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sábado, 22 de janeiro de 2011

Curso de Teologia - Disciplina: Introdução à Teologia.

Estimados,
                                               

























Este curso de introdução à teologia visa dar uma visão panorâmica do conjunto
da doutrina da fé, oferecendo a possibilidade de um primeiro contato com o universo
teológico, seus fundamentos e seu método. Não é função deste curso, aprofundar os
temas da teologia, mas oferecer um suporte necessário para descobrir o caminho que
leva a uma reflexão séria e sistematizada sobre a fé, tendo como fundamento a
Revelação Divina.
1. Etimologia
A etimologia da palavra “Teologia” vem do grego “Théos” que significa “Deus”
e “Logos” que pode ser interpretada como um de discurso bem elaborado, estudo,
verbo.
Somente á partir de Abelardo (1079-1142) que a Teologia foi elaborada, de
maneira acadêmica, como “o estudo” propriamente dito das questões religiosas
fundadas sobre os textos sagrados e centrados sobre Deus e seus atributos.
2. Objetividade Teológica.
O objetivo geral da “Teologia Cristã” ou mais particularmente da “Teologia
Católica” é conhecer a “Natureza Trina” de Deus e também conhecer a natureza da
Encarnação e a Ressurreição de Jesus e a nossa “relação” com Deus através de Cristo.
No mais, o conhecimento sobre a Natureza de Deus não significa o conhecimento de
Deus como “outro objeto físico”, mas como Pessoa. Consequentemente, o
conhecimento da Natureza de Deus é um conhecimento “Relacional
De modo geral, os objetivos teológicos são afirmações epistêmicas sobre Deus
Trino expressas em
.
Dogmas ou em Doutrinas
Portanto, o Dogma é uma definição clara e precisa de uma verdade revelada por
Deus. Não é nenhuma invenção da Igreja, mas simplesmente a formulação inequívoca
teológicas. Segundo McGrath (1990)
Dogma designa especificamente o que é declarado oficialmente pela Igreja Católica
como sendo a Verdade Revelada e também parte do Ensinamento Universal transmitido
pela Igreja através a história. O Dogma ajuda o cristão á melhor compreender
(sobretudo teologicamente) o mistério da Verdade Revelada em Jesus Cristo e na Igreja.
2
de verdades, para que os fiéis saibam com certeza no que se deve crer.
Conforme a Enciclopédia Católica: "De acordo com o uso já consagrado o Dogma
é entendido como uma verdade referente a fé e moral, revelada por Deus, transmitida
pelos Apóstolos através da Escritura ou Tradição e apresentada pela Igreja para
aceitação de todos os fiéis. (...) O dogma implica portanto numa dupla relação: da
revelação Divina e da autoridade magisterial da Igreja."
Ainda para McGrath a Doutrina é essencialmente a expressão que prevalece da
fé da comunidade cristã em relação ao conteúdo da Revelação. A Doutrina está
intimamente ligada aos atos ou ás condutas teologias dos cristãos. Ela é muito mais de
cunho moral, “vivencial”, prático, do que intelectual, teórico, discursivo (logos).
Por fim, ainda recentemente Barbour afirma que os objetivos da Teologia
Católica incluem: a compreensão da “Igreja”, de sua “Missão” e da “Transformação
da pessoa”.
3. Estudos Teológicos
Somente á partir de Abelardo (1079-1142) que a Teologia foi elaborada, de
maneira acadêmica, como “o estudo” propriamente dito das questões religiosas
fundadas sobre os textos sagrados e centrados sobre Deus e seus atributos. Entretanto, o
estudo da Teologia apresenta-se bem mais complexo que imaginamos.
a) A Teologia pode ser um discurso conceitual ligado á um pensador.
