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terça-feira, 23 de agosto de 2016

O BICHO DA SEDA




Em pleno coração do livro do castelo interior e dentro das quintas moradas, Santa Teresa descreve a transformação que experimenta a pessoa na oração, com um símbolo muito belo: o bicho da seda, o qual se fecha no seu casulo interior, e aí “com as suas boquitas vão fiando a seda, e fazendo uns casulos muito apertados onde se fecham… E morre este bicho, que é grande e feio, e sai do mesmo casulo uma borboleta branca muito bonita”.
Esta imagem do bicho da seda serve para que Teresa expresse melhor a mudança e a transformação da pessoa, como mistério pascal de morte e ressurreição. No desenvolvimento desta transformação, como no processo em que o bicho da seda se metamorfoseia em borboleta, é muito importante a ação do Espírito Santo que vai ajudando nessa disposição e no nosso trabalho para não ficarmos pelo meio do caminho.

Podemos agora visualizar os diferentes elementos contidos no processo desta imagem:

Semente: São uns bagos, como grãos de pimenta, que se convertem em larvas.

A folha da amoreira: É o primeiro espaço onde se desenvolvem, é o alimento.

Ambiente: Calor, elemento que necessita a semente para viver, é a graça do Espírito Santo.

Bicho da seda: É cada um de nós a partir da perspectiva da transformação profunda.

Tecer o casulo ou a “casa”: é um convite para construir a própria habitação, a viver a interioridade.

Fabricar a seda, lavrar a seda: Cristo é a morada. Vive dentro de cada um. A seda é o resultado das maravilhas que Deus faz através de nós.

Trabalhos: São todos os esforços e ações que temos que fazer para corresponder à graça, para não vivermos superficialmente.


A borboleta: equivale ao “homem novo”, é o fruto da ação transformadora de Deus. É graça, libertação.

Este símbolo é a síntese da história de todo o homem nascido para ter asas e elevar-se.


 

"Onde há vontade, há um Caminho"

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O Purgatório e a oração pelos mortos




Os protestantes dizem que não adianta orar pelos mortos, pois a oração deve ser somente por aqueles que estão em vida. Para entender melhor vamos fazer um resumo do que acontece com os que morrem. Vejamos bem: Os que morrem na graça de Deus se salvam. Vão diretamente ao Céu. Os que rejeitam a Deus como Criador e a Jesus como Salvador durante esta vida e morrem em pecado mortal se condenam. Esta resposta é clara entre Católicos e protestantes.
Mas o que acontece com os que morrem em pecado venial ou que não satisfizeram plenamente por seus pecados? Aí está a diferença entre Católicos e protestantes. Os Católicos acreditam no Purgatório que é um estado por meio do qual, em atenção aos méritos de Cristo, se purificam as almas dos que morreram na graça de Deus, mas que ainda não satisfizeram plenamente por seus pecados.
O Purgatório não é um estado definitivo mas temporário. E ficam neste estado aqueles que ao morrer não estão plenamente purificados das impurezas do pecado, já que no Céu não pode entrar nada que seja impuro (Ap 21, 27). No Purgatório, Deus em sua misericórdia infinita, purificará suas almas. Um exemplo bem claro desta purificação está em (Malaquias 3, 1-4) onde diz: “Vou mandar o meu mensageiro para preparar o meu caminho. E imediatamente virá ao seu templo o Senhor que buscais, o anjo da aliança que desejais. Ei-lo que vem – diz o Senhor dos exércitos. Quem estará seguro no dia de sua vinda? Quem poderá resistir quando ele aparecer? Porque ele é como o fogo do fundidor, como a lixívia dos lavadeiros. Sentar-se-á para fundir e purificar a prata; purificará os filhos de Levi e os refinará, como se refinam o ouro e a prata; então eles serão para o Senhor aqueles que apresentarão as ofertas como convêm. E a oblação de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias antigos, como nos anos de outrora”. Se isso não é o Purgatório, o que é então?
Um outro texto Bíblico é o de (1 Pedro 3, 19-20) onde diz: “É neste mesmo espírito que ele foi pregar aos espíritos que eram detidos no cárcere, àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes, quando Deus aguardava com paciência, enquanto se edificava a arca, na qual poucas pessoas, isto é, apenas oito se salvaram através da água”. Eis aí o Purgatório novamente!
Mais outro texto é o de (1 Cor 3, 11-15) onde diz: “Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo?. ?Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo”.
Quanto à duração do Purgatório podemos dizer que depois que Jesus vier pela segunda vez e se puser fim à história da humanidade, o Purgatório deixará de existir e só haverá Céu e Inferno.
Para os Católicos pode-se oferecer orações, sacrifícios e Missas pelos mortos, para que suas almas sejam purificadas de seus pecados e possam entrar quanto antes na glória e gozar da presença Divina. Um outro exemplo que está na Bíblia é o de (2 Macabeus 12, 43-46) onde se diz: “Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas”.
Mesmo mostrando dentro da Bíblia que existe o purgatório, os protestantes insistem em que esta palavra é uma invenção da Igreja Católica. Nós argumentamos que tampouco está na Bíblia a palavra “ENCARNAÇÃO” e, no entanto, todos cremos nela. Tampouco está a palavra “TRINDADE” e todos, Católicos e Protestantes, crêem neste Mistério. Portanto a argumentação dos protestantes, de que não existe a palavra “Purgatório”, está equivocada.
Em definitivo, o porque desta diferença é muito simples. Eles só admitem a Bíblia, em compensação para os Católicos, a Bíblia não é a única fonte de revelação. Os Católicos tem a Bíblia e a Tradição, isto é, se uma verdade foi acreditada de modo sustentado e ininterrupto desde Jesus Cristo até nossos dias é que é dogma de fé e porque o povo de Deus em sua totalidade não pode equivocar-se em matéria de fé, porque o Senhor se comprometeu com sua assistência. Uma prova disso, é que, podemos mostrar que a partir dos primeiros Cristãos do Século I em diante, eles já oravam por seus mortos. É só verificar nas catacumbas ou cemitérios dos primeiros Cristãos os escritos esculpidos com muitas orações pelos falecidos.
Caríssimos irmãos! Podemos e devemos fazer orações e sacrifícios pelos mortos. Devemos rezar por todas as almas , porque não sabemos com certeza, quais estejam realmente precisando, e em condições de receber o mérito impretatório das nossas orações e sacrifícios oferecidos a Deus por elas. Estes, e sobretudo as Santas Missas que fizemos celebrar, não ficarão sem efeito. Pois Deus saberá aplicá-los às almas que mais estiverem precisando, além de ser para nós, ocasião de prestarmos a Deus as homenagens que Lhe devemos.
 


"Onde há vontade, há um Caminho"

"A ORAÇÃO DO CORAÇÃO" (por Henri Nouwen)




"A oração hesicástica, que leva ao descanso em que a alma habita com Deus, é a oração do coração. Para nós que damos tanta importância à mente, aprender a rezar com o coração e a partir dele tem importância especial. Os monges do deserto nos mostram o caminho. Embora não exponham nenhuma teoria sobre a oração, suas narrativas e seus conselhos concretos apresentam as pedras com as quais os autores espirituais ortodoxos mais tardios construíram uma espiritualidade magnífica. Os autores espirituais do monte Sinai, do monte Atos e os startsi da Rússia oitocentista apóiam-se todos na tradição do deserto. Encontramos a melhor formulação da oração do coração nas palavras do místico russo Teófano, o Recluso: "Rezar é descer com a mente ao coração e ali ficar diante da face do Senhor, onipresente, onividente dentro de nós". No decorrer dos séculos, essa perspectiva da oração tem sido central no hesicasmo Rezar é ficar na presença de Deus com a mente no coração, isto é, naquele ponto de nossa existência em que não há divisões nem distinções e onde somos totalmente um. Ali habita o Espírito de Deus e ali acontece o grande encontro. Ali, coração fala a coração, porque ali ficamos diante da face do Senhor, onividente, dentro de nós. É bom saber que aqui a palavra "coração" é usada em seu sentido bíblico pleno. em nosso meio, ela se tornou lugar-comum. Refere-se à sede da vida sentimental. Expressões como "coração partido" e "sentido no coração" mostram ser comum pensarmos no coração como o lugar quente onde se localizam as emoções, em contraste com o frio intelecto onde têm lugar nossos pensamentos. Mas, na tradiçao judeu-cristã, a palavra "coração" refere-se à fonte de todas as energias físicas, emocionais, intelectuais, volitivas e morais.
No coração, originam-se impulsos impenetráveis, além de sentimentos, disposições e desejos conscientes. O coração também tem suas razões e é o centro da percepção e do entendimento. Finalmente, ele é a sede da vontade: faz planos e chega a uma boa decisão. Assim, é o órgão central e unificador de nossa vida pessoal. Nosso coração determina nossa personalidade e é, portanto, não só o lugar onde Deus habita mas também o lugar ao qual Satanás dirige seus ataques mais ferozes. Esse coração é o lugar da oração. A oração do coração dirige-se a Deus a partir do centro da pessoa e, assim, afeta toda a nossa compaixão.
Um dos monges do deserto, Macário, o Grande, diz: "A tarefa principal do atleta (isto é, do monge) é entrar em seu coração". Isso não significa que o monge deva procura encher sua oração de sentimento; signfica que deve esforçar-se para deixar que ela remodele toda a sua pessoa. O discernimento mais profundo dos monges do deserto é que entrar no coração é entrar no Reino de Deus. Em outras palavras, o caminho para Deus é pelo coração. Isaac, o Sírio, escreve:
"Procure entrar na câmara do tesouro... que está dentro de você e então descobrirá a câmara do tesouro do céu. Pois ambas são a mesma coisa. Se conseguir entrar em uma, você verá ambas. A escada para este Reino está escondida dentro de você, em sua alma. Se você purificar a alma, ali verá os degraus da escada que deve subir."
E João de Cárpato diz: "É preciso grande esforço e luta na oração para alcançar aquele estado da mente que é livre de toda perturbação; é um céu dentro do coração (literalmente 'intracardíaco'), o lugar onde, como o apóstolo Paulo assegura, "Cristo está em vós" (2Cor13,5).
Em suas falas, os monges do deserto nos indicam uma visão bastante holística de oração. Eles nos afastam de nossas práticas intelectuais, nas quais Deus se transforma em um dos muitos problemas com os quais temos de lidar. Mostram-nos que a verdadeira oração penetra no âmago de nossa alma e não deixa nada sem tocar. A oração do coração não nos permite limitar nosso relacionamento com Deus a palavras interessantes ou emoções piedosas. Por sua própria natureza, essa oração transforma todo o nosso ser em Cristo, precisamente porque abre os olhos de nossa alma à verdade de nós mesmos e também à verdade de Deus. Em nosso coração passamos a nos ver como pecadores abraçados pela misericórdia de Deus. É essa visão que nos faz clamar: "Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim, pecador". A oração do coração nos exorta a não esconder absolutamente nada de Deus e a nos entregar incondicionalmente a sua misericórdia.
Assim, a oração do coração é a oração da verdade. Desmascara as muitas ilusões sobre nós mesmos e sobre Deus e nos conduz ao verdadeiro relacionamento do pecador com o Deus misericordioso. Essa verdade é o que nos dá o "descanso" do hesicasta. Quando ela se abriga em nosso coração, somos menos distraídos por pensamentos mundanos e nos voltamos mais sinceramente para o Senhor de nossos corações e do universo. Assim, as palavras de Jesus: "Felizes os corações puros: eles verão a Deus" (Mt 5,8) tornam-se reais em nossa oração. As tentações e as lutas continuam até o fim de nossas vidas, mas com um coração puro ficamos tranquilos, mesmo em meio a uma existência agitada.
Isso levanta o problema de como praticar a oração do coração em um ministério bastante agitado. É a essa questão de disciplina para a qual precisamos agora voltar a atenção.

