poderás rezar de fato. Não rezes para que se cumpra a tua vontade, a não ser que ela esteja em conformidade com a Vontade do Senhor.
A oração sem distrações é a mais alta manifestação da inteligência.
Orar significa elevar a inteligência até Deus. Assim como a vista é o que de melhor possuímos entre todos os sentidos corporais, a oração é a mais divina de todas as virtudes.
Quando um dia, na tua oração, te sentires pervadido de grande alegria, então finalmente encontraste a verdadeira oração*.
gr. hesychia = tranquilidade, quietude, repouso

Hesíquia ou hesicasmo são duas palavras gregas que significam tranquilidade, quietude, serenidade. Designam, ao mesmo tempo, um estado interior de paz, de silêncio profundo, em que se instala o monge, e a condição exterior propícia para que possa acontecer esse estado. A Hesíquia não representa um fim em si mesma; é um meio para favorecer a vida contemplativa e chegar à união com Deus. Historicamente é um método e uma escola de oração que, partindo da Bíblia, pratica-se na Igreja, sobretudo no Oriente, e que tem dado grandes mestres e seguidores, alguns dos quais podem ser consultados neste mesmo dicionário (Gregório Palamas, Cabasilas). Também se chamou "oração do coração" ou "oração de Jesus".

Que é hesychia? Segundo São João Clímaco, "a hesychia do corpo é a disciplina e o estado pacífico dos costumes e dos sentimentos; a hesychia da alma é a disciplina dos pensamentos e um espírito inviolável". "O hesicasta é aquele que aspira circunscrever o incorporai numa morada corporal, que é o supremo paradoxo... A cela do hesicasta são os estreitos limites de seu corpo e essa cela contém toda uma casa de conhecimentos" (Degrau 25 da escada mística). É, portanto, uma prática e método de interiorização de Deus na alma, valendo-se de recursos exteriores que a memória recorda uma vez ou outra. O hesicasta tenta chegar à união e contemplação de Deus através dos meios que lhe oferece o mundo exterior e que encontra à sua mão. Serve-se fundamentalmente de pequenas orações, como o "pai-nosso" — a oração de Jesus — ou a invocação do nome de Jesus: "Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim". Essas pequenas fórmulas, constantemente repetidas, "têm o efeito surpreendente de nos colocar diante de Deus" invocando-o com suas próprias palavras. A repetição da oração favorece a volta da memória. Por sua vez, o hábito da oração, que conduz à oração constante, transforma-se num estado permanente em que memória, entendimento e vontade sentem-se submersos em Deus. Isto permite à alma um estado de repouso nele. Por outro lado, o silêncio e a solidão aumentam a memória de Deus naqueles que, paulatinamente, se sentem possuídos por ele. Isto leva a evitar tudo o que nos pode afastar de Deus ou alterar a alma. Daí a necessidade de vigiar o coração, de descer constantemente ao fundo de si próprio para poder chegar a uma oração pura: "Persevera sem cessar no nome do Senhor Jesus — diz São João Crisóstomo — a fim de que o coração assimile o Senhor e que o Senhor absorva o coração, e que os dois se tornem um só".

Tal como assinalamos, a hesychia é fruto de uma praxis que nasceu com os primeiros cristãos acostumados a pronunciar o nome de Jesus, ou fórmulas breves de oração que contêm esse nome. Mas principalmente uma praxis cultivada e aperfeiçoada na solidão e no silêncio do deserto por anacoretas e monges. É uma oração breve e contínua, da qual temos referências nas vidas dos padres do deserto (Apoftegmas). Entre essas breves fórmulas destaca-se a invocação de Jesus: "Senhor meu, Jesus Cristo, tem piedade de mim"; "Meu Senhor Jesus, socorre-me" (São Macário). E outras, como "Senhor Jesus, guia-me"; "Senhor Jesus, abençoa-me" etc. Evágrio transmitiu-nos muitas exemplos desta oração dos padres do deserto (Evágrio, Cassiano).