Por exemplo: a Teologia Dialética, elaborada por K. Barth (1886-
1968) á partir da tensão nunca resolvida entre a força e a verdade de
Deus, de um lado, e a fraqueza e a mazela humana, do outro. Tal
Teologia se apresenta como uma “Teologia da Crise”, pois o
investimento e a subversão que realiza a “Revelação” colocam em
choque ou em “julgamento” (etimologia de crise) a humanidade dos
humanos.
b) Teologia Fundamental: tratado sistemático dos preâmbulos da
Teologia (discurso sobre Deus) de maneira que o teólogo deve
analisar os motivos de credibilidade (apologética) e também os meios
pela qual a Revelação pôde se efetuar ou se concretizar. Comumente
conhecido como “Lugares Teológicos”.
c) Teologia Moral: Teologia centrada no homem e nos seus atos.
Preceitos éticos da conduta ou do agir humano, de acordo com a
3
autenticidade religiosa professada. Para Kant (1724-1804) a T.M. é
uma tentativa de conciliar o “Telos” (finalidade) humana, com a sua
própria natureza e com os seus atributos. A T.M. segundo Kant, não
se fundamenta nas provas ontológicas de Deus, mas somente sobre o
postulado da razão prática. O problema da existência de Deus é
focalizado á partir da moralidade religiosa.
d) Teologia Negativa: Ela não faz afirmações sobre a “essência” de
Deus, mas somente o que Deus não é á partir da realidade humana: o
homem é imperfeito, Deus é perfeito; o homem é finito, Deus é
infinito; o homem é limitado, Deus é eterno, etc. Assim, a linguagem
humana é incapaz de determinar os predicados e as atribuições
relativas ao divino. A Teologia Negativa é também conhecida como
Teologia Apofática (Apophatikós: Negativo): Deus não é...
e) Teologia Natural: Apóia-se somente na via natural de
conhecimento
f) Teologia Positiva: Ciência dos documentos e monumentos que os
teólogos aceitam como “autoridade discursiva” para ás
argumentações teológicas. Exemplo: Sagradas Escrituras, Concílios,
etc. Também conhecida como “Teologia Catafática” (Kataphatikós:
Afirmação). Essa corrente teológica aceita “definir” Deus através da
linguagem humana por meio de “Atributos de Perfeição”. Linguagem
como “
, quer dizer, somente na Razão humana e na possível
experiência transcendental” sem nenhuma fundamentação da
Revelação. É o conhecimento de Deus á partir das criaturas ou da
Criação. Tal teologia abre um caminho muito forte para a Teosofia e
para a Teodicéia. Perigo: a T.N. pode esvaziar a religião da sua
dimensão mistagógica (mistério) e cair numa teoria puramente lógica
e racional de Deus (Deísmo). Deus é pura Razão que rege o universo.
Analogia
g) Teologia Racional: Conhecimento da “Existência” e da “Natureza
de Deus postulada somente pelos meios ou vias da Razão humana, á
partir da “
.
Idéia de Deus” ou do “Ser Supremo”, como Perfeição
Absoluta. Tal corrente teológica se assemelha com a “Teologia
Racional”. Segundo Kant, a T.R. não permite ao homem provas
ontológicas sobre a existência de Deus e, muito menos, de defini-lo
4
somente pela Razão Pura. Pela Razão Prática (atitudes – moralidade)
a existência de Deus pode (sem certeza filosófica) ser concebida como
possível: “Para o uso meramente especulativo da razão, portanto, o
ente supremo permanece um simples ideal, embora sem defeitos, um
conceito que conclui e coroa o inteiro conhecimento humano e cuja
realidade objetiva por essa via não pode na verdade ser provada, mas
tampouco refutada. Se, além disso, houver uma teologia moral capaz
de completar essa deficiência, então a precedente e meramente
problemática teologia transcendental provará a sua
imprescindibilidade através da determinação do seu conceito e da
censura incessante de uma razão com freqüência suficiente enganada
pela sensibilidade, e nem sempre concorde com as suas idéias”1
h) Nova Escola de Teologia Natural: Nouvelle École de Téologie
Naturelle. Essa corrente teológica francesa surgiu com as
investigações da Filosofia Analítica. N.E.T.N. se esforça para renovar
os argumentos “
.