Oração e Ministério

Como nós, que não somos monges nem vivemos no deserto, praticamos a oração do coração? Como ela influencia nosso ministério cotidiano?
A resposta a essa pergunta está na formulação de uma disciplina definitiva, uma regra de oração. Há três características da oração do coração que nos ajudam a formular essa disciplina:
A oração do coração alimenta-se de orações breves e simples.
A oração do coração é incessante.
A oração do coração inclui tudo.

Alimenta-se de Orações Breves

No contexto de nossa cultura verbosa, é significativo ouvir os monges do deserto nos aconselhando a não usar palavras em excesso:
"Perguntaram ao aba Macário: 'Como se deve rezar?' O ancião respondeu: 'Não há, em absoluto, necessidade de fazer longos discursos; basta estender a mão e dizer: Senhor, como queres e como sabes, tem misericórdia. E se o conflito ficar mais ameaçador, dizer: Senhor, ajuda. Ele sabe muito bem do que precisamos e nos mostra sua misericórdia'".
João Clímaco é ainda mais explícito:
"Quando rezar, não procure se expressar em palavras extravagantes pois, quase sempre, são as frases simples e repetitivas de uma criancinha que nosso Pai do céu acha mais irresistíveis. Não se esforce em muito falar, para que a busca de palavras não lhe distraia a mente da oração. Uma única frase nos lábios do coletor de impostos foi suficiente para lhe alcançar a misericórdia divina; um pedido humilde feito com fé foi suficiente para salvar o bom ladrão. A tagarelice na oração sujeita a mente à fantasia e à dissipação; por sua natureza, as palavras simples tendem a concentrar a atenção. Quando encontrar satisfação ou contrição em determinada palavra de sua oração, pare nesse ponto".
Essa é uma sugestão muito útil para nós que tanto dependemos da capacidade verbal. A tranquila repetição de uma única palavra ajuda-nos a descer com a mente ao coração. (Também a base da OC, nota da autora do site). Essa repetição nada tem a ver com mágica. Não tem o propósito de enfeitiçar Deus, nem de forçá-lo a nos ouvir. Pelo contrário, uma palavra ou sentença repetida com frequência ajuda-nos a nos concentrar, a nos mover para o centro, a criar uma tranquilidade interior e, assim, a ouvir a voz de Deus. Quando simplesmente tentamos ficar sentados em silêncio e esperar que Deus nos fale, nos vemos bombardeados por intermináveis pensamentos e idéias conflitantes. Mas quando usamos uma sentença bastante simples como: "Ó Deus, vem em meus auxílio", ou "Jesus, mestre, tem piedade de mim", ou uma palavra como "Senhor" ou "Jesus", é mais fácil deixar as muitas distrações passarem sem nos deixarmos iludir por elas. Essa oração simples, repetida com facilidade, esvazia aos poucos nossa vida interior apinhada e cria o espaço sossegado onde habitamos com Deus. É como uma escada pela qual descemos ao coração e subimos a Deus. Nossa escolha de palavras depende de nossas necessidades e das circunstâncias do momento, mas é melhor usar palavras da Escritura. (veja na página de Oração Centrante, como escolher a Palavra Sagrada).
Quando somos fiéis a essa oração simples e a praticamos com regularidade, ela nos conduz devagar a uma experiência de descanso e nos abre à presença ativa de Deus. Além disso, em um dia muito atarefado, podemos levar essa oração conosco. Quando, por exemplo, passamos, no início da manhã, 20 minutos sentados na presença de Deus com as palavras: "O Senhor é meu pastor", elas lentamente constroem em nosso coração um pequeno ninho para si mesmas e ali ficam o restante de nosso dia atarefado. Até enquanto falamos, estudamos, cuidamos do jardim ou construímos alguma coisa, a oração continua em nosso coração e nos mantém conscientes da orientação onipresente de Deus. A disciplina não é agora dirigida para um discernimento mais profundo do que significa chamar Deus de nosso Pastor, mas para a íntima experiência da ação pastoral de Deus em tudo que pensamos, dizemos ou fazemos.

Incessante

A segunda característica da oração do coração é ser incessante. A pergunta de como seguir a ordem de Paulo: "Orai incessantemente" foi fundamental no hesicasmo desde a época dos monges do deserto até a Rússia oitocentista. Há muitos exemplos desse interesse nos dois extremos da tradição hesicástica. (Vejamos um dos principais:)
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Na famosa história do Peregrino Russo lemos:
"Pela graça de Deus sou cristão, mas pelas minhas ações sou um grande pecador... No vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes, fui à igreja para ali fazer minhas orações durante a ligurgia. Estava sendo lida a primeira Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses e, entre outras palavras, ouvi estas: 'Orai incessantemente' (1Ts 5,17). Foi esse texto, mais que qualquer outro, que se inculcou em minha mente, e comecei a pensar como seria possível rezar incessantemente, já que um homem tem de se preocupar também com outras coisas a fim de ganhar a vida".
O camponês foi de igreja em igreja, para ouvir sermões, mas não encontrou a resposta que queria. Finalmente, encontrou um santo staretz que lhe disse:
"A oração interior incessante é um anseio contínuo do espírito humano por Deus. Para sermos bem-sucedidos nesse exercício consolador, precisamos suplicar com mais frequência a Deus que nos ensine a rezar sem cessar. Rezar mais e rezar com mais fervor. É a própria oração que lhe revela como rezá-la sem cessar; mas leva algum tempo".
Então, o santo staretz ensinou ao camponês a Oração de Jesus: "Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim". Enquanto viajava como peregrino pela Rússia, o camponês passou a repetir essa oração com os lábios. Até considerava a oração de Jesus sua companheira verdadeira. E, então, um dia, teve a sensação de que a oração passou sozinha de seus lábios para seu coração. Ele diz:
"... parecia que, pulsando normalmente, meu coração começava a dizer as palavras da oração a cada batida... Desisti de dizer a oração com os lábios. Passei simplesmente a ouvir o que meu coração dizia".
Aqui aprendemos outro jeito de chegar à oração incessante. A oração continua a rezar dentro de mim, até enquanto falo com os outros ou me concentro no trabalho manual. Ela se torna a presença ativa do Espírito de Deus que me guia pela vida
Desse modo vemos como, pela caridade e pela atividade da oração de Jesus em nosso coração, nosso dia todo se transforma em oração contínua. Não sugiro que imitemos o peregrino rruso, mas que, também nós, em nosso ministério atarefado, nos preocupemos em rezar sem cessar, para que, seja o que for que comamos ou bebamos, seja o que for que façamos o façamos pela glória de Deus. (Veja 1Cor 10,31). Amar e trabalhar pela glória de Deus não pode permanecer uma idéia sobre a qual pensamos de vez em quando. Deve se tornar uma incessante doxologia interior.

INCLUI TUDO

Uma última característica da oração do coração é que ela inclui todos os nossos interesses. Quando entramos com a mente no coração e ali ficamos na presença de Deus, então todas as nossa preocupações mentais se transformam em oração. O poder da oração do coração é precisamente que, por meio dela, tudo que está em nossa mente se transforma em oração.
Quando dizemos a alguém: "Vou rezar por você", assumimos um compromisso muito importante. É uma pena que esse comentário muitas vezes não passe de uma expressão de interesse. Mas, quando aprendemos a descer com nossa mente em nosso coração, todos os que fazem parte de nossa vida são guiados à presença curativa de Deus e tocados por ele no centro de nosso ser. Falamos aqui de um mistério para o qual palavras são inadequadas. É o mistério em que o coração, centro de nosso ser, é transformado por Deus em seu coração, um coração grande o bastante para abraçar todo o universo. pela oração, carregamos em nosso coração toda a dor e tristeza humanas, todos os conflitos agonias, toda a tortura e a guerra, toda a fome, solidão e miséria, não por causa de alguma grande capacidade psicológica ou emocional, mas porque o coração de Deus uniu-se ao nosso.
Aqui vislumbramos o sentido das palavras de Jesus:
"Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque eu sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas. Sim, o meu jugo é fácil de carregar, e o meu fardo é leve" (Mt 11,29-30).
Jesus nos convida a aceitar seu fardo, que é o do mundo todo, um fardo que inclui o sofrimento humano em todos os tempos e lugares. Mas esse fardo divino é leve e podemos carregá-lo quando nosso coração se transforma no coração manso e humilde de nosso Senhor.
Vemos aqui o íntimo relacionamento entre oração e ministério. A disciplina de conduzir todo o nosso povo com suas lutas ao coração manso e humilde de Deus é a disciplina de oração e também do ministério. Enquanto o ministério significar apenas que nos preocupamos muito com as pessoas e seus problemas; enquanto significar um número interminável de atividades que dificilmente conseguimos coordenar, ainda dependeremos muito de nosso coração tacanho e ansioso. Mas quando nossas preocupações são elevadas ao coração de Deus e ali se transformam em oração, ministério e oração se tornam duas manifestações do mesmo amor universal de Deus.
Vimos como a oração do coração se nutre de orações breves, é incessante e inclui tudo. Essas três características mostram como a oração do coração é o alento da vida espiritual e de todo o ministério. Na verdade, essa oração não é apenas uma atividade importante, mas o próprio centro da nova vida que queremos representar e na qual queremos iniciar nosso povo. As características da oração do coração deixam claro que ela exige uma disciplina pessoal. Para levar uma vida de oração não podemos passar sem orações específicas. Precisamos dizê-las de uma forma que nos ajdue a ouvir melhor o Espírito que reza em nós. Precisamos continuar a incluir em nossa oração todas as pessoas com as quais e para as quais vivemos e trabalhamos. Essa disciplina vai nos ajudar a passar de um ministério entontecedor, fragmentário e muitas vezes frustrante para um ministério integrador, holístico e muito gratificante. Ela não vai facilitar o ministério, mas simplificá-lo; não vai torná-lo doce e piedoso, mas sim espiritual; não vai fazê-lo indolor e sem lutas, mas tranquilo no verdadeiro sentido hesicástico."
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"Onde há vontade, há um Caminho"