A hesychia não acaba no deserto do Egito. Encontramo-la também na espiritualidade de três grandes centros do Oriente: no mosteiro de Santa Catarina do monte Sinai, no do Stoudion de Constantinopla e no monte Athos da Grécia. No primeiro deles encontramos São João Clímaco, autor da Escada santa ou escada espiritual (570649). Esse monge, junto com Hesíquio, Sinaíta (séc. Vni-IX), desenvolveram o método hesicasta a partir de uma experiência pessoal. No mosteiro de Stoudion (estuditas) encontramos também a figura de São Teodoro (759-826). Entregou-se à oração contínua, o que lhe valeu o apelido de "aquele que não dorme", ou "acemetes". Seguiu-lhe São Simeão o "Novo Teólogo" (949-1022), o grande místico bizantino. "Sem experiência — diz — a teologia é inútil; com a experiência, é demais". Em meados do séc. X, o monte Athos transformou-se em algo assim como a capital do monaquismo oriental. Afastados do mundo, os monges de Athos formaram pequenas comunidades. Seu método de oração foi a hesychia. Houve entre os monges grandes mestres e também opositores, entre eles Barlaão de Seminaria (+1348), chamado o Calabrês, célebre por sua polêmica com São Gregório Palamas, monge de Athos (1296-1359), a propósito da hesychia. Athos continua sendo o expoente máximo da hesychia.

Foi particularmente importante a presença da hesychia na espiritualidade ortodoxa russa. A oração de Jesus foi introduzida na Rússia no séc. XIV por hesicastas vindos de Bizâncio. Homens como o metropolita de Kiev, Cipriano (1340-1406), São Sérgio (1314-1392), fundador do monaquismo russo, e Nil Majokov (1433-1508), conheciam bem a hesychia nos mosteiros de Athos e de Bizâncio. Quando esta última foi tomada em 1453, a Rússia continuou a tradição hesicasta praticamente até os nossos dias.

Foi o Relato de um peregrino russo o livro que permitiu ao grande público de nosso tempo conhecer e descobrir a "oração de Jesus". Surgido pela primeira vez em 1870 e reeditado em Kazán em 1884, essa obra anônima poderia ter sido copiada pelo abade do mosteiro de São Miguel de Tcheremisses de Kazán, o famoso padre Paissy (1722-1794). Esse monge promoveu a vida espiritual por meio da tradução de escritos como a Filocalia do erudito monge do monte Athos, Nicodemos, o Hagiorita (1748-1809), obra que revelou ao mundo contemporâneo a espiritualidade hesicasta. De qualquer forma, o autor seria um camponês russo que, tendo perdido tudo, empreendeu, aos 30 anos, uma peregrinação. Tendo entrado na igreja num domingo, escutou estas palavras de São Paulo: "Orai sem cessar". Essa exortação colocou-o em marcha e constitui o seu viático. O peregrino místico é um dos tantos camponeses que, pelos séculos, percorrem os caminhos da Rússia. "Na impossibilidade de fixar-me em alguma parte, dirigi-me até a Sibéria, até São Inocêncio de Irkoutsk, pensando que nas planícies e nos bosques da Sibéria encontraria mais silêncio para entregar-me mais comodamente à leitura e à oração". O peregrino acaba encontrando um "staretz " ou pai espiritual que lhe transmite os rudimentos da Oração de Jesus. Antes de morrer, o "staretz" entregou-lhe a Filocalia que, junto à Bíblia, lhe serviria de alimento espiritual e de guia em sua peregrinação.
É em grande parte graças às controvérsias levantadas pelos hesicastas que a teologia bizantina deixou de ser uma "teologia de repetição" tal como vinha sendo desde o século IX. Por volta de 1330, um grego da Calábria, Barlaão, chegou a Constantinopla, ganhou a confiança do Imperador e dedicou-se à união das Igrejas. Depois de ter-se avistado com certos monges hesicastas, Barlaão criticou vivamente seu método e acusou-os de heresia, ou, em termos mais precisos, de messalianismo, porquanto os hesicastas pretendiam ver a Deus em pessoa; ora, a visão direta de Deus, com os olhos do corpo, é impossível. Entre os defensores dos hesicastas ocupa lugar de destaque Gregório Palamas. Nascido em 1296, Palamas foi ordenado sacerdote e passou 20 anos num mosteiro do monte Atos, antes de ser sagrado arcebispo de Tessalonica. Respondendo a Barlaão em suas Tríades para a Defesa dos Santos Hesicastas, Palamas renovou grande parte da teologia ortodoxa. Sua principal contribuição consiste na distinção por ele introduzida entre a essência divina e as "energias" através das quais Deus se comunica e se revela. "A essência divina e incognoscível, se não possui uma energia distinta de si mesma, será totalmente inexistente e não terá sido mais do que uma visão de espírito." A essência é a "causa" das energias; "cada uma delas significa realmente uma propriedade divina distinta, mas elas não constituem realidades diferentes, porque são todas atos de um único Deus vivo" 10°. (A doutrina das energias foi ratificada pelos concílios bizantinos de 1341, 1347 e 1351.)