cosmológicos clássicos
i) Teologia Unitária: latim “Unitas” / “Todo”. Essa corrente teológica
integra os diferentes elementos do “divino” em um “Todo”. A T.U. é
oposta á Teologia Trinitária, pois ela reduz o “Filho” e o “Espírito
Santo” á figura e á existência do “
em favor da Existência de
Deus através de recursos puramente lógicos e matemáticos. Também
é conhecida como “Teologia Física ou Teologia Lógica”.
Pai
j) Teologia Revelada / Teologia Sagrada / Teologia Dogmática: Apóiase
na veracidade e na autoridade da Palavra de Deus contida nos
Livros Santos (Bíblia), no Magistério da Igreja e na Tradição. É a
teologia elaborada e divulgada pelos teólogos e santos da Igreja
Católica Apostólica Romana.
. Não existe três Pessoas
Divinas, mas somente uma Pessoa Divina que se manifesta na história
utilizando máscaras (persona), ora do Filho, ora do Espírito.
1 KANT, Immanuel, Crítica da razão pura – I. Tradução de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger –
São Paulo: Abril Cultural, 1980. Coleção “Os Pensadores”, p. 318, parágrafo 669.
5
4. Fides quaerens intellectum
A estrutura humana é naturalmente aberta e interrogativa. Sempre vivemos em
busca dos porquês. Dizia Aristóteles que “todo ser humano aspira naturalmente ao
conhecimento”. Também no que diz respeito à fé, o ser humano não se contenta em
simplesmente aceitar passivamente o que professa, mas é próprio dele procurar as
razões da sua fé.
A teologia nasce do desejo de compreender o que se crê, se é verdade ou não.
Ela nasce também da necessidade de saber quais são as implicações na vida concreta
daquilo se acredita. Contudo, a teologia nasce de uma problemática, ou seja, ela é uma
reação, uma questão que brota da negatividade.
Negatividade não significa algo ruim, mas uma questão ainda sem solução, de
uma carência.
Uma frase clássica de Santo Anselmo (+1109) expressa o que é o fazer teologia:
fides quaerens intellectum. Significa: a fé busca compreender-se. Assim, podemos
ter presente que a fé não é simplesmente um ato de acreditar no Divino, sem dar razões
ou mesmo pensar que, a fé não pode ser racionalizada. Fazer teologia, então, é buscar as
razões daquilo que se crê de forma sistemática.
Contudo, o estudo da teologia está intimamente relacionado a fé, que deve ser
pressuposto. Primeiramente é fundamental que se creia, que se tenha feito a experiência
de ser “possuído” pelo Transcendente e que então, num ato de amor, o crente não se
contenta em ficar na superfície desta experiência, mas procura aprofundá-la, procurando
as razões daquilo que experimentou, promovendo assim, uma experiência cada vez mais
íntima com Aquele que se dá a conhecer.
Desta maneira, a teologia não se resume a um estudo onde a racionalidade é
indiferente ao objeto estudado, mas deve existir relação entre o objeto e aquele que o
investiga.
5. Processo da elaboração teológica
Para iniciar o estudo da teologia, precisamos primeiro entender o processo do
pensar teológico, que se desdobra em três momentos importantes: auditus fidei,
intellectus fidei e applicatio fidei.