40 dias com Henri Nouwen




1. Vida espiritual: dom e disciplina
A vida espiritual é um dom. É o dom do Espírito Santo que nos eleva para o Reino do amor de Deus, mas dizer que ser elevado para o Reino do amor é um dom divino não significa que vamos esperar passivamente até que o dom nos sela concedido. Jesus diz que nosso coração tem de buscar o Reino. Buscar alguma coisa supõe não só uma aspiração séria, mas também uma forte determinação. A vida espiritual requer esforço humano. As forças que nos desviam para uma vida cheia preocupações não são fáceis de superar. Uma vida espiritual sem disciplina é impossível. Disciplina é o outro lado do discipulado. A prática da disciplina espiritual nos torna mais sensíveis à voz tranquila e suave de Deus. O profeta Elias não encontrou Deus no vendaval, nem no terremoto, nem no fogo e sim no murmúrio de uma brisa (I Rs 19.9-13). Através da prática de uma disciplina espiritual tornamo-nos sensíveis a essa voz tranquila e prontos a responder quando a ouvimos. – Henri Nouwen, em Renovando todas as coisas
2. De uma vida absurda a uma vida obediente
Muitas vezes tornamo-nos surdos, incapazes de saber quando Deus nos chama, incapazes de entender em que direcção nos chama. Desta forma nossas vidas se tornam um absurdo. Na palavra absurdo encontramos a palavra latina surdus, que significa “surdo”. A vida espiritual requer disciplina porque precisamos aprender a ouvir a Deus que constantemente fala, mas a quem raramente ouvimos. Porém, quando aprendemos a ouvir, nossas vidas se tornam vidas obedientes. A palavra obediente vem da palavra latina obaudire, que significa “ouvir”. É necessário ter uma disciplina espiritual se quisermos mudar lentamente de uma vida ‘absurda’ para uma vida ‘obediente’, de uma vida cheia de preocupações agitadas para uma vida em que há espaço livre no nosso interior para ouvir o nosso Deus e seguir a sua orientação. – Henri Nouwen, em Aqui e Agora
3. Ser todo ouvido para Deus
A vida de Jesus foi uma vida de obediência. Estava sempre escutando o Pai, sempre atento à sua voz, sempre alerta às suas orientações. Jesus era “todo ouvidos”. Isto é a verdadeira oração: ser todo ouvido para Deus. O cerne de toda oração é realmente ouvir, permanecer obedientemente na presença de Deus. Uma disciplina espiritual, portanto, é um esforço concentrado para criar um pouco de espaço interior e exterior nas nossas vidas, onde esta obediência pode ser praticada. Através de uma disciplina espiritual impedimos que o mundo preencha as nossas vidas de tal forma que não haja mais lugar para ouvir. Uma disciplina espiritual nos liberta para orar, ou melhor dizendo, liberta o Espírito de Deus para orar em nós. – Henri Nouwen, em Aqui e Agora
4. Tempo e lugar
Sem a solitude é praticamente impossível viver uma vida espiritual. A solitude começa com um tempo e um lugar para Deus, e só para Ele. Se crermos que Deus não apenas existe, mas também está activamente presente na nossa vida – curando, ensinando e guiando -, precisamos separar um tempo e um lugar para Lhe dedicar nossa atenção total. Jesus diz: “Vá para seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que está em secreto” (Mt 6,6). Talvez seja preciso anotar na agenda para que ninguém, nem nada, nos tire este tempo, assim poderemos dizer aos amigos, vizinhos, alunos, clientes ou pacientes: “Sinto muito já tenho um compromisso nesse horário”. – Henri Nouwen, em Renovando todas as coisas
5. Caos interior
Buscar solitude em nossa vida é um dos aspectos mais necessários da disciplina e também a mais difícil das disciplinas. Embora desejamos a verdadeira solitude, também passamos por certa apreensão a medida que nos aproximamos do seu lugar e do seu momento. Assim que nós estamos sozinhos, sem pessoas para conversar, livros para ler, TV para assistir ou telefone para falar, um caos interior começa. O caos pode ser tão perturbador que não vemos a hora de voltar à actividade. Portanto entrar no quarto e fechar a porta não significa que eliminamos imediatamente do nosso interior todas as dúvidas, ansiedades, medos, más lembranças, conflitos não resolvidos, sentimentos de ira e desejos impulsivos. Pelo contrário, depois de nos afastar de todas as outras distracções, logo descobrimos que nossas próprias distracções se manifestam com força total. Em geral utilizamos as distracções exteriores como protecção contra os ruídos interiores. Por isso não é de surpreender que tenhamos dificuldades em ficar sós. O confronto com nossos próprios conflitos pode ser muito doloroso de suportar. Isto é o que faz com que a solitude seja muito importante. A Solitude não é uma resposta espontânea de uma vida ocupada e preocupada. Existem muitas razões para não estar sozinho. Portanto, devemos começar a planejar cuidadosamente nosso tempo de solitude. – Henri Nouwen, em Renovando todas as coisas
6. Bombardeados por milhares de pensamentos
Uma vez que nós nos comprometemos a passar um tempo na solitude, desenvolvemos uma atenção à voz de Deus em nós. No início nos primeiros dias, semanas ou mesmo meses, possamos ter a sensação de que estamos apenas perdendo nosso tempo. O tempo em solitude no inicio pode parecer pouco maior que o tempo em que somos bombardeados por milhares de pensamentos e sentimentos que emergem das áreas ocultas da nossa mente. Um antigo escritor cristão descreveu o primeiro estágio da oração em solitude com a experiência de alguém que, depois de anos vivendo com as portas abertas, resolveu fechá-las. Os visitantes acostumados de entrar na casa começaram a bater à porta, querendo saber porque não podiam entrar. Só de perceberem que não são bem-vindos pararam de vir. Esta é a experiência de quem decide entrar na solitude depois de uma vida sem alguma disciplina espiritual. No começo surgem muitas distracções. Mais tarde, quando elas recebem menos atenção, elas lentamente se retiram. – Henri Nouwen, em Renovando todas as coisas
7. Orar com o coração
Encontramos a melhor formulação da oração do coração nas palavras do místico russo Teófano, o Recluso: “Rezar é descer com a mente ao coração e ali ficar diante da face do Senhor, omnipresente, omnividente dentro de nós”. (…) Ali habita o Espírito de Deus e ali acontece o grande encontro. Ali, coração fala a coração, porque ali ficamos diante da face do Senhor, omnividente, dentro de nós (…). Um dos monges do deserto, Macário, o Grande, diz: “A tarefa principal do atleta (isto é, do monge) é entrar em seu coração”. Isso não significa que o monge deva procura encher sua oração de sentimento; significa que deve esforçar-se para deixar que ela remodele toda a sua pessoa. O discernimento mais profundo dos monges do deserto é que entrar no coração é entrar no Reino de Deus. Em outras palavras, o caminho para Deus é pelo coração. Isaac, o Sírio, escreve: “Procura entrar na câmara do tesouro… que está dentro de ti e então descobrirás a câmara do tesouro do céu. Pois ambas são a mesma coisa. Se conseguires entrar em uma, verás ambas. A escada para este Reino está escondida dentro de ti, em tua alma. Se purificares a alma, ali verás os degraus da escada que deves subir.” E João de Cárpato diz: “É preciso grande esforço e luta na oração para alcançar aquele estado da mente que é livre de toda perturbação; é um céu dentro do coração (literalmente ‘intracardíaco’), o lugar onde, como o apóstolo Paulo assegura, “Cristo está em vós” (2Cor 13,5). – Henri Nouwen  em A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo – O Caminho do Coração
8. Orar com orações breves
No contexto de nossa cultura verbosa, é significativo ouvir os monges do deserto nos aconselhando a não usar palavras em excesso: “Perguntaram ao aba Macário: ‘Como se deve rezar?’ O ancião respondeu: ‘Não há, em absoluto, necessidade de fazer longos discursos; basta estender a mão e dizer: Senhor, como queres e como sabes, tem misericórdia. E se o conflito ficar mais ameaçador, dizer: Senhor, ajuda. Ele sabe muito bem do que precisamos e nos mostra sua misericórdia’”. João Clímaco é ainda mais explícito: “Quando rezares, não procures expressar-te em palavras extravagantes pois, quase sempre, são as frases simples e repetitivas de uma criancinha que o nosso Pai do céu acha mais irresistíveis. Não te esforces em muito falar, para que a busca de palavras não te distraia a mente da oração. Uma única frase nos lábios do colector de impostos foi suficiente para lhe alcançar a misericórdia divina; um pedido humilde feito com fé foi suficiente para salvar o bom ladrão. A tagarelice na oração sujeita a mente à fantasia e à dissipação; por sua natureza, as palavras simples tendem a concentrar a atenção. Quando encontrares satisfação ou contrição em determinada palavra da tua oração, para nesse ponto”. – Henri Nouwen em A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo – O Caminho do Coração
9. Orar incessantemente
A segunda característica da oração do coração é ser incessante. A pergunta de como seguir a ordem de Paulo: “Orai incessantemente” foi fundamental no hesicasmo desde a época dos monges do deserto até a Rússia oitocentista. Há muitos exemplos desse interesse nos dois extremos da tradição hesicástica. (…) Na famosa história do Peregrino Russo lemos: “Pela graça de Deus sou cristão, mas pelas minhas acções sou um grande pecador… No vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes, fui à igreja para ali fazer minhas orações durante a liturgia. Estava sendo lida a primeira Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses e, entre outras palavras, ouvi estas: ‘Orai incessantemente’ (1Ts 5,17). Foi esse texto, mais que qualquer outro, que se inculcou em minha mente, e comecei a pensar como seria possível rezar incessantemente, já que um homem tem de se preocupar também com outras coisas a fim de ganhar a vida”. O camponês encontrou um santo staretz que lhe (…) ensinou a “oração de Jesus”: “Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim”. Enquanto viajava como peregrino pela Rússia, o camponês passou a repetir essa oração com os lábios. Até considerava a oração de Jesus sua companheira verdadeira. E, então, um dia, teve a sensação de que a oração passou sozinha de seus lábios para seu coração. Ele diz: “… parecia que, pulsando normalmente, meu coração começava a dizer as palavras da oração a cada batida… Desisti de dizer a oração com os lábios. Passei simplesmente a ouvir o que meu coração dizia”. – Henri Nouwen em A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo – O Caminho do Coração