No que concerne à luz divina vista pelos hesicastas, refere-se Palamas à luz da transfiguração. No monte Tabor não se verificou nenhuma mudança em Jesus — e sim uma transformação nos apóstolos: estes, pela graça divina, recuperaram a faculdade de ver Jesus tal como era, ofuscando-se em sua luz. Essa faculdade, Adão a possuía antes da queda e ela será restituída ao homem no futuro escatológico. Por outro lado, e desenvolvendo a tradição dos monges egípcios, afirma Palamas que a visão da Luz incriada é acompanhada pela luminescência objetiva do santo. "Aquele que participa da energia divina [... ] torna-se ele próprio, de certa forma, luz; ele está unido à Luz, e com a Luz ele vê em plena consciência tudo o que permanece oculto àqueles que não tiveram essa graça."

Com efeito, depois da Encarnação, nossos corpos tornaram-se "santuários do Espírito Santo que está em nós" (I Coríntios, 6: 19); pelo sacramento da Eucaristia, Cristo encontra-se dentro em nós. "Carregamos a luz do Pai na pessoa de Jesus Cristo" (Tríades, I, 2, § 2). Essa presença divina no interior de nosso corpo "transforma o corpo e o torna espiritual [... ] de sorte que o homem inteiro se faz Espírito103." Mas essa "espiritualização" do corpo não implica de nenhum modo a desvinculação da matéria. Ao contrário, o contemplativo, "sem separar-se ou ser separado da matéria que o acompanha desde o começo", conduz a Deus, "através dele, todo o conjunto da criação". O grande teólogo insurge-se contra o platonismo que, no século XIV, durante o "Renascimento dos Paleólogos", fascinava a intelligentsia bizantina e até certos membros da Igreja. Retornando à tradição bíblica, Palamas insiste sobre a importância dos sacramentos, através dos quais a matéria é "transubstanciada" sem ser destruída.

O triunfo do hesicasmo e da teologia palamita provocou uma renovação da vida sacramentaria e também a regeneração de certas instituições eclesiásticas. O hesicasmo propagou-se com muita rapidez através da Europa oriental, dos principados romenos, penetrando na Rússia até Novgorod. O "renascimento" do helenismo, com a exaltação da filosofia platônica, não teve sequência; em outras palavras, Bizâncio e os países ortodoxos não conheceram o humanismo. Cuidam certos autores que, graças à dupla vitória de Palamas — contra o ockhamismo de Barlaão e contra a filosofia grega —, a ortodoxia não deu origem a nenhum movimento de Reforma. [Eliade]

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