6
5.1 Auditus Fidei – É a escuta da fé, ou seja, é o momento de levantamento de
dados. Aqui temos como fonte a Revelação, entendida não somente como a Escritura
(Bíblia), mas como nos ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, o tripé da
Revelação: Escritura, Tradição e Magistério.
a) A transmissão da revelação divina
A natureza da Tradição os pilares da Igreja Católica Apostólica
Romana; Tradição/ Sagrada Escritura e Magistério
A origem da tradição. A transmissão da revelação se deve a Cristo, que a
manifestou a seus apóstolos. O Concílio de Trento no decreto sobre os livros sagrados e
as tradições a serem acolhidas afirma: se conserve na Igreja a pureza do evangelho que,
prometido primeiramente para os profetas nas Santas Escrituras, nosso Senhor Jesus
cristo, Filho de Deus mandou a seus apóstolos pregá-lo a toda a criatura, como fonte de
toda a verdade salutar. Também afirmada, por Pio IX, na constituição Dei Filius.
(recebidas das tradições). E também confirmada no Concílio Vaticano II, na
constituição Dei Verbum, numero 7, “Deus fez com que se conservasse inalterado para
sempre e fosse transmitido a todas as gerações aquilo que ele revelara para a salvação
de todos os povos. Ao Espírito Santo, que habita na Igreja e ditou a revelação aos
Apóstolos e lha confiou. Dei Verbum, 9: Com efeito, a Sagrada Escritura é a fala de
Deus enquanto consignada por escrito sob a moção do Espírito Santo; a Sagrada
Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra
de Deus confiada pelo Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos...
A revelação esta contida nas tradições escritas e orais da Igreja. Dei Verbum 10:
O oficio de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou transmitida foi
confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome
de Jesus Cristo.
A tradição viva procede dos Apóstolos; com sua pregação, exemplo e
instituições, os Apóstolos transmitiram aquilo que receberam de Cristo ou pela
inspiração do Esp. S; sua pregação esta exposta de maneira especial nos livros
inspirados (Dei Verbum 8).
A Tradição apostólica se desenvolve na Igreja, os apóstolos transmitiram seu
próprio magistério aos bispos, enquanto sucessores seus. Por meio da tradição, Deus
não cessa de falar a igreja; a fé deve ser continuamente desenvolvida e aumentada.
7
A Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão vinculados de tal
modo que um não pode existir sem os outros Dei Verbum 9: “ estão estreitamente
conexas e em comunicação”.
A aceitação da Tradição é exigida pela Igreja, Lumem Gentium 25: “...
quando o Romano pontífice, ou o corpo episcopal com ele, define alguma proposição,
eles a conferem segundo a própria Revelação, a que todos devem aderir e com a qual se
devem conformar, e que é transmitido integralmente, por escrito ou por tradição, através
da legitima sucessão dos bispos e, antes de mais, pela solicitude do mesmo romano
pontífice.
A Sagrada Escritura não quer ensinar a natureza das coisas visíveis, descritas
apenas em sua manifestação sensível, “Providentissimus Deus”, Leão XIII, “... o que o
próprio Deus, ao falar aos homens, expressou de modo humano, para ser por eles
entendido”.
O método histórico oferece ajuda para a exegese. Instrução da Pontifícia
comissão bíblica “Sancta mater ecclesia”, Paulo VI, 1964. n.1 “Para colocar em plena
luz aparente a verdade e a autoridade dos evangelhos, o exegeta católico deve seguir as
normas da hermenêutica racional e católica, utilizar cuidadosamente as novas aquisições
da exegese e especialmente as contribuições do método histórico no seu conjunto”.