10. Orar incluindo tudo
Uma última característica da oração do coração é que ela inclui todos os nossos interesses. Quando entramos com a mente no coração e ali ficamos na presença de Deus, então todas as nossa preocupações mentais se transformam em oração. O poder da oração do coração é precisamente que, por meio dela, tudo que está em nossa mente se transforma em oração. Quando dizemos a alguém: “Vou rezar por você”, assumimos um compromisso muito importante. É uma pena que esse comentário muitas vezes não passe de uma expressão de interesse. Mas, quando aprendemos a descer com nossa mente em nosso coração, todos os que fazem parte de nossa vida são guiados à presença curativa de Deus e tocados por ele no centro de nosso ser. Falamos aqui de um mistério para o qual AS palavras são inadequadas. É o mistério em que o coração, centro de nosso ser, é transformado por Deus em seu coração, um coração grande o bastante para abraçar todo o universo. Pela oração, carregamos em nosso coração toda a dor e tristeza humanas, todos os conflitos agonias, toda a tortura e a guerra, toda a fome, solidão e miséria, não por causa de alguma grande capacidade psicológica ou emocional, mas porque o coração de Deus uniu-se ao nosso. (…) Vemos aqui o íntimo relacionamento entre oração e ministério. A disciplina de conduzir todo o nosso povo com suas lutas ao coração manso e humilde de Deus é a disciplina de oração e também do ministério. Enquanto o ministério significar apenas que nos preocupamos muito com as pessoas e seus problemas; enquanto significar um número interminável de actividades que dificilmente conseguimos coordenar, ainda dependeremos muito de nosso coração tacanho e ansioso. Mas quando nossas preocupações são elevadas ao coração de Deus e ali se transformam em oração, ministério e oração se tornam duas manifestações do mesmo amor universal de Deus. – Henri Nouwen em A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo – O Caminho do Coração
11. Encontrar a alegria
Jesus revela-nos o amor de Deus para que a sua alegria seja a nossa e para que a nossa alegria seja completa. A alegria é a experiência de saber que somos amados incondicionalmente e que nada – doenças, falhanços, quebras emocionais, opressão, guerras ou mesmo a morte – pode privar-nos desse amor.(…) É frequente descobrirmos a alegria no meio da tristeza. Eu recordo os tempos mais tristes da minha vida como sendo oportunidades em que tomei maior consciência de alguma realidade espiritual muito maior que eu próprio, uma realidade que me permitiu viver a dor com esperança. Atrevo-me mesmo a dizer: «A minha angústia foi precisamente o lugar onde encontrei a alegria». Seja como for, nada acontece automaticamente na vida espiritual. A alegria não é algo que acontece assim sem mais nem menos. Temos de escolher a alegria e continuar a escolhê-la todos os dias. É uma escolha baseada no conhecimento de que encontramos em Deus o nosso refúgio e segurança e de que nada, nem sequer a morte, nos pode separar de Deus. – Henri Nouwen, em “Aqui e Agora
12. Oportunidade de escolher a alegria
Pode parecer estranho dizer que a alegria é o resultado das nossas escolhas. Com frequência imaginamos que algumas pessoas têm mais sorte do que outras e que a sua alegria ou tristeza dependem das circunstâncias da sua vida – sobre a qual não têm controlo. No entanto, temos uma hipótese de escolha, não tanto em relação às circunstâncias da nossa vida, quanto em relação à maneira como reagimos a essas circunstâncias. (…) É importante darmo-nos conta de que em cada momento da nossa vida temos a oportunidade de escolher a alegria. A vida tem muitas facetas. Há sempre facetas tristes e alegres na realidade que vivemos. E, por isso, temos sempre a possibilidade de viver o momento presente, como causa de ressentimento ou como causa de alegria. É na escolha que reside a nossa verdadeira liberdade. E esta liberdade, em última análise, é a liberdade de amar. É capaz de ser uma boa ideia perguntarmos a nós mesmos como é que desenvolvemos a nossa capacidade de optar pela alegria. Talvez possamos reservar alguns momentos no final do nosso dia, para ver como é que o passámos – seja o que for que tenha acontecido – e agradecer a oportunidade de o ter vivido. Se assim o fizermos, aumentaremos a capacidade do nosso coração para optar pela alegria. E, ao construirmos um coração mais alegre, tornar-nos-emos, sem nenhum esforço extraordinário, fonte de alegria para os outros. Assim como a tristeza origina tristeza, assim a alegria origina alegria. – Henri Nouwen, em “Aqui e Agora
13. Transforma o meu pranto em dança
Mas é precisamente aqui, na dor, na pobreza ou na fraqueza que o ‘Dançarino’ nos convida a levantar e a dar os primeiros passos. É dentro do nosso sofrimento, e nunca fora dele, que Jesus entra na nossa tristeza, toma-nos pela mão, puxa-nos gentilmente, fazendo-nos ficar de pé, e convida-nos a dançar. E descobrimos o caminho da oração, como o salmista: converteste o meu pranto em dança (Salmos 30,11), porque no âmago da nossa tristeza encontramos a graça de Deus. E, enquanto dançamos, percebemos que não precisamos de ficar confinados ao diminuto espaço da nossa tristeza, mas podemos sair dali. Paramos de centralizar a nossa vida em nós mesmos. Chamamos outros para dançarem connosco a ‘dança maior’. Aprendemos a dar espaço aos outros, e principalmente ao “Outro gracioso” que está no meio de nós. E quando nos tornamos presentes para Deus e Seu povo, a nossa vida enriquece-se ainda mais. E constatamos que o mundo é nossa ‘pista de dança’. Nosso passo torna-se mais leve e ligeiro, porque Deus está chamando outros a dançarem também. – Henri Nouwen, em “Transforma meu pranto em dança
14. O dom secreto da compaixão
A mobilidade descendente, o ir ter com os que sofrem e partilhar as suas penas, parece que sabe um pouco a masoquismo ou até doença. Que alegria pode haver na solidariedade para com os pobres, os doentes e os moribundos? Que alegria pode haver na compaixão? Pessoas como Francisco de Assis, Carlos de Foucauld, Mahatma Gandhi, Albert Wchweizter, Dorothy Day e muitos outros, eram tudo menos masoquistas ou doentes. Todos irradiavam alegria. Esta é, obviamente, uma alegria desconhecida do nosso mundo. Se nos guiássemos pelo que nos dizem os meios de comunicação social, a alegria devia ser o resultado do sucesso, da popularidade e do poder, mesmo que os que detêm essas coisas tenham, com frequência, um coração pesado e até deprimido. A alegria que provém da compaixão é um dos segredos mais bem guardados da humanidade. É um segredo só conhecido de muito poucas pessoas, um segredo a descobrir continuamente. Eu, pessoalmente, tive umas «amostras» dela. Quando vim para Daybreak, uma comunidade com pessoas com deficiências mentais, pediram-me para passar algumas horas com Adam, um dos membros deficientes da comunidade. Todas as manhãs, tinha que o levantar da cama, dar-lhe banho, barbeá-lo, escovar-lhe os dentes, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-lo para o lugar onde ele passa todo o seu dia. Durante as primeiras semanas, quase tive medo, sempre preocupado com não fazer nada mal ou com que ele tivesse algum ataque epiléptico. Mas, pouco a pouco, fui ficando mais calmo e comecei a apreciar a nossa rotina diária. Com o passar das semanas, descobri que já era com ansiedade que esperava por aquelas duas horas que passava com o Adam. Sempre que pensava nele durante o dia, experimentava um sentimento de gratidão por o considerar meu amigo. Embora ele não fosse capaz de falar e nem sequer de fazer um sinal de agradecimento, havia um autêntico amor entre nós. O meu tempo com Adam tornara-se o tempo mais precioso do dia. Quando uma visita amiga me perguntou um dia: «Não poderias passar melhor o tempo que a trabalhar com um homem deficiente? Foi para fazer esse tipo de trabalho que tiraste o teu curso?», compreendi que não era capaz de lhe explicar a alegria que o Adam me trazia. Ele tinha que descobrir isso por si mesmo. A alegria é o dom secreto da compaixão. Continuamos a esquecer-nos disso e inconscientemente procuramo-la em outros lugares. Mas, cada vez que voltamos para onde existe a dor, conseguimos uma nova «amostra» de alegria que não é deste mundo. – Henri Nouwen, em  Aqui e Agora
15. Compaixão e mobilidade descendente
A vida de compaixão é a vida da mobilidade descendente! Numa sociedade em que a mobilidade ascendente é a norma, a mobilidade descendente não só não é encorajada como inclusivamente é considerada imprudente, pouco saudável, senão mesmo completamente estúpida. Quem será que escolhe livremente um emprego mal pago quando lhe é oferecido um outro bem pago? Quem será que escolhe a pobreza quando a riqueza está ao seu alcance? Quem será que escolhe um lugar escondido quando há um lugar na ribalta da vida? Quem será que opta por viver por uma única pessoa com graves carências quando poderia ajudar muitos ao mesmo tempo? Quem será que escolhe retirar-se para um lugar de solidão e oração quando há tantas exigências urgentes em toda a parte? Toda a minha vida, fui encorajado por gente bem intencionada a «subir na escala» e o argumento mais comum era: «Nessa posição, pode fazer tanto bem a tanta gente!» Mas essas vozes chamando-me à mobilidade ascendente estão completamente ausentes do Evangelho. Jesus diz: «Quem ama a sua vida, perdê-la-á e quem odiar a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna» (João 12, 25). E diz mais: «Se não vos fizerdes como crianças nunca entrareis no reino dos céus» (Mateus 18, 3). E finalmente diz: «Vós sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Ao contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós, seja o vosso servo; e quem quiser ser o primeiro no meio de vós, seja vosso escravo. Assim fez o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pelo resgate de muitos» (Mateus 20, 25-28). Esta é a via da mobilidade descendente, a via descendente de Jesus. É a via que leva aos pobres, aos que sofrem, aos marginalizados, aos prisioneiros, aos refugiados, aos que estão sós, aos esfomeados, aos moribundos, aos torturados, aos sem-tecto – a todos os que pedem compaixão. O que é que eles têm a oferecer em troca? Nem sucesso, nem popularidade, nem poder, mas a alegria e a paz dos filhos de Deus. – Henri Nouwen, Aqui e Agora