b) Resumo:
Com efeito, a Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto é redigida sob
a moção do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente
aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo
Espírito Santo aos Apóstolos, para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles por sua
pregação fielmente a conservem, exponham e difundam.” 2
Afirma ainda que a “Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um
só sagrado depósito da palavra de Deus confiado à Igreja”. 3
Quanto ao Magistério afirma: “O ofício de interpretar autenticamente a
Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da
Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo. Tal Magistério
evidentemente não está acima da Palavra de Deus, mas a seu serviço, não ensinando
senão o que foi transmitido, no sentido de que, por mandato divino e com a assistência
do Espírito Santo, piamente ausculta aquela palavra, santamente a guarda e fielmente
2 Constituição Dogmática Dei Verbum n. 9
3 Idem n. 10
8
a expõe E deste único depósito da fé(o Magistério) tira o que nos propõe para ser crido
como divinamente revelado.”4
5.2 Intellectus Fidei
Depois de ouvir o que diz a Revelação, temos um segundo passo, denominado
intellectus fidei, ou seja, aqui acontece a elaboração construtiva do significado da
Revelação para nós hoje. O intellectus fidei se encarregará de interpretar, assimilar e
trabalhar os dados das fontes da fé, a partir de uma reflexão pessoal e de outras fontes,
como por exemplo, os escritos de outros teólogos.
5.3 Applicatio fidei
Aqui acontece a atualização dos dados da fé, oferecendo uma reflexão atualizada
que vai de encontro aos problemas e questionamentos contemporâneos. Desta maneira,
podemos compreender que a teologia é uma ciência a serviço do homem e não
simplesmente uma repetição de verdades de fé, pois ela se preocupa em atualizar a fé
em vista da libertação do homem.
6.
A fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se
vêem.” Hb11,1
Nosso estudo da teologia tem mostrado o processo de elaboração teológico e sua
importância para a vida dos crentes, sempre tendo em vista que fazer teologia não é um
mero ato especulativo, onde o cientista da teologia se coloca diante do seu objeto com o
objetivo de esmiuçá-lo, sem relação nenhuma com ele.
A teologia tem, com efeito, uma projeção sobre a vida do teólogo, enquanto
contribui para uma aproximação ao Mistério Divino e uma configuração a Cristo
Senhor e Salvador, desembocando numa pratica de vida coerente com aquilo que se crê
e se celebra. Contudo, a teologia é possível por causa da fé.
A fé é ato humano, realizado dentro da liberdade humana, porém não se pode
dizer “eu creio” sem que o objeto crido se manifeste ao crente, ou seja, nós temos fé
porque Deus mesmo se revelou e mostrou a nós sua vontade. Não se tem fé somente
baseado no desejo humano de crer de num ser superior a quem se dá o nome de Deus,
4 Idem n. 10
9
mas a fé é Graça de Deus. Isso não significa que a fé contraria a razão e a liberdade
humanas, porém “na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a Graça
divina.” 5Portanto, “crer é um ato da inteligência que assente à verdade divina a mando
da vontade movida por Deus através da Graça.” 6
O teólogo protestante Karl Barth define assim a fé cristã:
A fé cristã é o dom do encontro que torna os homens livres para escutar a
Palavra da graça, pronunciada por Deus em Jesus Cristo, de maneira tal que eles se
atêm às promessas a aos mandamentos dessa Palavra, apesar de tudo de uma vez por
todas, exclusiva e totalmente.” 7
A fé é “Dom” “Graça”, ou seja, é a capacidade dada por Deus para que os
homens creiam nele. Podemos ver isso no episódio em que Pedro professa sua fé em
Jesus, afirmando que ele é “o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus diz a Pedro que ele é
Bem-aventurado”, pois não foi a carne nem o sangue que o revelou esta verdade, ou
seja, não foi pelo esforço de Pedro que ele chegou a essa conclusão, nem porque
recebeu de outrem esse ensinamento, mas foi o Pai que revelou a ele.
Ao se tratar de fé, não podemos nivelá-la às outras formas de conhecimento, pois
ela não parte de nenhuma constatação empírica, ou seja, não se prova a fé como se
prova que a Terra gira em torno do sol, nem tampouco se pode afirmar que se chegou a
fé a partir de um esforço intelectual. A sabedoria da fé consiste em abandonar-se
confiantemente a Deus, apoiando-se em sua Palavra, como palavra para mim. “Não se
crê ‘por causa de’ ou ‘baseado em’, mas se é despertado para a fé a despeito de tudo.” 8
Sabemos que a fé é um ato pessoal e que ninguém poderá professá-la por mim,
pois é uma resposta livre do homem à Revelação de Deus. Cada um professa
pessoalmente sua fé, porém, não se pode entender a fé como um ato isolado, solitário.
Assim, ninguém crê sozinho, até porque, a fé não brota do nada, mas da escuta da
Palavra proclamada, ou seja, alguém anunciou para mim a Palavra e eu então livremente
professo a fé nesta Palavra. Nesse sentido, ninguém da a fé a si mesmo, mas depende de
alguém que creu e que anunciou.
O Catecismo nos explica:
“’Eu creio’: esta é a fé da Igreja, professada pessoalmente por todo crente,
principalmente pelo batismo. ‘Nós cremos’: esta é a fé da Igreja confessada pelos
5 Catecismo da Igreja Católica n°155
6 Santo Tomás de Aquino, S. Th. II-II, 2,9 apud. Catecismo da Igreja Católica n° 155
7 Barth, Karl. Esboço de uma dogmática.
8 Idem.
10
bispos em Concílio ou, mais comumente, pela assembléia litúrgica dos crentes. ‘Eu
creio’ é também a Igreja, nossa mãe, que responde a Deus com sua fé e que nos ensina
a dizer: ‘eu creio’, ‘nós cremos’”.9
A fé é Dom de Deus transmitido pela Igreja, que guarda e anuncia a Palavra
revelada. Desta maneira, nós professamos a fé em Igreja, ou seja, a Igreja é a
comunidade dos que professam a fé, uma “única fé, recebida de um só Senhor,
transmitida por um único batismo, enraizada na convicção de que todos os homens têm
um só Deus e Pai.” 10
A fé é Dom de Deus e resposta do homem, porém essa resposta humana é
possível a partir de um ato de confiança naquele em que se crê. Crer é ter confiança, e
este é o ato pelo qual a pessoa se abandona à fidelidade de um outro, aceitando as
conseqüências dessa entrega. Este outro a quem se pode esperar a fidelidade só pode ser
Deus, pois não existe fidelidade fora dele. “A fé é a confiança que permite que nos
mantenhamos nele, nas suas promessas e nos seus mandamentos. Manter-se em Deus é
abandonar-se a essa certeza e vivê-la: Deus está aqui para mim. Tal é a promessa que
Deus nos faz: eu estou aqui para ti.” 11
Professar a fé em Jesus Cristo, Palavra eterna do Pai, não se pode resumir num
ato que se refere ao simples universo religioso, que não vai além de devoções
descomprometidas e alheias com a realidade.
A adesão à pessoa de Jesus Cristo está vinculada ao seguimento. Seguir não é ir
atrás de Jesus, como passíveis expectadores, permanecendo em estado de indolência,
apenas como objeto de uma ação apática em que somente um é o sujeito. Seguimento
pressupõe relação, envolvimento, encanto e paixão.” 12
A fé em Jesus Cristo configura o crente àquele em quem crê, e assim, conduz
necessariamente a assumir as opções de Jesus, movido pelo mesmo amor que Ele amou
a humanidade e se entregou. É fazer a experiência do abandono e então deixar-se
conduzir pela mesma solidariedade com os últimos que Ele ensinou, não só com as
palavras, mas com gestos concretos, sendo presença salvadora na vida daqueles que
com Ele se encontrou.
9 Catecismo da Igreja Católica, n°167
10 Idem n°172
11 Barth, Karl. Esboço de uma dogmática.
12 Xavier, Donizete José. Artigo: A dimensão social da fé. in: Xavier, Donizete José/ Silva, Maria Freire
(orgs.) Pensar a fé teologicamente.
Pax!
Quero partilhar com vocês este belo trabalho do Pe. Frank Antonio de Almeida. Meu intuito é o de ajudar a esclarecer melhor as maneiras como se apresenta a Teologia em suas várias ramificações. Bom Proveito.

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