16. Deus revela-se através da compaixão
A glória humana é consequência de se ser considerado melhor, mais rápido, mais bonito, mais poderoso ou mais bem sucedido do que os outros. A glória conferida pelas pessoas é uma glória que dimana das comparações favoráveis com outras pessoas. Quanto mais alta for a nossa cotação no quadro indicador dos resultados da vida, tanto maior será a glória recebida. A glória tem um curso ascendente. Mas, como é a glória de Deus? Como podemos vê-la e recebê-la? No seu Evangelho João mostra que Deus escolhe revelar-nos a sua glória na sua humilhação. Esta é a boa, mas também perturbante novidade. Deus, na sua infinita sabedoria, escolheu revelar-nos a sua divindade não através da competição, mas sim da compaixão, ou seja, sofrendo connosco. Deus preferiu o caminho do movimento descendente. Sempre que Jesus fala de ser glorificado e dar glória refere-se sempre à sua humilhação e à sua morte. É através do caminho da Cruz que Jesus dá glória a Deus, recebe glória de Deus e nos dá a conhecer a glória divina. A glória da ressurreição nunca pode ser separada da glória da cruz. O Senhor ressuscitado mostra-nos sempre as suas feridas. As pessoas procuram a glória subindo. Deus revela a sua glória descendo. Se queremos ver a verdadeira glória de Deus temos que descer com Jesus…- Henri Nouwen, em A Caminho de Daybreak
17. Passar por cima das nossas feridas
Os humanos sofrem imenso. Muito, para não dizer a maior parte, do nosso sofrimento tem origem na relação com aqueles que nos amam. Estou constantemente ciente de que a minha agonia profunda provém, não dos terríveis eventos que leio nos jornais ou vejo na televisão, mas da relação com as pessoas com quem partilho a minha vida diária. São precisamente os homens e mulheres, que me amam e que estão muito perto de mim, os que me ferem. À medida que ficamos mais velhos, geralmente vamos descobrindo que nem sempre fomos bem amados. Com frequência, os que nos amaram também nos usaram. Os que se interessaram por nós foram, por vezes, também invejosos. Os que nos deram muito, por vezes, exigiram também muito em troca. Os que nos protegeram quiseram também possuir-nos nos momentos críticos. Habitualmente, sentimos a necessidade de esclarecer como e porque é que estamos feridos; e, com frequência, chegamos à alarmante descoberta de que o amor que recebemos não foi tão puro e simples como tínhamos julgado. É importante esclarecer estas coisas, especialmente quando nos sentimos paralisados por medos, preocupações e anseios obscuros que não compreendemos. Mas compreender as nossas feridas não basta. Ao fim e ao cabo, temos que encontrar a liberdade para passar por cima das nossas feridas e a coragem para perdoar aos que nos feriram. O verdadeiro perigo está em ficarmos paralisados pela raiva e pelo ressentimento. Então começaremos a viver com o complexo do “ferido”, queixando-nos sempre de que a vida não é “justa”. Jesus veio livrar-nos destas queixas auto-destrutivas. Diz Ele. “Põe de lado as tuas queixas, perdoa aos que te amaram mal, passa por cima da sensação que tens de seres rejeitado e ganha coragem para acreditar que não cairás no abismo do nada mas no abraço seguro de Deus cujo amor curará todas as tuas feridas.” – Henri Nouwen, em “Aqui e Agora
18. Feridas que curam
“Ninguém escapa de ser ferido. Somos todos pessoas feridas, física, emocional, mental ou espiritualmente. A questão principal não é “como podemos esconder as nossas feridas”, e assim não teremos de nos sentir envergonhados, mas “como podemos colocá-las ao serviço dos outros”. Quando as nossas feridas deixam de ser uma fonte de vergonha e passam a ser uma fonte de cura, tornamo-nos pessoas feridas que curam. Jesus é o enviado de Deus que, mesmo ferido, cura. Por meio de suas feridas somos curados. O sofrimento e a morte de Jesus trouxeram alegria e vida. A sua humilhação trouxe glória; a sua rejeição, uma comunidade de amor. Como seguidores de Jesus, também podemos permitir que as nossas feridas tragam a cura aos outros. – Henri Nouwen, em “Pão para o caminho”
19. Uma vida agradecida
Como poderemos viver realmente uma vida em acção de graças? Quando olhamos para trás e vemos tudo o que nos aconteceu, facilmente dividimos a nossa vida em várias fases, com coisas boas a agradecer e coisas más para esquecer. Mas, como um passado assim dividido, não podemos caminhar livremente em direcção ao futuro. Com tantas coisas para esquecer, o máximo que podemos fazer é coxear rumo ao futuro. A gratidão espiritual abarca todo o nosso passado, tanto os bons como os maus eventos, tanto os momentos alegres como os tristes. Do lugar em que nos encontramos, podemos concluir que tudo o que nos aconteceu nos trouxe a este lugar. Recordemos tudo isso como parte do plano de Deus que nos conduz. Isso não quer dizer que tudo o que nos aconteceu no passado seja bom, mas quer dizer que mesmo o mal não aconteceu fora da presença amorosa de Deus. Os sofrimentos do próprio Jesus foram-lhe causados pelas forças das trevas. Mesmo assim, Ele fala dos seus sofrimentos e morte como o caminho da glória. É muito difícil colocar todo o nosso passado sob a luz da gratidão. Há muitas coisas de que nos sentimos culpados e envergonhados, muitas coisas que desejaríamos que pura e simplesmente não tivessem acontecido. Mas, cada vez que temos a coragem de olhar para elas «na sua totalidade» e de as ver como Deus as vê, então a nossa culpa torna-se uma culpa feliz e a nossa vergonha uma vergonha feliz, porque provocam em nós um reconhecimento mais profundo da misericórdia de Deus, uma convicção mais forte de que é Deus quem nos conduz e um empenho mais radical na aceitação da vida ao serviço de Deus. Desde que todo o nosso passado seja recordado com gratidão, adquirimos a liberdade para ser enviados para o mundo a proclamar a Boa Nova aos outros. Assim como as negações de Pedro não o paralisaram, mas, uma vez perdoado, se tornaram uma nova fonte de fidelidade, assim também as nossas falhas e traições podem transformar-se em gratidão e capacitar-nos a ser mensageiros de esperança. – Henri Nouwen, em Aqui e Agora
20. Amas-me?
A afirmação simples «Deus é Amor» tem implicações de longo alcance a partir do momento em que começarmos a viver a nossa vida baseados nessa afirmação. Se Deus, que me criou, é amor e só amor, sou amado mesmo antes que qualquer ser humano me ame. Quando era criança, perguntava constantemente ao meu pai e à minha mãe: «Gostas de mim?» Fazia esta pergunta tão frequente e persistentemente que se tornou uma fonte de irritação para os meus pais. Embora me garantissem centenas de vezes que me amavam, eu nunca parecia completamente satisfeito com as suas respostas e continuava a fazer-lhes a mesma pergunta. Agora, muitos anos depois, compreendo que pretendia uma resposta que eles não me podiam dar. Eu queria que eles me amassem com um amor eterno. E sei que o caso era esse, porque a minha pergunta «Gostas de mim?» era sempre acompanhada duma outra pergunta. «E tenho que morrer?» De alguma forma, já devia saber na altura que, se os meus pais me amassem com um amor total, ilimitado e incondicional, nunca morreria. Por isso mesmo, continuava a importuná-los com a estranha esperança de eu constituir uma excepção à regra que diz que toda a gente há-de morrer um dia. Muita da nossa energia está resumida na pergunta: «Amas-me?… Gostas de mim?» À medida que envelhecemos, vamos desenvolvendo muitas maneiras mais subtis e sofisticadas de fazer esta pergunta. Dizemos: «Confias em mim, preocupas-te comigo, aprecias-me, és-me fiel, apoias-me, dirás bem de mim?»… e assim por diante. Muita da nossa dor vem da nossa experiência de não ter sido bem amados. O grande desafio espiritual é descobrir, com o passar do tempo, que o amor limitado, condicional e temporal que recebemos dos pais, cônjuges, filhos, professores, colegas e amigos, é um reflexo do amor ilimitado, incondicional e eterno de Deus. Se conseguirmos dar esse grande salto de fé, então chegaremos a compreender que a morte já não é o fim mas a entrada para a plenitude do Amor Divino. – Henri Nouwen, em “Aqui e Agora”
21. Regressa sempre ao ponto sólido
Tens que acreditar na resposta afirmativa que te é devolvida quando perguntas «Amas-me?» Deves escolher este sim mesmo quando não o sentes. Sentes-te esmagado por distracções, fantasias, pelo perturbante desejo de te lançares no mundo do prazer. Mas sabes de antemão que não será aí que vais descobrir uma resposta para a tua dúvida mais profunda. Tal como essa resposta não está em voltar a analisar minuciosamente acontecimentos passados ou na culpa ou recriminação. Tudo isso apenas contribui para te exaurir e fazer abandonar a rocha sobre a qual está construída a tua casa. Tens de confiar nesse ponto sólido, no local onde podes dizer sim ao amor de Deus mesmo quando não o sentes. Neste momento nada sentes a não ser vazio e falta de força para escolher. Mas continua a repetir «Deus ama-me e o amor de Deus basta». Tens que escolher uma e outra vez esse local sólido e regressar a ele após cada fracasso. – Henri Nouwen, em A Voz Íntima do Amor
22. Continua a preferir Deus
Enfrentas escolhas permanentes. O problema está em saber se preferes Deus ou o teu ‘eu’ duvidoso. Sabes qual é a escolha certa, mas as tuas emoções, paixões e sentimentos continuam a sugerir-te escolher o caminho da auto-exclusão. A escolha radical está em confiar sempre em que Deus está contigo e te dará o que mais precisas. As tuas emoções de auto-exclusão talvez digam assim «Isto não vai dar em nada. Continuo a sentir-me tão angustiado como há seis meses. O mais provável é continuar a agir e a reagir do mesmo modo depressivo. De facto não mudei nada». Etc, etc. É difícil não dar ouvidos a estas vozes. Contudo, sabes que esta não é a voz de Deus. Deus diz-te: «Eu amo-te, estou contigo, quero que te apro­ximes de mim e experimentes a alegria e a paz da minha presença. Quero dar-te um coração e um espírito novos. Quero que fales com a minha boca, vejas com os meus olhos, oiças com os meus ouvidos, toques com as minhas mãos. Tudo o que é meu é teu. Limita-te a confiar em mim e deixa-me ser o teu Deus.» Esta é a voz que deves escutar. E essa escuta exige uma escolha real, não apenas de vez em quando, mas a cada momento de cada dia e de cada noite. És tu quem decide o que pensar, dizer e fazer. Podes optar pela depressão, podes convencer-te a ser pobre em segurança e agir de modo a censuraras-te permanentemente. Mas tens sempre a oportunidade de escolher pensar, falar e agir em nome de Deus e assim caminhares para a Luz, a Verdade e a Vida. À medida que vais concluindo este período de renovação espiritual confrontas-te uma vez mais com a escolha. Podes optar por recordar este tempo como uma tentativa falhada de renascimento total ou podes igualmente escolher recordar-te dele como do tempo precioso em que Deus iniciou em ti coisas novas que precisam de ser levadas à plenitude. O teu futuro depende de como decidires recordar o teu passado. Escolhe dentro da verdade que conheces. Não permitas que as tuas emoções ainda ansiosas te distraiam. Enquanto continuares a preferir Deus as tuas emoções deixarão gradualmente a sua rebeldia e converter-se-ão à Verdade que habita em ti. Enfrentas uma verdadeira batalha espiritual. Mas não tenhas medo. Não estás só. Os que te guiaram durante este período não te vão abandonar. As suas orações e apoio estarão contigo onde quer que vás. Mantém-nos junto do teu coração para que eles te possam conduzir enquanto fazes as tuas escolhas. Lembra-te, estás em segurança. És amado. Estás protegido. Estás em comunhão com Deus e com os que Deus te enviou. O que é de Deus permanecerá. Pertence à vida eterna. Escolhe-a e ela será tua. – Henri Nouwen, em A voz íntima do amor
23. Confia na voz interior
Desejas realmente converter-te? Estás disposto a modificar-te? Ou continuas agarrado ao teu velho modo de vida com uma mão enquanto com a outra pedes aos outros que te ajudem a mudar? A conversão não é com certeza algo que possas encontrar por ti mesmo. Não se trata de um exercício da própria vontade. Tens que confiar na voz interior que mostra o caminho. Tu conheces essa voz. Ouve-la com frequência. Mas depois de ouvir com clareza o que ela te pede começas a fazer perguntas, a fabricar objecções e a pedir a opinião de todos. Assim deixas-te enredar por inúmeros pensamentos, sentimentos e ideias muitas vezes contraditórias e perdes contacto com o Deus que habita dentro de ti. E acabas por te tornar dependente de todas as pessoas que reuniste em torno de ti. Só dando constantemente ouvidos a essa voz interior conseguirás converter-te a uma nova vida de liberdade e alegria. – Henri Nouwen, em A Voz Íntima do Amor
24. Na Casa de Deus
Na casa de Deus há muitas moradas. Há lugar para todos – um lugar único e especial. Se acreditarmos profundamente que somos preciosos aos olhos de Deus, então seremos capazes de descobrir também a valia dos outros e o lugar único que ocupam no coração de Deus. Não é possível entrar em competição para ver quem é que ganha o amor de Deus. O amor de Deus é um amor que abraça a todos – cada um na sua própria unicidade. Só quando reivindicamos o nosso lugar no amor de Deus é que podemos experimentar o abraço total desse mesmo e incomparável amor e sentirmo-nos em segurança, não só em relação a Deus mas também em relação a todos os irmãos e irmãs. – Henri Nouwen, em Viver é ser amado
25. Caminho estreito
Custa a crer que Deus nos revelaria a sua divina presença na vida de autodespojamento e humildade do Homem de Nazaré. Uma grande parte de mim procura influência, poder, sucesso e popularidade. Mas o caminho de Jesus é o do recato, da falta de poder e da pequenez. Não parece um caminho muito atraente. E, no entanto, quando penetrar na verdadeira, profunda comunhão com Jesus, descobrirei que é este caminho estreito que conduz à paz e à alegria verdadeiras. (…) Continuo tão dividido. Desejo sinceramente seguir-te, mas quero igualmente seguir os meus próprios desejos e ainda dou ouvidos às vozes que falam de prestígio, de sucesso, de reconhecimento humano, de prazer, de poder e de influência. Ajuda-me a ficar surdo a essas vozes mais atento à tua voz, que me chama a escolher o caminho estreito… Em todos os momentos da minha vida tenho que escolher o teu caminho. Tenho de escolher pensamentos que sejam os teus pensamentos, palavras que sejam as tuas palavras e acções que sejam as tuas acções. Não existem nem tempos nem lugares sem escolhas. E eu sei quanto resisto a escolher-te. – Henri Nouwen, em A caminho de Daybreak
26. O peso do julgamento
Os Padres do deserto do século IV diziam: «Julgar os outros é um fardo pesado.» Eu tive alguns momentos na vida em que me senti livre da necessidade de fazer qualquer juízo de valor acerca dos outros. Senti que me tinha sido tirado um peso dos ombros. Nesses momentos, experimentei um amor imenso por todos os que encontrei, por todos aqueles de quem ouvi algumas coisas e, sobretudo, por aqueles dos quais li algumas coisas. Uma solidariedade profunda com todos os povos e um profundo desejo de os amar desceram as paredes do meu íntimo e tornaram o meu coração grande como o universo. Um desses momentos ocorreu depois duma passagem de sete meses por um mosteiro de Trapistas. Vivia tão inundado da bondade de Deus que via essa bondade onde quer que fosse, mesmo atrás das fachadas de violência, destruição e crime. Tive que me coibir de abraçar as mulheres e homens que me venderam géneros alimentícios, flores e um fato novo. É que todos me pareciam santos! Todos podemos desfrutar destes momentos se estivermos atentos ao movimento do Espírito de Deus dentro de nós. São como amostras do céu, de beleza e de paz. É fácil descartar estes momentos como produto dos nossos sonhos ou da nossa imaginação poética. Mas, quando optamos por pedi-los como uma forma de Deus nos dar umas pancadinhas no ombro e de nos mostrar a verdade mais profunda da existência, gradualmente somos capazes de ultrapassar a necessidade de julgar os outros e a inclinação para ajuizar acerca de tudo e de todos. Então poderemos crescer rumo a uma verdadeira liberdade interior e a uma verdadeira santidade. Mas, só poderemos pôr de lado o fardo pesado de julgar os outros quando não nos importamos de suportar o ligeiro peso de ser julgados! Henri Nouwen, em Aqui e Agora
27. Evita todas as formas de autocensura
Deves evitar não só culpar os outros mas também a ti mesmo. Tens tendência a recriminar-te pelas dificuldades que sentes nos relacionamentos que entabulas. Mas a auto-recriminação não é uma forma de humildade. É uma forma de autocensura, na qual ignoras ou negas a tua própria virtude e beleza. Quando uma amizade não floresce, quando uma palavra não é acolhida, quando um gesto de amor não é apreciado, não te censures a ti mesmo, porque isso é falso e doloroso. Sempre que te rejeitas idealizas os outros. Queres estar com os que consideras melhores, mais fortes, mais inteligentes e mais dotados do que tu. Assim, tornas-te emocionalmente dependente, levando os outros a sentirem-se incapazes de satisfazerem as tuas expectativas e a afastarem-se de ti. O que faz com que te censures ainda mais e entres numa espiral perigosa de auto-rejeição e carência. Evita todas as formas de autocensura. Reconhece as tuas limitações, mas assume as tuas virtudes únicas e começa a viver como um igual entre iguais. Assim libertar-te-ás das tuas necessidades obsessivas e possessivas e darás a ti próprio a oportunidade de dar e receber afecto e amizade verdadeiros. – Henri Nouwen, em A voz íntima do amor
28. A armadilha da auto-rejeição
A auto-rejeição é o pior inimigo da vida espiritual, porque contradiz a voz sagrada que nos chama pelo nome de «amados». Ser amado exprime a verdade central da nossa existência. (…) O que conta realmente é que somos os «amados». Fomos intimamente amados muito antes de os nossos pais, professores, cônjuges, filhos e amigos nos terem amado ou ofendido. Esta é a verdade da nossa vida. (…) Sempre que escutares com atenção a voz que te chama «amado», descobrirás no mais íntimo de ti o desejo de tornar a ouvir essa voz ainda por mais tempo e com maior profundidade. É como descobrir uma fonte de água no deserto: logo que se encontra terra húmida, dá vontade de cavar ainda mais fundo. Tenho vindo a «escavar» bastante nos últimos tempos e sei que ainda só comecei a ver correr um pequeno riacho que serpenteia pela areia árida. Mas há que continuar a escavar, porque esse pequeno riacho provém dum enorme reservatório sob o deserto da minha vida. A palavra «escavar» talvez não seja a melhor, pois sugere trabalho duro e penoso, mas sei que é uma operação que me leva finalmente ao lugar onde posso matar a sede. O que é preciso é, talvez, remover a areia árida que cobre a fonte de água. Talvez haja uma quantidade bastante grande de areia árida na nossa vida, mas Aquele que tanto deseja matar-nos a sede, ajudar-nos-á a remover essa areia. O que precisamos é de um grande desejo de encontrar água e de beber. – Henri Nouwen, em Viver é ser amado
29. A tentação de impressionarmos
Como podemos ultrapassar esta tentação que invade toda a nossa vida? É importante reconhecer que a nossa fome de coisas espectaculares – tal como o nosso desejo de nos evidenciarmos – tem muito a ver com a nossa procura de identidade. Ser uma pessoa e ser-se visto, apreciado, amado e aceite tem-se tornado quase a mesma coisa para muita gente. Quem sou eu, se ninguém me presta atenção, me agradece ou reconhece o meu trabalho? Quanto mais inseguros, hesitantes e solitários formos, maior será a nossa necessidade de popularidade e apreço. Infelizmente, essa fome nunca será saciada. Quanto mais apreciados somos, mais desejamos sê-lo. A fome de aceitação humana é como um barril sem fundo, que ninguém pode encher: nunca poderá ser satisfeita.  Jesus respondeu ao tentador: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus.» De facto, a procura de prestígio pessoal é a expressão da dúvida que temos relativamente à forma plena e incondicional com que Deus nos aceita. Trata-se, de facto, de pôr Deus à prova. É o mesmo que dizer: «Não estou bem certo de que Tu gostas mesmo de mim, de que Tu me amas de facto, de que Tu achas mesmo que eu valho alguma coisa. Vou dar-te a oportunidade de mo demonstrares acalmando os meus medos internos com o apreço humano, e aliviando a minha baixa auto-estima com aplausos humanos.» O verdadeiro desafio que nos é proposto é regressar ao centro, ao coração, e encontrar aí a voz suave que nos fala e nos confirma de uma forma que nenhuma voz humana alguma vez poderia fazê-lo. A base da nossa vida cristã é experiência da aceitação ilimitada e irrestritiva de nós mesmos como filhos bem-amados, uma aceitação tão plena, tão total e tão abrangente, que nos liberta da necessidade compulsiva de sermos vistos, apreciados e admirados, e nos liberta para Cristo, que nos conduz pelo caminho do serviço. Esta experiência da aceitação de Deus liberta-nos do nosso eu carente, criando assim, um novo espaço onde podemos prestar uma atenção desinteressada aos outros. Só uma vida de contínua comunhão íntima com Deus pode revelar-nos a nossa verdadeira identidade; só uma vida assim pode libertar-nos para agirmos segundo a verdade, e não segundo a nossa necessidade de coisas espectaculares. Isto está longe de ser fácil. Requer-se uma disciplina séria e perseverante de solidão, silêncio e oração. Uma disciplina assim não nos recompensará com o brilho exterior do êxito, mas com a luz interior que ilumina todo o nosso ser, e que nos permite ser testemunhas livres e desinibidas da presença de Deus nas nossas vidas. – Henri Nouwen, em O esvaziamento de Cristo
30. Ousa contar abertamente a tua história
«Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.» (Romanos 8, 28) «Os anos que te antecedem, recheados de conflitos e sofrimento, serão a seu tempo recordados como o caminho que te conduziu à tua nova vida. Mas enquanto essa nova vida não te pertencer completamente, as tuas recordações continuarão a fazer-te sofrer. Quando revives acontecimentos dolorosos do passado, podes sentir-te vítima deles. Mas existe uma maneira de contares a tua história sem sentir dor e nessa altura também te sentirás menos pressionado a contá-la. Aperceber-te-ás que o teu lugar deixou de ser lá: o passado já era, o sofrimento deixou-te, já não precisas de regressar para o aliviar, já não dependes do teu passado para te identificares. Há duas maneiras de contar a tua história. Uma consiste em contá-la de forma compulsiva e premente, regressando continuamente a ela por que encaras o teu presente sofrimento como consequência das tuas experiências passadas. Mas existe outra maneira. Podes contar a tua história de um ponto onde ela já não te domina. Podes falar dela com algum distanciamento e encará-la como caminho para a liberdade de que actualmente gozas. Verás, então, que desapareceu a compulsão de contar a tua história. De uma perspectiva de vida em que agora te encontras e com o distanciamento que agora possuis, o teu passado já não te ensombra. Perdeu o peso e pode ser recordado como o modo que Deus encontrou para te ajudar a ter compaixão pelo próximo e a compreendê-lo. – Henri Nouwen, em A Voz Íntima do Amor
31. Reconhece a tua impotência
Existem em ti lugares onde estás completamente impotente. Desejas tanto curar-te, lutar contra as tuas tentações e controlar-te. Mas não consegues fazê-lo sozinho. Sempre que tentas, ficas com menos coragem. Assim, deves reconhecer a tua impotência. Este é o primeiro passo dado pelos Alcoólicos Anónimos e o tratamento de todas as dependências. Talvez possas encarar o teu conflito deste modo. A tua necessidade inexaurível de afecto é uma dependência. Governa a tua vida e vitimiza-te. Começa simplesmente por admitir que não te podes curar a ti mesmo. Precisas de admitir a tua impotência para que Deus te possa curar. Mas não se trata de facto de um problema de antes e depois. O teu desejo de reconhecer a tua impotência já engloba o início da rendição à acção de Deus em ti. Quando te sentes incapaz de detectar a presença curativa de Deus, o reconhecimento da tua impotência é demasiado assustador. É um salto sem rede. A tua predisposição para te libertares do desejo de controlar a tua vida revela uma certa confiança. Quanto mais renuncias à tua obstinada necessidade de manter o poder tanto mais entrarás em contacto com Aquele que tem o poder de te curar e guiar. E quanto mais contactares com esse poder divino tanto mais fácil será confessar a ti próprio e aos outros a tua impotência básica. Umas das maneiras de te apegares a um poder imaginário é esperar alguma coisa de gratificações externas e de acontecimentos futuros. Enquanto continuares a fugir de onde estás e te abstraíres a tua cura total não ocorrerá. Uma semente só floresce mantendo-se no terreno onde foi plantada. Quando se escava continuamente o local onde a semente foi colocada para verificar o seu crescimento ela nunca dará fruto. Pensa em ti mesmo como uma pequena semente semeada em solo fértil. Tudo o que precisas fazer é manter-te aí e confiar que o solo contém tudo o que precisas para crescer, crescimento esse que ocorre mesmo quando não o sentes. Fica sossegado, reconhece a tua fragilidade e confia que um dia saberás quanto recebeste. – Henri Nouwen, em “A Voz Íntima do Amor
32. Tu és o meu amado
Quando todo o povo fora batizado, tendo sido Jesus também batizado, e estando ele a orar, o céu se abriu; e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e ouviu-se do céu esta voz: Tu és o meu Filho amado; em ti me comprazo.» (Lucas 3, 21-22) “As palavras «Tu és o meu amado» revelam a mais profunda verdade sobre todos os seres humanos, pertençam ou não a uma determinada tradição particular. «Tu és o meu amado, em Ti pus a minha complacência». Claro que não é fácil ouvir essa voz num mundo cheio de vozes que gritam: «Tu não és bom, és feio, não vales nada, és desprezível, não és ninguém… a não ser que consigas demonstrar o contrário». Estas vozes negativas são tão fortes e persistentes que é fácil acabarmos por acreditar nelas. É essa a grande armadilha. É a armadilha da auto-rejeição. Com os anos, cheguei à conclusão de que a maior cilada da nossa vida não é o sucesso, a popularidade ou o poder, mas a auto-rejeição. O sucesso, a popularidade e o poder são, como é evidente, uma grande tentação, mas a sua força de sedução deriva frequentemente da forma como tudo isso faz parte duma maior tentação, que é a auto-rejeição. Se acreditarmos nestas vozes, que nos tratam como gente que não vale nada e que é indigna de amor, então sim, o sucesso, a popularidade e o poder são facilmente percebidos como solução alternativa e atraente. Mas a verdadeira cilada é a auto-rejeição. – Henri Nouwen, em Viver é ser amado
33. Ama em profundidade
Não hesites em amar e amar profundamente. Talvez receies o sofrimento que o amor profundo pode causar. Quando aqueles que amas profundamente te rejeitam, abandonam ou morrem ficas com o coração despedaçado. Mas que isso não te impeça de amar em profundidade. O sofrimento que provém do amor profundo torna o teu amor ainda mais profícuo. É como uma charrua que rasga o solo para permitir à semente ganhar raízes e tornar-se numa planta forte. Sempre que experimentas a dor da rejeição, da ausência ou da morte, enfrentas uma escolha. Podes tornar-te amargo e decidir não amar de novo ou podes enfrentar a tua dor com bravura e deixar que o solo em que permaneces enriqueça e seja capaz de dar mais vida a novas sementes. Quanto mais tiveres amado e permitido a ti próprio sofrer por esse amor, tanto mais capaz serás de deixar o teu coração alargar-se e aprofundar-se. Quando o teu amor é verdadeiramente generoso e receptivo, aqueles que amas não deixarão o teu coração mesmo quando se afastam de ti. Tornar-se-ão parte de ti, construindo então uma comunidade dentro de ti. Os que amaste profundamente tornar-se-ão parte de ti. Quanto mais longa for a tua vida tantas mais pessoas terás para amar e para fazer parte da tua comunidade interior. Quanto mais vasta se tornar a tua comunidade interior tanto mais fácil será reconheceres os teus próprios irmãos e irmãs entre os desconhecidos que te rodeiam. Os que estão vivos dentro de ti reconhecerão os que estão vivos à tua volta. Quanto mais vasta a comunidade do teu coração tanto mais vasta a comunidade que te rodeia. Assim, o sofrimento causado pelo desprezo, pela ausência e pela morte pode tornar-se frutífero. Sim, à medida que amas profundamente, o solo do teu coração rasgar-se-á cada vez mais, mas regozijar-te-ás com a abundância dos seus frutos. – Henri Nouwen, em A Voz Íntima do Amor
34. Deixa-te ser inteiramente recebido
Dar-te aos outros sem esperar nada em troca só é possível quando fores inteiramente recebido. Sempre que descobres esperar alguma coisa em troca do que deste ou ficas desiludido quando nada obténs em troca, é um alerta a que compreendas que tu próprio ainda não te sentes inteiramente recebido. Só quando te reconheces incondicionalmente amado – ou seja, inteiramente recebido por Deus – serás capaz de dar de graça. Dar sem pedir nada em troca é confiar em que as tuas necessidades serão satisfeitas por aquele que te ama incondicionalmente. É confortável saber que não precisas de proteger a tua própria segurança, mas que te podes entregar completamente ao serviço do próximo. A fé consiste precisamente em confiar que aquele que dá de graça receberá de graça, mas não necessariamente da pessoa a quem deu. O perigo está em te esgotares no serviço ao próximo, na esperança de que eles te recebam inteiramente. Em breve sentirás que os outros levam consigo partes de ti mesmo. Não te podes dar aos outros se não pertences a ti mesmo, e só podes possuir-te verdadeiramente quando fores inteiramente recebido num amor incondicional. Muito do acto de dar e receber possui uma qualidade violenta, porque os que dão e recebem agem mais por necessidade do que por confiança. O que aparenta ser generosidade é realmente manipulação e o que parece amor é realmente um pedido aflitivo de afecto e amparo. Quando te reconheces como inteiramente amado, serás capaz de dar de acordo com a capacidade alheia de receber, e serás capaz de receber de acordo com a capacidade alheia de dar. Sentir-te-ás grato pelo que te foi dado sem te apegares a isso, e alegre com o que podes dar sem te gabares por isso. Serás uma pessoa livre, livre para amar.» Henri Nouwen, em “ Voz Íntima do Amor”
35. Segue o teu chamamento mais profundo
Quando descobrires dentro de ti alguma coisa que é um dom de Deus deves apoderar-te dela e não deixar que te seja retirada. Por vezes as pessoas que não conhecem o teu coração nem se aperceberão da importância de algo que faz parte do teu ser mais profundo, precioso tanto aos teus olhos como aos de Deus. Talvez não te conheçam suficientemente bem para corresponder às tuas carências genuínas. É nesta altura que deves escutar o teu coração e seguir o teu chamamento mais profundo. Uma parte de ti cede facilmente às exigências alheias. Assim que alguém questiona os teus motivos começas a duvidar de ti próprio. Acabas por concordar com o outro antes de teres consultado o teu próprio coração. Assim vais-te tornando cada vez mais passivo e assumes simplesmente que os outros é que sabem. Neste caso deves escutar com atenção o teu ser mais profundo. «Centrar-te» e «regressares a ti próprio» são expressões que indicam possuíres uma base interior sólida, a partir da qual podes falar e agir – sem desculpas – de forma humilde mas convincente. Henri Nouwen, A voz íntima do amor
36. Dar da sua pobreza
«Jesus, levantando os olhos, viu os ricos deitarem as suas ofertas no cofre; viu também uma pobre viúva lançar ali dois leptos; e disse: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais do que todos; porque todos aqueles deram daquilo que lhes sobrava; mas esta, da sua pobreza, deu tudo o que tinha para o seu sustento.» (Lucas 21:1-4) «Dar, não da minha riqueza mas da minha pobreza, como a viúva de Jerusalém que deu a sua última moeda, esse é o grande desafio do Evangelho. Quando avalio criticamente a minha vida descubro que a minha generosidade surge sempre num contexto de abastança. Dou algum do meu dinheiro, algum do meu tempo, parte da minha energia e alguns dos meus pensamentos sobre Deus aos outros, mas guardo sempre para mim dinheiro, tempo, energia e pensamentos suficientes para a minha própria segurança. Assim nunca dou verdadeiramente a Deus a possibilidade de me demonstrar o Seu Amor sem limites.» Henri Nouwen, em A Caminho de Daybreak
37. Regressa sempre ao caminho para a liberdade
Quando pareces perder repentinamente tudo o que pensavas ter conquistado não desesperes. A tua cura não é linear. Deves contar com reveses e retrocessos. Não digas a ti mesmo: “está tudo perdido. Tenho que recomeçar do princípio”. Não é verdade. Não se perde o que já se conquistou. Há por vezes pequenas coisas que avolumam e te fazem sentir perdido por momentos. A fadiga, um comentário aparentemente frio, a incapacidade de alguém para te escutar, um esquecimento inocente, que se assemelha a desprezo – quando tudo acontece ao mesmo tempo podes sentir que voltaste ao princípio. Mas tenta pensar nesses acontecimentos como num desvio temporário da tua caminhada. Quando regressares ao caminho regressarás ao ponto onde o abandonaste, não ao princípio. É importante não te demorares nos pequenos momentos em que não progrides. Tenta regressar a casa imediatamente, a esse ponto sólido dentro de ti. Caso contrário esses momentos começam a ligar-se a momentos semelhantes e juntos tornam-se suficientemente poderosos para te afastarem para muito longe do teu caminho. Tenta manter-te atento a distracções aparentemente inócuas. É mais fácil regressar ao caminho quando se está à beira da estrada do que quando se é arrastado para um pântano vizinho. Em tudo continua a confiar em que Deus está contigo, em que Deus te deu companheiros de caminhada. Regressa uma e outra vez ao caminho para a liberdade. – Henri Nouwen, em A Voz Íntima do Amor
38. Aceita a tua identidade de filho de Deus
Ser filho de Deus é a tua verdadeira identidade, que deves aceitar. Quando a tiveres assumido e integrado em ti, poderás viver num mundo que te oferece muito mais alegria, bem como mais sofrimento. Podes receber o elogio e a censura que vêm ao teu encontro como uma oportunidade para fortalecer a tua identidade básica, porque a identidade que te torna livre enraíza para além de todo o elogio ou censura humanas. Pertences a Deus e é como filho de Deus que és enviado ao mundo. Precisas de direcção espiritual; precisas de pessoas que te mantenham ancorado à tua verdadeira identidade. A tentação de te desligares desse ponto profundo onde Deus habita e te deixares abafar pelo louvor ou pela censura do mundo está sempre presente. Uma vez que desconheceste durante muito tempo esse local da tua identidade de filho de Deus, os que são capazes de te tocar nesse ponto tiveram um poder repentino e esmagador sobre ti. Tornaram-se parte da tua identidade. Já não eras capaz de viver sem eles. Mas eles não podiam desempenhar esse papel divino, por isso deixaram-te e sentiste-te abandonado. Mas foi precisamente essa experiência de abandono que te fez realizar de novo a tua verdadeira identidade de filho de Deus. Só Deus pode habitar esse lugar profundo e dar-te uma sensação de segurança. Mas o perigo permanece, se deixares outros roubarem-te o teu centro sagrado, o que te mergulhará na angústia. Talvez seja preciso muito tempo e disciplina para reconheceres inteiramente o teu ser profundo e escondido e o teu ser público, que é reconhecido, amado e aceite, mas igualmente criticado pelo mundo. Contudo, começarás a sentir-te gradualmente mais ligado e capacitar-te-ás mais cabalmente de quem verdadeiramente és – um filho de Deus. Aí reside a tua verdadeira liberdade. – Henri Nouwen, em A voz Íntima do Amor
39. Enfrenta o inimigo
À medida que vês com mais clareza que a tua vocação é ser testemunha do amor de Deus no mundo, e à medida que vives essa vocação com maior determinação, os ataques do inimigo aumentam. Ouvirás vozes que dizem «és inútil, não tens nada para dar, és indesejável, antipático, ninguém gosta de ti». Quanto mais sentes o chamamento de Deus tanto mais descobrirás na tua própria alma a batalha cósmica entre Deus e Satanás. Não tenhas medo. Continua a aprofundar a tua convicção de que o amor de Deus por ti é suficiente, de que estás em boas mãos e que alguém guia todos os teus passos. Não fiques surpreendido pelos ataques demoníacos, que irão aumentar, mas à medida que os fores enfrentando sem medo descobrirás que eles não têm poder algum. São impotentes. O que é importante é continuares agarrado ao amor real, perene e inequívoco de Jesus. Sempre que duvidares desse amor, regressa ao teu lar espiritual interior e escuta aí a voz do amor. Só quando estiveres bem seguro, lá no mais fundo de ti, de que és intimamente amado é que poderás enfrentar as vozes funestas do inimigo sem te deixares seduzir por elas. O amor de Jesus dar-te-á uma visão permanentemente transparente do teu chamamento, bem como das inúmeras tentações que te afastam desse chamamento. Quanto mais és chamado a falar do amor divino tanto mais necessitas de aprofundar o teu conhecimento desse amor no teu coração. Quanto mais longe te leva a tua caminhada exterior mais profunda deve ser a tua caminhada interior. Só quando as tuas raízes são profundas é que os teus frutos são abundantes. O inimigo está aí, à espera de te destruir, mas tu podes enfrentar o inimigo sem medo quando te sabes seguro no amor de Jesus. – Henri Nouwen, em A voz íntima do amor
40. Continua a viver onde Deus está
Viver uma vida disciplinada é viver de tal modo que queres estar apenas onde Deus está contigo. Quanto mais aprofundares a vivência da tua vida espiritual, tanto melhor discernirás a diferença entre viver com Deus e viver sem Deus, e mais fácil será saíres dos locais onde Deus deixa de estar contigo. Aqui o maior desafio reside na fidelidade, que deve ser vivida nas escolhas de cada momento. Quando a tua comida, bebida, trabalho, divertimento, conversa ou escrita deixam de ser para glória de Deus, deves parar imediatamente, por que já não estás a viver para a glória de Deus, começas a viver para tua própria glória. Assim, separas-te de Deus e prejudicas-te. A tua principal preocupação deve ser sempre se estás ou não a viver com Deus. Possuis conhecimento interno suficiente para responder a esta pergunta. Cada vez que fazes alguma coisa orientada pela tua necessidade de aceitação, de afirmação ou de afecto, e de cada vez que fazes alguma coisa que aumenta estas carências sabes que não estás com Deus. Elas nunca serão satisfeitas; apenas aumentam quando lhes cedes. Mas cada vez que fizeres alguma coisa para glória de Deus, conhecerás a paz de Deus no teu coração e lá encontrarás descanso. – Henri Nouwen, em A Voz Íntima do Amor
 


"Onde há vontade, há um Caminho"